quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

Dinamizar - 4º episódio: Assédio Sexual

Camarada Arnaldo Matos, pá!



Tenho andado a fazer um "search" nos ficheiros mais antigos da minha memória na esperança de encontrar personagens que me tenham de algum modo influenciado na pré-adolescência, ou antes disso, e de alguma forma contribuído para a formação da minha personalidade. Isto explicaria muita coisa, de facto. Um desses personagens é o camarada Arnaldo Matos, pá! Peço já desculpa pelo facto de me referir ao camarada Arnaldo Matos, pá! deste jeito, sempre como "camarada" e a interjeição "pá!" no fim, pois era (e ainda é) assim que toda a gente se refere ao camarada Arnaldo Matos, pá! O camarada Arnaldo Matos, pá! foi um dos fundadores do PCTP/MRPP, um partido de extrema-esquerda que hoje é liderado pelo camarada Garcia Pereira, pá! e onde as fileiras contaram com nomes como Durão Barroso, Diana Andriga, Maria José Morgado, Ana Gomes ou Fernando Rosas, que entretanto abandonaram o ideal revolucionário e ficaram aburguesados, pá! P... que os pariu, mazé!



A primeira vez que sofri um choque político-ideológico foi com o camarada Arnaldo Matos, pá! Pode-se mesmo dizer que foi o camarada Arnaldo Matos, pá! quem rompeu o meu hímen ideológico, deixando a sua semente marxista-leninista-maoista-engelista no meu ventre pequeno-burguês, e conforme os ensinamentos deixados pelo falo retórico do camarada Arnaldo Matos, pá! através da minha pristina vulva proletária, fui fazer um aborto. Porquê? Porque era ilegal, camaradas! Se não concordam, o camarada Arnaldo Matos, pá! manda-vos à merda, pá! que naquele tempo o camarada Arnaldo Matos, pá! quebrava não só os hímens dos reacionários-juniores como eu, mas todas as convenções implantadas por essa corja corporativista, pá, dizendo "merda" e mandando toda a gente para o c*&%lho antes dessas expressões terem sido inventadas.



Após uma pequena pesquisa na net, descobri que o camarada Arnaldo Matos, pá! "retirou-se da luta política em 1982", isto porque segundo ele, "a contra-revolução triunfou". F***-se, pá! destesto quando essa merda acontece, c*&%lho. Anda praí um gajo a tentar educar a p**a da classe operária e os c***ões dos camponeses para depois virem esses filhos da p... dos contra-revolucionários estragar tudo, os sacanas. No entanto tenho quase a certeza que foi durante as eleições legislativas de 1985 que vi pela primeira vez o camarada Arnaldo Matos, pá!, no tempo de antena do PCTP/MRPP. Nesse tempo tinha eu 10 anos e não entendia nada de política (e ainda não entendo, nem eu nem ninguém) e ao ouvir aquele tipo de bigode a dizer cobras e lagartos de tudo e de todos ao mesmo tempo que debitava caganitas de retórica esquerdista da mais rançosa, a cheirar a chulé e cheia de pelos da barbicha do Lenine, fazia todo o sentido. Pensei para mim mesmo: "este gajo vai ganhar, com toda a certeza". Mas ganhou o Cavaco. É mais ou menos o mesmo, mas ao contrário.



O camarada Arnaldo Matos, pá! fundou o MRPP ainda nem estávamos nos anos 70. Porquê? Porque sim, c*&%lho, e também porque esses f... da p... revisionistas do PC eram uns betinhos, uns meninos de coro, uns anjinhos com um bigode do Estaline. Está lindo, está. O camarada Arnaldo Matos, pá! foi desde jovem para a clandestinidade, pá! Quando a senhora que pariu o camarada Arnaldo Matos, pá! ("mãe" e "pai" são docinhos reacionários, sujas fufas conformitas) lhe perguntou o que queria ser quando era pequenino, o camarada Arnaldo Matos, pá! respondeu: "clandestino, f...-se!". Na escola a flausina fascizóide que tentou enganar o camarada Arnaldo Matos, pá! com balelas sobre o céu e os c@£!es, ouviu das boas, pá!: "Vai tu, p***éfia salazarenta! O camarada Arnaldo Matos, pá! vai prá clandestinidade, c*%&lho!"



E estavam à espera do quê, carneirada sifilenta? Enquanto se entretiam com o vosso Molotov de açúcar Moscovado, a reaça prendeu o camarada Arnaldo Matos, pá! Suas matrioskas rotas, deixaram camarada Arnaldo Matos, pá! fazer coceguinhas nesse vosso clitoris seguidista com a sua glande revolucionária, e depois foram atrás da trufa lazuda do Cunhal, não foi, suas ovelhinhas chocas. Mas o povo libertou o camarada Arnaldo Matos, pá! O povo está com o camarada Arnaldo Matos, pá!



Chupem na pila do povo, suas comilonas de pilinha moscovita, que o camarada Arnaldo Matos, pá! conhece bem e evita. O camarada Arnaldo Matos, pá! é que é o grande dirigente e educador da classe operária, pá! O camarada Arnaldo Matos, pá! é o líder das massas, f...-se! Estavam lá todas no comício da Amadora, pá. O penne, o fusilli, o linguini e o tagliatelli mais a p... que os pariu, c*&%lho! Estão a ver lá em cima, onde se lê "camardas", o camarada Arnaldo Matos, pá! está a saudar os camaradas e a mandar os revisionistas à merda, pá!



Agora querem ver o creme que o Kremlin deixou nas vossas trompas de falópio revisionistas e decadentes, suas pachachas seminovas? O camarada Arnaldo Matos, pá! explica-vos nesta intervenção que fez durante as jornadas
de economia Marxista promovidas pela Revista Popular “Tempo e o Modo”, pá!


Os social-imperialistas revisionistas soviéticos dedicam-se a toda a espécie
de especulações no mercado internacional e dominam, através de uma
série de pactos económicos e militares, um conjunto de países do mundo, à
custa dos quais vão crescentemente vivendo e entesourando quanto
podem.

Eles dedicam-se a toda a espécie de facturas. Compram, por exemplo, o
petróleo do Médio Oriente a preço baixo e depois vendem-no na Europa ao
preço corrente no mercado internacional, auferindo com isso profundos
lucros.

Obrigam os países que dominam a comprar-lhes os principais produtos
acabados de que necessitam e, ao mesmo tempo, a fazerem sacrifícios
para investir os seus capitais no desenvolvimento de sectores importantes
da União Soviética, como é o caso da Sibéria.

E não se viu, suas vendedoras do povo, suas arrendatárias da c**a da classe operária? Foi-se a ver e aqueles fantoches revisionistas estavam todos a nadar em nota, pá, em banheiras de ouro nas termas da Sibéria, cum raio!



Ah suas porquistas do Bolshoi, nem sabem o que perderam, pá! O camarada Arnaldo Matos, pá! queria trazer o maoismo, porra! O camarada Mao é que é bom, suas pêgas russas. Comam merda, mas é, pá! Eduquem-se com o camarada Arnaldo Matos, pá! e leiam as suas obras aqui na Biblioteca Vermelha do sítio do PCTP/MRPP, c*&%lho. Vão-se f...r! Viva o camarada Arnaldo Matos, pá!



PS, quer dizer, MRPP, pá!:

Arnaldo Matos nasceu a 24 de Fevereiro de 1939, em Stª Cruz, na Madeira, é advogado e tem actualmente 75 anos. O facto de ele ainda estar vivo faz-me sentir...mais novo ☺

quarta-feira, 29 de Outubro de 2014

O óleo e a máquina



Quando o presidente Xi Jingping anunciou o combate à corrupção a prioridade do seu Governo quando tomou posse em 2012, soaram os alarmes em várias facções do Partido Comunista chinês. Entre palmas mais ou menos sinceras, deveriam haver os que pensavam "bolas, estou lixado", enquanto outros diziam com os seus botões "boa, agora é que aquele gajo se lixou". Tem sido um pouco assim, nessa "transparência opaca" que se tem situado o partido único na China, onde já nem vale a pena negar a existência de cisões internas. Todos os partidos têm cisões, e depois? Aqui é diferente, pois a pedra basilar do PC chinês é, ou foi, a sua unidade. Como em quase tudo o que fazem, os chineses são radicais: ou todos concordam, ou ninguém se entende, e quanto mais perdura uma situação, mais abrupta é a mudança para o seu oposto. O problema é essa droga do poder, a única pior que o ópio, e que se torna ainda mais perigosa pelo facto de apenas poder ser consumida em exclusivo; o poder é uno, indivisível, e mesmo que se diga que está repartido por dez, vinte ou mil, haverá sempre aquele se considera a trave-mestra do poder.

Tem sido esse o problema de muitas revoluções e golpes de estado em todo em mundo. O ideal é que os militares, os únicos capazes de decidir a queda de um regime pela força, tomem o poder, e de seguida chamem a sociedade civil a convocar eleições, restituindo assim a democracia - isto nos exemplos em que a mudança se dá da tirania para a democracia. Em muitos casos dá-se o inesperado: o poder cai nas mãos do exército, e o líder da revolução considera-o um bem demasiado precioso de o deixar nas mãos de outro ou outros, enfim, os que ao contrário dele não arriscaram a pele para mudar o que estava mal. O pretexto para se agarrar ao poder pode ser qualquer um, desde a fragilidade do sistema, um ataque iminente da parte do inimigo, uma população mal preparada para decidir os destinos da nação, mil e uma coisas. E assim vai-se segurando o poder, adiando eternamente a sua partilha, criando cada vez mais insatisfação, exercendo cada vez mais opressão, fomentando cada vez mais a corrupção.

Quando cheguei a Macau tinha 18 anos, o que vale por dizer que não sabia nada da vida. Nasci meses depois da Revolução dos Cravos, portanto cresci em liberdade e tenho uma memória muito vaga dos tempos de indefinição democrática que o nosso país atravessou até à entrada na União Europeia, então chamada de CEE. Para os portugueses aquilo era como se tivessemos atingido um "karma" civilizacional, o supra-sumo da modernidade. Para mim o terceiro mundo era qualquer coisa menos aquilo, e quando ouvia falar de "corrupção" imaginava tipos de cartola e charuto sentados numa poltrona com um gráfico dos lucros subir pendurado na parede, sempre em curva ascendente, enquanto pela janela se viam os bairros de lata para onde o dinheiro que o gato gordo açambarcou deviam ter ido. Nesses bairros viviam viúvas e orfãos, que passavam o dia a pedir esmola na beira da estrada com o corpo coberto por trapos, e de vez em quando passava perto deles um Bentley, por cima de uma poça de lama que os deixava ensopados da cabeça aos pés, e lá dentro vinha o ricaço, a rir-se com gosto, sempre com o charuto entre os dentes. Sim, penso que já fui comunista. Mas depois passou-me, não se preocupem.

Quando somos jovens e idealistas há coisas que nos causam espécie e pensamos que não conseguiremos ser felizes enquanto não acabarem com elas: a pobreza, a fome, e lá está, a corrupção. Mais tarde aprendemos que estas coisas existem porque sem elas não conseguimos realizar a nossa própria felicidade; como vamos saber se somos realmente felizes sem um infeliz qualquer ao nosso lado para servir de termo comparativo? É por isso que o comunismo não resulta: como pode ser que todos tenham exactamente o mesmo? É aí que chegamos à conclusão que o mundo é uma merda, que os idealistas querem um Mercedes para se calarem, e os outros que não querem um Mercedes querem outra coisa qualquer, tipo...gajas, é isso. Os americanos sorriem-nos e dizem com aquela cara de idiotas: "é o liberalismo, amiguinho; a lei do mais forte". É isso! O mundo é uma metade a tentar comer a outra, e a metade mais pequena é maior que a metade maior - chama-se "mercados". Aprendi a lição, e agora cada vez que dou com um jovem de 18 anos como eu fui um dia a dizer-me que quer "mudar o mundo", digo-lhe com ternura enquanto lhe sorrio cândido: "espera mais dez anos, depois é um filho da p...como toda a gente". E isto era sobre o quê, mesmo? Ah sim, corrupção. E a China.

Pois, eu cheguei cá e falava-se muito de corrupção. Discutia-se a corrupção. Existia o CCAC - e era uma coisa mais ou menos recente, ainda estavam a decorar o escritório. Assistia a um vaivém de dinheiro frenético, cem patacas para aqui, cem patacas para ali, envelopes com duas ou três notas de cem, às vezes uma de quinhentos. Era raro gastar uma nota de mil, que para mim naquele tempo ainda eram vinte contos. Numa dessas passagens de testemunho vi um envelope vermelho com os desenhos sugestivos, de dois meninos reconchudos em cima de um pêssego maior que eles, e recordo de me explicarem que isto era um tipo de envelopes que davam aos noivos no casamento, conhecidos por "lai-si". Perguntei ao tipo se "tinha casado", e ele soltou uma gargalhada e disse-me que "não". Fiquei sem entender, até que alguém me explicou que eram "luvas". "Luvas?!?! Que disparate!", exclamei eu, "sei muito bem o que são luvas". Chegou o Natal, o primeiro Natal em Macau, e chegavam às repartições cestas e cestas cheias de doces, frutos secos, vinho, whiskey, mil e uma coisas. Diziam-me para "tirar o que eu quisesse", o mesmo que diziam a todos. Escolhia sempre aqueles bonbons com recheio de licor, que em Portugal era algo tido como um produto de luxo, que não era para todas as bolsas. A naturalidade com que aquilo se fazia deixava-me a pensar: "será que me enganei, e o Pai Natal existe mesmo?".

Entretanto fui à China pela primeira vez. Atravessei as Portas do Cerco e lá estava eu, no gigante comunista, o país mais populoso do mundo. Era apenas Gongbei, o distrito de Zhuhai mais próximo da fronteira com Macau, mas era como se tivesse atravessado um portal para outra dimensão. Como era tudo diferente, e a primeira coisa que se senti foi que precisava de rever aquela noção de "paraíso socialista", que não era ali com toda a certeza - devia ser mesmo em Cuba, afinal. Caminhos de gravilha, crianças descalças, lojas que vendiam aparelhagens estereo que deixavam aos berros, um cenário meio caótico, abaixo das minhas piores expectativas (era um optimista, note-se). Reparei sobretudo nas autoridades, e tirei uma foto com dois soldados que estavam sentados numa loja de cigarros. Achei curiosos os seus uniformes, que pareciam vários números acima dos seus. Almoçámos num restaurante já em Zhuhai, a vinte minutos de autocarro de Gongbei, no primeiro andar de uma espécie de loja de aparelhos electrónicos que vendiam uns tais "CDs piratas". A nossa amiga chinesa, que serviu de cicerone, perguntou-me se eu queria "filme pirata". Respondi-lhe que não era o meu género, não gostei do "Hook" e ainda estávamos a uns dez anos da série "Piratas das Caraíbas".

No restaurante notei o esforço para que se desse um aspecto distinto, e tirando o papel de parede vermelho descolhado aqui e ali ou o uniforme amarrotado dos empregados, não tinha assim tão mau aspecto. A comida estava dentro das expectativas, e reparei nas empregadas de mesa, fato escuro, cabelo apanhado, maquilhagem perfeita, tudo a fazer lembrar o estereótipo das chinesas dos filmes que via no Ocidente. No entanto notei as meias que usavam, que destoavam um pouco do "boneco". A amiga chinesa riu-se e disse-me então que aquelas meias "eram do trabalho", e custavam "uma pataca". Disse-me ainda que aquelas meninas ganhavam "entre 100 e 200 patacas por mês". Que diabo, mais do que isso gastava eu numa noite em Macau, e sem dar por isso. "Como é um país comunista têm tudo o que precisam, para quê ter dinheiro", pensei eu ingenuamente. Poucos anos mais tarde soube que o então presidente Jiang Zhemin auferia um vencimento mensal de 2500 renminbis. "Espantoso, ganho pelo menos seis vezes mais que o presidente do país mais populoso do mundo", seria o que tinha pensado, se já não fosse tão ingénuo.

Sempre tive uma noção de corrupção muito própria, muito séria. Corrupção era qualquer coisa em grande, um crime pior que o homicídio. O empresário que suborna outro para ganhar a licença da construção de uma escola, enquanto entre as empresas excluídas do concurso há uma que vai à falência, deixando milhares no desemprego; o empreiteiro que "emenda" do orçamento de uma ponte, usando materiais de pobre qualidade e guardando na diferença no bolso, e um dia a ponte cai matando centenas de automobilistas, que caem com os seus veículo dento do rio; o gerente de um supermercado que muda as datas da validade dos produtos, e vão parar dúzias de criancinhas ao hospital. Entretanto via os envelopes a passar, as pontes não caíam por causa disso, e deixei de pensar na peça de vestuário que agasalha as mãos quando oiço falar de "luvas". O tal CCAC anunciou um dia que só são permitidas gratificações "até 499 patacas", e mais do que isso seria "corrupção". Interessante. a importância de uma pataca. Fui ver a quanto andavam os bonbons de licor, e suspirei de alívio que poderia levar até duas caixas, caso me fosse dada a oportunidade.

E fui voltando à China mais amiúde, onde aprendi que as declarações de rendimentos devem ser a versão chinesa do teatro de revista - toda a gente ganha menos que aquilo que eu pagava à minha empregada. Uma garrafa de Möet & Chandon custava um orçamento familiar. Cada vez me convencia menos que se dava alguma coisa a alguém à luz do socialismo vigente, e as folhas de vencimento eram apenas isso: folhas. Os restaurantes estavam cheios, bem como os centros comerciais, e a fazer fé nos rendimentos declarados, aquilo era coisa para deixar ali um salário numa tarde de compras. Mais recentemente conheci um tipo que me dizia que "têm muita sorte", vocês em Macau; eu sou juíz e ganho 5 mil renminbis". E depois fomos jantar no seu Audi novo. Podia ter-lhe perguntado se comprou a "bomba" com um plano de pagamento em 1200 prestações suaves, mas para quê estragar o que está bem feito? Eu não me queixo. A realidade é que num país onde vigora uma Constituição de base marxista-leninista, é difícil declarar valores que sejam tão díspares - vai contra a ideologia socialista, mesmo que na Conferência Consultiva do Povo Chinês estejam sentados milionários com fatos Armani, e não operários e camponeses, como Mao um dia idealizou.

E a corrupção, como é? "Que palavra tão feia, menino" - explicaram-me finalmente um dia - "aquilo é o óleo que faz andar a máquina". Óleo? Máquina? Será que está tudo louco? Ora essa, então os camaradas trabalham no Governo e ganham duas ou três mil patacas por mês? Como é que vivem com esse dinheiro? Claro que não vivem., os camaradas precisam de "óleo" para fazer a máquina andar. E então quer dizer que...nada disso, "oferecem" o óleo, e este é costume tão antigo que se perde na memória do tempo. É uma troca, um acordo de cavalheiros, e se o rapaz recusar, não está a dar "face" ao requisitante. Interessante, isto do óleo. Talvez o CCAC ganhasse mais em ir para a China aprender qualquer coisa sobre "corrupção" e "óleo". Aqui andam a perder tempo a apanhar funcionários que enganam no registo de assiduidade, e espertalhões que fazem moscambilha com cupões de gasolina. Ninharias. É a isso que chamam corrupção? E houve tempos em que cantaram de galo, pois após uma "pesca grossa" que apanharam vai para sete anos, têm andado muito maneirinhos.

Mas e o combate à corrupção que Xi Jingping no seu plano para a presidência da China? Agora o Procurador Supremo do Tribunal Popular garantiu protecção legal a quem denuncie casos de corrupção. Hmm...perigoso, pois ainda no ano passado um colega meu blogger de Cantão escorregou no óleo e foi parar ao hospital muito mal tratado. Queixinhas é feio, e será que é para levar o combate a sério? De facto há camaradas que "abusam do óleo", e depois encontram-se autênticas grutas do tesouro nas caves das suas casas. Mas e a malta que depende deles? Por cada 100 milhões que um "viciado em óleo" subtrai, há outro tanto que vai para os rapazes do carimbo levarem as namoradas ao cinema, ou para outros pagarem as prestações do Audi. Se os camaradas forem "dentro" ou levarem com um balázio na nuca, quem é que dispensa o "óleo"? E a ideia era...ah, recuperar a confiança no partido. Como o nome indica, parece que será preciso mais que óleo e cola para voltar a juntar as peças.

Isto é Lusofonia



É isso aí, meu povo! Primeiro deixem-me agradecer ao Miguel Senna Fernandes, autor desta "chapa" tirada no segundo dia do Festival da Lusofonia, onde estão representadas praticamente todas as valências desse encontro de irmãos. Da direita para a esquerda estou eu, Leocardo (um vosso servo), Pedro Crespo (close to Leocardo, but no cigar), a sua esposa Nesmie Guerrero, o sempre bem disposto José Carneiro da Silva, vulgo "Carneirinho", craque da bola, sambista, gente de bem, e finalmente Sara d'Abreu, irmã de Leocardo e do irmão do Leocardo. Como pano de fundo está a tenda da Guiné-Bissau (este ano senti falta do caldo de chabéu, malta), e Macau "as location", portanto estão representados todos os continentes da Lusofonia. "Falta Timor-Leste!", dirá o leitor mais picuinhas. Pois falta, mas apesar de  ser natural das Filipinas, a Nesmie aceitou representar o povo mauber nesta ocasião. Embrulha! E dá-lhe, Lusofonia!

N does not stand for "Nazi"...or does it?



Andava à procura de um pretexto para falar disto a algum tempo, mas durante uma das minhas incursões pela "concorrência", deparei com este post do Blogue do Firehead, da autoria do meu camarada Hugo Gaspar, que nos fala de um vídeo propagandístico do British National Party (BNP), um partido da extrema-direita do Reino Unido, conhecido pelas suas posições anti-emigração, anti-islão, etc.,etc., o mesmo que todos os partidos de extrema-direita por essa Europa fora. Achei estranho não ter ouvido nada sobre a alegada censura deste vídeo pela BBC, e só depois de uma busca na net percebi que essa censura reporta-se a Abril deste ano, portanto já lá vão seis meses. Não é também nenhuma novidade, pois é amiúde que os vídeos do BNP são censuradas pelas mais diversas razões, e neste caso particular usaram a imagem do soldado britânico Lee Rigby, assassinado no ano passado por extremistas islâmicos, para ilustrar o seu descontentamente por aquilo que consideram uma "descaracterização do Reino Unido" - e fizeram-no sem autorização da família de Rigby. Entre os que estão habituados à retórica vazia dos nacionalistas britânicos e os indiferentes, entre as vozes indignadas estavam também simpatizantes do partido. Isto explica desde logo a "censura" da BBC, que neste caso não teve outra alternativa.

No entanto reconheço alguma razão do BNP na sua mensagem, em algumas das suas posições, e até na sua vertente ideológica, o problema é que se perde no meio de tanta fantochada. É claro que um país deve manter as suas características culturais, e vá lá, "étnicas", valendo isso o que vale, e nem faz sentido abrir aqui discussões sobre "pureza", sendo nós portugueses o resultado do cruzamento dos inúmeros povos que ocuparam a Península Ibérica, para não falar dos que são descendentes de estrangeiros, cuja herança genética se perde sabe-se lá onde e quando. É um facto que a emigração deve obedecer a regras específicas, e não se deve deixar entrar "toda a gente". Duvido que algum estado que se preze cometa tal desfaçatez; se entram elementos perigosos pertencentes a grupos extremistas ou terroristas não será com convite nem carta de recomendação. Esse tem sido o pretexto do BNP, e logo aí percebe-se que assentam num pressuposto de desonestidade. Ao alterarem o discurso que serviu de génese à sua própria criação, acrescentam a isto o facto de serem hipócritas.

Por alguma razão o mais recente UKIP (Partido Independente) conseguiu cativar o eleitorado, tornando-se o primeiro partido além de Trabalhistas e Conservadores a vencer uma eleição no Reino Unido, conquistando 24 dos 73 lugares no Parlamento Europeu, contra 20 dos primeiros e 19 dos últimos. O sucesso residiu sobretudo na prevalência da posição euro-céptica, muito popular entre os britânicos, sobre as bafientas conspirações que culpam os emigrantes por tudo e mais alguma coisa. O mesmo sucedeu com a extrema-direita noutros países, casos da Áustria, Holanda, e surpreendentemente a Grécia, que optaram por discursos mais protecionistas e menos pela via da culpabilização de emigrantes pelos fenómenos do desemprego ou da criminalidade. Os emigrantes vêm para trabalhar, é normal, e não é definitivo que o problema da criminalidade seria resolvido com políticas anti-emigração. Imaginem que até a Marine Le Pen "baixou a bolinha", demarcando-se da cacofonia do papá, e com resultados que se vêem. Mais votos venham, e ela ainda aparece abraçada a um argelino. Seria engraçado, se não fosse pelo facto da popularidade destes partidos de índole populista variar conforme os ciclos económicos; portanto logo que a economia voltar a arrancar, ficam eles a morder o pó.

E para fim deixo o verdadeiro problema com estes vídeos do BNP: são dirigidos a quem, exactamente? Crianças do jardim de infância ou atrasadinhos mentais? Desenhos animados...tudo muito bem explicadinho, não-sei-quantas vezes e devagarinho, e no fim sempre a mesma mensagem. Tudo bem, já entendemos que o (vosso) problema são os emigrantes, e vamos ignorar a vossa teoria de que aparecem por "maldade", mas e agora, soluções? Alternativas? E também outra coisa: se quiserem livrar-se do epíteto de "neo-nazis" ou "nazis", não ajuda nada se entre os vossos membros tiverem grupos que organizam manifestações NAZIS e se auto-intitulam NAZIS. Imaginem que existe uma fatia significativa do eleitorado que se interessa por proteger os interesses do Reino Unido, não simpatiza com emigrantes mas rejeita ser conotada com os nazis? Se há? Há pois! E vota no tal UKIP.

terça-feira, 28 de Outubro de 2014

O meu gosto e o mau gosto



O Club Cubic, um espaço de entretenimento nocturno situado no City of Dreams no COTAI, na ilha da Taipa, Macau, e onde nunca pus os pés, está a ser criticado devido à festa de Halloween que vai realizar esta sexta-feira sob o tema "School Massacre". A entrada é livre para as senhoras e/ou meninas, enquanto os cavalheiros e os chungosos terão que dispensar 250 patacas, e tudo para uma noite onde se assinala o início do tríduo de Allhallowtide. "Assinala o quê? Lá está o Leocardo outra vez armado em intelectual" - estará agora a pensar (?) o embrutecido leitor para quem chamar alguém de "intelectual" é pior do que dizer mal da mãe. Se fossem guardar as (raras) vezes em que "pensam" para ir aprender qualquer coisinha de vez em quando, percebiam que nada acontece por acaso, e que o tal "Halloween", ou "Noite das bruxas", em português, não é "uma festa qualquer" que acontece "porque sim" ou porque "apeteceu a uns gajos" fazer. É um tríduo (período de três dias) onde se comemoram os mortos e os mártires nas religiões cristãs ocidentais, e culmina no Dia de Todos os Santos. Outros tríduos incluem o Pentescotes, as Rogações e a Páscoa. Já ouviram falar da Páscoa? Ai foi? Parabéns, olha que amores, tomem lá um doce. Coelhinho e ovos de chocolate ou a morte e ressurreição de Cristo? As duas coisas, claro. Desculpem estar a confundir essas cabecinhas pequeninas mas essa explicação fica para a altura apropriada, quando eu falar nisso pela enésima vez.

Este Halloween é uma festividade com origens milenares e pagãs, e começou a ser comemorada entre os antigos celtas, que acreditavam na visita dos espíritos por altura do fim das colheitas e em vésperas do Inverno, o que explicando detalhadamente daria para fazer quase um ensaio. Mas muito resumidamente esta tradição baseia-se na crença de que fazendo troça das almas penadas, imitando-as ou recriando um ambiente semelhante ao seu (o dos infernos, etc.) estas ficariam baralhadas e davam meia-volta de regresso ao outro mundo - um pouco semelhante ao "mês dos espíritos" no calendário chinês. A tradição foi exportada pelos pioneiros europeus para o novo continente, e terá chegado à América logo a bordo do "Mayflower". Os americanos, que são conhecidos pelo seu lado muito "spectacular, oh yeah", pegaram na tradição e deram-lhe uma nova roupagem, ao estilo "hollywoodesco", e transformaram o Halloween em mais uma máquina de fazer dinheiro. E nem precisaram de inventar nada, pois até os "trick-or-treats", onde os mascarados vão bater à porta de desconhecidos pedindo-lhes doces ou outras goluseimas ou caso contrário partem-lhes as janelas ou enforcam-lhes o gato, é inspirado num costume das terras altas da Escócia chamado "guisling", onde os adultos davam aos mais novos doces, e em troca estes faziam orações em seu nome ou em nome dos seus falecidos. Sendo esta uma tradição cristã de confissão anglicana, não tinha grande impacto nos países de maioria católica, mas começou a espalhar-se primeiro no México e Brasil, depois até à Europa continental e finalmente à Ásia (não sei como estamos de Halloween em África).

A festa da próxima sexta-feira do Cubic chegou ao New York Daily, que na sua edição do Domingo fala da "indignação" causada pelo vídeo que anunciava o evento (entretanto retirado do YouTube) onde se fazia referência a certos filmes de terror onde normalmente o cenário é a escola e os alunos são metodicamente cortados às postas por um misterioso mascarado que blá, blá, blá, o resto é tão previsível que até mete dó, e na vida real não daria para entender como é que mesmo sabendo que existe um homicida maníaco a esfolar crianças numa escola, não se evacua o seu perímetro, encerrando-a e suspendendo todas as actividades enquanto as autoridades não descobrem o responsável? Aquilo que mais chocou alguns foi o facto das imagens "fazerem lembrar" (não sei, não vi o vídeo) alguns recentes episódios ocorridos nos Estados Unidos e na China, o que revela "insensibilidade" e "falta de respeito" por porte dos seus autores. Ora bem, concordo, têm o meu apoio. Pela mesma lógico EXIJO que não se comemore mais o Dia de S. Valentim, em memória das vítimas do massacre de Chicago em 1929, e façam o favor de suspender o Natal já este ano, por respeito aos mais de 400 mortos nos incidentes da República Democrática do Congo em 2008. Vamos lá a ser justos; ou comem ou todos ou não há nada para ninguém. Pois é, estou a ser cínico, mas não é este exactamente o mesmo critério que está aqui implícito?

A questão aqui não é tanto que se comemore o Halloween, que é uma celebração - e agora deixemos de lado o seu significado ou origem - que não nos diz nada. O problema é a ignorância e o seguidismo desta juventude, que vai facilmente atrás de qualquer coisa onde haja festa, bebida e se proporcione um ambiente de deboche e luxúria. Para mim não tem importância que um maluco qualquer escolha determinada data para satisfazer os seus intentos criminosos, porque como diz muito bem o povo "por morrer uma andorinha não acaba a Primavera", e tanto pode ser aquele dia como outro qualquer. O que deviamos mesmo pedir era mais responsabilidade a Cubics e afins na hora de realizar os seus propósitos (lucrativos, e coisas como o Halloween são um bom pretexto), e que tenham em conta o que pensam os consumidores do mercado onde estão inseridos. Quanto aos jovens que participam destas festas, o Halloween é apenas um tema como outro qualquer para ilustrar a paródia, mas tentem lá saber qualquer coisinha sobre o seu significado, e depois analisem perante aquilo que vocês são, no que acreditam (se acreditam em alguma coisa...), acham certo ou errado, e não se esqueçam no outro Sábado há outra vez farra, seja Halloween ou outra coisa qualquer. Não se preocupem que não estou aqui a insinuar que só por irem à festa têm que cumprir a totalidade dos rituais do tríduo e no Domingo são obrigados a ir pôr flores aos antepassados no cemitério. Nada disso. Sejam é um bocadinho mais conscientes, senão qualquer dia ainda vos vejo a marchar numa parada nazi "porque há animação e gajas boas (ou gajos giros, depende)". Sejam vivos, agora que se comemoram os mortos.

Premier League - 9ª jornada



Mais uma ronda da Premier League inglesa, a nona, que terminou a vitória do Queen's Park Rangers sobre o Aston Villa por 2-0, e iniciou-se com a visita do campeão Manchester City ao Boleyn Ground, em Londres, onde perdeu por 1-2 com o sensacional West Ham, que ocupa o 4º lugar da tabela. A equipa de Sam Allardyce, o carismático "Fat Sam", chegou a vulgarizar o adversário, que sentiu a falta do organizador Frank Lampard, excluído por lesão. O francês Morgan Almatafino marcou o primeiro dos "hammers" aos 21 minutos, e aos 75 o senegalês Dider Sakho fez o segundo, para dois minutos depois o espanhol David Silva reduzir para os visitantes. Pouca e tarde demais, e assim os londrinos somam a terceira vitória consecutiva, impondo ao City a primeira derrota fora.



No St. Mary's Stadium, mais conhecido por The Dell, o Southampton recebeu e venceu o Stoke City por 1-0, com golo do senegalês Sadio Mané, aos 33 minutos. Uma partida que em teoria seria entre duas equipas da segunda metade da tabela, mas que deixa o Southampton isolado no 2º lugar da liga, aproveitando assim a derrota do City em Londres. A equipa orientada pelo nosso conhecido treinador holandês Ronald Koeman, e onde o defesa português José Fonte é titular indiscutível, começou a temporada com um empate e uma derrota, mas seis vitórias nos sete encontros seguintes (incluíndo um 8-0 na ronda anterior frente ao Sunderland) deixam os "saints" numa situação pouco habitual para os seus pergaminhos, apenas com o Chelsea à sua frente.



O Arsenal, que vinha de cinco empates em oito jornadas aproveitou a fragilidade do Sunderland, derrotado a semana passada por oito golos sem resposta pelo Southampton para ir vencer no Stadium of Light por 2-0, com ambos os golos a serem apontados por Alexis Sanchez, aos 30 e aos 90 minutos. Os "gunners" aproveitaram ainda o empate caseiro sem golos do Liverpool frente ao Hull City para subir ao quinto lugar, a par dos "reds" e ainda do Swansea, que vencia o casa o Leicester por 2-0. No outro jogo realizado no Sábado deu-se o empate a dois golos entre o West Bromwich e o Crystal Palace.



No Domingo a ronda começou com a vitória do Everton por 3-1 no reduto do lanterna-vermelha, o Burnley, que valeu aos "toffees" a entrada no top-10 da tabela, e a seguir o Newcastle foi a White Heart Lane vencer o Tottenham por 2-1, somando a segunda vitória da época, e também consecutiva. O jogo grande desta nona jornada foi em Old Trafford, onde jogaram Manchester United e Chelsea. Didier Drogba marcou para os "blues" aos 35 minutos, mostrando a Mourinho que ainda é uma mais valia nos londrinos, e só nos descontos Robbie Van Persie empatou para os "red devils", que apesar do quarto jogo sem perder continuam num modesto 8º lugar, a dez pontos do líder.

Classificação (dez primeiros):

1 Chelsea 9 +15 23
2 Southampton 9 +15 19
3 Manchester City 9 +9 17
4 West Ham 9 +5 16
5 Arsenal 9 +4 14
6 Swansea 9 +3 14
7 Liverpool 9 +1 14
8 Manchester United 9 +3 13
9 Everton 9 +2 12
10 Hull City 9 +0 11

segunda-feira, 27 de Outubro de 2014

Patriolítico



Quando ouvimos falar de "educação patriótica", vem-nos de imediato a cabeça a imagem de um passado recente que preferimos tentar esquecer: o Estado Novo, o Salazarismo, e a sua trindade "Deus, Pátria e Família", e se no caso dos outros dois é dificil encontrar um substituto à altura, os rigores da ditadura de índole corporativista deixou-nos divorciados da palavra "pátria", tal como de outras, casos de "nação", "luso" e até do próprio nome do nosso país, "Portugal", inserido em certos contextos. O que a ladaínha do rústico santacombadense pretendia alcançar era um sentimento de pertença a um todo que ele idealizara como "mundo português" (que foi tambem o nome de uma exposição temática realizada em Lisboa em 1940) e em nome dessa vontade recusou abrir mão das colónias ultramarinas, que chamava de "províncias", equiparando o Minho e o Alentejo a Timor ou Angola, deixando o pais no isolamento, o que também foi desvalorizado com recurso ao eufemismo "orgulhosamente sós" - pelo menos havia quem se orgulhasse de tal. Os mais velhos que eu pelo menos uma dezena de anos devem certamente recordar-se da retórica com que foram "vacinados" logo no ensino primário, e dos conceitos de família como o elemento nuclear da sociedade, o Estado como entidade gestora desse conjunto, com Deus, e apenas Deus acima de todos. Não tenho a certeza se algures num dos livros escolares desse tempo se lia que Deus aprovava o Chefe do Conselho, mas a ideia que se deixava implícita era basicamente essa.



Mas também nos restantes regimes totalitários, de ideologia marxista-leninista, a educação patriótica foi utilizada como meio de propaganda, de modo a mentalizar desde muito novos os jovens e futuros adultos a ter em elevada consideração e estima essa imagem de "Pátria", atribuindo-lhe qualidades muito acima do seu mero valor abstracto. Estaline e a URSS foram os pioneiros nesse estilo que se destacava pelo elevado rigor artístico; quer na música, cinema, cartazes propagandísticos, literatura ou qualquer outra expressão, era notório o esforço em cativar o receptor, e assim transmitir a mensagem ao mesmo tempo que se despertava com entusiasmo o sentido patriótico. Depois de Estaline foram a China de Mao e a Coreia dos Kim quem melhor aproveitou a ideia. As temáticas nao divergiam muito conforme o regime: exacerbar os feitos heroicos da nação, omitir os erros ou atribuí-los aos inimigos, demonizar esses inimigos, aqui quase sempre com os Estados Unidos e o Japão a cabeça, e eventualmente o Ocidente em geral, representar um povo feliz e grato pela revolução do proletariado e elevar o líder da nação a um estatuto quase divino - o tal "culto da personalidade", uma estratégia que visava consolidar o poder. Estaline optou por fazer passar a imagem do grande chefe de uma família numerosa unida pela URSS, o "pai dos povos", enquanto os Kim atribuiam a si mesmos poderes sobrenaturais, como a imortalidade ou a cumplicidade com a natureza. Já quanto a Mao, este conseguiu levar ao extremo esta ideia do "culto da personalidade", ao lançar nos anos 60 a Revolução Cultural. A ele atribuía-se quase tudo de positivo, desde o arroz na mesa ao nascer e o pôr do sol ou à reprodução das espécies - uma transe colectiva que ainda hoje está por explicar com mais precisão. A própria ópera de Pequim chegou a ser substituída por uma versão patriótica, e é com algumas reservas que os chineses modernos olham para tudo isto que se insere no conceito de "educação patriótica", a que olham como uma espécie de "vaca sagrada". Os próprios campos de reeducação pelo trabalho, autênticos campos de concentração onde se castigava a desobediência sem recurso a julgamento, são vistos como uma forma extrema de educação patriótica.



Já aqui expliquei que tenho uma espécie de problema mal resolvido com esta expressão, "amar a Pátria". Talvez seja um conflito entre o sentimento de afeição que a palavra "amor" implica e o objecto desse afecto. Além do amor carnal e da sua expressão física, temos o amor fraternal, que se sente pelo próximo, e aqui podemos incluir os pais, os irmãos, os filhos e os amigos, ou o amor espiritual, que julgo ser onde a "pátria" se classifica para os autores do conceito. Poderia entender isto como a mesma coisa que o amor às belas-artes, a um clube desportivo, e aqui por vezes mistura-se o amor com a paixão, qual dos dois o mais irracional, ou o amor aos valores que todos prezamos sem que para isso seja preciso sermos ensinados ou aprender a gostar, casos da liberdade ou da vida, por exemplo. E é aqui que reside a grande falácia da educação patriótica; quer nos exemplos de Salazar quer de Mao, ou nos outros que mencionei e onde existe um forte pendor totalitarista e autoritário, o aspecto militarista tem uma importância decisiva - é ao exército que cabe defender a soberania da nação, e por inerência a esta o próprio regime, que sendo neste caso autocrático e não necessita do apoio popular, tem que contar com seu braço armado, deixá-lo satisfeito, ou arrisca-se a vê-lo virar-se contra si - quem quiser o poder necessita sempre do exército, e a lealdade deste depende de muitos factores.



Posto isto, um dos fins a que se propõe esta educação patriótica e o seu anexo "amor à Pátria" é o de convencer o seu público-tipo (os jovens) de que é o seu dever "dar a vida pela Pátria", seja isso necessário. Em estados onde não há democracia e por isso o Governo não deriva da vontade popular isto é uma prática tida como "normal", enquanto nas democracias minimamente funcionais seria considerado suicídio político. Na China foi chão que deu uvas até se dar o milagre económico, agora é encarado como uma patetice. Claro que os chineses são patriotas, pouco tolerantes ao desaforo, mas isso quando atingem o seu país; com o partido é outra história - quem são estes tipos para que eu vá morrer por eles. E de facto numa era onde já não há heróis e a informação circula de uma ponta à outra do planeta, não há sequer a hipótese de um careca esconder a careca; o que é, é, e o que não é não entra na contabilidade. Eu próprio sou alérgico a essas definições de traição, sedição, secessão e quejandos que constam da tal lei que o artº 23 da Lei Básica produziu, que mesmo sabendo que não me são dirigidos, não os aceitaria de qualquer jeito: nunca morreria "pela Pátria", nem a minha nem qualquer outra, nunca combateria numa guerra qualquer mandado pelos tipos que depois ficam com o rabo sentado nos gabinetes ou nos quartéis a "delinear estratégias" como se as pessoas de carne e osso fossem peões num tabuleiro de xadrez. Nada contra as pessoas que tiveram familiares caídos em combate, ou que ainda vivas sofreram pela sua autonomia e pela liberdade do seu povo, mas o meu país é onde eu me sinto melhor. A "Pátria" nao é mais senão um espaço físico-político, o hino e a bandeira são símbolos, e como tal têm esse valor apenas: simbólico. Não me atrevo a julgar ou a fazer pouco das pessoas que choram quando ouvem o seu hino ou vêem icada a bandeira do seu país porque não as entendo, não percebo essa reacção. Entao quer dizer que "respeito", pelo menos? Não, e também não condeno: não entendo.



Na semana anterior à última, mais precisamente no dia 17, se não estou estou enganado, dois deputados da AL em Macau sugeriram que se devia introduzir nas escolas do território essa disciplina de educaçãao patriótica, de forma a promover entre os mais jovens o tal "amor a patria". Isto no seguimento dos recentes incidentes que tiveram como palco Hong Kong, e onde o movimento "Occupy Central" chegou a contar com um apoio significativo da populacao no sentido de exigir de Pequim maior autonomia para a regiao, e de um modo geral, de forma imolicita, uma maior abertura da parte do regime e a implementação de reformas democráticas. Os deputados em questão receiam que o mesmo pode vir a suceder-se em Macau, e para evitar que tal aconteça nada como começar por recordar os mais jovens de que devem lealdade ao seu país, e por inerência ao Estado, pois quaisquer investidas contra o princípio fundamental onde assenta a Patria, a sua unidade, pode colocar em risco a sua propria existência como entidade soberana, e assim arrisca-se não só ele a perder essa identidade, mas colocar em risco a identidade dos seus compatriotas, que se orgulham da Pátria, valorizam o seu carácter uno, e não pensariam duas vezes em dar a vida em nome desse ideal. Quem entende isto desta forma, é claro que só pode estar a querer demonstrar que ele proprio é um verdadeiro patriota, um daqueles "as antigas", mas ao sugerir tal medida apenas com o carácter preventivo, dá a entender que esta a dar aos miudos um "puxão de orelhas" adiantado, e passar a mensagem que "de onde veio esse há mais". E no fim de contas é passar um atestado de inaptidão intelectual aos jovens de Macau; não estamos aqui a falar de uma aldeia no interior da China, perdida nas montanhas e isolada do mundo, onde a pouca informação que chega é submetida a uma rigorosa triagem, e uma população receptiva a acreditar em tudo o que alguém com o mínimo de autoridade lhes queira fazer crer.



É que actualmente os conceitos outrora ensinados no contexto da educação das massas, das ditas classes operárias e dos camponeses, caíram para a classificação de "kitsch", que não deixando de ter o seu encanto, ou até algum valor nostálgico, não têm qualquer expressão nos tempos que correm. Como é que se vai incutir na juventude moderna este tipo de valores? Perguntem a qualquer miúdo chinês se lhe derem a escolher entre uma bandeira da China e um iPhone 6 novo, qual ele prefere. E onde se insere aqui o discurso de que tudo deve ser ponderado de acordo com critérios científicos, quando se atribuir à Pátria características quase humanas, tentando personificá-la? Quando Pequim tentou introduzir este conceito em Hong Kong de modo a "endireitar o mau aluno", a ideia foi muito mal recebida, e dos protestos nasceu a lenda, Joshua Wong, o tal activista em ponto pequeno, um dos fundadores e actual líder do escolarismo. Se não serviu para a RAEHK e até teve efeitos preversos, o que leva estas pessoas a pensar que serve para Macau? A educação patriótica é como uma mézinha do tempo dos nossos avós que requer horas a preparar e de eficácia duvidosa, enquanto se pode adquirir na farmácia um medicamento genérico que actua em minutos com resultados garantidos. O pior é obter a receita médica, pois até os mais novos, e com toda a certeza a maioria dos seus pais, têm consciência de que a actual classe dirigente tem ela própria muito que aprender no que toca a fazer sacrifícios em nome do "amor à Pátria". Isto sem querer estar a referir estes dois deputados em particular, mas não deixa de ser curioso que um deles tenha parcerias na área dos negocios com os japoneses, um dos "vilões" segundo os currículos da educação patriótica. Assim sendo, na eventualidade de insistirem em levar para a frente esta ideia (o que eu duvido), ainda se arriscam a ouvir dos jovens que pretendem "educar": "Amor à Pátria? OK, o que é que queres que eu te ensine?"


UniverXXXity



Muito bem, meninos e meninas, estão prontos? Trouxeram camisinhas que cheguem? E frascos de "lube" da Durex, K.Y, iguais ou superiores? As meninas não estão de regras pois não? Se estão não faz mal, que nesse caso ficamos acima do equador. Entra a música do genérico, reconhecem certamente de algum filme pornográfico - ou de todos - e começa a acção. Para cima, para baixo, ao som do contrabaixo, para baixo, para cima, ao som da concertina. Estejam à vontade para editar as partes "mortas", ou simplesmente passar à frente; a representação não é lá grande coisa, e os diálogos ainda pior. E como vamos chamar a esta obra-prima da "séxtima" arte? E que tal "As vaginas do sr. reitor"? Hmmm...muito denunciado, e a referência é demasiado literária. E se lhe chamarmos "Eu Zhao me vim"? Na, que piada mais sem graça. "Ilha da Montada"? "Montada na ilha"? Essa já foi feita no artigo de sexta-feira, vá lá, puxem pela imaginação. Tem que ser um nome comercial, algo com que toda a gente se identifique, e faça uma pequena ideia do que pode esperar, mas sem...já sei! "UniverXXXity"! Perfeito! Mandem para a gráfica e fiquem de olho no tipo que vai editar a capa. Nunca se sabe se está lá o engraçadinho do costume e depois ainda dizem que foi "sem querer", ou "por falta de experiência". É desta que vamos recuperar do prejuízo que tivemos com a última produção, o "Bill Chouuuu..uau!". O que estavam vocês a pensar?


E podia ser assim em qualquer das muitas mansões que se encontram um pouco por toda a Hollywood Boulevard, situada no vale do sopé da colina com o mesmo nome. Só que aqui temos mais que uma colina: temos uma montanha; e menos do que pouca-vergonha: vergonha nenhuma! É que depois do anúncio da última semana que dava conta de um caso de assédio sexual ocorrido nas antigas instalações da Universidade de Macau, no Pac-On, a paz deixou de reinar em algumas das faculdades do novo campus na Ilha da Montanha. Só assim se explica que até alguém normalmente tão sóbrio como Eilo Yu Wing Yat (余永逸) professor, investigador, autor de inúmeros livros, ensaios, artigos para jornais revistas e outras publicações quer de Macau, Hong Kong e Taiwan assuma uma missiva destas, a que vemos em cima. Todos aqueles apelos para que os alunos "se acalmem", dizendo que estão "ansiosos" devido ao medo que venham a ser "vítimas de assédio sexual", e caso isso aconteça, "podem recorrer a um professor da vossa confiança", ou "ir falar com ele no seu gabinete" - estranho, no mínimo. Um comunicado de teor suspeito, que dá a entender que os casos assédio sexual na UMAC são tão frequentes que os estudantes não se conseguem concentrar nos estudos. Será mesmo verdade que andam a ocorrer casos a uma frequência alarmante, ou é apenas Eilo Yu que só entende de política e aqui meteu os pés pelas mãos?


Zhao Wei, vai pela última possibilidade, e diz que a carta é da exclusiva responsabilidade do professor. O reitor da UMAC está debaixo de fogo cruzado desde ficou conhecido caso de assédio sexual ocorrido o ano passado com uma aluna por parte de um professor da Faculdade de Ciências Sociais, natural do continente, que seria suspenso 12 dias pelo acto. Zhao responsabiliza-se pela decisão do procedimento disciplinar feito ao docente, e defendeu-se das acusações de ter ocultado factos e ter castigado o professor em causa de forma ligeira. O reitor justificou-se com o conceito de assédio sexual, que "pode variar de local para local, e pessoa para pessoa". Resposta infeliz, mas talvez a habitual inapetência já várias vezes demonstrada pela Universidade para lidar com estes assuntos, mas com um fundo de razão. Ás vezes as coisas não são aquilo que parecem...


Este professor da Escola de Belas Artes de Sichuan, Wang Xiaojian, foi acusado de assédio sexual a uma aluna a 12 de Outubro,  isto apesar de já se ter aposentado final do ano lectivo anterior. Perante esta prova e testemunhos de alunos que alegadamente o viram nestas condições, foi-lhe aberto um inquérito. Agora uma outra perspectiva da mesma imagem:


Pois é, aqui temos o tal professor, na mesma fotografia, não numa sala de aula mas num restaurante a trocar carícias com uma aluna. Não dá para entender a reacção da jovem estudante, mas não se visiona o prof. Wang a tocar em qualquer parte sensível da moça. Uma colega sua, sentada na mesma mesa, parece estar a divertir-se - e é só isso que parece. E se formos usar um método de desempate antes de desconfiar do docente?


E aqui está. Parece que afinal não  estamos na presença de nenhum velho tarado, mas apenas de um professor bem disposto, brincalhão, e pelos vistos muito querido pelos seus alunos. Por causa desse caso de alegado assédio, perdeu uma parte da reforma que auferiu depois de 40 anos a ensinar, bem como o direito de participar em todas as actividades realizadas pela sua antiga Universidade. É isto, vejam como pode ser perigoso brincar com algo tão sério como o "assédio sexual". Imaginem o que se faria com a democracia.


E como devem ter reparado, algumas das imagens foram retiradas da página de Facebook da Macau Conceallers, a publicação de Jason Chao, que vemos aqui com Kam Sut Leng a assinar uma petição pedindo que a UMAC respeite a liberdade académica, ambos na condição de ex-alunos dessa instituição de ensino superior. Como já tinha anunciado na quinta-feira, a Associação Novo Macau vai organizar um protesto junto da Universidade de Macau, no novo campus da ilha da Montanha no dia 31 de Outubro. Inicialmente o protesto tinha como pretexto o despedimento do prof. Bill Chao, actual vice-presidente da  ANM, mas a juntar este caso de assédio, sexta-feira promete ter um Halloween antecipado.


Apesar da identidade do professor que  em Março de 2013 terá assediado uma aluna, "abraçando-a" na sala de aula, a sua identidade é conhecida, e quanto a Bill Chao, parece estar mais ansioso que nunca por sexta-feira. Na página onde se vê a missiva de Eilo Yu, lá em cima, lê-se um comentário de Chou, que cita Simon Chen, professor da Universidade de Hong Kong e escritor:

我在澳門大學十二年,位至副教授,最後連保護自己份工的能力也沒有,何況保護學生? 忽然有人說,自己有能力保護澳大學生不受性騷擾所害,這也算是平行時空嗎? 

Se a Universidade não defende um professor que lecionou durante 12 anos nessa instituição, como vai proteger os seus alunos de assédio sexual?


Isto promete, sem dúvida, e ganhou mais força com a eleição para a Associação de Estudantes no passado dia 10, onde venceu a Lista 2, a "Refresh", apoiada pelo Novo Macau e composta inteiramente por elementos do grupo pró-democrata. Um ano lectivo muito quente em perspectiva na UMAC, e escaldante para o reitor Zhao Wei.

Susana: quem não chora não mama



Susana Chou é aquilo que podemos chamar de "tremenda cara-de-pau"; que senhora lata, a lata da senhora. A sério, lembram-se da minha fase mais "peixeira"? Ela faz pior, e ainda lhe junta vinagre e malagueta, deixa a cozer e à saída da cozinha solta um traque, para deixar um gostinho mais "agreste". Quem acompanha a carreira (?) da senhora deve ter desconfiado quando ela criou um blogue exactamente após a sua saída da Assembleia Legislativa (vá lá, um mês e meio depois; aborreceu-se depressa) onde tem "denunciado" tudo aquilo que acha mal, disparando em todos os sentidos, a torto e a direito, tendo como alvos preferenciais os seus antigos "companheiros de caserna" (leia-se "cúmplices") do Governo e do mundo empresarial. Nem vale apena referir aqui a metamorfose mais que evidente que sofreu quando passou da vida pública para o remanso da cidadania privada, ou de como poderia ter contribuído de algum modo para resolver ou amenizar os problemas que analisa no blogue, e não sei se algures entre os 483 artigos que assinou nos cinco anos que dura o seu "Bloco de Notas" (記事簿), nome deveras criativo e original, faz alguma referência aos "casos" em que foi protagonista desde a sua saída do hemiciclo, nomeadamente o envolvimento no primeiro caso conexo ao caso Ao Man Long, relacionada com a companhia CSR-Macau, de que chegou a ser presidente, ou de uma eventual participação na empresa Reolian, ex-concessionária do serviço de autocarros entretanto falida. Não sei, não sei e não sei. Tudo mera especulação, e seja eu um cão se sei mais que alguém. Aliás, estamos a falar de quem mesmo? Susana Chou? Não sei quem é.

Na sua última entrada no blogue (qualidade em deterimento da quantidade, aparentemente), a ex-presidente do hemiciclo fala da "cultura dos afilhados" (契爺文化) vigente na Administração de Macau, e para chegar lá usa o pretexto do recente concurso de acesso à carreira de jurista, que foi notícia pelo facto de apenas um dos cerca de quinhentos candidatos inicialmente admitidos ter passado na prova escrita de conhecimentos, que segundo os candidatos ouvidos pelos orgãos de comunicação social, era "demasiado longo". Patati-patatá, isto aqui e aquilo lá, a senhora quer mesmo é chegar ao essencial de todo aquele paleio mais técnico, que é a existência de um sistema de atribuição de cargos na função pública através daquilo que na China continental é conhecido como "guanxi" (關係), e que conhecemos no ocidente por "nepotismo", e não havendo na China um Papa com sobrinhos para justificar o sentido específico deste termo, "favoritismo" (任人唯親). Este é um tema que me é especialmente caro, uma vez que por alturas da transição, quase que se dava um vendaval com os suspiros de alívio pelo fim dessa prática, atribuída exclusivamente aos portugueses, e corrente durante a sua administração. Não me vou expôr ao ridículo de negar que é verdade, mas pelo menos os portugueses tinham algum decoro, enquanto actualmente é "sempre a abrir", e há quem nem tenha papas na língua e se apresente como o filho deste ou daquela, o afilhado da outra, ou o irmão de não-sei-quem cuja merda cheira bem. Mas lá está, agora está bem, "é assim". Vocês é que não sabem fazer as coisas. E a sra. Susana Chou, está a pensar o quê? Não tem nada para nos dizer que já não estivessemos fartos de saber?

Éééééé...éééééé....



Oi, aê tchurma. Falou, a Djilma, né, ganhou eleição, pôxa. Foi djuficiu pacas, che, qui lá no Brasiu, treis milhões dji voto naum é nada naum, é menos djentchi qui no Barra Shopping num fim-dji-semana, ô, tá pensando o quê? Quem naum gostou nada nada dji Dilma ter ganho a reeleição foi Luana Piovani, atriz, que era da turma do Aécio, aê, morou? Escuta agora gentchi...Luana é cursada, valeu? Éééééé...éééééé...tirou curso dji môdelo, tá ligado? Éééééé...éééééé...tá bom, naquela cabeça só tem merda, e da boca só merda sai, mas ô, oia o raciocínu dela aê no Tuíta, ô, jóia, manêro, nota deiz: PT é Partjido dus Trabaiadôris, e é também Pôrtugau. Ah! É a sigla dos "gaijos, rrrraiuxxxx"! É isso aê, Pôrtugau esporrou o Brasil pa caramba, sô! Qué-si dizê...explorô, é...ééééé. Naum lembra naum? Ahh....tá baum, naum enchi tá? Vintchi anu dji praia, naum veim qui naum teim. E a Luana é responsa, falou?

Dilma reeleita



Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT) foi ontem reeleita presidente do Brasil, após disputar a segunda volta com Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), numa das eleições mais renhidas da história da democracia brasileira. As projecções antes do sufrágio variavam entre uma vitória do candidato de direita e uma vitória sofrida de Dilma, e a última hipótese acabou por prevalecer, com a actual chefe de estado a obter 51,5% dos votos, contra 48,5% do candidato do PSDB, neto do saudoso Tancredo Neves, primeiro presidente eleito do Brasil após a ditadura militar, que teve fim em 1985, mas que nunca chegaria a tomar posse, pois morreria 39 dias depois da eleição.



Este vídeo é esclarecedor quanto ao eleitorado base de Dilma e do PT: as regiões mais pobres e urbanizadas do Brasil, que em finais de 2002 elegeram finalmente um comunista para presidente do Brasil. Depois dos mandatos de Lula da Silva, a sua discípula e herdeira política Dilma ganha também a oportunidade de exercer um segundo mandato, mas quer para ela quer para o Partido dos Trabalhadores, estes serão quatro anos decisivos. A vitória conseguida apesar das inúmeras controvérsias, desde a crise na petrolífera Petrobrás, às acusações dos grupos LGBT, que a acusam de não cumprir muitas das suas promessas, aos rumores sobre o seu estado de saúde devido ao linfoma com que foi diagnosticada há cinco anos, Dilma jogará até 2018 um desafio que ditará o seu lugar na história do Brasil, e o próprio futuro do PT.

Benfica perde; concorrência à perna



O Benfica perdeu ontem pela primeira vez para o campeonato, confirmando as previsões dos adeptos encarnados mais pessimistas, que viam na deslocação a Braga um dos jogo mais complicados da campanha da sua equipa. Mas o Benfica não podia ter começado melhor, pois logo aos dois minutos Talisca inaugurou o marcador, ao mesmo que igualava Jackson Martínez no topo da lista de melhores marcadores com sete golos. Só que o Braga não é equipa para se deixar ir abaixo com apenas uma contrariedade, e ainda antes da meia-hora, aos 28 minutos, o internacional português Éder empataria para os minhotos, levando as equipas empatadas para o descanso. O jogo teve qualidade no primeiro tempo, mas no segundo o árbitro perdeu o "pulso" e deixou os jogadores entrar em demasiadas quezílias. No que toca ao futebol jogado propriamente dito, fica para a história o golo de Salvador Agra, que entrou aos 72 minutos para o lugar de Rafa Silva, e nove minutos após a aposta do treinador Sérgio Conceição justificou a confiança nele depositada, dando a vitória aos arsenalistas. Pouco habituado a perder (pelo menos a nível interno), o Benfica reagiu mal, os bracarenses não se ficaram, e a partida terminou quase com uma batalha campal.



Já antes disso em Alvalade o Sporting recebeu e venceu o Marítimo por 4-2, num dia em que os leões comemoraram o seu 106º aniversário. Decididos em presentear os adeptos com uma vitória, os jogadores tornaram tudo fácil, depois complicaram, mas terminariam com um final feliz. O defesa alemão dos insulares, Patrick Bauer, quis ajudar à festa, marcando na própria baliza aos 8 minutos, e aos 15 o médio João Mário, produto das escolas do clube aniversariante, ampliava a vantagem, para Paulo Oliveira, defesa contratado este ano ao V. Guimarães, fazer o terceiro ainda antes do intervalo. Cheirava a goleada, mas no segundo os madeirenses "acordaram" e em cinco minutos Moussa Maâzou, internacional do Niger, apontava dois golos que deixavam um travo a incerteza quanto ao vencedor do encontro. Foi então que a linha avançada do Sporting resolveu dizer "basta", e Freddy Montero marcava aos 66 o quarto golo da equipa da casa, e o seu primeiro em Alvalade desde - pasme-se - 2 de Dezembro do ano passado, quando apontou dois golos na goleada ao P. Ferreira por 4-0. Com este resultado o Sporting isola-se no quarto lugar com 16 pontos, a três do líder Benfica, dois do Porto e um do sensacional V. Guimarães.




domingo, 26 de Outubro de 2014

Para males diferentes, o mesmo remédio?



Os acontecimentos das últimas semanas em Hong Kong captaram a atenção dos média estrangeiros, que fazem deles a habitual leitura: foco de instabilidade na China, forte possibilidade do regime de Pequim ceder e eventualmente cair. Estando nós deste lado, e tendo como referência o caso que conhecemos melhor, a portuguesa, sabemos que isto não é a mesma coisa que sair um governo PSD e entrar outro do PS, ou ver o Presidente da República dissolver o parlamento e convocar eleições antecipadas, tudo coisas a que já estamos mais ou menos habituados e até já nos deixam a sorrir perante a forma cómico-trágica com que encarados a nossa democracia. Agora no que à China diz respeito, não estamos bem a falar da "mesma coisa"; somos um país com dez milhões de cabecinhas pensadoras (às vezes menos às vezes mais), o que na China representa uma cidade, e nem chega a uma das mais populosas: só a área metropolitana da grande Guangzhou, da província de Cantão, tem mais de 40 milhões de habitantes, de um total de 1200 milhões em toda a China, sendo um quarto desta população composta por trabalhadores migrantes. Imaginem o que seria quando fossem "à terra" passar a Páscoa com a família e tivessem 200 milhões de tipos como vocês à espera do comboio, do autocarro ou de outro transporte, e quem tem carro deve estar agora a reconsiderar o conceito de "utilitário" quando aplicado a essa imensidão que é a China.

No topo de tudo isto, que já não é pouco, está o "capitão do navio" - alguém tem que meter esta gente na ordem, pois apesar da infame política do filho único, imposta já depois do fim do maoismo, aqui pode-se dizer literalmente que os chineses são "mais que as mães". Em matéria de população chegaram a ser um quinto de todo o planeta, e hoje andarão pela ordem de um em seis habitantes da Terra, e não porque a imposição das medidas de controlo da natalidade tenham provocado um efeito de "marcha atrás", servindo apenas de travão ao que poderia ter sido uma invasão, o que o Ocidente vinha temendo vai para um século: o perigo amarelo. O que temos hoje não são menos chineses que antes, mas um aumento brusco da natalidade em países ditos "em vias de desenvolvimento", nomeadamente no sub-continente indiano e no sudeste asiático. Mesmo sendo um dado adquirido que a população da India ultrapassará a China em poucos anos, há sempre que ter em conta o "dragão asiático", e quando se fala de "queda do regime", aqui a palavra "queda" não tem o mesmo impacto que o miúdo de três anos que cai do triciclo, ou do lavador de pratos que deixa cair um alguidar de loiça.

Quem estiver completamente por fora deste assunto, pode estar agora a pensar: "como é que uma cidade com sete milhões de habitantes como é Hong Kong pode determinar o futuro de uma realidade imensamente maior?". Da mesma forma que um pequeno rastilho pode fazer rebentar com toneladas de dinamite, lá está. Hong Kong tem sido desde sempre o espinho encravado na pata do dragão, e isto começou logo pela génese do território onde se localiza uma das grandes praças financeiras mundiais: arrematado pelo império britânico a troco de ópio, o que se traduz hoje por uma ninharia. E não foi por acaso, pois os ingleses aproveitaram as qualidades daquela planta que trouxeram da India com o intuito de juntar os chineses ao grupo de súbditos de Sua Majestade. Talvez a sua origem infame não tenha muito a ver com a actualidade, mas a verdade é que o territorio foi sempre conhecido como porto de abrigo a todos os que eram perseguidos no interior do continente - quanto mais abastados fossem, mais bem vindos eram, o que ficou demonstrado pela pouca hospitalidade com que foram recebidos os refugiados vietnamitas, a "boat people", um problema que ainda está por resolver em definitivo.

Terá sido mais por culpa da instabilidade na China de Mao do que pela boa vontade dos senhorios ingleses que o movimento pró-democracia ganhou a força que tem hoje - aliás em termos da salvaguarda dos interesses dos residentes ultramarinos do império, penso que ficou tudo dito com a questão dos passaportes. Estes movimentos nunca esconderam qual era a sua base de apoio: os nacionalistas de Taiwan, derrotados na guerra civil pelas tropas comunistas, e remetidos para Taiwan, onde Pequim manteve sempre uma apertada vigilância. No entanto em Hong Kong criaram uma base de operações que lhes dá um acesso mais facilitado ao continente, ganhando aliados que foram recrutando entre a população local, especialmente a mais jovem, que já por si olha para o actual regime chinês com desconfiança. Regime esse que não está isento de culpas no cartório, pois não soube apoveitar as vantagens do sacrossanto segundo sistema, deixando-o na RAEHK a cargo de gente com pouco tacto e nenhuma cultura política.

O movimento "Occupy Central", que agora começa a dispersar e perder o apoio que inicialmente lhe foi dado pela população anónima, a que nada tinha a ver directamente com esta luta, foi uma iniciativa que visava muito mais do que trazer democracia para Hong Kong; já o afirmei aqui várias vezes, mas essa pretensão seria apenas um pretexto para causar no continente um efeito dominó, aproveitando-se da fragilidade do regime para regressar ao poder. Digo "regressar" porque é disso mesmo que se trata: na China existem duas forças, como sempre existiram, uma no poder, e outra na busca desse poder. Não se pense que aqueles que se denominam hoje de "democratas" são muito diferentes dos nacionalistas da I República, fundada em 1911 por Sun Yat-Sen, e se não sabem como era a China antes das invasões japonesas, procurem saber: não tenha nada a ver com democracia, pelo menos no sentido como é entendida. Manter o actual "status quo" pode não ser muito producente, mas na situação actual acaba por ser um mal menor. Quem apoiou o movimento a que ousou chamar revolução não tem nada com que se envergonhar, mas não posso deixar de fazer este reparo: algumas das atitudes demonstradas pelos manifestantes nada abonam a favor da "democracia" pela que diziam estar ali a lutar. Lutar nem sempre quer dizer brigar.

O regime perdeu uma excelente oportunidade no período de grande crescimento económica de 1999-2009, para se reformar e adaptar-se às exigências do novo século. Se não o fez pode ter sido por temer revelar sinais de fraqueza, mas já não é segredo para ninguém que as lutas internas se têm intensificado, a corrupção é endémica, e o pouco apoio que têm é de gente directamente interessada na continuidade do partido único no poder; não se pode pedir o apoio às massas com atitudes paternalistas e opressoras, e a censura tem funcionado como um rombo no dique do sistema. Nada serve para justificar certas atitudes da parte das autoridades num regime totalitário, especialmente tendo como valores fundamentais a liberdade de expressão, de associação, de culto e todas as restantes que se confundem com "democracia". Esse tem sido o grande problema, e o erro que se comete quando se analisam estas questões, primeiro o caso de Hong Kong, e depois o da China - e tenham sempre em conta que esta é a minha opinião; não sou o dono da verdade nem reconheço em mim quaisquer poderes hipnóticos, mas não entendo que a "democracia" seja uma panaceia para todos os males.

A democracia é uma ideologia, uma teoria que aplicada transforma-se num sistema político, e não é infalível - não estamos aqui a falar de uma aspirina para a dor de cabeça. Estamos aqui a falar de um país que foi unificado à força, e onde não existe uma grande vontade de manter essa unificação, e há províncias com uma ideia muita própria de como as coisas deviam funcionar. É um pouco como a Espanha, mas mil vezes pior, e ligado à corrente eléctrica. Pode ser que haja quem entenda nisto algum comodismo, mas apesar de confessar que não me dava jeito nenhum que o regime caisse, pois com toda a certeza seriam cometidos excessos brutais - como é do apanágio de qualquer mudança do poder na China - seria muito pior para os chineses, e francamente não lhes desejo esse mal, nem estando longe do seu epicentro. Dizer que a China devia tornar-se numa democracia parlamentar,e pouco importa se está ou não preparada para isso, era como dizer que vou demolir a vossa casa e construir uma nova, não sei quando vai estar pronta ou se vou conseguir realizar a a tarefa, e enquanto esperam vão viver noutro sítio. Não têm outro sítio? Vão viver ao relento.

Pensar numa "democracia parlamentar" neste momento na China leva-me a pensar num cenário dantesco, onde existiriam mil e um partidos, desde os homens do lixo aos polícias, dos habitantes do bloco XX de um complexo residencial, e entre todos estes haveria sempre uma luta pelo poder interno. Eleições democráticas? Imagino banquetes organizados por um partido, com elementos de outro partido rival a envenenar toda a gente, e eleitores que demonstrassem o seu apoio a uma das forças a serem assassinados a caminho das urnas. Debates televisivos? Sim, até um dos candidatos ficar sem argumentos e sacar de uma pistola, e aí passa a ser um duelo ao pôr-do-sol, ao estilo do velho faroeste. Não surpreende que os americanos digam que a tal "democracia parlamentar" seria a "a solução ideal" - para eles, lógico, pois num estado de anarquia não seriam os próprios chineses a beneficiar com a mão-de-obra barata, sem um braço forte para evitar a exploração e a pilhagem. Para os chineses não seria trazer a democracia: seria mandá-los à democracia, como quem manda alguém a tal sítio.

Leocardo, sunt eu



É com grande orgulho que apresento mais um episódio da minha série de pequenos filmes, que deixo ao dispôr de quem me quiser seguir no canal que tenho no YouTube, e para quem é mais tímido ou não sabe como fazê-lo, basta clicar aqui e depois no botão de "subscribe", ou quem tiver conta em português - e não tenho muita paciência nem tempo para acompanhar a evolução das páginas que inicialmente eram apenas em inglês - deve o botão de "subscrever", ou "seguir", ou algo que os valha. Isto não é publicidade nem um apelo de um ego que anda a precisar de ser alimentado, mas antes um "serviço despertar", que faço aqui neste caso com o meu canal do YouTube, mas faria com qualquer outro, desde que tivesse conhecimento ou me fosse feito esse apelo. A verdade é que tenho tenho recebido de algumas pessoas um "feedback" positivo, mas ao mesmo tempo algumas me têm dito que não se assumem como seguidores do blogue ou dos vídeos porque "senão já se sabe". Claro que não vou dizer quem são estas pessoas ou sequer quantificá-las (isso encantaria muito boa gente, de certeza, que pensa que me consegue "apanhar" no terreno da provocação, e me leva a cometer alguma inconfidência) mas se me estiverem a ler, permitam-me que vos pergunte: desde quando é que deixaram de acreditar nos princípios pelos quais foram - fomos, pois eu também fui - educados? Se nasceram poucos anos antes, ou até depois do 25 de Abril, foram certamente induzidos a acreditar que somos livres e temos direito a gostar e fazer o que nos der na gana desde que isso não mexa com o direito do vizinho, que é exactamente o mesmo que o nosso. Convenceram-nos que somos do mais democráticos que se pode imaginar; aliás ainda sou partidário da ideia de que levamos a coisas ao extremo, ou "tudo é permitido", ou "não há nada para ninguém".

E é neste mar revolto da extremização de conceitos que me tenho sentido a navegar um pouco solitário pelo riacho do meio-termo. Posso rejeitar uma ideia, uma prática ou um pensamento que me pareça abjecto, ou até repulsivo, mas desde que não seja ilegal, não só o aceito como encorajo quem se identifique com isso a assumi-lo - ou não - mas definitivamente que o faça se isso lhe está a causar transtorno, ou o impede de dormir descansado à noite. Do outro lado, e caso considere pertinente fazê-lo, não me vou inibir de criticar, ou refutar algum ponto de vista com que discorde ou me pareça oportuno ser passível de refutação; dogmas são da competência das religiões, e normalmente inserem-se no âmbito do sobrenatural, e daí à superstição e outras técnicas milenares de manipulação da mente vai um pequeno passo. Quem me considera "provocador" está logo aí a entregar os pontos: se "provoco" é porque levanto alguma temática debatível que é deixada por discutir para não "ofender sensibilidades", o que para mim traduz-se para "não aborrecer o menino , coitadinho, ai que ele faz birrinha", e assim vamos perpetuando os tabus e deixando os têm mais dinheiro, poder, influências, etc. fazer dos outros gato-sapato, e tudo em nome da "moral e bons costumes", que é uma daquelas coisas que nem dão para cortar às tiras, enrolar e pendurar na retrete. Se levanto uma questão que não tem interesse só com o fim de lançar a discórdia, seria um intriguista, e não "provocador", ou como me foi dito ainda hoje, e agradeço por entender como um elogio, dotado de um "humor corrosivo".

Fiquei a saber recentemente, e digo "recentemente" porque foi há semanas, e os factos terão ocorrido há coisa de ano ou meio ou menos, que fui indicado por alguém a uma pessoa que ocupa um cargo de elevada responsabilidade para realizar um projecto semelhante a este, um blogue ou um "website", neste caso mais relacionado com a área específica de trabalho do interessado. Causa-efeito, houve outro alguém que de seguida desaconselhou os meus serviços, mesmo que eu nunca os tenha oferecido, ou sugerido sequer que estou aqui a vender seja o que for. Fico agradecido a quem avançou com o meu nome, apesar de ter quase a certeza que não aceitaria a proposta - não me iam pagar milhões de dólares pelo serviço que provavelmente seria enfadonho e e não me deixaria muito espaço para a criatividade, mas conheço muito boa gente que ia subir pelas paredes ao saber que perdeu uma "oportunidade". Mas qual "oportunidade", se não deixei a entender que estava interessado? Lamento muito e tenho pena de quem gostaria de me ver na fossa, e isso deixa-me bastante triste, pois quem me conhece bem sabe que não sou nenhum "monstro" ou um "sacana mal intencionado", mas tenho um emprego remunerado, e não sendo uma fortuna chega para pagar as contas e ainda sobra para beber um copo. Se fosse fazer o blogue e todo o resto para sobreviver ou ascrescentar mais qualquer coisa ao que me é devido pelo produto do meu trabalho - e nunca misturo as duas coisas, não vai ser por aí que me apanham - não o faria, ou não sentiria o mesmo entusiasmo.

Apesar de já ter deixado isto bem claro, e ter prometido a mim mesmo que não insistiria no tema, há quem ainda pense que tudo o que faço é com o propósito de atingir algum fim, ou de obter benefícios que não obteria por outra via, e assim dei-me a conhecer, saí do anonimato para ficar no "mercado", ou que estou a soldo de fulano para atingir ou intimidar outrano, em suma, a minha postura deixa um pouco baralhados todos os que se esqueceram que não faço mais que exercer um direito que me é garantido, pois nesse processo aprenderam que "não há almoços grátis". Ora permitam-me discordar, e dizer que foram enganados, meus amigos. Temos compromissos a cumprir para que nos seja garantido ter todos os dias na mesa um almoço e um jantar, mas não é imperativo que tenhamos que renunciar ao que somos apenas porque o estômago fala mais alto. Há que distinguir entre fazer concessões e prostituir os valores: no primeiro caso podemos "concordar em discordar", o que tem a sua graça, não no sentido de "piada", mas de graciosidade; no segundo estamos a sujeitar-nos a um papel que não é o nosso, e se nos morde a consciência ao pensarmos que não queremos o mesmo para os nossos filhos, então nada como ser o exemplo - com que outro querem que eles se identifiquem?

Finalmente, e voltando ao ponto de partida deste texto que pretendia que fosse mais curto, reparem como deixei ali em cima uma série de imagens com que tenho ilustrado alguns artigos e vídeos, e isto tem uma razão de ser. Quando decidi fazer o primeiro blogue, e optei por adoptar um pseudónimo (não o fiz com a intenção de ganhar popularidade, pois essa foi-me atribuída sem eu ter pedido nada; há que os sabem disso, os que não sabem porque não viram, e os que se fazem de esquecidos) escolhi "Leocardo" com base nas iniciais do meu nome próprio e do apelido, e foi algo que me veio à cabeça de repente. Se repararem nos filmes podem notar que às vezes podia fazer melhor, mas tenho um pouco de "pressa" em passar a mensagem, o que sendo um efeito que admito, no fim é a mesma coisa: ou a mensagem passa, ou fica encalhada. Não sou do signo de Leão, nem acredito na astrologia ou em quaisquer qualidades atribuídas aos felinos que muitos humanos invejam, e o meu animal favorito é o pinguim - esta comparação foi feita por alguns leitores logo no início, e nem fica bem, nem mal. Vale o que vale. Não me considero vaidoso, sou o mesmo que era em Março de 2006 quando comecei o primeiro blogue, em Dezembro de 2007 quando comecei com este, e em 2012 quando revelei a minha identidade. Podia-o ter feito no auge da tal popularidade, mas só o fiz quando achei que não fazia mais sentido andar a esconder-me e ao mesmo tempo levantar suspeitas sobre terceiros. Agora para os que acham que sou "arrogante" porque falo de coisas que eles próprios não entendem, porque não lhes interessa ou porque lhes falta argumentos, ou porque não sabem escrever (houve um tempo em que nos ensinaram como fazê-lo, chamava-se "escola") lamento muito, mas não tenho por hábito nivelar as coisas por baixo. Se a vista é melhor do terraço e no rés-do-chão tenho uma parede em frente, posso tentar chegar lá a cima pela escadas, mas se os degraus forem mais altos que a perna, paciência. O que nunca vou fazer é chamar quem está no terraço para me sentir menos só na minha miséria.

PS: Para quem fica muito irritado quando lhe apontam os erros ortográficos, e depois ainda vem com uma grande lata dizer que "sabia", ou pior, que "não interessa", pode sempre usar o dicionário, que esclarece todas as dúvidas e é completamente gratuito. Eu às vezes também uso, e em caso de dúvida é sempre melhor fazer as coisas bem feitas do que andar por aí com filosofias da treta, defendendo que "toda a gente se engana" e não sei que mais. Podendo evitar o erro, para quê recorrer à teoria de que ninguém nasce ensinado? Isso contribui para o quê, exactamente?

Macalhau Espiritual - 3º episódio

Caíndo na(o) Real



Em Espanha jogou-se o sempre apetecido clássico entre o Real Madrid e o Barcelona, duas formações sempre no lote das melhores do mundo. Os catalães chegaram à capital na frente da liga com sete vitórias e um empate para o campeonato, e com a curiosidade de não ter ainda qualquer golo sofrido. Começaram bem, os "blaugrana", com Neymar a inaugurar o marcador logo aos 3 minutos, mas os "merengues" foram um adversário à altura, e deram a volta à situação com os internacionais portugueses em destaque; primeiro foi C. Ronaldo a acabar com a inviolabilidade das redes adversárias, e mesmo que se possa dizer que foi através da marcação de uma grande penalidade, Pepe desfez as dúvidas com o segundo golo aos 50 minutos, e Benzema faria o terceiro onze minutos depois. O Real Madrid fica agora no segundo a um ponto dos seus maiores rivais, e mais um que o Valência de Nuno Espírito Santo, que ontem venceu em casa o Elche, também por 3-1.

Vaca arouquesa é "petisco" para dragão faminto



O FC Porto foi ontem Arouca, zona predominantemente rural situada nos arredores da invicta e conhecida pela criação do famosos gado bovino a que deu o nome "arouquês", e goleou com facilidade a equipa local por cinco golos sem resposta. Depois de três jogos em casa que se traduziram em duas vitórias, uma para a Liga contra e Braga e para a Champions frente ao Athletic Bilbao, e uma derrota para a Taça de Portugal frente ao rival de Lisboa, o Sporting, subsistia uma certa curiosidade em saber como seria o Porto fora de casa em termos de atitude, e parece que confiança é algo que ainda vai sobrando à equipa de Lopetegui. O adversário não era o que se pode chamar de "teste difícil", mas apesar da localidade ter pouco mais de 20 mil habitantes, o que não chega nem para compôr metade do Estádio do Dragão, a equipa do Arouca é aquilo que se designa por "arrumadinha", sem "inventar" muito, aguerrida, sempre sóbria e consciente das suas limitações, bem à imagem do seu técnico Pedro Emanuel. E foi aliás o ex-defesa-central que como jogador se sagrou campeão nacional com o Boavista e depois com o Porto que montou aquela formação que na época passada se estreou no escalão principal obtendo um 12º lugar, realizando um campeonato mais tranquilo do que até os mais optimistas previam. Este ano o objectivo será novamente a permanência, sempre com a linha de água em mente, mas apesar da goleada de ontem e dos 4-0 sofridos na Luz, os arouquenses deram boa conta de si na deslocação a Alvalade, onde viram um ponto a fugir-lhe nos descontos por culpa de um golo de Carlos Mané. O Porto ontem teve a vida mais facilitada a partir do minuto 25, altura em que os colombianos Juan Quintero e Jackson Martínez marcaram dois golos em outros tantos minutos, com o brasileiro Casemiro a fazer o terceiro pouco depois, resolvendo praticamente a questão do vencedor. Jackson ainda marcaria o segundo do encontro e o sétimo na liga, ultrapassando o brasileiro Talisca, do Benfica, no topo da lista dos melhores marcadores, e o camaronês Vincent Abounbakar, vindo do banco, aproveitou a fragilidade do adversário para se estrear a marcar com a camisola azul-e-branca. Os dragões colocam assim pressão sobre o líder Benfica, que tem um ponto de vantagem e uma deslocação complicada a Braga neste Domingo. O V. Guimarães confirmou o bom momento que atravessa ao vencer na sexta-feira em Setúbal o confronto entre "vitorianos", e encontra-se no terceiro lugar a dois pontos dos encarnados. Já este Sábado o Moreirense aproveitou bem o factor casa e venceu 2-0 o lanterna-vermelha Gil Vicente, e o P. Ferreira foi ao Bessa vencer o Boavista por 2-1, e subiu ao 4º lugar, mesmo à condição, e somou o quinto jogo sem derrota.

sábado, 25 de Outubro de 2014

Simpáticos antípodas



Esta semana o artigo de opinião do Hoje Macau é o primeiro daquela que espero ser uma pequena série em que me dedico a partilhar com os leitores algumas conclusões que retirei da nossa convivência - e falo como estrangeiro e ocidental, mas ao mesmo tempo residente de Macau - com outra cultura, neste caso a que predomina em termos étnicos, muito graças à própria situação geográfica do território onde todos vamos fazendo pela vida. Espero que gostem, agradeço se já estão a acompanhar ou se fazem planos nesse sentido, e recordo que as opiniões expressas são do foro pessoal, e qualquer um é mais que bem-vindo a comentar, discordar, dinamizar...eh, eh, lá está. Posto isto, a continuação de um bom fim-de-semana.

Ser estrangeiro num local tão distante e culturalmente tão antagónico como a China significa submeter-se a um fútil mas interessante exercício de adaptação a certos valores, alguns deles absolutamente intragáveis à luz do que consideramos serem princípios elementares, e sem os quais não é possível sustentar as relações humanas. Estes princípios foram-nos emanados por períodos ou episódios da História que não tiveram na China um paralelo que lhes sirva como referência, e mais importante do que isso, que os torne quantificáveis – os chineses só levam em conta aquilo que se pode quantificar. A este ponto é possível que já haja quem me esteja a acusar de estar a cometer uma generalização injusta, e que em última instância possa ter que pagar por isso. Aí está, é exactamente aqui que reside a grande diferença entre as nossas culturas, e é essa reacção que esperam de nós: impetuosa, derivada de um juízo que é feito logo após a segunda frase do texto, e uma repreensão com num intimidatório implícito, um sermão que ninguém encomendou.

Aquilo que nós chamamos de “racismo” é algo que para os chineses adquire a qualidade de “abstracto”, não se quantifica e portanto não serve um fim específico – é portanto “inútil”. O povo chinês faz uma diferenciação entre a sua própria etnia com base na origem, condição social, e se for mesmo pertinente, a ancestralidade ou o apelido. Se isto já é complicado, o que seria caso tivessem um contraponto que ao mínimo “toque” levantasse a questão da descriminação e do princípio da “igualdade”? Este é um raciocínio que por muito que eles tentem entender não conseguem tirar o sentido: qual igualdade, se a primeira noção que adquirem é a do indivíduo, e de que a diferença é algo que é dado a saber logo pelo sentido da visão? E o que é isso, “descriminação”? Alguma vez viram os chineses da diáspora a fazer “lobby” no sentido de serem integrados no país de acolhimento, ou a queixarem-se que são “guetizados”, ou outra designação que nós ocidentais nos damos ao trabalho de produzir e com isso levantar questões que levam debates intermináveis, onde existe necessariamente um agressor e uma vítima?

Quando se comete a audácia de fazer uma análise a este povo há algo que temos que ter sempre em conta: são uma civilizaçāo com um passado de cinco mil anos, e onde não houve nada semelhante a um Renascimento ou uma Revolução Francesa. Não significa que os chineses não prezem valores como a liberdade, ou valorizem a justiça, mas é tudo encarado de uma forma tão pragmática que não permite deambulações do foro ideológico, e onde as convicções valem o que valem. Reparem como os autores chineses de referência continuam a ser Confúcio e Sun Tzu – a obediência, ou em alternativa a guerra, o vencedor e o vencido, o poder que se conquista pela espada . Onde estão os equivalentes chineses de Montesquieu, de Shakespeare, de Voltaire ou de Nietzsche? Mesmo a poesia era uma audácia reservada aos intelectuais caídos em desgraça – ninguém foi estudar para se tornar poeta. Du Fu era um oficial do governo afastado devido ao seu carácter íntegro que o tornou incorruptível, Li Bai é pelos padrões actuais considerado um “louco”, quem bastava olhar para a Lua para fazer um poema, e vivia praticamente de esmolas oferecidas por quem procurava entretenimento.

Sax Rohmer, escritor inglês do início do século XX celebrizou-se por ter criado o personagem do Dr. Fu Manchu, o estereótipo do vilão oriental, neste caso o chinês. Como o próprio nome indica, este Fu Manchu era um médico, ou cientista (a origem do personagem foi sendo alterada de acordo com a própria história da China), um génio do mal, metódico, calculista, conhecedor da mente humana e especializado em venenos, e eventualmente tinha duas ambições: a riqueza material e o segredo da imortalidade. Rohmer nunca terá viajado pela China, ou sequer por Hong Kong, e inspirou-se nas qualidades que observou nos chineses e que parecem mais evidentes depois do choque cultural: a ambição desmedida, a perfídia, a ausência de valores considerados próprios da cultura cristã, casos da misericórdia ou da compaixão. Nada disto é racional, claro, mesmo que interpretemos algumas das diferenças que nos separam como vestígios deste arquétipo – é a reacção normal de quem não se identifica com algo e impulsivamente vê nisso uma luta entre o bem e o mal.

Não surpreende portanto que a tabela com que avaliamos certas atitudes, comportamentos ou juízos de valor nos deixem muitas vezes chocados e a pensar por vezes que existe qualquer coisa de desumano em tudo isto, algo que é identificado mas poucos procuram entender a razão de ser. Essa é uma tarefa que se reveste de uma presunção tamanha que seria o mesmo que tentar encontrar o princípio e o fim do universo. Mas podemos aprender sempre mais um pouco, e enquanto eles não ambicionam a ser igual a nós, vão dando umas pistas enquanto se divertem a observar como as seguimos, utilizando a lógica como régua e esquadro para desenhar o seu perfil. Somos um Li Bai à procura do Dr. Fu Manchu.