sábado, 20 de dezembro de 2014

Jingle-Bell Rats



Às vezes fico a pensar no que terá acontecido ao sr. rato, meu antigo companheiro de exílio, mas espertalhão como ele é deve continuar lá pelo pátio onde eu morei até Maio sempre atento a qualquer naco de pão que os novos inquilinos deixam ao seu alcance. Menos sorte tiveram estes seus amigos ratinhos, capturados por um sádico com um conceito muito original de "humor negro". Fiquei na dúvida se devia ou não alertar para a violência das imagens, mas vá lá, são apenas ratos e não há aqui tripas de fora nem nada que se pareça. E afinal é Natal...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Quinze anos, já? E é tão criança, pobrezinha...



O presidente da República Popular da China chegou hoje a Macau, véspera do 15º aniversário da implantação da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM). Xi Jinping é o terceiro presidente do país mais populoso do mundo a assinalar a data em que Jiang Zhemin recebeu simbolicamente do então presidente da República Portuguesa a última colónia ultramarina do Império que foi um dos maiores da História, deixando um legado material, humano e cultura reconhecido mesmo ainda hoje. Há exactamente quinze anos, a esta hora, Jorge Sampaio e o então presidente chinês preparavam-se para a segunda fase da concretização do plano delineado pelo princípio de "um país, dois sistemas". Mas isto já toda a gente sabe, e estar a explicar isto tudo outra vez na eventualidade de alguém vir aqui ter e não ter ouvido falar de "um país, dois sistemas", etc.,etc., deve ser porque andava à procura de outra coisa - aposto que era pornografia, ou outra badalhoquice qualquer. Desculpem mas não é aqui, e se o motor de busca incluíu o blogue é porque eu sou um tipo do mais ordinário que há, e uso palavras que não existem na língua portuguesa desde que foram riscadas pela PIDE, e há por aí muita gente a brincar aos "pidezinhos" - é como brincar às casinhas, só que com PIDEs em miniatura, feitos de plástico.

Antes de continuar, e (infelizmente) sem sair deste contexto, gostaria de anunciar que mais uma vez fui, por assim dizer, "censurado". Não sei em que termos vou dizer isto sem dar a entender que estou "zangado", "triste" ou "cagando e andando", porque de tantas vezes que aconteceu já é normal, e se estou só agora a falar nisto é porque desta vez tenho provas - não vou mostrar, claro, porque senão vocês ficam "de birra" e fingem que me ignoram (um brinde ao "Sitemeter", esse grande espião!), e eu tenho uma coisa que se calhar vocês já ouviram falar, ou que se recordam vagamente antes de renunciaram a eles quando descobriram que "às vezes atrapalha": princípios. Podem dizer o que quiserem de mim e das pessoas que procuram desacreditar, ou fazer passar por maluquinhos, ou outro tipo de masturbação mental qualquer, que sempre é uma mudança da habitual prostituição intelectual que paga as contas e põe comida na mesa, e assim desenjoam. E não venham com merdas, a dizer que estou a "insultar", pois quem insulta é quem por falta de argumentos refuta opiniões de que discorda começando por referir detalhes da vida particular da pessoa que as emitiu. Que vergonha!

Agora que as cartas foram postas na mesa e já sabem o meu jogo, para a próxima vez não se esqueçam de ilucidar os que chegam a Macau e não conhecem ainda a escumalha com que vai ser obrigado a conviver, e expliquem-lhe bem quem é bom e quem é mau, e a quem evitar dar destaque, podendo ter assim um "futuro brilhante" numa carreira que devia ser pautada pela isenção e pelo rigor. Assim a "sangue frio" parece horrível, mas como qualquer outra forma de prostituição, no início custa bastante, mas chega a um ponto em que se pensa "perdido por um, perdido por cem", e o acto em si até passa a ter uma importância secundária. Aprendam com aquela "amiguinha" que decorou a cartilha tão bem que não se inibe de o mostrar, recitando o texto mesmo quando não é necessário nem pertinente. Eu não quero nada para mim, e só aceitei colaborar como aceito colaborar em tudo o que tem a ver com Macau, e com a vivência, o choque cultural, tudo aquilo que qualquer pessoa normal, alfabetizada, e que não tem ninguém a dizer-lhe o que deve pensar percebe quando chega ao blogue. E vai continuar assim, e desculpem lá não vos dizer "o que quero" com isto, porque não quero nada, e não vou agora a começar a inventar, pois quem inventa são vocês - vêem como afinal sou tão bonzinho? Portanto como não quero nada desse galho, fica cada um no seu e eu aqui em baixo com os olhos abertos e os pés assentes no chão.

E tem sido sobretudo essa a triste sina de Macau: tanta gente que serve, e ninguém para servir. O cuidado em cultivar uma opinião pública amorfa produziu os seus frutos, e mesmo aos mais atrevidos basta dar-lhe as migalhas que ele anda a pedir, e depois é só olhar para o relógio e contar quantos segundos passam até ele se calar, como quem acabou de administrar uma injecção letal. Mas atenção, que isto tem as suas regras, e não é assim dar "à balda", pois pode-se estar a criar um mau exemplo e depois anda tudo a pedir banheiras de ouro e sanitários de platina, ou pior: provoca-se a ira de alguém "lá de cima". Olha-se para a tabela do "toma lá e cala-te" e a outra do "nem por sonhos" e é só distribuir "fruta". Operários a reclamar porque vêm aqueles da China que trabalham sem fazer fita e por metade do preço? Tomem lá "subsídios", vulgo "dinheiro para se calarem e deixarem de atrapalhar, que os casinos e os prédios caros têm que ser feitos de um algum jeito". Outros a reclamar? Querem o quê, que se tiverem uma desculpa jeitosa a gente passa já um cheque. OK, dinheirinho para ir passear, piquenique da "Associação das virgens, solteironas e viúvas", ou da outra de "beneficência" da qual por acaso eu tenho uma participaçãozita, e porque se trata de caridade e sou muito generoso, vamos dar milhões, e quando esses acabarem, damos mais. E vocês, que a vossa cara não me é estranha? Ah já sei! São os gajos da democracia e do sufrágio e dessas coisas todas que não nos interessam pois ameaçam a nossa autocracia, auto-gestão e auto-tudo-o-que-eu-quiser. Rua! Nem quero saber, saiam daqui, e para todos os efeitos vocês não existem. E tu aí, ó quatro-olhos: podes fazer o chinfrim que muito bem te apetecer que mesmo com essa carinha de lingrinhas mongolóide manipulamos a opinião pública de que és um terrorista, psicopata, canibal, kamikaze, etc.

E por falar em "manipular a opinião", deve ter sido aqui que o nosso ex-PM, o "Socas", tirou aquela ideia maluca que alegadamente terá confidenciado ao outro gatuno quando falavam ao telefone. Aqui temos o paradigma da manipulação das massas: tipos menos dotados de inteligência que o "Socas" conseguem convencer pessoas tão ou mais inteligentes que os portugueses (pelo menos muitos deles) das coisas mais absurdas que se possam imaginar! Mas calma lá, ó prisioneiro nº 44, porque se agora V.Exa. é também conhecido por esse nome giríssimo, e que lhe assenta que nem um uniforme às riscas pretas e brancas, é porque em Portugal há um limite a partir do qual a pouca vergonha vale ao espertalhão a uma temporada ao fresco - até você, que pensa que é a dádiva do Deus dos chicos-espertos aos homens. Imagine lá você que aqui um tipo com um aspecto asqueroso, burro que nem uma porta e sem curso nenhum, nem daqueles como o seu, "passado na hora", conseguem meter as mãos em dez ou vinte, ou sei lá quantas vezes mais dinheiro que você, ó seu pindérico. E nem precisam de fazer aquelas figuras tristes, contar mentiras, encerrar jornais, acabar com programas de televisão, e o que para si é o mesmo que o arroz para os chineses, dizer disparates cada vez que abria a boca, até para comer ou bocejar. E como é costume você enganar-se, como se fizesse da burrice a sua marca registrada, eu explico-lhe a difença.

Aqui em Macau nem com um filme completo dos acontecimentos, com a confissão filmada, gravada e assinada do suspeito, um indivíduo com a influência do sr. "Socas" era preso. Chegasse ele à esquadra para se entregar, levando consigo a totalidade do produto dos "negócios legítimos", pendurando-se nos polícias e implorando ser algemado e atirado para uma masmorra, tentavam chamá-lo a razão e ofereciam-se para levá-lo a casa. Se insistisse em ser preso, caso contrário detonaria uma bomba que trazia consigo, chamavam a brigada de minas e armadilhas, evacuavam o quarteirão inteiro às três da manhã com toda a gente de cuecas empurrada ao pontapé e à bastonada, declaravam estado de sítio, e ai de quem piar até se retirar o engenho deste pobre homem, um exemplo de coragem, um herói. Se estou aqui a pintar um quadro ridículo da situação? Talvez, mas nada me diz que as coisas não se passariam desta forma, ou que algo semelhante já tenha acontecido, mas nunca seria do conhecimento do público em geral. E muito menos o tipo se entregava, que é aí que elas mordem; houve aí há tempos um famoso e galantino mosqueteiro que foi apanhado e não se pode bem dizer que foi um caso da justiça - foi antes um acidente da justiça, uma tragédia. Aqui "justiça" entra na certidão de óbito no campo reservado à "causa de morte".

Mas então anda tudo cego ou quê? Então ninguém repara no hipópótamo sentado é mesa do jantar a disparar uma rajada de bosta mole que espalha pela casa toda enquanto agita o rabo à velocidade de uma ventoinha? Não, não vi...qual bosta? E porque é que vocês estão todos pintados de castanho, e já agora quando foi a última vez que tomaram banho? E o que é um hipópótamo? O problema é que não dá para fazer nada, e só um doidivanas tresloucado ia denunciar alguém deste nível mesmo com as provas todas na sua mão e uma certa "agência de limpezas" constantemente a apelar que "Denuncie! Não tenha medo! Garantimos sigilo absoluto!" - o que aqui se traduz para "Vá lá herói, atreve-te. Então, mostra lá as tua "provinhas", ó seu Zorro da Ilha Verde". Aqui encolhe-se os ombros e passa, e isso tem uma explicação que quase nem são precisas palavras para entender. Além disso a população está entretida com "outros problemas" para resolver, que persistem, pioram, chegam ao ponto do inaceitável, mas que ninguém resolve. Ora essa, então ninguém resolve porquê? Porque ninguém tem a culpa, por isso ninguém precisa de resolver e ninguém é responsável. É um pouco frustrante fazer este esforço semelhante a uma sopa de letras que já alguém fez com o lápis e depois apagou, fingir que se está a pensar quando já se viu a marca da letra, mas dessa forma ninguém se magoa e o tempo passa. Mas que problemas são esses?

Quando penso que já vi quase tudo, eis que hoje juntei um dos poucos "cromos" que ainda falta à minha colecção. A TDM transmitiu logo a seguir ao Telejornal um programa dedicado aos 15 anos da RAEM, onde entrevistou um jovem estudante precisamente com essa idade, e perguntou-lhe o que acha do território que o viu nascer, quais as suas expectativas, o que é bom, o que está mal e devia ser alterado, o que pode ser feito nesse sentido, tudo isso. Pensei então "deve ser interessante, um ponto de vista que não está condicionado pelo inevitável "antes e depois", sem poder dizer o que mudou para melhor e para pior", e não estou a ser sarcástico, realmente gostava de ouvir da boca de quem nasceu já na RAEM e não viveu em mais lado nenhum o que pensa desta terra, que é a única que tem, a sua "mater". No meu caso ficava puto da vida se estivessem a maltratar a minha terra Natal, e é o que sinto pelo Montijo, que mesmo sendo apenas terra Natal adoptiva (Lisboa foi só fazer de "retrete") não admito que a maltratem ou insultem na minha presença. Mas este rapaz, nado e criado em Macau, pensa o quê, daquilo que foram os primeiros 15 anos da única realidade que conhece? Pensa o mesmo que os outros: nada. Vou adiantando que não quero insultar ou meter-me com o rapazinho que não conheço, nem o tinha algum posto a vista em cima, e perante a catástrofe que as suas palavras causaram na minha cabeça, nem apanhei o seu nome, sequer. Penso que ouvi a Ana Isabel Dias, autor a da peça, a mencionar o nome do garoto, mas a seguir veio a lava, e a seguir o tsunami que a apagou, e do magma ainda mole saíram zombies a disparar rajadas de Kalaschnikov em todas as direcções. Juro que me esqueci do nome do moço.

Agora vamos ver quais são os problemas com que um jovem de Macau se preocupa: habitação, que está caríssima. Andou ele a ver por aí apartamentos, e como é o nº 1 da turma dele em Aritmética, chegou a conclusão que mesmo tendo um emprego decente e bem remunerado e decida comprar agora uma casa, pagando prestações que lhe permitam viver uma vida normal em vez de andar a pão e água, fica com a hipoteca liquidada quando tiver 122 anos; caso opte pelo pão e água, dispendendo 90% do orçamento familiar na casa, esta fica paga lá pelos 95, 96 anos de idade, no máximo, e depois é só curtir! Mas antes de falar dos problemas, o jovem mencionou "as vantagens" de viver no território, onde "tudo fica perto", e "toda a gente se conhece" - só esta última parte é aquilo que se chama tecnicamente de "falsa percepção induzida por sugestão" (inventei isto mesmo agora; aprendi o "truque" em Macau: juntam-se umas palavras caras, e como é mais fácil acreditar nelas do que ir ao dicionário ver o seu significado, sou um "intelectual", careca e de óculos com lentes grossas), portanto, é tudo perto, abre-se a janela e é possível ver a restante população de Macau a acenar-nos com adeuzinhos enquanto sorri e diz "booom diaaa!!!". O pior é que nem podemos dizer de quem pensamos que conhecemos, que o conhecemos realmente. O jovem entrevistado talvez ainda não tenha aprendido na escola uma coisa que se chama "relação causa-efeito", que aplicando ao que ele disse temos uma coisa mais ou menos assim: viver em Macau é bom, porque é tudo perto, MAS o preço da habitação é incomportável para os residentes. E agora, que solução. Simples: vão viver para Zhuhai! A solução para resolver o problema da habitação em Macau é...ir viver fora de Macau. Dói quando respira? Não respire. E depois é assim, ó def, tipo, Zhuhai iá? Tás a ver a cena. É tipo...bué da longe, a sério (é útil saber comunicar com as novas gerações). Pelo menos para ti, que sempre viveste a dez minutos a pé de tudo o que precisas. E lá se vão as "coisas boas" no mar das decisões acertadas.

O outro problema que ele referiu - e só os problemas batem as "coisas boas" com goleada - é a qualidade de vida, pois "andam por aí os turistas do continente", que não só estão aí em todo o lado, e qualquer dia acordamos com um casal e o filho ao nosso lado na cama, como ainda "cospem no chão", e pior do que isso, "SUAM para chão". Antes de tirar conclusões precipitadas, pensei um pouco neste problema de "suar para o chão", e de como não sendo originário do continente, sou parte deste problema. Ou não, pois apesar de suar bastante no Verão, não sou aparelho de ar-condicionado para saber se estou a pingar, e estava a pensar levar comigo um jornal para meter no chão na eventualidade de começar a suar. Mas afinal pensando bem, acho que o jovem queria referir-se aos tipos que expelem o muco nasal, vulgo "ranhoca", para o chão recorrendo a uma técnica única, que consiste em colocar dois dedos na parte superior do nariz como que fazendo de "mola", possivelmente para dar mais velocidade ao projéctil, e depois levanta um pézinho enquanto "limpa a sala" para a via pública - é a higiene e o ballet ao mesmo tempo, com a beleza e o requinte de um filme pornográfico dedicado à bestialidade, com anãs e cavalos amando-se apaixonadamente enquanto "suam" para o chão. Tudo bem, se calhar queria dizer "assoam-se", e de facto é uma imagem difícil de descrever em palavras, mas tudo bem, porque "percebe-se na mesma", pois segundo a mentalidade retrógada que infelizmente é a única que muita gente tem para levar quando sai à rua, "não interessa se está escrito com erros, mas sim passar a ideia" - e a esses digo que a ideia que passa é que V.Exas. são idiotas e orgulham-se disso.

Já mais perto do fim deste discurso que se tivesse título seria "Em Macau tudo fica perto e as pessoas conhecem-se & problemas Lda." vem ao de cima a consciência cívica e ambiental do jovem. Primeiro ele "não gosta de casinos", e se ele mandasse "passava uma lei onde proíbia que se fizessem mais casinos". O quê? Tem quinze anos. Não, não é três, é 15, quin-ze. Seguiu-se então a indispensável nota ambiental, com o patrocínio dos Verdes e da PETA, representada pela sua filial em Macau, a GRANDE PETA: a poluição. Agora podia fazer uma composição bonita para servir de complemento à outra que acaba com "quando eu for grande vou mandar no mundo e vou proíbir mais casinos, mas primeiro vou matar os maus todos". Começava na mesma toada: "A poluição é uma coisa muito má. Quem faz a poluição são os maus". Isto de pedir a alguém informado que dê uma opinião sobre que problemas existem em Macau, arrisca-se a ser recebido com desconfiança, e na dúvida dispara com algo do tipo "poluição". Para ser original eu respondia "velhos, há velhos a mais" - só para chatear. Mas o que mais me intriga nisto tudo é onde está essa chaminé apontada à cara de cada habitante de Macau que leva a que "a poluição" seja um problema a ter em conta comparado com todo o resto. Quem usa muito este argumento da poluição são os fumadores, que dizem aceitar democraticamente as leis de proibição do tabagismo, mas reclamam quando se alarga a proibição a mais lugares - querem fumar onde lhes apetece e estão-se nas tintas para quem possam ou não incomodar. Posto isto dá-se o orgasmo da argumentação parva, quando lhe apetece tirar um cigarro e acendê-lo de modo a satisfazer a sua vontade, não contribuíndo com isso para a felicidade de mais ninguém, antes pelo contrário. Tendo sido POR LEI (fazem-se leis para estas coisas, não para "proíbir casinos") impedido de fumar nesse sítio, atira com o argumento da "poluição". Se estivesse a pensar com a cabeça, que está fora de serviço devido à ressaca da nicotina, ia perceber que a única "poluição" que ia existir ali era a do seu cigarro. Pode-se rebater isto com o direito inalianável que cada um tem à flatulência - ele não pode fumar, mas nada me impede passar a noite inteira a peidar-me. O que foi não gosta? Mas é o meu direito, não é proibido, e também não é poluição.

E não é só nesta tese da poluição-conspiração que encontramos estes raciocínios; recentemente Miguel Senna Fernandes voltou a falar da comunidade macaense, usado desta vez o termo "erosão" para falar da integração dos macaenses na sociedade chinesa - isto falando de Macau, naturalmente. É nestas alturas que me orgulho da minha memória quase cinematográfica, e lembro-me de uma vez escutar uma senhora que no meio de um grupo onde estavam outros convivas, todos eles macaenses (ou pelo menos falavam todos portugueses) queixar-se de como os macaenses "são a pior espécie de bicho deste mundo, e que acaba a sua própria raça". Estava entretido a fazer algo mais construtivo (trabalhar) mais fiquei de "ouvido gordo" naquela conversa, a tempo de ouvir a explicação para aquela afirmação tão bizarra, como uma espécie de auto-crítica, mas com "água no bico": "Querem que os macaenses continuem e depois vão pôr os filhos a aprender chinês, e não lhes ensinam o português!". Isto foi no Verão de 1997, e disto tenha a certeza, pois recordo-me dos temas de conversa partirem todos do "medo miudinho" do que se passava aqui ao lado em Hong Kong, que tinha sido entregue à RPC por essa altura. Voltei a ver esta colega numa festa de Natal em 2000, altura em que os seus dois filhos estavam já em idade escolar, e teriam 7 ou 8 anos, mais coisa menos coisa. Fiz-me de "esquecido" e perguntei-lhe em que escola estudavam as criancinhas, e ela disse-me de uma escola qualquer, certamente que não era a Escola Portuguesa. Posto isto perguntei-lhe se os filhos falavam português, pelo menos em casa, ao que me respondeu "para quê?!?!", e nesse momento, deixando-lhe ver o meu jogo, questionei a opção de ter optado pelo ensino em chinês para os seus dois filhos macaenses, tal como ela e o marido. Respondeu-me então: "Porque quero o melhor para os meus filhos, e o português não vai servir para nada".

Ora bem, "para nada" serviu foi aquele "alerta" idiota que fez dois anos e meio antes - mas ela é ela, e os outros são "bichos". Os macaenses são um caso especial, pois nota-se que apesar da evidente cumplicidade e das semelhanças, existe ao mesmo tempo um afastamento, e o mais grave, grande desconfiança. Isto explica-se facilmente pelo facto de cada família ter origem diversa, e em muitos casos com origem em lugares longínquos, outras culturas, e a "macanização" depende também de à quantas gerações estão em Macau. É também mais provável que no caso de casarem com um português de Portugal fiquem mais próximos da raíz portuguesa, enquanto um casal de dois macaenses "de gema", que comunicam em cantonense um com o outro porque estão mais habituados, prefiram que os filhos sigam a via da integração da Macau nova, da RAEM. Isto explicado assim faz algum sentido, mas por questões de convicções que depois no fim se vê que é só conversa fiada, descamba sempre para a parvoíce. Porque esta mentalidade do "acho e tenho razão mas façam vocês que eu já fiz a minha parte, que é pensar no melhor para todos" é comum a todas as comunidades, e pior, a cada indivíduo. Eu tenho o bom hábito de escutar todas as opiniões, e tenho a minha própria maneira de interpretar as coisas, mas o que penso da opinião dos outros, ou contrário do que se quer dar a entender, guardo para mim. O que eu faço e alguns chamam de "comentar os comentários" acontece apenas quando dentro desses comentários identifico afirmações que, e vou pôr isto em termos leigos, "fazem os outros de estúpidos". Quem olhar para os comentários aos quais faço comentários, vai ver que aqui há quem atire pedras ao vizinho tendo ele próprio telhados de vidro.

Costumo dizer na brincadeira que os egos são a razão porque a democracia plena nunca iria resultar - e falo apenas de Macau. Se fossem realizadas eleições em que não existissem candidatos, e cada podia escolher quem quisesse e tivesse capacidade eleitoral para votar e para ser eleito, julgo que ia haver um empate entre a totalidade da população...a um voto. Basicamente todos acham que conseguem fazer melhor que toda a gente, e esta trágica falácia é alimentada pelo silêncio de quem os ouve, que simplesmente não querem discutir, pois não estão para se chatear. O indivíduo que produz as escabrosas opiniões que nos levam a dar graças por não ser ele a mandar entende as coisas de outra maneira - mais uma prova de que é um boçal, enfim - e acha que se ninguém lhe chama a atenção para os disparates que acabou de dizer, é porque está coberto de razão: se não há mais nada a acrescentar, que se faça lei do que ele diz, e assim vai vivendo a vida de pateta alegre, que é como toda a gente o conhece, mas só diz pelas suas costas, pois de tão presunçoso e pedante que ele é, o mais provável é que comece ali aos berros, como quem acaba de identificar um traidor entre o seu exército, com que um dia vai conquistar o Universo a galope nas estrelas. E há deste modelo em várias cores, tamanhos e feitios, até os que não basta tentar convencer com a sua opinião, e precisam ainda de minar a credibilidade de quem defende uma posição contrária à sua. Acreditem se quiserem, e quase de certeza que já presenciaram este fenómeno, mas perdi a conta às vezes em que no processo de querer descredibilizar uma pessoa, começa-se por apontar um facto pouco abonatório do seu passado, ou mesmo actual: "Fulano? Sabias que ele esteve preso/foi alcoólico/foi toxicodependente", e no caso das duas últimas pode ser no tempo presente. A isto não se chama baixeza ou sequer um mais diplomático "falta de argumentos" - chama-se "desespero".

Ao não alertarmos uma pessoa para o facto da sua lógica pecar pelo encadeamento que nem uma criança de três anos daria, e que nem organizando os pensamentos de outra forma mais digerível se aproveita o que quer que seja, vai por aí fora, - e julgo que foi assim que começou o Terceiro Reich. Contudo é interessante observar a facilidade com que a opinião aparece quando ninguém a pediu, mas falta quando é convidada. Explico já o que quero dizer com isto: por vezes ligam-me para casa, a minha mulher atende e "despacha" a pessoa que está do outro lado, dizendo que nesse momento "está ocupada e não pode responder". Depois de saber que se tratava de uma daquelas entrevistas por telefone mais conhecidas por "consulta pública", e sabendo que a minha mulher não tinha qualquer interesse em participar (e de facto nunca a vi manifestar esse interesse), fui perguntar a mais meia dúzia de colegas, que me responderam de facto sim, recebiam eses mesmos telefonemas, sempre para a rede fixa, e apenas uma disse responder aos inquéritos, e mesmo assim "nem sempre". Principal razão para não responder? Qualquer coisa entre a "falta de tempo" e uma careta que se traduz facilmente para "é completamente inútil". E de facto se estamos todos em Macau - e ao contrário do que muita gente pensa, somos todos humanos e por isso mortais - também é possível que o Governo faça orelhas moucas às sugestões da população, mas aí está: enquanto não decidirem com o fim das consultas públicas, que incomodam alguma "intelligenzia" que acha que a maioria da população é burra e não tem o direito de dar opinião sobre nada porque para isso estão cá eles, é preciso apresentar trabalho, e assim vão pedir às associações que ajudem a preencher aquela papelada toda - e eles ajudam. Se não gostam de responder, nem gostam das associações que respondem mas deixam que estas vos substituam e decidam por vocês, querem o quê, afinal? Já sei, já sei, querem decidir tudo sozinhos, e muitos querem "democracia em Macau". Ui que linda democracia ia ser essa.

O que fica registado é que aquele jovem de 15 anos é a personificação da própria RAEM, e cada molécula do seu ADN representa cada um dos outros residentes. É normal, assim como tudo é normal quando pomos os óculos cor-de-rosa de Macau - para mim o rapaz anda a precisar de ler uns livros que lhe ensinem qualquer coisinha, para o "normal" eu não tive infância e sou uma besta, e o rapaz está no bom caminho, porque expõe os problemas que já todos estão carecas de saber que existem, e não fala dos que ninguém quer ver. É por isso que amanhã tudo o que vão ver e escutar sobre os 15 anos da RAEM vai partir de gente que "entende do assunto", e que "lida de perto com a realidade de Macau", pois come do grande rancho ombro a ombro com o poder, e é lógico que não vão dizer mal de nada, nem do que eventualmente consideram ser grave, pois isso é a opinião deles, e aqui "não vem para o caso", porque "não lhes dá jeito" nesta circunstância em particular. Mas já nem isso era como antes, pois se tiverem tempo e paciência para ver este documentário produzido pela Casa de Portugal de Macau por ocasião do 10º aniversário da RAEM, vão notar algumas diferenças, nomeadamente na forma menos apaixonada com que se faz o balanço do que tem sido o período pós-transição, passando-se do eufórico "é tudo uma maravilha" a um "faz-se um balanço positivo" mais ameno - estes últimos anos levaram a um "desencanto", por assim dizer. Aos 10 anos de RAEM já se notavam os mesmos problemas que passados outros cinco não só não só não foram resolvidos, como ainda se agravaram, e juntaram-se ainda outros que não existiam. Aqueles rasgados elogios por parte das personalidades que aparecem no vídeo são mais um voto de confiança do que propriamente uma avaliação sincera.

E mesmo assim não aprendemos esta lição e falhamos na hora do teste, e sempre nas mesmas perguntas, apesar de já termos feito a correcção vezes sem conta. Em vez de criticar abertamente o que é preciso criticar, chega-se com paninhos quentes, beijinhos, floreados, pede-se licença para constatar o mais que óbvio, para quê? Falem bem ou mal, a culpa dos problemas é sempre dos outros meninos: têm problema com os táxis falem com os taxistas; habitação está mal mas se estivesse bem para vocês só se queixavam se o Governo resolvesse o problema dos outros, porque vocês acham que isto é tudo vosso; não gostam das multidões fiquem em casa, ou em alternativa gastem vocês o dinheiro que os turistas vêm cá deixar, que ao contrário do que se diz por aí, não existe nenhuma tipografia que imprima dinheiro - não é tudo tão fácil? Passar a vida a queixar-se do que já teria sido solucionado se existisse alguma vontade não leva a parte nenhuma. Se existe alguma coisa que está mal para dez mil pessoas e mesmo assim persiste em continuar, é porque uma meia dúzia que vem lucrando com esse "problema" - quando não é só uma única pessoa. Finalmente, e agora falo em meu nome, tentem ter um pouco mais de tino, respeitem os outros e já que chegamos aqui, peço desculpa se alguém ficou indignado com a linguagem, ou ofendido com algum comentário, mas as carapuças têm todas uma cabeça onde assentam que nem uma luva. Ganhariamos muito mais se puxassemos para o mesmo lado, em vez de alimentar a ilusão de que por muito mal que isto esteja, eu tenho razão, eu já sabia, se fosse eu isto e aquilo. Epá há pessoas que chegam a dez dias de receber o salário e já não têm dinheiro na conta, e ainda têm o desplante de sugerir a melhor forma de gastar centenas de milhões de patacas. Confesso que quando optei por ficar em Macau tive receio que inicialmente se dessem aquilo que se pode chamar de "dores de crescimento", um período normal de adaptação, e depois de se esclarecerem os mal-entendidos, ia ficar tudo bem. Agora vejo que aquilo que eu temia está a acontecer, de forma mais lenta e dolorosa, e com a cumplicidade de quem devia evitar esta decadência. Quem se serve de Macau sem pensar em servir Macau, e quando já não der para manter mais a farsa, tem para onde ir e vai de barriga cheia. Tudo bem, cada um sabe de si, e nem sei porque vou terminar este longo artigo, como longas as discussões que deviamos ter e não temos, com um conselho a quem não merece: não temam tanto que vos aparece pela frente que se esqueçam de ter a certeza que a rectaguarda está segura.

E feliz aniversário para a RAEM, metaforicamente falando, e bons feriados para todos.



Ver a Taça por um canudo



O Benfica falhou a defesa do título da Taça de Portugal, conquistado na época passada, ao perder na Luz frente ao Braga por 1-2, na partida que encerrou os oitavos-de-final. Os encarnados ainda chegaram ao intervalo em vantagem graças a um golo de Jonas, aos 42 minutos, e tudo parecia bem encaminhado para que o Benfica se juntasse aos rivais do Sporting nos quartos-de-final. Mas os bracarenses estão em crescendo de fora, e parecem olhar todos os adversários olhos nos olhos, e no segundo tempo operaram a reviravolta no marcador, com golos de Aderllan Santos e Filipe Pardo. Jorge Jesus já só tem a Liga e a Taça da Liga para ganhar, enquanto Sérgio Conceição está a elevar os bracarenses a um patamar de excelência - a última derrota em jogos oficiais data já de 6 de Outubro, contra o FC Porto no Dragão, a contar para o campeonato.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Gente que enfia o dedo e roda



Oi "pipol"! Sempre na linha da frente da sátira que atira para a chalaça sem nenhuma graça, mordaz e sem mordaça, o Bairro do Oriente tem o prazer de inaugurar a rubrica GENTE QUE ENFIA O DEDO E RODA, que conta histórias de fotografias que os nossos leitores nos enviam (ou retiramos da conta de Facebook deles, tanto faz). Isto é que é diversão limpinha, limpinha! Divirtam-se!


A leitora Jamila mandou-nos esta fotografia que tirou no velório da sua tia Carlota, que morreu de sífilis! Jamila contou que foi um momento muito divertido, e dos raros em que se juntou com toda a família. Depois deste momento tão especial, foi comer gelado com a prima Leila, que lhe contou que foi fazer um aborto porque o seu namorado Jójó foi preso no mês passado e apanhou a outra "lambisgóia" na hora da visita!


O leitor Carlos Pinto quis partilhar connosco este momento tão especial quando levou o filho Tininho  à granja de Coloane. Segundo contou ao GENTE QUE ENFIA O DEDO E RODA, a esposa Dora disse ao pequeno para não brincar com o porquinho, mas o Tininho respondeu "o papá também te diz anda cá levar com a língua, ó porca!". Foi um dia animado em família, e a mãe do Tininho voltou corada para casa, apesar do frio!


A leitora Diana McGuire estava a fumar um pequeno cachimbo de água,  e sempre curiosos, perguntámos que que brinquedo tão curioso era este. Diana respondeu que estava a "fumar anfetaminas", que o amigo Zé lhe deu "em troca de um bico". O GENTE QUE ENFIA O DEDO E RODA fica feliz quando os leitores tomam as suas vitaminas, e anfetaminas também!


A leitora Laura Camacho festejou o seu 24º aniversário em casa na companhia dos amigos, e como não se faz anos todos os dias, encheu as medidas e deitou por fora. Laura diz que "comeu um arroz de marisco, quatro Coronas e para a sobremesa fumou um 'pintor'", que lhe fez ver tudo a andar à roda. As melhoras, e Feliz Aniversário!

Sporting vai à Taça em Vizela



O Sporting qualificou-se ontem para os quartos-de-final da Taça de Portugal ao vencer em Vizela a equipa local por 3-2, um triunfo arrancado a ferros graças a uma  boa réplica da equipa minhota. André Martins de grande penalidade, Paulo Oliveira e Carlos Mané marcaram para os leões, enquanto Talocha bisou para os vizelenses. O "tomba-gigantes" desta ronda foi o Famalicão, que foi à Mata Real vencer o P. Ferreira por 2-1, enquanto no Funchal o Marítimo viu-se e desejou-se para eliminar o Oriental, vencendo nas grandes penalidades por 9-8, depois de 1-1 após 120 minutos. Também a jogar na Madeira, o Nacional venceu o Santa Maria por 2-1, mesmo resultado no único encontro desta quarta-feira entre equipas da Liga ZON Sagres, com vantagem do Gil Vicente sobre o Penafiel. Mais tranquilas foram as vitórias do Belenenses e do Rio Ave, que venceram em casa por 2-0 o Freamunde e o Desp. Chaves, respectivamente. Os oitavos-de-final da Taça concluem-se hoje na Luz, com a realização do Benfica-Sp. Braga.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O caminho da verdade (e os outros)



Disse aqui no outro dia que "o meu único compromisso é com a verdade", e isto é apenas parcialmente...verdade. Há quem tirar outra interpretação deste texto, mas garanto que se trata apenas de um daqueles exercícios de expressão igual a muitos que vão encontrar se consultarem o arquivo deste espaço, que no seu oitavo ano de existência conta com 11280 entradas, incluíndo esta. O que fui procurando fazer durante todo este tempo em que tanto o blogue como o seu autor passaram por inúmeras metamorfoses foi basicamente manter um "diário" - qualquer coisa onde registe o que se vai passando em Macau, em tempos a nossa "pérola do Oriente" e hoje RAEM, um território inserido num contexto geopolítico de indecisão, entre o regime totalitário que vigora naquele que é "apenas" o país mais populoso da Terra e as pressões inerentes a essa condição, complicado que se torna gerir o totalitarismo na sua totalidade. Nesta empreitada que tem sido o Bairro do Oriente, evitei a tendência para o poster ilustrado, para o cartão postal, de tantos que Macau já tem. Infelizmente para nós que aqui vivemos, vai sendo possível ao visitante que chega a Macau perceber que já não estamos mais naquele cantinho do sul da China, o jardim na praia, a posse colonial fortificada, tudo isso que esta terra chegou um dia a ser, e que por isso se quedava tão encantadora e pura. O que mudou nestes 15 anos que passaram foi sendo documentado na forma de fotografia, crónica, reportagem, de qualquer jeito, ou através de imagens ou documentários, foi assim que se foi fazendo História. Quando se fala da História, daquilo que fica para que todos os que vêm depois de nós olhar e sentir, a verdade torna-se o único caminho. Ou depende? E que outro caminho ou caminhos existem?

É claro que eu minto, assim como toda a gente mente. Destes "vícios" de que não nos orgulhamos há que tomar a dose certa, exercer uma certa moderação. Os caminhos da verdade e da mentira são meramente transitórios, separados apenas por uma faixa e uma cerca baixinha, e com alguma sorte muda-se de faixa sem que ninguém dê por nada. Podemos optar sempre pelo caminho da verdade - e recordo que falo da verdade do dia-a-dia, a "verdade comum" - mas há sempre uma encruzilhada onde se pode optar pela mentira. E mentir não custa tanto assim, dependendo do tamanho e dos efeitos que a mentira pode vir a tomar. Já todos mentimos para nos protegermos, para proteger alguém, por despeito, voluntariamente ou obrigados, e no fim até nos divertimos, ou não, se ficamos zangados porque nos fizeram mentir sem querer, ou nos arrependemos - e às vezes também pode ser que fiquemos arrependidos de dizer a verdade. Dê por onde der, temos a cobertura do nosso livre arbítrio para equilibrar esse tempero agridoce que é a verdade e a mentira, e uns conseguem fazer isto melhor que outros. Do caminho que escolhermos depende o nosso destino, e a não ser que um deles nos faça pagar um preço demasiado caro, mas diz-se que "enquanto há vida, há esperança", e não é por acaso, pois o único destino que não nos deixa mudar de direcção é o último. Mas então é assim tão simples? Verdade e mentira, mais respectivas consequências. Eu diria que não, mas é pena; antes fosse tudo tão definitivo que bastasse sim ou não. Por vezes opta-se pela alternativa, que inicialmente parece ser apenas uma "terceira opção", mas cujos desvios nos levam por caminhos ínvios, e em direcção a parte alguma.

Convém dispensar deste julgamento que é apenas pessoal, e por isso nunca poderia ser mentira - apenas uma opinião, e pode ser mesmo por aí que podemos começar. Quem exprime uma opinião deixa sair o que lhe vai na alma, quer se concorde ou não com ela, mas por vezes a opinião pode incluir um raciocínio ou uma afirmação baseados em factos que podem ou não ser verídicos ou reais. É uma arte delicada, e não raras vezes assistimos a discussões de um tom mais elevado que uma notícia das mais polémicas, portanto é preciso ponderação de quem emite a opinião, e um mínimo de reflexão da parte do receptor, para que a "digira". Dspensado também deste tribunal está quem mente insconscientemente, por estar mal informado, ser vítima da mentira prévia de outrém ou pura e simplesmente ignorante da verdade ou dos factos no seu todo; aqui pode-se dizer no entanto que todo o cuidado é pouco, e o silêncio é de ouro: há vezes em que o melhor mesmo é não dizer nada do que falar sem ter a certeza da veracidade do que se diz. Finalmente temos a justiça e a política, onde é imposta a existência de uma "verdade", dê por onde der, uma verdade qualquer. No caso da justiça pode dar o caso sas partes em litígio defenderem cada uma aquilo que dizem ser a verdade, ou que querem que tomemos como tal. Neste caso, e devido à inenvitabilidade da verdade, bem como a sua urgência, é preciso escolher a única das hipóteses que melhor se consiga sustentar com recurso ao elemento da prova. Por muito injusto que isto possa parecer, acredita-se mais numa mentira vendo apenas uma parte do que numa verdade absoluta que não seja possível visionar de todo.

Finalmente a política, e a estrutura onde assenta, a retórica, que de tão relativa e volátil que é na sua verdade (ou na falta dela) merece um parágrafo inteiro. Em política pouco importa a quem se apresenta pela primeira vez a um eleitorado que tenha de obra feita, trabalho realizado, provas dadas de competência e honestidade: é aquilo que promete que as pessoas escutam, e a forma como consegue convencê-las de que vai corresponder às expectativas que ele próprio criou; partidos à parte, pode-se dizer que o político "pede a verdade emprestada", e depois pode ou não devolvê-la (normalmente não devolve, ou devolve em muito mau estado. Imaginem o que seria um político 100% sincero:

"Meus caros eleitores, peço que votem em mim porque desejo ser eleito, para que assim possa pelo menos tentar começar a endireitar o país, uma vez que tanto finanças públicas, educação, saúde, segurança e todo o resto cuja funcionalidade depende de uma gestão competente que não existiu, se encontra de pernas para o ar. Para este estado lastimável de coisas contribuíu não só o poder político, ora do meu partido ora dos outros que são apenas outras moscas na mesma bosta, mas também vocês, eleitores que só não desprezo e mando a tal sítio porque preciso do vosso voto. É escumalha como vocês que em vez de estar unida e fazer força na mesma direcção prefere antes paleio, greves, e outros pretextos para ficar a coçar o saco escrotal em vez de arregaçar as mangas e fazer o país andar para a frente. Caso consiga ludibriar a máquina burocrática que perpetua este estado de coisas em nome do clientelismo, e faça alguma coisa por esta treta acima, tudo bem, mas não pensem que me vou pôr em bicos de pés. A única coisa que posso garantir é que tratarei da vidinha - da minha e dos tipos que me fizeram chegar aqui, e não foi por acaso - assim como o outro tipo fará se for eleito, diga o que vos disser, com mais ou menos beijocada e gel da KY. Se acham que a abstenção resolve seja o que for, só estarão a deixar aqueles que ainda acreditam nos contos da carochinha decidir por vocês, que vão sendo cada vez menos, mas tontinhos ao ponto que eles próprios acreditam que se podem juntar à festa. Vão-se lixar e se quiserem votem em mim, ou então no outro, é a mesma coisa f...m-se na mesma".

E que tal, sincero ou não? Aposto que votariam antes em quem prometesse um modelo desportivo da BMW a cada português, se fosse eleito. Como podem ver, a verdade é algo que não se encaixa na política, portanto quem decidir dedicar-se a esta carreira de "actor", mas que requer algo mais que representar, precisa de ter estômago. O mesmo se aplica à religião, mas de outra forma menos directa, e menos suja, também. Pode ser que haja quem se aproveite da religiosidade dos outros para obter benefícios - e mais do que isso, olhem para o terrorismo islâmico - mas aqui tudo depende de algo mais abstracto: a fé. Podemos provar para lá de qualquer dúvida que um político mentiu, basta recorrer aos registos sonoros e videográficos, mas não há maneira de garantir se uma religião diz ou não a verdade. Nenhuma delas, nem as mais "malucas". Depende daquilo que cada um acredita, e a regra de ouro é "respeitar a fé".

Quer a verdade redemptora, quer a traiçoeira mas nem por isso irremediável mentira têm o condão de ser o que são: uma coisa ou outra. Num "mar do desassossego" que se imaginou entre ambas naufraga a arca da hipocrisia, que leva um par de cada espécie de eufemismos, todos com a sua máscara a cobrir a carantonha feia da cobardia, da falta de carácter, da ausência de moral e de princípios. O que e uma "inverdade" senão uma mentira envergonhada? O que quer dizer aquele "depende" na hora de distinguir a verdade da mentira? Depende do quê, de quem se quer enganar? Há quem não goste de ouvir as verdades? Deve ser má rês, a evitar como o vírus da gripe. Se eu não gosto de mentir em proveito próprio ou como mecanismo de defesa, muito menos vou fazê-lo para agradar a um qualquer galifão só porque este faz da sacanice o seu estilo de vida e se as pessoas lhe dissessem na cara o que realmente pensam, ia a correr esconder-se debaixo da cama a chorar. Do que adianta ser hipócrita e falso com alguém para não o aborrecer? Para que continue a viver uma mentira e ao mesmo tempo arrastar-nos para o lamaçal da intriga que ele próprio criou? Vejam como dizer uma mentira e viver uma mentira são coisas completamente distintas; a primeira "é normal", a outra "uma tragédia". Qual é o canalha que consegue viver sabendo que o respeitam apenas por interesse, ou que só impondo o medo é que alguém lhe dá pelo menos os bons dias? Será a bajulação o oxigénio desta gentinha? "Há pessoas que não sabem lidar com a verdade" - isto quer dizer o quê, exactamente, para além do atestado de inaptidão mental que se está a passar a pessoas que ainda assim não conseguem identificar de que retrete chega essa sugestão? E deixem-me acrescentar que como auto-crítica é do mais fino recorte, mesmo não sendo essa a intenção inicial. Há pessoas que de tanto conviver com "yes men" ou de tanto curvar a espinha, esquecem-se que nem todo o mundo é a aldeia dos macacos de onde se ausentaram por momentos para comprar mais bananas.

Acho especialmente engraçados os tipos que se dizem "da paz" mas "não gostam que lhes pisem a cauda". Isto para quem não é um bipede com cauda (e possivelmente um par de cornos, já agora) quer dizer que não gosta que o aborreçam, ou que o incomodem - mas alguém gosta? Ao deixar isto bem claro, o que esta aventesma queria mesmo dizer é que quando lhe fazem festinhas e lhe dão a papinha à boca é mais mansinho que um bezerro de mama, mas só por fora. Por dentro é um desconfiado que suspeita de tudo e de todos e tem razões para tal, pois além de cretino e imbecil, sem escrúpulos, mesquinho, vaidoso, adúltero e corrupto, a pior espécie de patife à face da terra, perdeu a conta aos esqueletos que tem guardados no armário. Temendo que lhe venham pedir contas, escuta atrás das portas, dorme com um olho aberto e outro fechado, e anda armado, mas é tão sovina que o revólver que traz no bolso do casaco não tem balas. No entanto tudo não passa de fachada, pois se alguém o segura pelos colarinhos encardidos do ranço que emana dos poros da pele em catadupa, chora e borra-se pelas calças abaixo, implorando que não lhe façam mal, enquanto promete que paga o que for preciso e ainda inclui a filha virgem de nove anos na proposta. Convém evitar sujar as mãos de peçonha com este tipo de verme, que ainda por cima mal põe as patas no chão vai logo chamar a polícia. Este é o tipo de pulha que cremado e transformado em sabão causaria uma sarna de fazer subir pelas paredes.

Além dos que fomentam a burrice alheia de modo a manter o "status quo" e assim evitar o fim da grande mama, outros há que promovem uma peculiar forma de narcisismo, dando um novo sentido à expressão "temperamento artístico", que aqui passa a "autistico" - no sentido de "fechado no seu próprio mundo", entenda-se, uma vez que temos exemplos de autistas que foram e são geniais. Recorro a esta definição uma vez que outro jeito não se consegue explicar como é que alguem chama a ferro velho e telas de lona mal empregadas que parece terem levado com o gasacho em cima de "arte". Não me levem a mal, até considero que se faz mais ou menos boa arte por aqui, mesmo tendo em conta que o estilo mais apreciado é o "cagandiandandaísmo" (não tem qualquer relação com o "dadaísmo", esta veia artística hipertensa verifica-se sobretudo numa certa produção local, que assume que desde a saída de Camoes da "toca" são eles os guardiões supremos do olho que mais ninguém tem em terra de cegos e amblíopes - falando do ponto de vista artístico, é lógico. Em vez de terem ido estudar qualquer coisa que lhes fizesse dar uso ao corpinho ou adquirissem elasticidade cerebral que lhes permitisse ser os "talentos" que a RAEM tanto precisa. Foram para as Belas Artes para depois fazerem aquela bela merda, e quando inauguram uma exposição e a peça mais requisitada é a placa que indicava a saída começam a fazer birrinha e a queixarem-se que "não têm apoios, não se apoiam as artes". Parece que aqui estão a trocar a relação causa-nexo: não se apoia a VOSSA arte, porque é uma cagada.

E não é apenas nas artes plásticas que há artistas e artolas; a produção musical, por exemplo, inaugurou um mundo que nunca pensei existir. Ainda durante os anos da Administração Portuguesa, ocasionalmente saía um CD de um "artista local", alguém que não sendo propriamente um profissional, aproveitava as facilidades que Macau disponibilizava para ter um registo discográfico. Lembro-me de um caso particular, de uma senhora que lançou um disco de fado que praticamente "toda a gente" comprou, mas ninguém ouviu! É difícil entender este "espírito crítico", ou a ausência dele. Como é que esperam que alguém tenha uma referência da qualidade daquilo que fazem, do que fizeram bem e mal, se tudo "é bom", mas ninguém ouviu? Dá a entender que estão a tratar com um deficiente, que recebe uma ovação de pé por conseguir atar os sapatos. Como é que nos vamos apresentar fora de Macau, perante o mundo das pessoas normais, se há quem se orgulhe de não saber escrever um texto mas tem alguém que o faça por ele? Qual é a barreira invisível que chega a levar até portugueses, pessoas que têm a plena consciência de que em Portugal na grande maioria estas "rasteiras" iam custar a marcação de um "penalty", a juntarem-se à festa da fraude, da desonestidade intelectual, e das verdades múltiplas quando a verdade devia ser apenas uma?

Meus amigos, é por aceitarmos este estado de coisas que o mundo está como está. Cada vez que bajulamos um chefe sacana, há uma criança que morre de fome; cada vez que viramos a cara a uma injustiça há milhares de trabalhadores que vão para o desemprego, e eventualmente para a miséria; cada vez que fingimos que não vemos um cabotino a pensar que engana meio mundo, negamos o acesso à escolaridade a milhares de crianças em países subdesenvolvidos; cada vez que encolhemos os ombros, estamos a fazer o jogo da canalha, que nos "aconselha" a calar, "para nosso bem" e "dos nossos". Alguém ainda se lembra do tempo em que fazer esta simples insinuação habilitava o seu autor a uns quantos dentes partidos antes que acabasse de proferir a ameaça? Hoje temos o mundo ao acesso de um clique num aparelho que cabe dentro de um bolso, e temos mais medo de dizer o que pensamos? E ainda acreditamos que este caminho da ilusão e do faz-de-conta que não viste é aquele que devemos ensinar aos nossos filhos? Não admira que a III Guerra Mundial comece agora a ser considerada outra vez uma possibilidade, pois aparentemente desde a queda dos muros que regredimos, em vez de abrir mais portas que antes de encontravam fechadas.

Não me considero diferente dos outros, mas sinto que há quem se contente com menos do que tinha, porque pensa que de outra forma ganha mais com isso - que "outra forma" é esta, que não é a da verdade ou mentira, sem todos esses "mas", "depende", "isso agora", "logo se vê", "tu é que sabes" e todas essas frases feitas da cartilha dos cobardes, que um dia acordaram e pensaram em juntar-se aos burros, só porque a palha está bem cotada na bolsa? Olho para o que faço no blogue, e sei que as minhas "birras" não caem em saco roto, pois há o contador no "Site meter" que me garante que apesar de assobiarem para o lado, não fecharam os olhos, como vos foi recomendado. Nunca foi minha intenção embirrar com ninguém, e é mentira quando dizem que pego em tudo e mais alguma coisa para "falar mal". Há coisas com que não vale a pena perder tempo, e vocês sabem tão bem quanto eu que a verdade como princípio do que é o essencial, ou o silêncio como resposta às provocações vindas do fundo do poç do mal são a única via do caminho do bem. Não vos vou dizer o que devem fazer, mas pelo menos uma vez só façam uma auto-análise, olhem para dentro de vocês e perguntem: é isto que eu quero?


A gaveta do socialismo e o socialista engavetado



Foram reveladas mais escutas envolvendo José Socrates, e onde se ouve o ex-Primeiro-Ministro português a sugerir que "não têm coragem de o prender", e que estivesse a ser investigado, "manipularia a opinião pública contra a justiça". Como foi possível verificar, Socrates estava enganado (outra vez) quanto à primeira, e sonha acordado com a segunda - ele pensa que é algum Camarada Arnaldo Matos, grande educador da classe operária, para o povo o ir buscar à cadeia e levá-lo em ombros, ou quê? As escutas foram feitas no âmbito das investigações da "Operação Marquês", e terão começado a ser recolhidas em finais de 2013. Nas gravações é possível escutar Socrates a dizer ao empresário Carlos Santos Silva (detido um dia antes de Socrates) que "não acreditava estar a ser investigado", e que tudo não passava de "canalhice" e "tentativa de difamá-lo", e que na possibilidade de isto ser verdade, "nunca seria preso", e se necessário "mobilizava a opinião pública contra a Justiça", numa crítica ao Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP). A verdade é que aquele que é agora conhecido por "prisioneiro 44" do E.P. Évora e já foi visitado quer pelo Rei (Mário Soares), que pelo Papa (Pinto da Costa) levou longe demais a sua megalomania, pensando que estava num país socialista qualquer. Espera lá, e por falar em "socialista"...



Reparem neste curioso comentário publicado na página do "Observador", um dos media onde li (por alto) os detalhes desta notícia. O leitor Paulo Valente, possuído pelo ressabiamento, troca as voltas ao passo e quer se faça uma distinção entre o socialismo como ideologia e Socrates como membro filiado no Partido Socialista português. Uh?!?! Interessante, isto deve ser aquilo que os ingleses designam de "fair weather fan", ou seja, só apoia o seu clube na hora das vitórias. Portanto o Socrates é filiado no PS, foi secretário-geral, concorreu às eleições legislativas por esse partido, foi eleito, formou um governo composto por outros filiados no PS, e não é "socialista" porque prefere a classe da alta sociedade do que caminhar para a sociedade sem classes? É verdade que os valores do PS andam muito longe daquilo que entendemos por "socialismo", e diz-se que o seu líder histórico Mário Soares "guardou-o na gaveta" - acho melhor perguntar qual gaveta, enquanto ainda há tempo, e ele não sei vai reunir com o "monami Miterrand". O que eu tenho por garantido é que Socrates foi eleito pelo partido que foi fundado com base na ideologia socialista, e mesmo com a falência das ideologias, o agora detido ex-PM foi eleito com os votos de socialistas "a sério" e pessoas que sempre votaram no PS, independentemente de estar lá o Socrates ou o macaquinho do chinês. Não gostou? Mude de partido. Ou em alternativa peça a este que "abram a gaveta", e assim pode ser que este "engavetado" espertalhão tenha menos a ver com o "socialismo".

A Cruz foi "merengue"



"Azul" não foi bem a cor predominante ontem no Estádio de Marrakesh, em Marrocos, onde se disputou a primeira meia-final do Campeonato Mundial de Clubes da FIFA. Frente a frente estavam os mexicanos do Cruz Azul, campeão da zona CONCACAF, a confederação dos países da América do Norte, Central e Caraíbas, e o Real Madrid, que dispensa quaisquer apresentações. Os campeões europeus e líderes da Liga espanhola provaram que as diferenças de latitude no futebol ainda fazem toda a diferença, e venceram por quatro golos sem resposta, praticamente em ritmo de treino e com os golos a serem hermeticamente repartidos pelas duas metades do encontro. Sergio Ramos e Karim Benzema marcaram na primeira parte, enquanto Gareth Bale e Isco fizeram os restantes, assistidos por Cristiano Ronaldo em ambas as ocasiões. O português "papa-recordes" ficou em branco desta vez, possivelmente guardando-se para a final de Domingo, onde os madrilenos defrontam o vencedor da partida entre os argentinos do San Lorenzo e os neo-zelandeses do Auckland City.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Premier League - 16ª jornada



Mais uma jornada do campeonato inglês, a 16ª, à medida que nos encaminhamos para o Natal e Ano Novo, período em que o futebol na velha Albion não vai de férias, disputando-se no dia 26, o "Boxing Day", outra vez entre o dia 28 e 29, e finalmente no dia de Ano Novo, antes da primeira ronda da FA Cup envolvendo equipas da Premier League. A jornada repartiu-se entre Sábado e ontem, segunda-feira, e os dois primeiros entraram em campo logo na abertura, com o Chelsea a receber em Stamford Bridge o Hull City, vencendo por dois golos sem resposta, numa partida sem grande história. Eden Hazard aos sete minutos e Diego Costa aos 68 concretizaram o domínio dos londrinos, contra uma equipa que vai no nono encontro sem ganhar, e ocupa o penúltimo lugar da classificação.



O Manchester City não quis deixar fugir a equipa de José Mourinho e venceu no reduto do lanterna-vermelha, o Leicester City, por uma bola a zero. Frank Lampard marcou o único golo do encontro aos 40 minutos, mantendo os campeões a três pontos do líder. Uma vitória mais complicada do que se esperava, tendo em conta que o City conseguiu a meio da semana uma passagem inédita à fase a eliminar da Champions League, e o Leicester é último classificado, e com um percurso curioso; a equipa de Nigel Pearson venceu pela última vez na quinta jornada, e logo por 5-3 contra o Manchester United, e nas duas rondas anteriores tinham vencido fora o Hull City e empatado em casa com o Arsenal. Desde esse longíquo dia 21 de Setembro que os "foxes" conseguiram apenas 2 pontos em 11 jogos, resultantes de dois empates e 9 derrotas. Deve ser bruxedo, a razão do enguiço desta equipa, que venceu no ano passado o Championship, a segunda divisão da pirâmide do futebol inglês.



Nas restantes partidas de Sábado o Southampton confirmou o ciclo negativo, após a quarta derrota consecutiva, desta feita no reduto do aflito Burnley. A equipa do holandês Ronald Koeman era vice-líder à 11ª jornada, a "morder os calcanhares" ao Chelsea, mas agora encontram-se no 5º lugar, mais condigno com o seu estatuto. O Sunderland afirmou-se como "campeão dos empates", somando o décimo em 16 jogos, após empate a uma bola em casa frente ao West Ham, quarto classificado. O mesmo resultado verificou-se entre Crystal Palace e Stoke City, com a equipa da casa mais aflita, permanecendo a quatro pontos do seu adversário, enquanto o West Bromwich quebrou uma série de cinco jogos sem ganhar, ao bater em casa o Aston Villa pela margem mínima. Para a "ceia" de Sábado ficou reservado o embate entre o Arsenal e o Newcastle, e quando tudo apontava para um maior equilíbrio, os londrinos golearam os "magpies" por expressivos 4-1, com o espanhol Santiago Cazorla a festejar da melhor forma o seu 30º aniversário, apontando dois golos, o segundo de "penalty" que o médioopo executou ao estilo do antigo internacional checo Panenka, e que levou o seu nome. O francês Olivier Giroud também marcou por duas vezes, enquanto outro espanhol, Ayozé Perez, marcou o golo de honra dos visitantes.



No Domingo o jogo grande foi entre o Manchester United e o Liverpool, as duas equipas com mais títulos de campeão na principal divisão do futebol, e a passarem por momentos de indefinição; o Manchester United vem de um 7º lugar pouco condizente com o seu historial, no ano da saída do mítico treinador Alex Ferguson - um verdadeiro choque depois de duas décadas e meia de glória. David Moyes, que tal como Ferguson era escocês, revelou-se uma pobre escolha como substituto, e agora sob o comando do holandês Louis Van Gaal e depois de um começo menos bem conseguido, os "red devils" somaram a sua sexta vitória consecutiva na liga, e mantêm-se no 3º lugar a oito pontos do líder Chelsea. O Liverpool foi vice-campeão na temporada passada, terminando a dois pontos do Manchester City, no ano em que mais perto ficaram de ganhar o título que lhes vem fugindo desde 1990. Só que a dupla atacante composta pelo uruguaio Luís Suarez e o inglês Dean Sturridge, responsável por 52 golos no campeonato só entre eles desfez-se, com o primeiro a ir para o Barcelona e o segundo encontrando-se lesionado desde Setembro. O treinador Brendan Rodgers transitou desde a época passada não faz omeletes sem ovos, e este ano os "reds" ocupam um modesto 11º lugar com 21 pontos. Em Old Trafford as duas equipas em reconstrução defrontaram-se, confirmando o renascimento do ManU, que venceu por 3-0 um Liverpool definitivamente em crise; Wayne Rooney, Juan Mata e Robbie Van Persie fizeram os golos. No outro jogo de Domingo o Tottenham foi ao País de Gales vencer por 2-1 o Swansea City, ascendendo assim ao 7º lugar, e ontem na conclusão de mais esta ronda o Everton recebeu em Goodison Park o Queen's Park Rangers e venceu por 3-1, entrando sim no top-10 da classificação, enquanto o seu adversário ficou novamente abaixo da linha de água.

Classificação (dez primeiros):

1 Chelsea 16 39
2 Manchester City 16 36
3 Manchester United 16 31
4 West Ham 16 28
5 Southampton 16 26
6 Arsenal 16 26
7 Tottenham 16 24
8 Newcastle 16 23
9 Swansea City 16 22
10 Everton 16 21

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O seu a seu dono



A História é para ser CONTADA, TRANSMITIDA, ACREDITADA, e não para ser INVENTADA, FALSEADA, ADULTERADA. Isto serve para os momentos que marcaram a caminhada de milhões de anos que a humanidade já leva, decidiram o seu destino e ficaram registrados para que hoje aqueles que ainda não deixaram a sua marca possam entender como aqui chegaram - e serve também para os mais pequenos detalhes, por mais pífios que possam parecer. O Bairro do Oriente é um espaço de opinião, e é a opinião do seu autor e único responsável que compõe grande parte do conteúdo do blogue. Quem quiser discordar, concordar, deixar a sua opinião ou acrescentar algo mais é sempre bem recebido, como sempre foi e sempre será, desde que se mantenha o mínimo de bom senso - o mínimo, nem precisa de ser muito. Os textos e as passagens retiradas de outros media, bem como as citações e frases de outros autores estão devidamente assinalados, e nem valia a pena andar nisto há tantos anos e manter um (respeitável) arquivo se fosse para papaguear o trabalho alheio - até uma criança sabe fazer copy/paste.

Deixei sempre claro que TUDO o que publico no blogue pertence ao mundo todo, e deixou de ser meu no segundo em que acabo de publicar. Ninguém precisa de pedir autorização para usar o que bem entender, quer seja texto, fotografias ou vídeos. Por falar em vídeos, os da minha autoria realizados nos últimos três meses e não só constam de uma página sobre destinos turísticos, na secção dedicada a Macau, e agradeço a quem teve o trabalho. Sempre que tenho tempo procuro outros sítios onde sejam publicados artigos retirados do blogue, e ainda um dia destes encontrei mais dois, aqui e aqui, e vou adiantando que podem usar e abusar de conteúdo publicado, mas tudo o que peço é um pequeno favor: se encontrarem imprecisões, nomes, factos ou outro qualquer elemento incorrecto, impreciso ou que de alguma forma não corresponda à verdade, agradeço que me notifiquem com os dados correctos. É tudo o que eu peço de vocês, e agradeço a vossa visita. Obrigado.

Porto e Sporting foram às sortes



Realizaram-se hoje os sorteios dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões e da segunda fase da Liga Europa, onde estão respectivamente o FC Porto e Sporting em representação do futebol português, que este ano tem tido uma participação, e isto para ser simpático, "cálida" - pelo menos em comparação com os últimos cinco anos. Mas ainda é possível melhorar, e para isso basta continuar em prova até à fase mais adiantada possível, e aí para além da arte, do talento e do trabalho, uns "pózinhos mágicos" da deusa da fortuna também são uma ajuda que não se dispensa. O FC Porto pode dizer que levou a fatia com o "brinde", pois os suíços do FC Basel eram teoricamente a equipa mais acessível das sete que podiam cair em sorte aos Dragões, que podiam encontrar pela frente equipas de má memória em anos recentes, casos dos ingleses do Arsenal ou do Manchester City, ou ainda os alemães do Bayer Leverkusen e do Schalke 04, que eliminaram a equipa portuguesa em 2007/2008, e ainda os "milionários" do PSG ou o Atlético Madrid, campeão espanhol e finalista vencido da Champions. Pode-se dizer que a equipa do espanhol Lopetegui, "ferida" no orgulho após a derrota ontem em casa frente ao rival Benfica, não podia ter melhor notícia. Os jogos realizam-se a 18 de Fevereiro e 10 de Março, com a primeira mão no St. Jakob's Park em Basileia. Os campeões suíços e líderes destacados do campeonato helvético são treinados pelo português Paulo Sousa.

O sorteio determinou que o Chelsea defrontasse o Paris SG, um dos jogos "quentes" da ronda, e curiosamente eram os franceses o adversário que José Mourinho tinha pedido - resta saber se estava a brincar ou se as bolas do tômbola da UEFA fizeram-lhe um favor. O outro treinador português ainda em prova, Leonardo Jardim, viu o seu Monaco apanhar os ingleses do Arsenal, treinados por Arsene Wenger, que curiosamente era técnico dos monegascos antes de assumir o comando dos "gunners", já lá vão 17 anos. O campeão em título, o Real Madrid, vai medir forças com o Schalke 04, que mesmo não sendo pêra doce não retira o favoritismo a Cristiano Ronaldo e companhia. Já o Barcelona vai protagonizar contra o Manchester City o encontro mais equilibrado "por cima" desta ronda, com duas das equipas mais recheadas de "craques" na Europa. Os restantes desafios colocam frente a frente o Borussia Dortmund, este ano a ter uma participação discreta na Bundesliga e os italianos da Juventus, duas equipas que se conhecem de finais europeias, com os transalpinos a vencerem a Taça UEFA em 1992/93 contra os alemães, e estes vingavam-se quatro anos depois vencendo a Champions batendo a "vecchia signora" na final. Os alemães que ninguém queria, o fortíssimo Bayern de Pepe Guardiola e vários jogadores da selecção campeã mundial este ano no Brasil vai encontrar o Shakhtar Donetsk, 2º classificado no grupo do FC Porto, podendo dizer-se que seriam o adversário mais desejado depois do FC Basel. Finalmente o Atlético de Madrid vai tentar repetir a épica campanha do ano passado começando a fase a eliminar contra o Bayer Leverkusen, um dos "carrascos" do Benfica.

Na Liga Europa as equipas portuguesas presentes na fase de grupos, o Estoril e o Rio Ave, pagaram o preço pela inexperiência em palcos internacionais, mas o nosso país continua representado graças ao Sporting, que transita da Champions como terceiro classificado do seu grupo. Os leões partiam para o sorteio como cabeças de série, mas este estatuto foi-lhe atribuído por ser um dos melhores quatro terceiros classificados da Champions, e só garantia que não defrontava os outros três relegados da maior prova da UEFA nas mesmas condições e os 12 vencedores dos grupos da Liga Europa. Entre os possíveis adversários com um nome de impôr respeito estavam os ingleses do Tottenham e do Liverpool, os italianos do Roma e os espanhóis do Villarreal e do Sevilha, estes últimos "apenas" actuais detentores do título. Em termos competitivos os mais apetecíveis para encarar a passagem à fase seguinte com optimismo estavam os turcos do Trabzonspor, os suíços do Young Boys, os franceses do Guingamp ou os dinamarqueses do Aab Aalborg, uma escolha mais variada daquela queoPorto tinha na Champions. A sorte acabou por ditar os alemães do VfL Wolfsburg, que apesar de um historial modesto nas competições europeias ocupa actualmente o 2º lugar do campeonato alemão, atrás do "estratosférico" Bayern. O Sporting atravessa actualmente um momento menos bom, mas tem até 18 de Fevereiro para encontrar argumentos que lhe façam valer os seus pergaminhos.

Vermelho sobre azul



O Benfica foi ontem ao Estádio do Dragão vencer o FC Porto por 2-0, e distanciou-se na liderança da Liga ZON Sagres com mais seis pontos que o seu rival e do V. Guimarães, que empatou em casa a zero golos com o Rio Ave. A partida foi equilibrada, com algum pendor mais ofensivo da parte da equipa da casa, que precisava de assumir as despesas do encontro pois o empate serviria melhor os interesses do Benfica. Se o equilíbrio foi a nota dominante, a decisão chegou através dos detalhes, e aqui foi uma aposta de Jorge Jesus que causou o desiquilíbrio: contra todas as previsões, o treinador encarnado apostou em Lima na linha da frente em vez de Jonas, e o avançado brasileiro apontou os dois golos do triunfo, o 13º do Benfica no reduto do FC Porto para o campeonato, a primeira dos azuis-e-brancos neste edição da prova. Curiosamente as últimas três últimas vitórias foram pelo mesmo resultado, e com um só jogador a apontar os dois golos: em 1990/91 foi César Brito, num jogo que sentenciou praticamente o título para os encarnados; em 2005/2006 o estatuto de herói coube a Nuno Gomes, num ano em que mesmo assim o Porto de Co Adriaanse venceu o título; e agora Lima deixa o seu clube mais destacado e mais favorito, mas ainda com muito campeonato para jogar.



O Sporting é que continua em crise, pois antes do "derby" da invicta os leões não foram além de um empate em casa com o Moreirense, e ainda contaram a "inocência" dos minhotos para obter pelo menos um ponto que evitou o escândalo. Os visitantes adiantaram-se no marcador aos 35 minutos pelo paraguaio Ramón Cardozo, e geriram a vantagem sem grandes sobressaltos, frente a um Sporting sem soluções para impôr o seu favoritismo. Foi já no segundo minuto dos descontos após os 90 regulamentares que Fredy Montero aproveitou a displicência da defesa adversária, que já parecia ter garantidos os 3 pontos, e só esperava o apito final para fazer a festa. Um ponto que não estaria nas expectativas do treinador Miguel Leal, mas no fim acabou por saber a pouco. O Sporting segue na quinta posição, ultrapassado pelo Braga, que no Sábado venceu no Restelo o Belenenses poor 1-0. Pelo mesmo resultado o Boavista venceu em Setúbal o Vitória local, obtendo a primeira vitória fora da temporada, enquanto o Penafiel continua a sua recuperação com a segunda vitória consecutiva, ao vencer o Nacional por 2-1 e a sair dos lugares da despromoção, onde se encontra agora o Arouca, que perdeu por 1-2 em P. Ferreira. Outra partida na causa da tabela teve lugar em Barcelos, onde o Gil Vicente continua sem ganhar após o empate a uma bola sobre a também aflita Académica. Os gilistas somaram o sexto empate em 13 jogos e mantêm a lanterna-vermelha.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Filó? Sofia? Estou Confúcio!



E assim acaba mais um fim-de-semana de emissões no Bairro do Oriente, e para terminar com chave de ouro deixo-vos com o artigo de quinta-feira do Hoje Macau. Na próxima quinta-feira, no último artigo do ano vou contar um episódio que aconteceu comigo ontem, e prometo que é só rir...de raiva. Boa semana de trabalho!

Concluo hoje aqui uma pequena série de artigos que dediquei especialmente a alguns aspectos da cultura chinesa que são para nós, ocidentais, de mais difícil “digestão”. Não quero com isto dizer que a forma de encarar o mundo, ou a vida, resolver os problemas e lidar com outros seres humanos seja melhor numa ou na outra cultura – é apenas “diferente”. Teríamos bastante em ganhar com alguns dos costumes locais, e na realidade acabamos sempre por assimilar qualquer coisa, nem que seja à custa de muitos equívocos, desilusões e mal-entendidos. No fim, mesmo que contrariados e com uma sensação de estrangulamento por não se aceitar a nossa reles condição de “bárbaros”, acabamos por ceder, nem que seja para nos fazer a vida mais fácil.

Do outro lado também existe algum desconforto, e nem sempre os chineses conseguem conviver bem com as imposições da tal “harmonia”, que acaba por servir melhor a alguns, muito poucos, deixando a maioria com nada mais que a pífia consolação de que “pelo menos estão vivos”. Pode parecer pouco para nós, povo de gente refilona, de sangue na guelra e pêlo na venta, mas é preciso recordar que estamos aqui a falar de um povo que praticamente só vive em tempo de paz e ordem desde há pouco mais de 60 anos – em cinco milénios de civilização .

Eles até concordam que alguns dos nossos preceitos são os mais indicados, e a certo ponto chegam a invejar a nossa “libertinagem”, que para nós é apenas “liberdade”. Há uma expressão regional, utilizada em Macau e Hong Kong, que reza assim: 人生没有捷徑 , ou seja, “na vida não existem atalhos”, e a aprendizagem requer sacrifícios, sendo que todas as experiências são válidas, mesmo as negativas. A esse respeito existe um provérbio, que nos diz甜, 酸,苦, 辣, 都必須品嚐, ou “doce, salgado, amargo e picante, é preciso provar de todos um pouco” – é uma combinação curiosa entre a culinária e a filosofia, o efeito placebo no tratamento paleativo.

Às vezes é necessário ser muito 禪, ou seja, muito “zen” para evitar entrar em desespero nessa atribulada caminhada pela estrada que levará à tão almejada “harmonia”. Se há algo que os chineses mantêm dos tempos do Império, é o mais rigoroso cumprimento dos protocolos impostos pela pirâmide hierárquica. A obediência e o respeito que se impõem chegam a colocar em causa os ditames da “dura lex”, e do próprio senso comum – todos bebem dessa imensa fonte que nunca parou de jorrar chamada “Confucionismo”. Por algum motivo a filosofia confucionista tem resistido a todas as etapas da História da China, desde a que temos hoje, até às mil e uma que existiram antes de se “atinar” com esta – portanto “serve”: o confucionismo é a sapataria Charles da filosofia chinesa, onde há de tudo para todos os gostos, e ninguém se pode queixar de calçar um meio número. Assim como nós portugueses consideramos D. Afonso Henriques o fundador da Nação, e Viriato o “paciente zero” dessa doença crónica, hereditária e incurável a que chamamos “lusitanidade”, é Confúcio o arquitecto de todo esse “chow mein” de contradições que é o povo chinês.

Quando nascemos e até à idade adulta devemos obediência aos nossos pais, que ao mesmo tempo têm o dever de nos alimentar, vestir e cuidar de nós, bem como garantir a nossa escolaridade. Uma vez na escola, devemos obediência ao professor, e este tem a responsabilidade de garantir que os seus alunos aprendem. O professor deve ser alguém dotado do saber e da capacidade de o transmitir, o子 , o “zí”, ou o “homem justo”, o mestre (no fundo isto é Confúcio, ele próprio um professor, a falar em causa própria) – “quando um jovem é mal alimentado, a culpa é dos pais, mas se é mal educado, a culpa é do professor”. Posto isto, na hora de enfrentar os desafios da vida adulta deixamos o lar, a tutela e protecção dos pais, e passamos a dever obediência ao chefe, pois do seu sucesso e prosperidade depende o nosso ganha-pão, e deste dependem a nossa mulher, que deve obediência ao marido, o provisor, e dos pequenos discípulos de Confúcio, descendentes dos outros agora grandes, e dos outros já idosos a quem se deve respeito, e de outros ainda que já partiram, mas a quem se deve o culto. Todos estes, mas todos, desde o avô até ao bebé, passando pelo operário e a mãe dos filhos, e sem esquecer as alminhas no além, que não se manifestam e por isso não discordam, devem obediência ao Estado, pois é este a força motriz que permite o funcionamento desta imensa engrenagem confuciana, e dentro desse Estado, a supremacia pertence ao líder, que será sempre incontestado e todo-poderoso, o supra-sumo dos “zí”, coberto de “zen” da cabeça aos pés.

Agora para fazer a gestão de tudo isto é muito simples: os que estão na situação de filho, esposa, assalariado e de alguma forma subordinados ao Estado lêem Confúcio; os que estão na posição de professor, patrão ou chefe de família mandam os outros ler Confúcio, até ao dia em que se chega ao topo da pirâmide, e passamos nós a ser Confúcio . Só nós, “bárbaros” a quem falta um Confúcio que nos oriente no ocidente, não encontramos uma roca para o nosso fúcio. Perdão, fuso.


Este táxi não é cor-de-rosa



Se acham que os taxistas em Macau são "maus", este é mesmo "bera" - se os de cá "pescam" clientes, este pesca-os e a seguir escama-os, também. Tudo aconteceu no Porto nas primeiras horas da manhã da última segunda-feira, fez agora uma semana, quando Sara Salvador decidiu ir beber um copo depois do trabalho. A jovem de 28 anos trabalha num bar da invicta, e por volta das 7:30 apanhou o primeiro táxi que encontrou estacionado no ponto localizado na Praça da República. Segundo a versão dos factos, relatados pela própria, "estava a falar no telemóvel antes de entrar no táxi", quando se despediu de uma amiga que a acompanhava, esta disse que "a adorava", e por isso Sara deu-lhe "com um beijo na boca", sem precisar se foi um simples chochinho, ou um beijo cinematográfico, com língua e esfreganço acompanhado de respiração ofegante e uma expressão lânguida e sôfrega no rosto. Entrou no veículo e disse ao taxista que não sabia o endereço exacto do local para onde ia, e pediu-lhe que fosse até a Fonte do Infante, e daí "daria instruções quanto ao resto do caminho". O motorista, como já vamos perceber, era um híbrido entre Derek Vinyard, o "skinhead" de "American History X" e o "Terminator" de Arnold Schwarzenegger, manteve-se imóvel e em silêncio. Sara quis saber a razão porque não saíam do mesmo sítio, e o homem que segundo ela aparentava ter "entre 35 e 40 anos", respondeu-lhe: "bossemecê num me disse uonde quere ire, carago" (é preciso recordar que estamos no Porto, afinal). A jovem repetiu a indicação inicial, e aí o taxista "pediu-lhe que saísse", e depois de Sara lhe perguntar porquê, foi ele quem abriu a porta e saíu, ficando de pé ao lado do veículo. A passageira não quis saber mais nada, pegou nas coisas e saíu também, mas mal meteu um pé fora do táxi levou um soco do motorista. Mesmo em choque, teve o discernimento de ir até à frente do táxi para anotar o número da matrícula, enquanto dizia que "ia apresentar queixa". Aí o taxista passou-se, pegou nela e encheu-a de murros e pontapés, arrastando-a pelo chão, etcetera, toda a restante coreografia de um combate de "wrestling", mas com a diferença de que alguém se magoou. Estavam mais dois taxistas na praça, mas nenhum deles saíu em auxílio da pequena, que acabaria por ser assistida pelo INEM, e levada para o Hospital de Santo António, onde depois de ser assistida apresentou queixa na esquadra da PSP, e era o que tinha que fazer, efectivamente.

Agora aquilo que torna este simples caso de agressão num atentado aos direitos humanos e "ó manos": foi um crime de ódio, pois a Sara é lésbica. Toma! Afinal o tal beijo sempre deve ter incluído língua e apalpadela. Um bocadinho de língua, vá lá. E uma palmadinha no rabo. Pronto, as duas trocaram olhares apaixonados, e ficamos por aqui. Quando digo "simples caso de agressão" não quero dizer que é banal; é terrível e nunca devia ter acontecido, mas nenhuma agressão é um passeio no campo. Mas como a Sara é da confissão LGBT (são como a IURD mas mais barulhentos, não compram salas de cinema nem alugam estádios), isto só pode ser um crime de ódio. Yep, e é própria Sara quem o diz: "deve ter sido por causa do beijo", e vai daí que o "morcon" do táxi não gosta de fufaria a sentar-se no banco de trás do "beículum", e então toca a encher a tipa de porrada. "Epá ainda por cima uma gaja, e nem é daquelas fufas grandalhonas, f...as p'rá porrada. Tá p'ra mim" - terá pensado o agressor, que no seu monólogo interior não tem sotaque tripeiro. "Quem disse isto, o taxista?" - perguntam vocês. Não, aparentemente não disse isso nem disse nada, pois é um tipo de poucas palavras, mais dado à linguagem corporal, e cada soco e pontapé que deu na pobre rapariga valem mil palavras carregadas de preconceito. Ela "acha" que foi por causa do beijo, mas ele partiu logo para a porrada. Ah bem, para bom entendedor meia palavra basta: o taxista nem precisava dizer porquê. Então não se vê logo? Este é um problema que se tem verificado desde que um engraçadinho qualquer retirou do ponto de táxis da Praça da República no Porto um sinal que dizia: "Não alimentar os taxistas homófobos". Depois de ter comprovado que se tratou de uma agressão através da certificação do Instituto de Medicina Legal, a vítima apresentou queixa com a ajuda da Associação Panteras Rosa, que "combate a LesBiGayTransfobia", ou seja, a aversão aos homossexuais, bissexuais e entremeados. Perdão, "transgender", que é aquela malta que se encontra em processo de metamorfose, como o bicho-da-seda, ou neste caso a bicha-da-seda. Porra, porque é que não consigo parar de fazer estas chalaças homófobas, pá? Qualquer dia faço como aquele taxista, calço as minhas botas cardadas e ando por aí com um pé-de-cabra a detectar mariconços, sapatonas, fichas-triplas e outros "freaks" com o meu detector de bicharada em forma de crucifixo. Só que agora fico tramado, pá, pois o Código Penal já inclui o crime de ódio, que no texto que é dado ao artº 132 considera a agressão motivada pela orientação sexual da vítima como sendo "de especial censurabilidade ou perversidade", e implica o agravamento da pena em um terço. E foi motivada por ódio aos LGBT? O taxista deixou isso bem claro? Não, mas a Sara teve um "feeling", portanto nem vai ser preciso julgamento nem nada: atira-se o gajo para dento da gaiola e deita-se fora a chave.



Meus amigos, agora falando a sério, que de facto isto não é nenhuma brincadeira. As leis foram feitas para todos, e neste caso os crimes de que falam não são para se atirar assim como quem quer "dar o exemplo". Se o taxista não demonstrou nem por palavras nem por gestos que tem algo contra os LGBT, para quê querer imputar-lhe um crime desta natureza? Vingança? Vi o vídeo na vossa adorável página do Facebook, e deixem-me dizer que nunca vi tanto exibicionismo, histeria e ressabiamento juntos, mas já lá vamos, e lá é evidente que a vítima ficou muito mal tratada, e o agressor tem que responder perante a justiça. Ponto assente. O que vos leva a assumir que foi um crime de ódio é apenas um palpite, e agora querem que o mundo inteiro diga que sim, claro, têm razão, coitadinhos que isto não se faz aos deficientes. É isso? Claro que não, bolas, desculpem eu ser assim tão ignorante e boçal, mas é que sou um daqueles grunhos que não anda por aí à beijocada e aos apalpões como afirmação da minha sexualidade. É que eu gosto de mulheres, estão a ver, e as tipas não deixam que ande por aí a adiantar os preliminares, e acha que isso é coisa para se fazer em casa. Eu sei, eu sei, ainda não evoluímos até ao vosso patamar de excelência, que defende que a via pública é um local como qualquer outro para fazer a tal afirmação - senão como é que nós sabemos quem vocês são para vos perguntar como é que se entra no clube? Sim, eu não saberia quem vocês são se não fosse pela simpatia da vossa parte em demonstrá-lo a toda a hora e em qualquer parte, nem que para isso se metam com desconhecidos que encontram na rua, em plena luz do dia, e querem lá saber se os ofendem ou não? Para vocês DEMONSTRAR que são LGBT é afirmação, mas se alguém DIZ que são, mesmo sem acrescentar qualquer comentário ofensivo, isso é descriminação. Se eu, sendo heterossexual, andar por aí a piscar o olho ou a mandar piropos a todas as mulheres que encontro, nas tintas para se têm marido ou não ou se consideram isto uma forma de assédio, for agredido ou detido por esse motivo, estão a "descriminar-me pela orientação sexual?". E bares reservados exclusivamente a homossexuais, onde não me é permitido entrar? Afirmação? Ah...e se um outro bar só permitir a entrada a heterossexuais? Descriminação? Ah...tenho tanto ainda para aprender.

Parece que existe uma onda geral de indignação, como que uma epidemia global, que leva a que as vítimas de violência deduzam de imediato que pagaram o preço por serem "diferentes" ou por pertencerem a uma minoria. Nos Estados Unidos temos uma nova onda de "racismo" por causa da morte de um jovem negro às mãos de um polícia branco, enquanto...cometia um furto. O facto de estar ainda vivo (e isso ninguém pode garantir) se não estivesse a cometer um crime ou prestes ou a cometê-lo é o menos importante: o branco não tinha direito de disparar, porra! Chamavam um polícia preto, ou melhor ainda, davam uma boleia ao patifezinho até casa para não ir carregado com o produto do furto, coitadinho, e ainda ganhavam um prémio qualquer pela formidável "tolerância" que demonstrou. Em Portugal há tanta descriminação com os LGBT que eles fazem questão de amiúde ir para o meio da rua ostentar cartazes onde se pedem "direitos iguais", e o fim da descriminação, e por isso foi uma grande conquista quando incluíram no Código Civil a tal claúsula que os descrimina, dotando-os de direitos diferentes das...oops, ia dizendo "pessoas normais". Para não parecer homofóbico, o melhor é dizer "diferentes", mesmo que no papel digam que querem igualdade. E não é tudo, pois segundo Sérgio Vitorino, das Panteras Rosa, "Existem avanços legislativos, temos uma sociedade mais aberta, mas a homofobia continua a existir fora dos meios relativamente privilegiados das grandes cidades." Sim, claro, e se não existissem, eles inventavam, pois estas associações como as panteras rosas e os SOS Racismo não sobrevivem sem o mal que combatem. Agora atentem a isto.



Ora esta, então queriam casar para isto, para engrossar as estatísticas da violência doméstica? Uma coisa tenho que reconhecer: dão um novo "elan" a um problema que nos casais heterossexuais ainda é tabú, e humilhante para a vítima. E a isto não se chama descriminação, não senhor. É um facto provado e comprovado que a Sara foi brutalmente agredida, já está a decorrer o processo contra o agressor, mas agora não queiram fazer disto um bicho de sete cabeças - deixem o homem pagar pelo que fez, e não pelo que vocês acham que toda a gente gostava de fazer, e por despeito demosntram que já não podem, porque agora são uma "espécie protegida". É mesmo assim tão profundo esse ressabiamento pelos anos em que se tratava a homossexualidade como doença, pela humilhação que passaram por não levarem um estilo de vida convencionado como "normal", que agora querem fazer toda a gente pagar por isso? E o tal taxista que agrediu a menina, é heterossexual, com toda a certeza, não? E se não fosse, isso ia ser bonito, não era? Deixava de ser agressão, e depois iam pedir uma lei específica para esse tipo de situação ou quê? Na, nem vale a pena, porque para fazerem figura triste já aí estão vocês a organizar marchas de beijocada e outras pantomimices para nos recordarem pela 15878ª vez que estão aí, e são iguais, por isso querem mais "igualdade". A propósito, para quando a inclusão desse importantíssimo detalhe nos dados do cartão de cidadão? Isso é o quê, discriminatório? Mas, mas...é que pensei que uma vez que a agressão simples se transforma em crime de ódio consoante essa qualidade, era melhor ter toda a gente bem identificada, só isso.

CR25



Este tem sido até agora o ano de Cristiano Ronaldo, pelo menos na liga espanhola. O internacional português apontou mais dois golos esta sexta-feira, e leva já 25 golos em 14 jogos, liderando destacado tanto a lista de goleadores em Espanha, como também na Europa, colocando-se na linha da frente para uma inédita quarta Bota de Ouro. O Real Madrid, que lhe tem permitido tais conquistas, foi a Almeria vencer a equipa local por 4-1, em trânsito para Marrocos, onde os campeões europeus vão defrontar os mexicanos do Cruz Azul em partida a contar para o Campeonato do Mundo de clubes. Isco e Bale fizeram os restantes golos dos "merengues", enquanto Verza marcou o único do Almeria.



Já o Barcelona foi menos feliz na deslocação ao reduto do Getafe, onde não foi além de um empate sem golos, que deixa os catalães a quatro pontos do líder e arqui-rival, Real Madrid. Mas Messi e companhia podem dar-se por satisfeitos com o ponto conquistado, pois o árbitro resolveu apitar para o final da partida quando o avançado Álvaro Vázquez se encontrava isolado em frente ao guardião Claudio Bravo, com o golo praticamente feito. Os jogadores da casa protestaram com o juíz, contestando o excesso de rigor no tempo de descontos dado à partida, mas verdade seja dita escreveu-se direito por linhas tortas; o Barcelona teve 67% de posse de bola e rematou 15 vezes contra apenas três do Getafe, que apenas conseguiu deter o melhor futebol dos catalães com recurso à falta: 23 marcadas contra 7 do Barcelona, que pode ser apanhado no 2º lugar caso o At. Madrid vença hoje em casa o Villarreal.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Facebook: tem gente (lá dentro)



Para mim o aparecimento das redes sociais foi um dos momentos marcantes da História da Humanidade. Pela primeira vez o mundo estava ligado entre si, podendo cada indivíduo partilhar a sua opinião com quem muito bem entender - apenas com os amigos próximos, num grupo de indivíduos que partilham interesses comuns, ou simplesmente lançar as palavras aos ventos para quem quiser apanhá-las. Ninguém é obrigado a ler, a concordar ou a seguir o que A. ou B. recomendam como sendo o melhor para o mundo. Para isso já cá temos os políticos. Curiosamente não vejo tanta gente incomodada com os políticos tanto quanto os vejo a "subir pelas paredes" quando se fala das redes sociais. Ainda ontem estava a ver um programa da RTPi onde estavam a ser entrevistados dois convidados, e um deles falou na promoção do seu trabalho através do Facebook, e antes de desenvolver esse tema começou por dizer que "o Facebook tem coisas boas e tem coisas más". Suponho que esta é ideia em geral que muita gente tem das redes sociais: se fui eu que fiz é bom/verdade/tem qualidade; se foram os outros é mau/mentira/não presta - eu também sou o maior lá da minha rua, meus amores.

A iniciativa de desacreditar as redes sociais como os blogues, twitter, Facebook e afins parte normalmente de quem detinha o monopólio da opinião: o poder político e a imprensa. Tenho como dado adquirido que talvez, mas ó talvez, se calhar e possivelmente, as redes sociais teriam mais dificuldade em se impôr caso esses dois poderes fizessem um trabalho impecável, espectacular, que nos deixasse a todos prostados de focinho no chão a saudá-los: "Avé, oráculos que sois detentores da verdade suprema", podendo eventualmente oferecer o nosso primogénito em sacrifício ou a nossa filha vestal como dádiva por tanta bonomia da parte de suas senhorias. O principal argumento contra a opinião livre e individual prende-se sobretudo com a falácia da argumentação, ou no caso de se tratar de uma análise ou comentário, da natureza duvidosa das suas fontes. Ora eu tenho centenas de exemplos de colunistas, analistas e outros opinadores cujos argumentos foram colhidos da árvore do cocó, e que apesar da "qualidade das fontes" dão um "jeitinho" para que a sua "verdade" não incomode este ou aquele tipo super-inteligente e bestial, com tantas qualidades que o Menino Jesus achou que ele devia ser rico e dizer ao resto da canalha que pensar e no que deve acreditar.

O exemplo do Facebook é o melhor, sem dúvida, pois permite a partilha de informação tanto pessoal como generalista em tempo real, numa questão de segundos. Compreendo que isto incomode o poder político, pois não há traque que se dê ou sacanice que eles façam que não possa chegar ao conhecimento de alguns que partilham com o resto do mundo, e antes que saia o matutino no dia seguinte a dizer que "não foi um traque, era o estofo da cadeira do senhor doutor que tinha ar a mais, e o cheiro vinha da fábrica de cortumes que por acaso foi construída num sítio ali perto dez minutos antes mas viria a falir uma hora depois", já cada um tema sua opinião formada sobre o assunto. Insistir nesta teoria absurda de que a informação que se partilha nas redes sociais "é toda falsa" é passar um atestado de burrice ao cidadão comum. Eu não acredito em tudo o que leio, e nem sequer dou 100% de credibilidade a seja o que for. E na própria justiça, não existe a possibilidade de recurso? Isso significa que as sentenças são emanadas por gente sem autoridade para o fazer, e por isso recorre-se a outra mais competente? É preciso acomodar a informação, mas convém deixar um espaço na eventualidade de querer mandá-la pelo caminho de onde veio. Não faltam exemplos, até recentes, de situações onde isto e aquilo recolhia um consenso "unânime", e passou a não servir para apanhar a bosta do cão.

Afirmar que o Facebook é "falível" como fonte de informação pode não ser de todo mentira, mas é uma trapaça garantir que exista alguma que esteja acima de qualquer suspeita. Se me perguntarem que agências noticiosas conheço, respondo Lusa, Reuters, Xinhua e outras que nos são mais familiares, de que já ouvimos falar, mas por enquanto o Olimpo,o Valhalla e o Éden (conhecido também por "Céu" ou "Paraíso", não o velhinho cinema Éden) ainda não mandaram qualquer fax com a actualidade mais recente. Dizer que "quinhentas opiniões no Facebook podem todas partir da mesma pessoa" é um argumento que só convence quem não sabe o que é o Facebook, e colocar essa presunção no topo da descrição do que é aquela rede social e estar a fazer o papel de tolinho. É possível que existam pessoas que têm três, quatro ou meia dúzia de contas, e eu próprio tenho duas, uma pessoal e outra dedicada apenas ao blogue, que é aquela que uso com mais frequência. Há indivíduos que têm mais que uma conta e assumem-no, outros que não, mas duvido que um ser humano para quem o dia tem 24 horas consiga manter com um alguma credibilidade 20 ou 30 identidades diferentes. Mas há males que vêm por bem, pois com tanta suspeita que se lança sobre as redes sociais, e nomeadamente o Facebook, a tendência é para que as pessoas não assumam um nome que não o seu, por receio de incorrer no crime de falsa identidade. É caso para dizer que o feitiço se virou contra o feiticeiro: algo que não merece credibilidade deve ser ignorado, e se insistem tanto em desacreditá-lo, é porque não estão a contar a verdade toda e têm receio de qualquer coisa. Chama-se "psicologia invertida"; usa-se com as crianças que não querem comer a sopa, e com sucesso, mas já não é tão eficaz com os adolescentes para evitar que se metam na droga. Com os adultos chega a ser um insulto. Pelo menos com os adultos alfabetizados e mentalmente sãos.

Se me disserem que nem tudo o que está no Facebook é verdade, concordo, mas se me disserem que por esse motivo não lhe devo dar qualquer credibilidade, aceito a opinião mas vejo as coisas de outro prisma. Só por existirem no Facebook contas que não correspondem a uma pessoa real, ou informação pessoal deturpada, exagerada ou duvidosa, o mesmo acontece com toda a informação, mesmo a oficial. Uma lista telefónica está sempre cheia de informação errada, pois até mesmo antes de sair uma edição alegadamente "actualizada", já há assinantes que mudaram de número, faleceram ou emigraram, bem como outros novos que dali não constam. O registo civil, por exemplo, é impossível de merecer 100% de credibilidade no seu todo, pois a toda a hora há gente que nasce, que morre, que casa e descasa, o mundo não pára. E não pára para ninguém, mesmo, pois até os orgãos de informação necessitam de actualizar constantemente a informação. O que seria se acusássemos o Boletim Meteorológico de incorência, pois "Ontem disse que ia chover, e hoje já diz que faz sol? No que ficamos, afinal???". Todos temos um filtro que nos permite distinguir o que é tido como uma possível verdade, e o que não merece o mínimo de credibilidade. A política, a literatura, a filosofia, a sociologia e até o próprio jornalismo e tudo o que se entende por informação e é passível de interpretação diversa está inserido na área das ciências humanas, e como os próprios humanos, tem a subjectividade como uma condicionante maior. Não se aplicam aqui as ciências exactas, nem há uma fórmula que determine que isto é uma vez verdade e por isso sempre verdade e aquilo é mentira, e daí não passa.

Outro argumento dos que teimam em alertar para os perigos do Facebook, mas usam-no na mesma e chamam "hipócritas" e "mentirosos" aos outros (quem desdenha quer comprar - às vezes, nem sempre, mas aqui sim, com toda a certeza) é a da violação da privacidade alheia. Sim, faz todo o sentido que eu não queira partilhar com os outros a minha vida privada, e depois vá para o Facebook firme a esse princípio enquanto...partilho aspectos da minha vida privada. Interessante, como o narcisismo consegue chegar ao ponto de se esperar que um média utilizado por um quinto da população mundial garanta a toda a prova que a informação que o próprio lá introduziu fique apenas acessível a um certo grupo de pessoas. O Facebook tem opções que permitem a cada um escolher com querem partilhar os seus dados, mas não é infalível, como nada é infalível. Quem guarda avultadas somas de dinheiro ou outros valores em casa e depois queixa-se de que foi assaltado e desata a dizer mal da sorte podia ter simplesmente optado por guardar os valores no cofre de um banco. Da mesma forma alguém que tem macaquinhos no sótão e não quer que ninguém saiba não vai deixar pistas numa rede onde milhões de computadores pessoais pertencentes a gente estranha estão inter-ligados entre si. E quem divulga essa informação dita "confidencial" ou "privada", e depois queixa-se que foi parar às mãos de quem não devia, pode dizer que essa informação era mesmo isso que ele diz, tão preciosa e pessoal? Que a guardasse para si, então. Alguém o obrigou a tal dislate?

O Facebook é uma espécie de Páginas Amarelas dos tempos modernos; pelo menos esta é uma comparação que gosto de fazer. Antes podiamos através do nome próprio e do apelido de alguém consultar a lista telefónica e ficar a saber outra informação além do número de telefone, como a morada, e nas listas em Portugal vinha incluído o andar e o bloco, ou seja, sabendo um simples nome, desde que fosse esse o assinante, ficávamos a saber onde morava. Isto era tão normal que nem me recordo sequer de ouvir alguém se queixar que ficava em causa o seu direito à privacidade, e tinha a opção de pedir aos CTT que a sua informação se mantivesse confidencial, mas dessa forma seria mais difícil encontrá-lo e consequentemente entrar em contacto com ele. Podia-se dar o caso de alguém saber destes dados para fins menos lícitos, mas quem não deve, não teme - digo eu. Mas isto era um tempo em que ninguém sonhava com a internet, e graças aos progressos na área da tecnologia, coisa normalíssima, o Facebook contém mais informação, como a fotografia, eventualmente a data de nascimento, os familiares e amigos, gostos pessoais, aquilo que cada um achar pertinente partilhar com o mundo. Às vezes perguntam-me se conheço esta ou aquela pessoa, e se o nome não me diz nada, posso consultar o Facebook e dar-se o caso de conhecer, sim, pelo menos de vista, ou ficar na mesma. O que não vai acontecer com toda a certeza é comentar se é bonito ou feio, gordo ou magro, ou se tem bom ou mau gosto. Deduzo que as pessoas que deixaram estes dados na rede social fizeram-no com a intenção de poder ser encontrado por alguém que esteja à sua procura. Posso estar enganado, mas considero-me uma pessoa de bem e mentalmente sã, e desse modo não vou andar a chatear alguém que não conheço de lado nenhum, com quem não tenho qualquer ligação, interesse comum ou um fim que me leve a contactá-la. Mas isto sou eu, pronto.

Vi no YouTube uma entrevista com Miguel Sousa Tavares onde o brilhante brutal (com este "brilhante" estou a exagerar, confesso) diz que não tem conta no Facebook, pois isto "é mau", e as pessoas que têm alegam que "querem contactar os antigos colegas da escola primária", e que isso é algo que "não lhe interessa". Isto é o que eu chamo o supra-sumo da arrogância: os amigos do Miguelito representam a totalidade da população mundial - não há ninguém no mundo que tenha uma característica que os seus amigos não tenham. Ele não está interessado em contactar os seus amigos da escola primária, portanto é só para isto que o Facebook serve, ele não usa e recomenda que não se use. Ele pode não ter lá conta, mas existe uma página sobre ele que tem mais de 38 mil seguidores. É gente que acredita no Pai Natal, certamente, pois não esperem que o Miguel vos diga um "olá" que seja, pois "não usa", porque "é mau" e vocês "querem é contactar os ex-colegas da primária". Certo. Na realidade os "perigos" que os mui zelosos detractores das redes sociais dizem existir no Facebook sempre existiram, e existem no Facebook, de facto, pois o Facebook é feito por pessoas, e todo o tipo de pessoas têm acesso ao Facebook, os bons e os maus. Sabem onde mais podemos encontrar boas e más pessoas? Na rua, no trabalho, no café, na escola, em toda a parte. Nem o Facebook inaugurou a maldade, nem esta deixou de existir em toda a parte por se ter mudado de armas e bagagens para o Facebook. Continuam a haver tarados a espreitar pelas fechaduras ou a trepar numa árvorea para olhar para o balneário das senhoras, e não vai ser por não saber usar o Facebook que uma velha abelhuda vai parar de meter o nariz de bruxa na vida alheia.

Sendo que esta é uma nova componente da vida, devia ser entendida como tal, e pessoalmente penso que o Facebook tem valor probatório, podendo ser usado para provar um facto ou factos nas instâncias judiciais, por exemplo. Uma fotografia que aparece no Facebook é uma fotografia como outra qualquer: o registo fiel de pessoas reais num dado momento e em determinado local. Pode ter sido editada, é verdade, mas caso isso tenha acontecido, existem formas eficazes de o averiguar - Estaline mandava editar fotografias e não tinha acesso ao Facebook. No recente caso em que um cidadão português foi condenado pelo crime de violação, que sem mais qualquer outra informação suplementar dá a entender que é um predador sexual que se esconde ao virar da esquina à procura de vítimas indefesas e aleatórias. Uma simples consulta no Facebook leva-nos a questionar se este veredicto é assim tão definitivo quanto parece, pois lá encontra-se informação muito além dos dois dias que parecem dizer tudo sobre a relação que o alegado violador mantinha com a vítima. Se por "violação" entendemos uma coisa, e por "agressão" outra de natureza diferente, então isso leva-me a concluir que aquilo que foi violação hoje, ontem era apenas "uma coisa normal entre adultos maiores e vacinados". Se algo como o Facebook é válido como elemento de prova? Isso cabe ao juíz decidir. Ou só o que já está decidido agora é o que fica decidido para sempre? Epá, vejam só, o Porto é campeão europeu! Bibó Porto! Não é??? São vocês da imprensa que o dizem, aqui, porquê, é mentira? Ou foi apenas a vida que continuou, e o que ontem era uma certeza hoje nem por isso? Se devemos ter cuidado e não acreditar em tudo o que lemos e em tudo o que nos dizem? Isso deve ser uma das poucas coisas que nunca mudou, e talvez nunca vá mudar.