sexta-feira, 25 de Julho de 2014

Figura da semana


Não tenho por hábito nem gosto de dar valor às pessoas apenas no fim do seu percurso, seja de vida, de carreira ou de missão. Detesto aquela mania tão portuguesa de que quando fulano morre "é o maior", e "vai fazer muita falta", mas nos últimos anos da sua vida, no seu último fôlego, é ignorado, esquecido, atirado para um canto e considerado um "fardo". No entanto não posso deixar de deixar aqui uma pequena homenagem na forma deste simbólico "petit je ne sais quoi" que é a "Figura da Semana" - até para que fique pelo menos para memória futura - ao programa da Rádio Macau "Rua das Mariazinhas", que durante quatro anos animou as tardes da lusofonia no território.

Uma palavra de apreço aos dois radialistas que apresentaram o programa, Jorge Vale e Hélder Fernando, que desde 2009 nos trouxeram música, entrevistas, curiosidades e até algum humor, e que agora "fecham" a "rua". A razão oficial é a saída de Hélder Fernando, por ter atingido o limite de idade. Certamente que a opção foi do próprio Hélder, pois a mais-valia que é para a Rádio Macau certamente fariam com a estação lhe propusesse um contrato. Mas é a escolha de vida de cada um, e só me resta agradecer-lhes, e desejar boa sorte. Até sempre!

Vídeo da semana


Como é que ele viu lá isto, se não têm internet?

quinta-feira, 24 de Julho de 2014

Quem se mete com o Afonso, leva


Afonso Carrão Pereira, ribatejano da tribo dos cartaxenses, conhecidos pela sua elevada tolerância ao tintol, a que se habituam antes de aprender a falar, reside em Macau há 30 anos. Não, Macau ganhou o Afonso há 30 anos, assim está bem. Depois de fazer a sua formação na hotelaria, passando pelos iniciados, juvenis e juniores, chegando mesmo a treinar às ordens do mítico Chefe Silva, Afonso iniciou a sua carreira profissional na Rua Central, onde permaneceu 24 anos num espaço conhecido de todos os aficionados da gastronomia lusitana, e onde brindavam (literalmente) às jogadas de fino recorte técnico e sabor inconfundível do mestre. Encantava com meias doses e doses inteiros de coelhos que tirava do tacho, os remates ora com o chispe de coentrada, ora com a perna de vitela, e os únicos frangos que dava eram servidos na púcara. Indiferente à crítica, recebia a mais ilustre clientela, e de sítios longínquos onde a sua fama chegava (Hong Kong, por exemplo) vinham ao estádio Afonso III os amantes do bom garfo, ver com os seus próprios olhos e saborear com a sua própria boca as criações do artista.


Como tenho a sorte de morar perto da Rua Central, não tinha o privilégio de assistir da janela às exibições do astro, mas por um preço ainda mais baixo que o de um bilhete para o futebol, levava a família a assistir aos "slaloms" culinários de Afonso Pereira. Foi numa dessas vezes, há um bom par de meses, que senti algo diferente quando entrei na catedral da comida portuguesa em Macau. O recinto mal iluminado, as bancadas tinham sido retiradas, e o "craque" estava sentado numa mesa ao fundo com o resto da sua equipa - temi uma lesão que comprometesse a carreira do meu ídolo. Perguntei-lhe o que se passava, e contou-me que o estádio tinha sido vendido, e o clube não poderia mais utilizá-lo. Num estado entre o choque e a revolta, preparava para amaldiçoar esses patos-bravos do imobiliário, e lamentar que o grande Afonso não os tivesse apanhado a jeito e os metido no assador, decorados com rodelas de laranja. Ao perceber o olhar triste de um fã de longa data, prometeu que voltaria em breve a encantar as audiências com as suas fintas na cozinha. "Depois digo-te", afirmou com aquela classe própria dos predestinados, a quem título fugiu mas na época seguinte há sempre outra oportunidade.


E de facto assim foi, e na última segunda-feira fiquei a saber através de uma peça no Ponto Final que o grande Afonso se mudou de armas e bagagens para o Café Xina, clube do empresário Pedro Ascensão, que investiu neste reforço com o objectivo de lutar pelo título. E nem foi preciso esperar mais tempo, pois com a fome com que estava, não a de bola mas a outra, fui logo no mesmo dia, comovido com a perspectiva de matar saudades. E ainda por cima numa casa que conheço bem, com uma vizinhança simpática, que se ainda não conhece o Afonso, vai ficar rendido ao seu talento. O perímetro de jogo é sensivelmente mais reduzido, talvez do tamanho do anterior mas sem a bancada superior, e apesar de ainda estar novinho em folha, não tardará muito para que o brilho do Afonso lhe dê o seu ar característico, e voltará a ser a sua "casa", onde é imbatível.


O Afonso ainda se está a adaptar à nova equipa, falta-lhe ainda o "playmaker", uma grelha que lhe faça as assistências para as suas célebres espetadas de vitela e bacalhau à lagareiro, mas já se nota que continua a concretizar o bife à café como mais ninguém, e o café continua a ser a "arma secreta", e não poucas vezes marca o golo da vitória nos descontos. Fiquei aliviado. Nem os defesas carniceiros do imobiliário, que tantos mandaram para o estaleiro com as suas entradas especulativas duras dirigidas aos joelhos e à canelas do pequeno e médio comércio, conseguem deter o "master-chef" do Cartaxo. É quem se mete com o Afonso, leva, e sai bem servido com uma goleada.

Retribuição com lucro


A notícia foi adiantada ontem no Telejornal da TDM, e confirmada hoje na imprensa em português do território, e como num golpe de cintura, o noticiário anunciou esta noite uma mudança de planos. Fiquei atordoado com todo este diz-que-disse, foi-não-foi, não-há-afinal-há. Resumindo, parece que alguém com a mania das espertezas e sem nada de melhor para fazer andou a brincar com a organização do Festival da Lusofonia, uma espécie de "Woodstock" anual para a comunidade lusófona em Macau. Ontem estalou o verniz ao anunciar-se a possibilidade do evento não se realizar este ano, o que não constitui novidade, pois há sempre um ano ou outro onde as queixas quanto às dificuldades em organizar o festival deixam os seus organizadores a pensar se vale mesmo a pena todo o esforço, ainda por cima quando os discursos oficiais apontam para a sua importância, e não se cansam de elogiar a encorajar a iniciativa.

Este ano o IACM anunciou à Associação das Comunidades Lusófonas, que está encarregada e organizar o Festival da Lusofonia, que "as regras iam ser alteradas". Assim a semana da Lusofonia passaria a realizar-se depois do Festival e não antes, como tem acontecido sempre, os convidados musicais do Fórum Macau não seriam autorizados a participar, e o próprio IACM convidaria dois grupos - sem indicar quais - para actuar no palco da Lusofonia. Mais do que uma ingerência, isto mais parece um insulto. O Festival da Lusofonia, a vertente dos comes e bebes e do convívio que tem lugar no Largo do Carmo, na Taipa, só faz sentido como remate da semana dedicada às exposições, conferências e toda essa face mais formal da semana cultural - fecha com chave de ouro, por assim dizer. Os convidados musicais do Fórum Macau, e isto de não estou equivocado, são sobretudo os artistas locais, que não sendo a principal atracção, vão mantendo o local animado com música e exibições de dança, de capoeira, de tudo um pouco. Quanto a essa imposição dos dois grupos escolhidos pelo IACM, nem sei o que dizer. Será que a edilidade da RAEM criou alguma comissão especializada no tema da Lusofonia e não nos disse nada?

Afinal não foi nada. Parece que o IACM e a organização chegaram a um consenso, e o Festival da Lusofonia não está em risco, pelo menos como estava há um dia atrás, o que abriu a porta a todos o tipo de especulação. A primeira coisa que me veio à cabeça, e acredito que outras pessoas que gostam do festival pensaram o mesmo, foi: porquê criar obstáculos a que se realize? O Festival é uma das poucas ocasiões em que Macau mostra as suas qualidades mais originais e únicas, de ponto de encontro de culturas, do oriente e do ocidente, e materializa todas estas valências que de outra forma nunca passa do papel e das boas intenções dos discursos oficiais, que repetem a mesma ladaínha que lhes fica sempre bem, mas que não mobilizam esforços ou meios para que se concretize. Macau foi uma província ultramarina portuguesa até há 15 anos, e esse facto não é uma memória turva de um passado distante. Mesmo os jovens residentes com menos de 20 anos têm plena consciência dessa realidade, e muitos interessam-se em saber mais sobre o assunto - e louvados sejam, pois pobres os que pensam que Macau apareceu por geração espontânea em 20 de Dezembro de 1999.

O Festival realiza-se durante um fim-de-semana por ano, três dias apenas, e com mais intensidade no período da noite, depois do jantar, e não incomoda ninguém. O espaço onde tem lugar é afastado de zonas residenciais, numa área classificada como património, as casas museu, não altera num azulejo que seja a integridade desse património, e não há registo de incidentes graves que levem seja quem for a questionar a sua realização. Se a intenção do IACM foi de mandar uma mensagem no sentido de que o Festival da Lusofonia "incomoda", mexe com certas sensibilidades, e há quem não o aprove por razões patrióticas, de identidade, ou que o seu fim poderá ter um carácter simbólico de confirmação de soberania, foi infeliz. É que este evento nem chama sequer a atenção dos mais distraídos que de passagem dão com uma manifestação cultural que desconhecem, e que os confunde. Nem tive conhecimento de qualquer queixa, quer do IACM, quer de particulares, de que os participantes do festival deixam o local sujo, ou danificam qualquer estrutura pública. Em suma: não chateiam ninguém, nem obrigam quem que seja a lá ir. É quase impossível ir lá parar "por acaso".

E quem não se enquadra no grupo da Lusofonia e visita o festival sai dali sempre com uma boa impressão. E nunca seria de outra forma, uma vez que há música, há alegria, há confraternização, e sente-se isso no ar, é quase contagiante. Se os locais que espreitam o festival por curiosidade não parecem sentir-se muito à vontade isso deve-se talvez a um certo choque, por não estarem habituados a tanta descontração e sentirem-se em minoria num ambiente onde existe tanta diversidade. Quem é que não gosta de comer, beber, dançar e rir, rodeado de um "tutti-fruti" cultural com primazia para os climas tropicais, onde as gentes são despidas de preconceito ou limitam as vestes a uma tanga? Quem nasceu, cresceu e sempre viveu num meio onde existe o primado da tradição, são muitos os preconceitos e se ensina a humildade e o respeito pelos costumes, vai pelo menos identificar uma agradável diferença, e não se sente agredido. Os que defendem que Macau "é China, e não Portugal", e acha que este tipo de "reposição de um passado humilhante" não tem aqui lugar, o melhor então é ficar na caminha, e esperar pacientemente para fazer de ovelha na Marcha do Milhão ou algo do género.

O que dá a entender com esta pequena e (felizmente) breve confusão é que existiu um mal-entendido que tomou uma proporções dantescas. Macau só tinha a perder se minasse as intenç­ões dos organizadores de um evento que ainda é dos poucos que vai dotando o território de uma particularidade que o distingue. Pode ser que haja por aí quem pense seria suficiente ter os casinos e em Novembro realizar o Grande Prémio, esse sim, um enfarta-brutos que justifica qualquer despesa que se faça com ele, e onde se aproveita para fazer as habituais "contas de merceeiro", ainda por cima com o aval de uma entidade mundialmente reconhecida como a FIA. Ora aí está um cartaz turístico de excelência, mesmo que o único contributo do território seja o asfalto, pois mesmo a organização deixa uns poucos de cá a brincar às corridas, mas quem trata das coisas sérias são que vêem os de fora. E no fim de contas, ainda bem que isto aconteceu, pois não só o IACM cedeu às condições da Associação das Comunidades Lusófonas, como reveu o seu contributo, em alta. Há males que vêm por bem.



Sorria...está em Auschwitz


Uma jovem turista norte-americana esteve no centro de uma polémica quando no mês passado, durante uma viagem pela Europa, visitou o campo de concentração de Auschwitz, na Polónia. Numa decisão um tanto ou quanto precipitada, talvez explicada pelo distanciamente que os americanos têm da História em geral, tirou um "selfie" onde aparece a sorrir, mesmo em frente às camaratas onde eram alojados os prisioneiros. A jovem, identificada apenas pelo nome próprio Breanna, publicou a imagem na rede social Twitter, e não demorou muito até começar a receber mensagens de censura, insultos, e até ameaças. Nas primeiras 24 horas terá recebido cerca de seis mil mensagens a reprovarem a sua conduta - e eu que pensava que os sobreviventes de Auschwitz se contavam pelos dedos, passados 70 anos desde o fim da II Guerra Mundial. Imagino como que o "lobby" judeu terá reagido a isto; devem ter pensado em vestir a pobre rapariga de palestiniana e sentá-la em cima de uma montanha de caixas onde se lia "munições do Hamas" no momento em que uma mira israelita se preparava para dar início a mais um espectáculo de fogos de artifício na Faixa da Gaza.

Primeiro gostava de dizer uma ou duas coisas sobre isto dos "selfies". Portanto, trata-se de apontar a câmara do telemóvel na nossa direcção e tirar uma foto, mais nada. E é isto que chamam "moda", ao ponto de nos últimos meses não se ouvir outra coisa senão "selfies" para aqui, "selfies" para acolá. Desde que inventaram telemóveis com câmara fotográfica, e já lá vão uns bons anos e nem se sonhava ainda com Smartphones, que as pessoas tiram "selfies", só que não tinham um nome especialmente criado para designar essa acção. É simples: alguém compra pela primeira vez um telemóvel com a função de tirar fotografias, e para testar essa função aponta a lente para si mesmo e dispara. Pelo menos foi o que eu fiz, mas se calhar sou "especial", e as outras pessoas aguardaram até encontrarem um bom motivo para experimentar a novidade. Desde que alguém se lembrou de chamar a isto "selfie", toda a gente usa essa expressão a torto e a direito, para mostrar que estão actualizadas, a par do último grito da moda, e que não vivem numa caverna da era do Paleolítico. Esta mania de dar nomes a qualquer parvoíce é a razão porque as grandes multinacionais estão cada vez mais ricas e destroem o planeta, pois basta-lhes lançar uma porcaria qualquer e fazer uma campanha no sentido de que quem não compra é um bardamerdas, e caem todos que nem patinhos.

Mas adiante, a atitude da Breanna parece à primeira vista censurável. Estamos aqui a falar de um local para onde foram mandados milhares de civis inocentes, entre eles mulheres e crianças, e onde além de terem sido gaseados e queimados, alguns deles feitos em sabão, não é motivo de chalaça. E apesar de não se encontrarem ali os restos mortais de ninguém, e o local estar transformado num museu, foi naquele perímetro que esses prisioneiros sofreram uma angústia que só quem passa por ela consegue imaginar. Os engraçadinhos da extrema-direita e outros que pensam que negar o Holocausto é uma forma de demonstrar "firmeza de convicções" falam de boca cheia, desvalorizando o horror por que estas pessoas passaram, por vezes escondidos por detrás do ecrã de um computador, debitando opiniões parvas que mesmo assim podem despertar nos outros sentimentos de raiva e dor, enquanto dão mais uma dentada numa "pizza". Mas não é esse o caso de Breanna. Depois de concluir um período de isolamento sabático de modo a evitar que uma pedra lhe atingisse a boca antes de a poder abrir para se explicar, a jovem conta que no dia em que tirou a fotografia, 20 de Junho, tinha passado um ano desde a morte do seu pai, um investigador e historiador cuja última obra que publicou antes de morrer foi um estudo sobre Auschwitz - a menina sorria porque se estava a lembrar do pai. E agora?

Não pensem que toda a gente que visita este local de má memória do nosso passado recente vai ali com cara de enterro. Para muitos não passa de uma mera atração turística, e para ser sincero ninguém tem a obrigação de se identificar com o sofrimento alheio. Afinal se fosse um lugar "maldito" não faria qualquer sentido estar aberto ao público, e são milhares os que o visitam anualmente, sem precisarem de se submeter ao despiste de qualquer indício de anti-semitismo para entrar. Há famílias inteiras que vão a Auschwitz, tiram fotografias em grupo, todos sorridentes, e a única diferença é que não a publicam no Twitter. E volto a frisar que esse terá sido o único erro de Breanna, a foi apenas um erro de julgamento. Quer dizer, se há saída do campo de concentração existe uma loja de lembranças onde se pode adquirir uma "t-shirt" onde se lê "I survived Auschwitz" (eu sobrevivi Auschwitz), onde está então o sentido de humor? A história existe para que tenhamos referências, para aprendermos com ela, e não para usá-la como arma de arremesso, reavivando-a quando nos convém para molestar aqueles a quem um ou outro acontecimento diz muito pouco, ou nada. Atendendo a que as ameaças e insultos que a jovem recebeu acusavam-na de exibir a sua ignorância, porque não educá-la, em vez de eliminá-la da face da Terra? Assim estão a comportar-se quase como os carrascos de Auschwitz.


Quem não arrisca não petisca, mas às vezes...


Um avião da companhia aérea TransAsia, de Taiwan, aterrou de emergência no aeroporto de Magong, na ilha de Penghu, depois de ter partido de Kaohsiung menos de uma hora antes. O voo doméstico foi condicionado por condições atmosféricas adversas causadas pela passagem de um tufão, e apesar não ser recomendável que se efectuasse, a companhia aérea arriscou, e das 58 pessoas a bordo, incluindo passageiros e tripulação, perderam a vida 51, tendo as restantes ficado feridas - praticamente a mesma coisa do que se tivesse despenhado. O avião aproximou-se da pista 35 minutos antes da hora prevista de chegada, e a queda deu-se a pique, com o aparelho a ficar praticamente destruído. Há uma teoria para os desastres de avião na ilha nacionalista, que há alguns anos eram bastante frequentes; muitos dos pilotos actualmente ao serviço das companhias civis são ex-militares, que durante o tempo que estiveram na força aérea, foram treinados para não ter medo de morrer, e não hesitar caso fosse necessário tentar uma manobra mais perigosa. Mas se este é um factor a ponderar, ninguém explica o porquê do voo ser autorizado quando o tufão obrigava ao seu adiamento. Para estas companhias que se estão nas tintas para questões de segurança e colocam o lucro acima de tudo, sempre com receio da concorrência, se em dez cair um vale sempre a pena arriscar. Qualquer dia os passageiros são enfiados em caixas na posição horizontal, para se poderem acomodar um milhar deles num avião e tornar "lucrativa" a viagem. Mas pronto, o que estou para aqui a dizer, quando a hora é de luto, e devia estar antes a lamentar as vidas humanas que se perderam neste acidente. Afinal a culpa é do tufão, que mandou o avião a pique para cima da pista do aeroporto, onde se estava alguém com dois palmos de testa, certamente ainda se está a interrogar: "quem é o maluco que mandou para aqui esta gente?".

Em má companhia


Esta imagem é datada de 2008, mas pouco importa de quando é, pois entre 2008 e hoje continua a ter o mesmo significado. É possível que este aperto de mão entre Cavaco Silva e Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, presidente da Guiné-Equatorial, se tenha repetido ontem em Díli, na cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que no topo da ordem de trabalhos tinha a inclusão daquele país como membro. Um dos factos que mais estranheza causou foi o da Guiné-Equatorial não ter o português como língua oficial, nem o nosso idioma se fala entre uma parte significativa da população. Os únicos laços históricos com aquele pequeno país da costa oeste africana resumem-se à sua descoberta, pelo navegador Fernando Pó, que deu o seu nome ao diminuto território desabitado localizado entre os Camarões e o Gabão. Portugal cedeu esta posse aos espanhóis no século XVIII, como condição do Tratado de El Pardo, e permaneceu como colónia espanhola até 1968, altura em que declarou a sua independência. Obiang é presidente do país desde 1979 depois de um golpe de estado que destituíu o seu tio, Francis Macias Nguema, e governa com mão-de-ferro aquela que é uma das maiores cleptocracias e narcoestados da História, minado pela corrupção e onde a situação dos direitos humanos é das mais lastimáveis do planeta - do mal o menos, a população é de apenas 650 mil habitantes, mais ou menos a mesma que Macau. Irónico é que Cavaco Silva tenha passado pela Coreia do Sul a caminho desta conferência, e ali tenha afirmado que o governo da Coreia do Norte "viola os direitos humanos". Do pouco que nos é dado a saber sobre o regime dos Kim, podemos arriscar que sim, que a situação quanto ao respeito pelas liberdades individuais, de expressão ou de associação é nulo. Por tudo o que sabe da Guiné-Equatorial, temos a certeza.


O tio de Obiang, Francis Macias Nguema, foi o primeiro presidente da Guiné-Equatorial, após a sua independência da Espanha em 1968. Macias era filho de um curandeiro, falhou três vezes o exame civil de acesso ao um emprego no sector público, mas acabaria por conseguir um lugar de presidente da câmara de uma pequena localidade, devido à sua lealdade ao governo colonial espanhol. Candiatou-se à presidência nas primeiras eleições após a independência, que seriam também as últimas, como candidato de uma plataforma de forte pendor nacionalista, e venceu. Apesar de se dizer marxista, Moscovo nunca quis nada com ele - e estávamos no auge da Guerra Fria. Durante os onze anos que esteve na presidência fez a Revolução Cultural de Mao Zedong parecer uma brincadeira de crianças, e Pol Pot um cordeirinho manso: perseguiu, torturou e matou os intelectuais, e os que sobreviveram partiram para o exílio, e mesmo que ficassem, Macías tinha banido a palavra "intelectuais". Baniu o ensino privado, que considerava "subversivo", e a medicina Ociental, porque "não tinha nada a ver com África". Deu nomes africanizados às cidades, passando a capital Santa Isabel a chamar-se Malabo, inventou títulos honoríficos para si próprio, um deles o de "milagre único", e mudou o seu próprio nome para Masie Nguema Biyogo Ñegue Ndong. Espalhou o terror no seu país, sendo responsável pela morte de um terço da população, promoveu a ortura e as prisões arbitrárias, e para que ninguém fugisse mandou destruir todos os barcos, ilegalizando a pesca, e dinamitou uma estrada que era o único acesso terrestre para fora do país. A comunidade internacional chamava à Guiné-Equatorial "a Dachau de África", tal era a semelhança da sua maior prisão, a Playa Negra, com os campos de concentração nazi. O comportamento tresloucado de Macias era atribuído ao consumo de quantidades copiosas de iboga, um arbusto com propriedades halucinogénicas, mas para as elites que ficavam a cobro da sua loucura tanta fazia, até que no Verão de 1979 começou a ordenar o assassinato de alguns dos seus familiares. Apercebendo-se de que homem já não raciocinava de todo, o seu sobrinho Obiang destituíu-o, organizou um julgamento "à la minuta" e mandou-o executar juntamente com alguns dos seus colaboradores mais próximos, contratando para o efeito os serviços de um pelotão de fuzilamento marroquino.


Obiang subiu ao poder e operou de imediato mudanças, libertou os prisioneiros políticos (os que sobreviveram) e prometeu um estado de direito. O optimismo era elevado, e até o rei Juan Carlos de Espanha e o Papa João Paulo II brindavam à boa nova com uma visita oficial. No entanto foi mais do mesmo, e apesar do menor número de casualidades e de ser menos sádico que o tio, Obiang não mudou nada no que respeita aos direitos humanos, prisões arbitrárias e culto da personalidade. Perpetuou-se no poder através de referendos onde obtinha um "rating" de aprovação na ordem dos 99,9%, e chegou dar-se o absurdo de obter 103% dos votos numa das assembleias. É o líder de um país não-monárquico há mais tempo no poder, depois da morte de Gaddafi há três anos, e termina o seu mandato em 2016, o seu último, de acordo que uma lei que ele próprio idealizou. Contudo diz que "não abandona a presidência", e talvez por isso há quem o considere "pior que Mugabe" no aspecto da eternização do poder. O país ficou sempre à margem dos efeitos das sanções internacionais, pois além de pequeno e pouco populoso, era rico em recursos naturais, e mais rico ficou quando em 1996 descobriu petróleo no seu território, passando a ser conhecido pelo "Kuwait de África". Um progresso comparado com a associação a Dachau, mas as semelhanças com o estado árabe ficavam-se pela dimensão. Com o dinheiro do petróleo aumentou a corrupção, e as multinacionais que se instalaram no país nem se importam de pagar "taxas especiais" impostas por Obiang. O ditador diz que "como a única ex-colónia hispânica em África, a Guiné-Equatorial sente-se culturalmente orfã", daí ao pedido de adesão à CPLP, e nós, ao contrário de qualquer outra comunidade de países que considera Obiang um dos últimos grandes déspotas do mundo, aceitamos.


Mas actualmente com 73 anos, pode ser que a entrada da Guiné-Equatorial na CPLP seja uma aposta no futuro, e com a eventual saída de cena de Obiang o país poderá registar melhorias no seu horrendo registo. No entanto tudo indica que o sucessor seja o filho favorito do presidente em exercício, Teodoro Nguema Obiang Mangue, aqui na imagem. Este "júnior", actualmente com 44 anos, é conhecido pelo seu estilo de vida opulento. Desempenhou o cargo de Ministro das Florestas e dos Recursos Naturais entre 2009 e 2012, e cobrava 28 dólares por cada tronco que saía do país, de modo a sustentar os seus luxuosos hábitos. Depois de processos em França e nos Estados Unidos por suspeitas de associação criminosa e branqueamento de capitais, foi "promovido" a segundo vice-presidente, um cargo criado especialmente para ele, com o propósito de poder gozar de imunidade diplomática. Tem várias propriedades na Europa e na América, que incluem um "duplex" num bairro de luxo em Paris, e uma mansão em Malibu, com 1400 m2 e piscina com vista para o Oceano Pacífico. . É propeitário de uma editora de música "hip-hop", e uma colecção de carros desportivos e de luxo invejável. Um ex-motorista seu diz que "combinava o carro que usava com a indumentária, saíndo com um Rolls-Royce azul quando usava meias azuis". Se alguém que quiser questionar porquer é que um país que tem um PIB per capita de 24 mil dólares, mais que Portugal, mas três quartos da população vive com menos de um dólar por dia, a mortalidade infantil é de 15%, e a esperança média de vida 50 anos, aqui tem a resposta. Bem-vindos à Lusofonia, amigos. Estão só agora a começar a aprender português? Não faz mal, não tenham pressa que a gente espera.

Kurisutiāno Ronaudo! クリスティアーノ・ロナウド


Cristiano Ronaldo esteve no Japão, e na terça-feira participou num popular concurso televisivo de grande audiência, um dos famosos "game shows", levando os fãs nipónicos ao delírio. O internacional português parece meio perdido, quer pela sequência de acontecimentos, quer pelo facto de não entender uma palavra de japonês, mesmo que tenha usado o seu melhor inglês para se fazer entender. Mas são ossos do ofício, e o mercado japonês não é para se desprezar. Agora estava a pensar: se a Maria Vieira ficou indignada com a participação de Diogo Morgado naquele concurso da SIC, o que vai dizer disto?

quarta-feira, 23 de Julho de 2014

Não abandalharás a fé do próximo


Finalmente aconteceu. Depois de anos de deboche, libertinagem e adoração a Lúcifer, fui expulso da casa de Deus. De nada adiantou serrar os chifres, ocultar a cauda, ou investir em calçado especial que não deixasse marcas dos meus cascos de bode - não sou mais bem vindo à Igreja da Sé. Pelo menos é isso que dá a entender o novo aviso colocado à entrada da principal igreja católica do território, que reserva o direito de acesso apenas a católicos. Esta é uma medida ainda mais radical do que a implementada em inícios de Junho, que vedava a entrada a turistas, e que podemos recordar neste artigo que dediquei ao assunto. Não sendo eu um turista, não me senti incluído nesta triagem que a Diocese pretendia fazer quanto ao acesso à igreja, mas sendo não-católico, senti o "toque". Não que um templo cristão seja o tipo de local que me dê vontade de entrar, mas há quem não sendo praticante ou sequer um crente, encontre aqui um local tranquilo onde se pode refugiar e ficar a sós com os seus pensamentos, reflectir, e até quem sabe procurar no cenário ou nas imagens que o rodeiam algum conforto ou inspiração. Qualquer pessoa com dois palmos de testa entende que se a Igreja Católica tem como objectivo trazer a si novos membros, interditar o acesso aos seus locais de culto não é propriamente uma medida eficaz.

Mas apesar da mensagem pouco hospitaleira que o aviso transmite, esta é dirigida a um grupo específico, e não à generalidade dos gentios que procurem orientação no local destinado à prática da fé cristã; continua a ser bem vindo quem vier por bem. Segundo o Padre Luís Sequeira (que eu adoro, e para quem envio desde já um abraço) a ideia aqui é afastar um certo tipo de curiosos, nomeadamente os turistas do continente, que têm aparecido em Macau cada vez em maior número. Esta "horda de invasores", que atravessa a fronteira das Portas do Cerco com mais frequência devido à política dos vistos individuais implementada pelo Governo Central, tem uma certa dificuldade em compreender o conceito de "culto", uma vez que na China existem restrições nesse sentido. Perante uma igreja, que para eles é apenas mais um monumento, ou uma simples atração turística, entram e comportam-se sem respeito por um protocolo que desconhecem de todo. Basta colocarmo-nos na posição deles, e questionar o que pensarão os seguidores do budismo quando na condição de turistas visitamos os seus templos, fotografamos os seus ídolos, e adoptamos um comportamento que podemos até considerar humilde e respeitoso, mas que pode estar repleto de vícios dos quais nem fazemos ideia, e que os praticantes dessa crença podem considerar ofensivos, mas a que se resignam em nome da indústria do turismo, vital para a sua sobrevivência.

Antes que pensem que estou a dar exemplos de choque cultural para justificar o comportamento de alguns turistas que a Igreja prefere manter à distância, deixo bem claro que não é essa a intenção. Qualquer pessoa com o mínimo de discernimento, cultura ou civilidade entende o que se passa ao seu redor quando entra num ambiente que não lhe é familiar. Caso estes indesejáveis para a Diocese fossem parar ao meio de um desfile de uma escola de samba do Rio de Janeiro em pleno Carnaval, iam perceber facilmente qual o comportamento a adoptar, sendo permitido, a até recomendável, que pulassem, dançassem, cantassem ou berrassem, conforme o que lhes fosse mais conveniente. Posto isto fica difícil de compreender a razão pela qual não conseguem diferenciar um local onde as pessoas que o frequentam estão em plena introspecção, e mais ninguém está a comer, beber, tirar fotografias ou falar alto, que são algumas das condutas de que os crentes os acusam. É possível que após várias aproximações mais suaves, a igreja tenha chegado a um ponto em que as queixas da parte dos seus fiéis os levasse a tomar esta atitude tão radical, onde mal alguém que entra é imediatamente avisado que o local é reservado apenas ao culto, e aos seus seguidores. E por falar em radical, eu próprio estive várias vezes em locais de culto islâmicos, vulgo mesquitas, e foi-me permitido circular em todo o perímetro com excepção da sala reservada à oração - e nem me sinto melindrado, pois esse local consiste apenas de um chão alcatifado e uma parede plana que estará supostamente virada para Meca, cidade sagrada do Islão.

Mas o conteúdo agressivo da mensagem é também explicado pelo Padre Sequeira, que pede desculpa e tudo, justificando-se com um capricho da tradução - só assim os intrusos entendem e deixam os crentes praticar o culto em sossego. Isto leva-me a pensar que um simples "Local de culto, silêncio por favor" e a presença de um segurança que faça cumprir a norma terá sido tentado, mas sem resultados, o que dá a entender que a situação é grave. Deixando de lado o trocismo a que uma situação tão surrealista como esta convida, tenho consciência de que o aviso não se dirige a mim ou a outra pessoa que se saiba comportar numa igreja, mesmo que não pratique a religião. Sou agnóstico mas culturamente apreendi os preceitos cristãos da sociedade em que me inseria, e não rejeitava ou desprezava quem optasse por viver mais ou menos de acordo com essas condutas, em quem as levasse mais a sério - curiosamente aqui o respeito já não era tanto da outra parte, e muitas vezes me apontaram o dedo por não professar uma fé. Portanto nada para mim é estranho, e sei que não me devo comportar numa igreja da mesma forma que noutro local onde me sinta no direito de permanecer e deixar claro que não sou crente. Numa igreja, tal como numa casa que não é minha mas onde fui recebido, comporto-me como um convidado, e vou até onde me é permitido ir.

Claro que me revolta saber que entre os comportamentos censuráveis se incluíam vários que interferiam com o culto alheio. Achei até bizarro quando o Padre Sequeira contou que alguns dos turistas se juntavam na fila dos crentes que iam receber a comunhão, que como se sabe é um privilégio exclusivo de quem é baptizado. Tenho dúvidas quando diz que "consegue distinguir" alguém que é baptizado de alguém que não o é, mas interpreto isto como uma conclusão feita após observar mais atentamente quem não sabe o que está a fazer, ou não demonstra uma percepção do todo que o rodeia. Sei que a mim, por exemplo, não me seria negada a hóstia, mas porque carga d'água havia eu de participar de um ritual associado a algo que não me diz nada? Não aceito sequer que me obriguem a benzer-me quando entro numa igreja, ou que me ponha de rabo para o ar se visito uma mesquita. O meu respeito limita-se a tirar os sapatos quando a ocasião me obriga a tal e não me armar em parvo no local onde os outros praticam a sua religião.

Mas se não sou católico nem professo outra religião, o que estou eu a fazer, entrando assim nas igrejas, mesquitas, pagodes ou templos hindus em vez de deixar em paz as pessoas que acreditam? Pela beleza do local, naturalmente, e é nesse particular que se torna oportuna a opinião do arquitecto Rui Leão, membro do conselho para o património da RAEM. Portanto é dado adquirido que quem não entre numa igreja com o propósito de praticar o culto, pode fazê-lo por interesse artístico. E de facto há locais de culto lindos, que vale a pena visitar, observar e porque não, tirar umas fotografias. E aí é que persiste a minha dúvida: se não estiver a decorrer uma cerimónia religiosa, é-me permitido recolher imagens do local? E gostava de uma resposta oficial, e não de uma mera opinião fundamentada no "respeito" e não-sei-que-mais, pois aí há quem considere isso um ultraje, e há quem não se importe. Mas concluíndo esta longa dissertação, Rui Leão diz "entender" a posição da Diocese de Macau, apesar de achar o texto da mensagem "inadequado" - é caso para dizer "para grandes males, grandes remédios". E aqui o mal está perfeitamente identificado: os turistas do continente, que entram onde muito bem lhes apetece e fazem o que muito bem entendem na via pública, ignorando o facto de ser um espaço público, e muitas vezes que estão de visita, e que a cidade não foi montada à pressa para eles se divertirem, e que vive aqui gente que tem a sua vida, trabalha, e por vezes está com pressa, e nas tintas para se eles estão a procurar o melhor ângulo para tirar um fotografia.

Causa identificada portanto, e a solução? Esta não passa tanto pelo número de visitantes, mas pela capacidade que temos em os receber. Se quem permite que eles venham nesta quantidade, certamente que pensou onde os acomodar, ou em organizá-los de forma a que a vida dos residentes se processe normalmente, de forma paralela a quem nos vem visitar, e por isso gostariamos de ter prazer em os receber. Mas não, e esta modalidade do "todos ao molho e fé em Deus" vai sendo suportada por uma certa franja desses turistas, uma minoria, que procura no território um detergente eficaz para eliminar umas manchas indesejáveis numa certa roupa que trazem, e que se distingue por uns convidativos tons de verde - entendem onde quero chegar, certamente. O património está aqui para ser visto, visitado e apreciado, e só é necessário que se criem as condições para que não surjam episódios infelizes como este da Igreja da Sé. Os turistas vêm a Macau visitar os pontos de interesse, como nós fazemos quando visitamos outro local, e tal como nós não é relevante saber quantos outros turistas vamos lá encontrar - queremos ir na mesma. Mais do que uma interdição aos bárbaros que interferem com o culto, que este aviso sirva para lembrar que este é um dos muitos problemas que há pela frente, e que urge resolver. Ignorá-lo só pode trazer resultados indesejáveis, como aliás tem ficado provado.

Engolir um Jiang



Aqui está mais um "assunto sensível" para a sempre atenta e rigorosa censura chinesa, e na forma de um sapo insuflável, imaginem. O sapo tem para os chineses uma conotação com a prosperidade, com a fortuna, e quem vive por estas bandas já terá visto certamente aquelas representações metálicas do anfíbio com uma sapeca presa na boca. Foi talvez com isto em mente que os responsáveis do parque Yuyuantan em Pequim tenham decorado o lago com um sapo de borracha insuflável com 22 metros de altura - se é prosperidade, quanto mais melhor. Tudo bem, e se olharem para a imagem em cima concordarão que até não é de mau gosto, e não destoa do resto da paisagem. O problema foi quando na internet (sempre a maldita internet, dirão eles) se começaram a fazer comparações com Jiang Zemin, presidente do PC chinês entre 1989 e 2002, e presidente e líder de facto do país entre 1993 e 2003, sucedendo a Deng Xiaoping e iniciando a nova era que impõe um limite de dez anos para cada mandato de um presidente da China. Apesar de ter descido da cadeira do poder há mais de uma década, e dos rumores sobre o seu estado de saúde, Jiang ainda é uma figura influente no partido, mesmo com as notícias que dão conta de alguns dos seus colaboradores mais próximos estarem a ser investigados por suspeitas de corrupção, no âmbito da campanha de "limpeza" iniciada pelo actual presidente Xi Jinping, que assumiu os destinos do país no ano passado.

O sapinho estava muito bem a gozar na plenitude a sua majéstica insulfabilidade no lago pequinense, mas assim que as comparações começaram a ser feitas, entrou a acção a "Grande Muralha", nome dado ao sistema de censura que bloqueia "websites" considerados subversivos, ou apenas incómodos. O facto de não ser mais possível aceder a imagens do sapo de Yuyuantan ou a qualquer história relacionada com ele prova que os critérios dos censores são tudo menos claros, e assentam numa imprevisibilidade que só se pode considerar...imprevisível - é complicado entender o que vai naquelas cabecinhas. Já no ano passado haviam surgido alguns problemas com o célebre patinho de borracha amarelo, uma criação do artista holandês Florentijn Hofman inspirada num clássico boneco de borracha com que os bebés costumam brincar no banho, e que chegou a boiar no Kowloon Harbour, aqui ao lado em Hong Kong. Gente mal intencionada usou o Photoshop para recriar o cenário do herói anónimo que se colocou em frente ao um tanque em 4 de Junho de 1989 na Praça de Tiananmen, uma das imagens icónicas do massacre operado pelo exército de forma a dispersar o movimento estudantil, e a internet chinesa apressou-se a censurar. Para quem considera que o inocente sapo agora tornado polémico não oferece grandes semelhanças a Jiang Zemin, saiba que partilho da mesma opinião, mas não se preocupem, que um responsável do parque já garantiu não existirem planos de o retirar. E no fundo isto abre um precendente perigoso: cada vez que não nos agradar uma imagem, basta associá-la a uma figura pública respeitada, e pode ser que a retirem. Na China pelo menos parece que funciona assim.

Your fault, round eye!


A China pronunciou-se sobre o desastre aéreo da última semana, que vitimou os 298 passageiros a bordo de um voo da Malaysian Airlines que fazia a ligação entre Amesterdão e Kuala Lumpur, e que viria a ser abatido por uma bateria anti-aérea enquanto sobrevoava a Ucrânia. Eu sinceramente penso que aquilo que a China ganhou em "tomates" perdeu em coerência, e quando os "tomates" não vêm acompanhados de coerência, a isso chama-se "lata", e os tomates de lata não são tão frescos como os da horta. Um comunicado da Xinhua critica o "Ocidente" pela interferência na questão da Crimeia, acusando-os de reatar os conflitos depois de já ter sido declarado o cessar-fogo. Aqui por "Ocidente" entende-se tudo o que não seja a China, a Rússia, alguns países árabes, o Irão ou todo o que não esteja alinhado com os Estados Unidos. É um conceito político, não geográfico, e nessa perspectiva até o Japão pode ser considerado "Ocidente".

Ainda segundo a Xinhua, a Rússia "não tinha qualquer interesse em abater o avião", e de facto isto não é difícil de perceber, e não era preciso a Xinhua vir explicar. O problema aqui é que uma vez cometido o erro que provocou uma tragédia que vitimou centenas de inocentes, a Rússia e o seu presidente ainda se dão ao desplante de considerar isto um mal que se podia evitar não fosse a interferência externa na questão da Crimeia - algo que a China reitera. Um pedido de desculpas e uma posição clara na condenação da conduta dos rebeldes era o mínimo que se pedia de Putin. O disparo não foi na direcção do exército ucraniano, foi dirigido a um voo comercial cheio de passageiros que nada tinham a ver com esta questão. Pelo menos o governo holandês tem tido um comportamento à medida das circustâncias, não mudando uma vírgula ao discurso que responsabiliza os verdadeiros culpados da tragédia. Retirando a componente da política de tudo isto, qualquer pessoa com bom senso considera desumano e doentio o comportamento dos autores do atentado, e não esperaria outra coisa dos seus dirigentes que não a condenação incondicional dos rebeldes, pouco importa qual a situação das relações com Moscovo.

A leitura que a China faz deste incidente e do conflito em geral choca com o que tem vindo ser a sua posição em termos de política externa. Estamos aqui a falar de separatistas pró-Rússia num território que é, para todos os efeitos, ucraniano. No passado a China manifestou uma firme oposição a qualquer forma de separatismo, fazendo-o em questões bem longínquas da sua esfera geográfica, casos do Quebeque e da Catalunha. Ficou do lado de Moscovo, mesmo que apenas por uma questão de princípios, na questão da Chechénia, e bateu forte com pé por altura da declaração unilateral de independência do Kosovo. Em mente estavam, como é fácil de perceber, a situação no Tibete e em Xinjiang, ou até de Taiwan, se bem que sem a preocupação de impôr a soberania ao nível territorial. O que teria acontecido caso o avião da Malaysian Airlines tivesse sido abatido por separatistas "uygur" enquanto sobrevoava a província de Xinjiang? A China entenderia isto como um sinal para avançar com força sobre os rebeldes e ainda contaria com o apoio do Ocidente - pelo menos agia, ao contrário do que fez Putin.

Portanto onde não cabe a questão do separatismo, entra a da interferência nos assuntos internos, e condam-se que a participação das democracias ocidentais, quer na procura de uma solução pacífica ou apenas uma mera mediação, quer as sanções impostas após decisões tomadas à revelia de tratados internacionais e que resultem em baixas civis ou catástrofes humanitárias. Não é segredo para ninguém que Pequim admira a postura de Putin; a forma como controla o aparelho de estado, desde a economia à política externa, garantindo uma zona tampão à volta do seu território,a mão-de-ferro com que lida nas questões de segurança interna, de como mantém a oposição domesticada, mantendo uma enorme popularidade e sendo reeleito mandato após mandato, mesmo sujeito às regras de uma democracia normal, e sobretudo dois aspectos que a própria China considera de importância vital, mas onde Putin se tem conseguido exceder: o separatismo e as interferências externas. O presidente russo não negoceia com terroristas, recusa tudo o que considere interferência externa, mesmo em forma ajuda ou de apoio logístico e humano, e não se compromete com qualquer pacto que pense ir contra os interesses do seu país.

Russos e chineses têm uma história quase tão longa quanto os quilómetros de fronteira que os dividem, e apesar de nenhuma destas nações poder dizer que o caminho foi fácil, ambas são hoje potências no quadro geopolítico actual. Uma cooperação entre as duas pode trazer benefícios mútuos, tanto pela identificação de "inimigos" comuns (separatismo, terrorismo, oposição interna, ingerência externa), quer pelo facto de nunca terem entrado directamente em disputas territoriais - talvez porque o expansionismo russo foi sempre na direção da Europa, e a China só se unificou em meados do século XX. A única vez que se encontraram foi exactamente no contexto da implantação da R.P. China, com a antiga URSS a "apadrinhar" mais uma filial do marxismo-leninismo que inaugurou, e mais tarde ficaram de costas voltadas por questões ideológicas - como se a gente acreditasse. Mas se é passível de existir debate sobre qual a foice que melhor corta ou martelo que melhor malha o ferro, onde perseguem um objectivo comum que só tem uma forma de expressão, que é esta: $. E nesse contexto compreende-se que existam dois pesos e duas medidas. Basta olhar para o todo, e de vez em quando ignorar os detalhes.

Os "putos" não dão hipótese


Portugal qualificou-se para o mundial de sub-20 de futebol, competição onde tem pergaminhos, ao garantir ontem à passagem às meias-finais do Europeu de sub-19, que se está a realizar na Hungria. Depois de uma vitória por 3-0 sobre Israel na primeira ronda do Grupo A, Portugal goleou ontem a equipa da casa por 6-1, numa partida em que o avançado André Silva, do FC Porto, apontou quatro golos. A selecção das quinas discute na sexta-feira o primeiro lugar do grupo com a Áustria, que soma também seis pontos, mas basta um empate aos jovens portugueses, devido à vantagem no "goal-average". No Grupo B, Alemanha e Ucrânia também já estão no mundial de juniores, partilhando a liderança com 4 pontos, mais dois que a Sérvia, mas não garantiram ainda um dos dois lugares de acesso ao "final-four". O mundial de Sub-20 realiza-se no próximo ano bem longe, nos antípodas da Nova Zelândia, e as seis vagas da zona da UEFA são decididas no europeu de sub-19, bastanto evitar o último lugar de um dos grupos para marcar presença no mundial. Isto equivale por dizer que a França, campeã em título, não o vai poder revalidar na Nova Zelândia. Espanha e Inglaterra, duas presenças habituais, também não participam desta vez.

terça-feira, 22 de Julho de 2014

Moção 1, opção "B": Não


Nota prévia: este artigo é uma versão (muito) mais alargada daquele que vai sair esta quinta-feira no Hoje Macau.

A Associação do Novo Macau Democrático (ANMD) anunciou ontem que o "referendo informal" que pretendem realizar para saber o que pensa a população de uma eventual eleição do Chefe do Executivo pelo sufrágio directo e universal, na base de uma pessoa, um voto, vai contar com a participação de futuros eleitores. Ou seja, vão poder participar do voto "online" residentes permanentes com mais de 16 anos de idade. Contudo, e para não comprometer o resultado, estes votos serão contados à parte, com uma projecção feita para os residentes com capacidade eleitoral efectiva, com mais de 18 anos, e outra para as "esperanças", os que ainda não estão recenseados, mas podem inscrever-se na Comissão Eleitoral a tempo de poder participar numa hipopética eleição do Chefe do Executivo em 2019. Eu aguardo pacientemente pela realização deste sufrágio e pelos seus resultados, eu que sou um fanático destes "case studies" que qual ventania levantam a saia da sociedade, deixando ver alguns dos seus aspectos mais ocultos. Espero que se realize, sim, e como residente permanente, maior de 16 anos e recenseado, faço intenções de votar, ai não, coração. Ainda não estão decididas as moções que vão constar do boletim, mas é quase garantido que a Moção 1 não ficará muito longe do rascunho já tornado público pelo ANMD: "Deverá o Chefe Executivo da RAEM ser eleito por sufrágio universal em 2019? Opção A: Sim; Opção B: Não; Opção C: Abstenção. Vou adiantando desde já que o meu voto será na opção B: não. Fico feliz por poder expressar o que penso da questão do sufrágio directo, e que sorte que a ANMD me tenha dado essa oportunidade.

Agora estarão alguns a pensar: mas então para quê este barulho todo, se não queres o sufrágio directo para a eleição do Chefe do Executivo? Aí está; eu nunca disse que queria. Aliás gostava, mas não quero. Não nestas condições, com este eleitorado, e sem um único nome onde colocaria a cruz no quadrado à frente do seu nome. Ng Kwok Cheong e a malta do Novo Macau quer, sabemos disso, mas este "referendo" não tem como finalidade apenas mostrar quantos querem além deles - para isso faziam antes um abaixo-assinado, que aliás já fizeram por mais que uma vez - mas qual é a recepção da população a esta ideia. E o facto de se ter feito todo este alarido por nada vem provar que Macau não está preparado para uma iniciativa desta natureza, quanto mais para eleger o Chefe do Executivo através do voto directo. Como não me contento em dizer não apenas "porque não", dando a entender que o actual sistema me serve melhor (o que não é de todo verdade) ou que o método de eleição do CE que vigora é o melhor, penso que devo uma justificação para este "não". E de facto não acho que o actual método seja adequado. É bem pensado, mas não serve para Macau, pois o Colégio Eleitoral que no fim escolhe o único candidato que concorre nem sequer representa condignamente o grosso da população do território. Mas se não quero o sufrágio directo, nem quero o actual método, então quero o quê? Que o CE seja escolhido por meia dúzia e com a benção do Governo Central? Nem por isso, mas não é o que acontece agora? Vamos então analisar ponto por ponto este raciocínio.

Vamos recuar até à primeira eleição para o Chefe do Executivo, corria o ano de 1999. Foi a única vez que tivemos duas candidaturas, e com Edmund Ho concorria ainda Stanley Au Cheong Kit, empresário e presidente do Banco Delta Ásia. Por muito respeito que este último mereça - e não é propriamente um modelo de virtude - o seu papel fez-me lembrar o daquelas equipas de basquetebol desconhecidas que jogam contra os Haarlem Globetrotters, durante as suas exibições de malabarismos. Era importante que houvesse uma corrida a dois, quer para testar a eficácia do método, quer para lhe conferir alguma credibilidade, mas nunca subsistiram dúvidas de que Edmund Ho sairia vencedor. Mesmo a campanha e os debates entre ambos pautaram-se pela tranquilidade, sem ataques de parte a parte (normal em política "a doer"), e com Au a mostrar um carácter mais extrovertido, ao contrário de Ho, que primava pela placidez que se exigia na circunstância, com vista à construção de uma "sociedade harmoniosa".

Edmund Ho seria reeleito em 2005, e pela única vez não terá havido uma voz dissonante quanto ao seu excelente desempenho durante o primeiro mandato, ao ponto de se sugerir que se abrisse a porta para um terceiro, tal era o seu ratio de aprovação. Frequentemente elogiado pelo Governo Central, soube lidar com a crise da Pneumonia Atípica (SRAS), resolveu o dossiê da liberalização do jogo, e colhia a simpatia da generalidade da população - até se entende que mais ninguém tenha avançado com uma candidatura. Depois deu-se a falência do método, com Chui Sai On a concorrer sozinho para a sucessão de Edmund Ho, e de novo agora para um segundo mandato, quando a situação justificava uma alternativa, uma voz dissonante, nem que fosse apenas para o Chefe do Executivo ser obrigado a justificar-se, e a compromoter-se no sentido de melhorar o seu desempenho. Fica-se com a sensação que um putativo segundo candidato nunca iria concorrer por si, mas contra Chui Sai On, e portanto contra o sistema, e ninguém se atreve. Se em tempos ia fazia passar uma mensagem de unidade e confiança, agora deixa o CE numa posição embaraçosa. O tal Colégio Eleitoral, cuja composição é pouco representativa da generalidade da população e os seus membros selecionados de forma pouco transparente, vota no único candidato não como manifestação do seu apoio ou da sua aprovação, mas com receio de que votar em branco dê a entender que se está do lado dos críticos. Quem quiser expressar essa opinião precisa de uma base sólida que evite o seu "suicídio político", e aqui estou-me a referir, é lógico, ao deputado Pereira Coutinho - se bem que entendo a sua participação neste colégio um erro, pois renunciar teria mais impacto do que se abster. (A propósito ele hoje fez anos, parabéns para ele).

Perante a flacidez deste método e o desinteresse da opinião pública, acena-se com uma alternativa: o sufrágio directo e universal, com cada residente permanente com capacidade eleitoral a votar na escolha do Chefe do Executivo. Isto não é novo, pois já temos os residentes a votar de quatro em quatro anos para a eleição de uma pequena parte da composição da Assembleia Legislativa - e isto é o que me preocupa. Não há eleição em que no fim fiquemos com a sensação que a maioria do eleitorado votou em consciência e na lista que melhor acha que serve os interesses de Macau. Votaram na lista que melhor serve os seus interesses, isso sim, e caso não se sintam representados por nenhuma delas, não se inibem de vender o seu voto em troca de um "lai-si", um brinde ou uma jantarada. A indiferença de uma boa parte da população pelas coisas da política não é novidade, e tem uma explicação simples. Primeiro impingiram-lhes a ideia de que a política "é uma coisa suja" (um facto, nada a apontar), e que pouco importa em quem vão votar, pois nas questões essenciais a última palavra pertence sempre a Pequim. Sendo assim, porque não obter uma gratificação imediata, do que ficar à espera do dia de S. Nunca à tarde, quando finalmente uma medida qualquer tenha qualquer impacto nas suas vidas?

Tudo bem, isto pode parecer um golpe baixo, garantir o voto de quem não tem opinião formada em troca de um jantar ou de 500 patacas, mas porque é que estes eleitores não são mais espertos que o espertalhão, aceitam os seus mimos e depois na hora de votar põem a cruz onde lhes apetecer? - afinal o voto é secreto. Aí é que está o busilis da questão, e permitam-me ilustrar com um exemplo: uma associação tem nove membros, e dois deles concorrem à presidência, bastando portanto a um deles cinco votos para obter a maioria e ganhar as eleições. Um dos candidatos consegue convencer quatro outros associados a lhe darem o seu apoio, e com o seu próprio voto, isto é suficiente para garantir a eleição. Na hora da verdade, este candidato tem apenas um voto - o seu, lógico - e tem toda a legitimidade para acusar os que diziam apoiá-lo de "traidores", e estes não têm outra opção senão ficar de cabeça baixa a engolir os desabafos. Mas caso tenha dois votos, é-lhe impossível saber quem foram os três putativos apoiantes que mudaram de ideias. Se os quatro garantirem a pés juntos que votaram nele, não tem qualquer forma de saber quem está a dizer a verdade. Em Macau não é assim, pois não sei que tipo de hipnose ou bruxaria foi aqui utilizada, mas muitos dos eleitores que se comprometem com uma das listas, ora porque foram pagos ou lhes foram exercidas pressões, julga que existem meios para que se saiba se cumpriu com o combinado. Não me perguntem porquê, já gastei muita saliva a explicar que não há forma, nem aritmética nem outra qualquer para se saber em quem alguém votou realmente, mas os apologistas desta estranha teoria juram-me a pés juntos que "sim, que há maneiras de saber". Seja como for, enquanto este regabofe persistir, para mim não há condições para sufrágio directo nenhum. Livra!

Mas pronto, para o bem da restante argumentação, digamos que se avançava na mesma com o sufrágio directo, e já em 2019. Agora, em quem ia votar a população de Macau para seu líder? Partimos do prncípio que Pequim não interferia com a escolha dos candidatos, e que no fim era dado aos eleitores a escolher entre dois: um com um programa político, outro com dinheiro - em quem é que as pessoas de Macau votavam? Exacto, penso que não e necessário que eu diga o que toda a gente já está cansada de saber. Não é por maldade ou por ganância, mas mais por ignorância que a mentalidade vigente olha para alguém rico e poderoso como um caso de sucesso, e que deseja partilhar o segredo desse sucesso com a população, caso esta lhe confie a governação. Numa outra perspectiva, esta mais científica, eleger um empresário "é bom para a economia, pois estimula-a", e a economia é o suporte de todo o resto. Pode ser que um empresário rico conheça os caminhos que levam a fortuna, mas também pode ser que esses caminhos sejam ínvios, e que os tenha feito de mão dada com corruptos e elementos ligados ao submundo do crime organizado. É uma ingenuidade pensar-se que alguém rico acorda um dia e diz: "Já sou rico quanto basta. Agora vou-me dedicar a servir a sociedade, retribuindo pelo tanto que ela me ajudou a ganhar". Dá vontade de rir, não dá? Pior ainda se na sua equipa estão outros do mesmo calibre ou piores, e ainda mais ambiciosos. Não digo que isto vá acontecer com toda a certeza, mas o risco é demasiado elevado para se apostar com confiança.

Fazendo ainda outro exercício, este mais concreto: quem estaria interessado em concorrer caso houvesse sufrágio directo para a eleição do proximo CE? Atendendo que é a população quem decide, existe uma forte probabilidade de aparecer alguém que tenha obtido um bom resultado nas eleições para a AL. É preciso não esquecer que vamos ter outras em 2017, mas das últimas o grande vencedor foi sem dúvida Chan Meng Kam, que obteve o maior número de votos e conseguiu três mandatos para a sua lista, um feito inédito. Já se tinha avançado com a possibilidade do patrão da Golden Dragon avançar com uma candidatura para o principal cargo da RAEM num futuro próximo, independentemente do método da eleição. E de facto temos aqui um caso sério; um empresário e "self-made man" que passou de "surpresa" nas eleições de 2005 a figura carismática, tendo realizado uma campanha mais abrangente no último sufrágio, chegando a um eleitorado mais vasto que o seu, que como se sabe é o da comunidade originária de Fujian. E é exactamente aí que reside o senão; terá este candidato o perfil para CE, e conseguirá demarcar-se da componente regional da sua plataforma eleitoral? Será sensato optar por um candidato com fortes ligações ao jogo, quando a diversificação da economia é (ou devia ser) uma das prioridades? E já nos esquecemos aquando da sua primeira eleição para a AL, que recaíram suspeitas de corrupção eleitoral sobre elementos da sua lista, e na altura recusou colaborar nas investigações escudando-se na imunidade como deputado? Tudo factores a ponderar numa decisão desta importância.

Portanto quem seria o candidato ideal? Teria que ser alguém com conhecimentos sobre a realidade do território, de preferência nascido em Macau, com uma retórica convincente mas não demasiado inflamada, que apresentasse soluções, tivesse participação directa na resolução dos problemas de fundo, que escutasse a população e analisasse cada caso atendendo aos diversos pontos de vista, e que tivesse capacidade negocial para lidar com o Governo Central, e garantir que este o apoiava e reiterava a autonomia parcial da RAEM. Agora, dificilmente se encontra alguém com todas estas valências à face do planeta, e em Macau o seu avô ainda está para nascer. E os democratas? Se insistem tanto é porque talvez queiram apresentar eles também um nome. Que nada, pois nem seria possível ambicionar a um candidato que no caso de ser eleito não se poderia sentar à mesma mesa do Governo Central para tratar das questões de Macau. Eles sabe bem disso, e aqui ao avançar com o "referendo", estão a fazer o seu papel, e infelizmente estão-se a substituir ao próprio Executivo nessa função. É preciso ter vistas muito curtas para não entender que apesar de ser improvável que se avance com uma calendarização para o sufrágio directo, este é um tema que nunca pode ser tratado como tabu. Basta olhar para o barril de pólvora que se tornou Hong Kong para ler os sinais: discutir o tema não significa necessariamente considerar a hipótese de levar a ideia para a frente. Cansados de tanta indiferença, os democratas foram em frente com uma medida que pode ser entendida como radical, mas nunca como "ilegal", ao contrário do que alguns sugerem. É um facto que o actual método de eleição do CE consta da Lei Básica, e que não se fala de sufrágio directo, mas também não menos verdade que se deixa uma porta aberta à alteração dos moldes actuais, e mais uma vez remeto para o nº 7 do Anexo I da mesma Lei Básica.

As razões que me levam a votar no "não", caso o "referendo" se realize mesmo, não significam que reprove a iniciativa dos democratas - acho interessante, e só não a louvo porque não é conquistada pacificamente, e assim perde-se um pouco da sua pertinência e utilidade. Nem estou sequer a dar uma mãozinha aos que se opõem, vociferando quase como uns loucos, e estes para mim arruinaram uma boa oportunidade de se discutir um tema oportuno no seio da sociedade civil (na edição do Hoje Macau de hoje vem uma entrevista com um académico onde este diz que em Macau "não existe sociedade civil"; esta seria uma boa oportunidade para lançar as bases no sentido de construir uma). Não me considero o dono da verdade, mas tenho a certeza que algumas das razões que apresento para votar "não" são por demais reconhecidas pelos governantes, e mesmo que seja apenas porque "lhes dá jeito", concordam com elas no essencial. Então porque não apresentar as desvantagens da realização do sufrágio directo, em vez de atirar areia para os olhos da opinião pública com uma interpretação falaciosa da Lei Básica? Teriam feito um melhor serviço ao informar o eleitorado dos seus eventuais riscos, explicar o porquê do método actual não atribuir uma maior importância à opinião dos eleitores, e já agora procurar uma via para que estes se aproximem mais das tomadas de decisão, que participem da coisa pública.

Se me pedissem uma opinião sobre o que fazer depois do "referendo" que tanto os incomoda, fosse eu o "guru" que tanta falta tem feito ao Executivo, que dá a entender estar completamente à deriva, eu diria que pegassem nos resultados e os analisassem, discutissem, tirassem as devidas ilações - fossem eles quais fossem. Dar início a uma guerra sem quartel contra os promotores da iniciativa, acusando-os de ilegalidades que querem tirar como coelhos da cartola, ou chamando-os de traidores e anti-patrióticos já não resulta, lamento muito. Apelar ao amor pela Pátria só surte efeito quando também se encaram os novos desafios que a Pátria tem que enfrentar, e não esquecer que estamos inseridos num mundo globalizado, onde tapar os olhos de quem está a olhar para um elefante não faz o elefante ir embora; antes deixa a pessoa a questionar o que há naquele elefante que não querem que ela veja. Se Chui Sai On tem pela frente mais cinco anos de mandato, seja qual for o desfecho desta polémica do "referendo" dos democratas, não perde nada em dialogar, em debater os prós e contras, em tentar fazer a população perceber o essencial: sabem o que estão a pedir, e estão preparados para as eventuais consequências? Eu vou responder que "não". Mas isto é o que eu penso, e não é prato do dia. E vocês, preferem continuar a discutir futilidades ou andar com isto para a frente?

O cão a seu dono


No artigo Vira-Latas, do último Domingo, fiz referência mais uma vez à famigerada lei da protecção dos direitos dos animais, ou devia antes dizer, à falta de vontade da Assembleia Legislativa da RAEM em dotar o território de uma. A esse respeito fiz referência a declarações alegadamente feitas ao jornal Hoje Macau pelo presidente da ANIMA, o economista Albano Martins, e publicadas na semana passada, onde atribui responsabilidades pelo atraso na produção da lei ao deputado Pereira Coutinho, acusando-o de estar a usar os direitos animais para fins políticos, e que teria tentado falado pessoalmente com ele, no sentido de negociar como Executivo uma forma de poder fazer passar a lei.

Ora Albano Martins responde numa nota publicada na edição de hoje do mesmo jornal, onde diz que não discutiu a questão com Coutinho, e nunca o acusou de nada, tendo as suas declarações sido mal interpretadas pelo Macau Hoje. O aparente mal-entendido é portanto entre o jornal e Albano Martins, mas sinto que eu próprio devia também assinalar este facto, uma vez que a introdução do artigo que dediquei ao tema continha na introdução as afirmações do presidente da ANIMA, mesmo que a minha intenção fosse falar do estranho impasse que leva os deputados do hemiciclo de Macau a não aprovar a lei. As minhas desculpas ao Albano Martins, e que fique descansado que os animais não sabem ler, e não acusaram o toque.

Que deziluzão, Catarina...


Catarina Marcelino tem 43 anos, é licenciada em Antropologia, e filiada no Partido Socialista (PS) pelo qual foi eleita deputada para a Assembleia da República na XI Legislatura, em 2009, e novamente para a XII, em 2011. Pertence às Comissões Parlamentares para a defesa nacional e para a saúde, e é ainda suplente das comissões para o orçamento, finanças e administração pública, e da segurança social e trabalho. Entre 2011 e 2013 exerceu a presidência do Departamento Nacional das Mulheres Socialistas (DNMS), e antes tinha presidido ao Departamento Federativo das Mulheres Socialistas de Setúbal. Um currículo impressionante de uma jovem promessa da política, que agora é notícia pelas piores razões. E não, não tem a ver com "sacos azuis", dinheiros públicos ou tráfico de influências, ou qualquer outro desses passatempos muito exclusivos a que os políticos gostam de se dedicar. No caso de Catarina pode-se dizer "que pela boca morre o peixe", ou neste caso, "foi apanhada na rede".


Esta é a causa de toda a polémica. Penso que nem é preciso dizer porquê, basta ler uma vez e dá para perceber que nem foi preciso o diabo esfregar um olho para que as redes sociais se atirassem a isto como os abutres à carniça. A ironia aqui é obvia: jovem deputada eleita para um orgão que representa os portugueses, não sabe escrever. Tomei conhecimento do caso num momento em que já se tinha espalhado pela rede como fogo em palha seca, e começava a chegar à imprensa. Fiquei incrédulo, não porque considere os deputados pessoas muito eruditas, antes pelo contrário, mas tocou-me na alma pelo facto de Catarina ser, tal como eu, aldeana - nasceu e cresceu no Montijo, e é juntamente com Pedro Marques um dos dois deputados "chuchalistas" originários da mais bela cidade da margem sul de Lisboa. Cheguei a pensar que esta fosse uma daquelas maldadezinhas que por vezes se fazem às pessoas, e sendo neste caso um deputado da nação, a ideia ficou ainda mais reforçada. Fui à página do Facebook de Catarina Marcelino procurar o móbil do crime, e vi lá isto:


O criminoso volta sempre à cena do crime, e desta vez ainda deixou mais pistas, em vez de eliminá-las. Este era um caso em que mais valia apagar o "post" em questão do que editá-lo, o que me leva a suspeitar que a Catarina não conhece muito bem como funciona o Facebook. Além da mensagem editada, deixou em sua defesa alguns argumentos meio esquisitos, fazendo referências ao facto de Einstein "ter sido disléxico" e outras desculpas muito fraquinhas, quando em alternativa a não fazer nada, podia muito bem alegar cansaço, dizer que teve um dia mau, que estava medicada, sei lá, qualquer coisa menos tentar justificar o injustificável. O mais patético foi ver mensagens de apoio de alguns amigos seus, provavelmente outros "chuchalistas", que se diziam "indignados" com o que lhe estavam a fazer, como se aqui estivessemos a tratar de algum aspecto da vida privada da deputada. É apenas normal que os portugueses, de costas viradas para os seus políticos há já bastante tempo, pegassem neste deslize que não se desculpa nem um aluno do terceiro ano do ensino primário e "espremessem" o seu sumo até não poder mais. A censura não tem que ser necessariamente uma coisa má. Podemos censurar alguém por cometer um erro com prejuízo, ter sido negligente, fazer um comentário inoportuno ou ter uma atitude infeliz, e no fim ainda encontramos uma forma de o desculpar. Agora no que toca à "sensura", bem, essa já não tem desculpa possível.

O Salazarismo nunca existiu


O semanário Expresso oferece nas suas próximas sete edições impressas a biografia política de Oliveira Salazar, da autoria do investigador Filipe Ribeiro de Meneses. Uma boa oportunidade para quem quiser conhecer melhor o homem responsável pelo atraso estrutural, civilizacional e intelectual em que Portugal ainda se encontra, e que tantas vezes se interroga: "Porque é que não podemos ser um bocadinho como a Inglaterra, França ou Alemanha?". Os amigos salazarentos podem ler a entrevista na edição do último Sábado, já que se pelam por refutar tudo o que seja crítica ao "Ti'Toino", que para eles foi "o melhor pretoguês couve". E quem sabe se não têm razão quando dizem que no seu tempo o país "estava melhor"? Podiam estar na "merda" (se não estivessem em África na guerra) na mesma, mas pelo menos não refilavam tanto.

O melhor golo do mundial



E qual mais podia ser senão este, o de James Rodríguez contra o Uruguai nos quartos-de-final, que terminou com a vitória da Colômbia por 2-0?

segunda-feira, 21 de Julho de 2014

E depois do caos?


Tivemos um fim-de-semana de tempo bastante agradável, apesar da passagem do tufão Rammasun pelo continente chinês, que levou a Metereologia a prever chuva, tivemos dias de céu limpo e algum sol, e mesmo assim com temperaturas relativamente amenas. Pelo menos não senti aquele "bafo" típico dos meses de Julho e Agosto, com o astro-rei teimosamente escondido atrás de um céu quase sempre cinzento, e uma humidade que nos cai literalmente em cima, como chuva invisível. Quem também deu um da sua graça foi Agnes Lam, que depois de um período de ausência que se estranha, reaparece qual raio de sol após a tempestade. Pronto, já sei que alguns estão a pensar: "lá vai este gajo outra vez malhar na coitada da Agnes Lam". Mas não, nada disso, se bem que gostava que ela nos explicasse por onde é que andou durante quase um mês onde se deu uma espécie de Maio de 68, com alunos a exibir slogans, e professores demitidos e debates sobre a liberdade académica, ou a falta dela, tanto tumulto, meu Deus. Pensei que a sua habitual verve opinativa fosse oportuna nestas circunstâncias, uma vez que ela própria é docente universitária, e isto diz-lhe directamente respeito, pronto. Além do mais tenho que aturar a minha mulher, que diz que "vocês portugueses é que gostam muito dela", e fico sempre sem graça. Mas do que venho aqui falar não é de Agnes Lam, mas sim do processo de eleição do IV Chefe do Executivo da RAEM, que teve recentemente o seu início, e que tem o particular (aborrecido, aliás) de já se saber o desfecho.

Agnes Lam veio a propósito porque finalmente quebrou o silêncio sabático a que se remeteu durante estes últimos tempos, e durante uma campanha humanitária (que lhe fica sempre bem) de recolha de soutiens para ajudar as mulheres de Moçambique a sairem da prostituição (!), fez um comentário sobre a eleição que temos à porta. Diz que "muito provavelmente só vamos ter um candidato", escusando-se o "muito provavelmente", até porque agora sabemos que o candidato anunciado já obteve um número de apoios muito acima do mínimo exigido, e ainda a procissão vai no adro, mas que mesmo assim gostaria que Chui Sai On "se aproximasse da população" durante a campanha, que "desse mais entrevistas". Sim, isso, era bom, eu sei. Que nos dissesse o que pensa fazer para resolver os problemas que nos afectam e cuja solução vem sendo eternamente adiada, ou que nos esclarecesse algumas dúvidas que nos atormentam, ou ainda que garantisse peremptoriamente que não há nem vão haver certos atropelos que se diz virem acontecendo recentemente, nem equívocos de espécie alguma. E já agora podia adiantar-nos como vão ser estes próximos cinco anos, e todos esperamos que sejam cansativos, no bom sentido, até para podermos prever o que vem a seguir, que duvido que ele próprio saiba também.

Parecem não existir dúvidas que Chui Sai On será reconduzido no seu cargo para um segundo mandato, e por inerência. A habitual "sombra" desta nomenclatura inaugurada por Edmund Ho, e que dá por nome Ho Chio Meng, já veio dizer que não se candidata e apoia o actual Chefe do Executivo, Isto vale por dizer que só uma grande hecatombe impedirá de termos o mesmo inquilino em Santa Sancha por mais cinco anos. Quer dizer, isto de cinco anos tem muito que se lhe diga, pois o primeiro ano, ou os primeiros dois, serão decisivos. Prevê-se que o início do segundo mandato seja marcado por uma grande actividade por parte de Chui Sai On, muitas medidas tomadas, muitas operações de charme no sentido de recuperar a sua imagem - e isso é bom para nós, lógico. Depois de dois anos, mais coisa menos coisa, será necessário sentir o pulso ao território, saber se as medidas a implementar surtiram efeito, e sobretudo se a população está mais satisfeita, pelo menos tomando como medida a situação neste momento. Caso o "feedback" seja positivo, a continuidade será garantida. Caso contrário, é difícil prever o que pode acontecer, mas desconfio que o recente diagnóstico de gota tornado público por Chui Sai On pode-lhe garantir uma saida airosa, sem "perder face".

Quem esteja a observar tudo isto de fora, vai pensar que o desempenho de Chui Sai On no cargo de Chefe do Executivo nos últimos cinco anos foi "mau". Nada disso, não foi mau nem bom: não foi. Se há algo de que o podemos acusar é de inércia, de "não mexer para não estragar". Se há cinco anos parecia reunir consenso geral para suceder a Edmund Ho no cargo, agora fica-se com a sensação que mais ninguém quer o lugar, e ter que fazer o que não foi feito, e ainda o que vem pela frente durante os próximos cinco anos - e que não vai ser pouco. O próprio Chui Sai On não parece muito incomodado com isso, ou pelo menos tanto quanto alguns elementos da sua órbita, que têm acusado um "nervoso miudinho" com a sucessão de acontecimentos que teve início em Maio, após os protestos contra a polémica proposta do regime de garantia dos titulares dos altos cargos. Dá a entender que muitos preferem a continuidade do actual CE porque têm projectos por terminar, e é irrelevante que os projectos que fazem falta a Macau e nem sequer foram ainda iniciados se concretizem ou não. Para a principal indústria do território e orgão vital da economia, o jogo, parece definitivo que os seus actores, os casinos, prefiram negociar a renovação das concessões com "o diabo que já conhecem". E estas renovações estão para muito breve.

Pessoalmente não acredito que Chui Sai On tenha deixado o território estagnado durante os últimos anos por conveniência pessoal ou por incapacidade para desempenhar o cargo. Por ele dava uma casa a cada família, construía um hospital público em cada bairro, trazia os melhores médicos, professores, técnicos de toda a espécie e feitio - contando que não saisse do seu bolso, é claro. Ao contrário do seu antecessor, Edmund Ho, que parecia controlar o "jogo" mesmo sabendo que não jogava sozinho, ao actual CE parece indiferente que desempenhe o papel principal ou não. Para muitos de nós, classe média, funcionários públicos ou empregados por contra de outrem, o vencimento do Chefe do Executivo (o mais elevado de um titular de um cargo político em todo o mundo) é uma quimera, mas para ele são "peanuts", e não compensa certas "chatices" que possa vir a enfrentar caso tenha um papel mais interventivo. Talvez por isso tenha pensado que o trabalho já estava todo feito, que Edmundo Ho plantou, adubou e cultivou, e que nestes dez anos bastava fazer a colheita. Confiou ainda que a paciência da população era infinita, e esta deixou de tolerar os muitos "golpes" quando se avançou com a tal proposta do regime de garantia. O "timing" foi o pior, sem dúvida, mas o conteúdo deixava também no ar o podre odor a suspeita.

Chui Sai On chegou ao cargo em 2009 e olhou para os três pilares que sustentavam Macau: o económico, o social e o político. Deu dois socos em cada, achou que eram sólidos e resolveu deixar correr o tempo. Só que estes pilares eram um pouco como a estrutura do do edifício Sin Fong, de má fama, e se por fora parecia tudo bem, por dentro havia mais areia do que betão armado. No económico o maior erro terá sido a interpretação muito única que fez do sistema liberal, deixando claro que "tudo era permitido", e que "o mercado é livre". Em teoria isto é o que um território com tradição mercantilista quer ouvir, mas o efeito foi perverso: os especuladores imobiliários entenderam com isto ter "carta branca", e em poucos anos a aquisição de habitação própria passou de "complicada" a "ilusória". A inflação tornou-se galopanete, e qualquer medida que fosse tomada era tornada pública, naturalmente, e só fazia com os preços dos bens voltassem a subir. Com que então o mercado é livre, não é? Bem vindo ao faroeste. No âmbito do social, que sempre dá para atenuar eventuais problemas económicos, também pouco ou nada foi feito. O segundo hospital público nunca arrancou, faltaram as creches, o ensino perdeu em qualidade, e não sei se foi o meu gosto que se tornou mais refinado, ou se perdi o interesse, mas nos primeiros tempos da RAEM ia a mais espectáculos ou concertos num ano do que aqueles a que fui nos últimos quatro ou cinco anos - perdeu-se o pão, e perdeu-se o circo. A juntar a isto apareceram problemas novos, casos do trânsito ou das multidões, resultado da desenfreada entrada de turistas do continente, que a oferta em termos de hotelaria também não conseguiu acompanhar.

O terceiro pilar, o da política, é talvez o mais importante, e foi também o mais ignorado. Foi neste particular que Edmund Ho se excedeu, pois este decidia, encontrava soluções, apaziguava os ânimos em situações de crise, e tinha mão na sua equipa, mostrando sempre que estava no pleno controlo das operações. Antes do famigerado caso Ao Man Leong, que marcou o fim do estado de graça desta geração de dirigentes, o primeiro CE da RAEM tinha uma imagem resplandecente, respeitado pela população, pelos representantes dos diversos grupos e associações, e pela própria China, que não se cansava de o elogiar, e de onde ele voltava sempre com mais um louvor. Muitos se recordarão certamente dos tempos em que Edmund Ho ia a Pequim acompanhado de Tong Chee-Wa, o primeiro CE da RAE de Hong Kong, e os "mandarins" puxavam as orelhas a este enquanto lhe diziam para por os olhos no nosso chefe. Longe vão esses tempos, e agora permitam-me citar a afirmação de Eric Sautedé, que segundo o próprio lhe veio a causar sarilho: Chui Sai On não tem carisma. Não renovou o elenco governativo quando teve a oportunidade de o fazer, dando a entender que tinha receio de "deixar cair" alguém, e que em vez de um Governo tinhamos um grupo de "compadres", e aqueles que ainda acreditavam que a modalidade da nomeação de parte dos deputados da AL pelo Chefe do Executivo era uma forma deste reforçar o hemiciclo com pessoas de qualidade viu a teoria ir por água abaixo nas últimas eleições. Só o facto de Fong Chi Keong ter sido nomeado, o que em teoria revela "confiança" da parte de quem o nomeou, é já por si bastante grave. Fong Chi Keong não teria lugar numa assembleia de uma qualquer República das Bananas onde todos deputados fossem praticamente analfabetos.

Na falta desse carisma ou de uma imagem de sensatez e autoridade optou por lançar ou fazer passar através dos seus imediatos a famosa "teoria do caos": por muito que não gostem de nós, a alternativa seria muito pior. Acenou-se com um "papão" vindo da China, que supostamente "queria assim" cada vez que se tomava uma decisão impopular, e transmitiu-se a ideia de que caso a população não estivesse satisfeita com o que tem, viria alguém mais inflexível, que impusesse a disciplina e normas mais rígidas de conduta. Agora já não cola; e depois? Que venham. Não somos titulares de altos cargos públicos a título ad eternum, não somos os habituais beneficiados com os projectos de obras públicas ou detentores dos monopólios, nem somos nós os "clientes habituais" dos fundos da Fundação Macau, então que diferença nos faz, se deixam os peixes graúdos comer o pão todo que atiram ao lago ou não? E porque insistem em nos dizer para nos portarmos bem, caso contrário a China toma as rédeas e impõe a barra dura? Não é isso que ouvimos de Pequim cada vez que reiteram a confiança na aplicação do segundo sistema em Macau. Estão a chamá-los de mentirosos, ou apenas de fingidos?

Claro que todos preferimos que as coisas corram bem para Chui Sai On, e não queremos que os mais de 30 anos que restam de segundo sistema sejam de rigorosa preparação para o momento em que vamos ser absorvidos pelo primeiro. Mas e agora, como vai o chefe descalçar esta bota, e passar-nos uma mensagem de que está tudo bem e não há razões para temer o futuro. O que gostariamos que nos dissesse era quem vamos ter a dirigir os destinos de Macau em 2019, pois sabendo que estes estão todos de saída, não nos são dadas quaisquer pistas sobre quem os vai substituir, e renovar a nomenclatura. Era útil que começassem a dar a cara, a intervir, a aprender para depois não se dar a mesma desculpa da "falta de experiência", que a certo ponto deixou de colher entre a opinião pública. Vamos lá então arregaçar as mangas, e recuperar o tempo perdido nestes próximos cinco anos. E vamos esperar que sejam mesmo cinco. Era bom sinal.



O horror, o caos, o referendo



O referendo que a Associação do Novo Macau Democrático pretende realizar na última semana de Agosto continua na ordem do dia, e notícias recentes dão conta de um aumento exponencial na procura de ansiólíticos, anti-depressivos e fraldas para adulto, e fala-se de um movimento anormal de capitais para as Ilhas Virgens Britânicas, ao ponto das entidades financeiras da "offshore" se terem queixado de um "overload" no sistema. A casa está em chamas, e o Executivo espera contar com o maior número de apaga-fogos que puder. Dois deles vieram hoje em auxílio do patrão, mandando mangueiradas opinativas em dois jornais da imprensa em língua portuguesa: Si Ka Lon, deputado da AL em representação da Associação dos Cidadãos Unidos de Macau, e Ho Ion Sang em nome da Associação dos Moradores.

Si Ka Lon deu uma entrevista ao JTM onde abordou, entre outros temas, o infame referendo. Eu acho o nº 2 de Chan Meng Kam uma personagem encantadora. Faz-me lembrar os homem-bala dos circos antigos, que punha uns óculos de aviador e era disparado de um canhão. No caso dele nem precisa de capacete, já que é dotado daquela cabeça aerodinamica que lhe deve fazer adquirir uma velocidade de cruzeiro com facilidade. Em relacao ao referendo, portanto, diz que toda a gente tem o direito de expressar a sua opinião, realizar consultas, estudos de opinião, sondagens, inquéritos, rifas, barracas de pipocas e algodão doce, etc. Muito bem, é democrático da sua parte produzir estas afirmações. Só que isto nunca se devia chamar referendo, pois pode causar confusão entre a população. Se calhar tem razão, o senhor. Imaginem que no dia que Chui Sai On toma posse para o seu segundo mandato, as pessoas olham para a TV e exclamam: esperá lá, não foi neste que eu votei! Foi na Branca de Neve! Vou já fazer queixa ao Feiticeiro de Oz! Si Ka Lon diz ainda que o actual metodo de eleição do CE "pode não ser o mais perfeito", mas é que temos e há que respeitá-lo, porque também foi escolhido pela população. Espera lá, foi o quê? Será que eu li bem? Será um erro de traduçãp? Olhem, lembram-se quando eu disse que ele não precisa de capacete? Afinal é melhor usá-lo, pelo sim pelo não.

Quanto a Ho Ion Sang, dos "kai-fong", falou ao Hoje Macau, onde se assumiu frontalmente e totalmente contra o referendo, alegando que "como legislador", isto "ofende a Lei Básica", e que se a ideia for para a frente, Macau arrisca-se a "tornar-se numa piada internacional". Interessante que fale como legislador, insinuando que tem formação jurídica que o habilite a se pronunciar de forma tão esclarecida. Mas pronto, o homem deve saber do que fala; isto é alguém por onde passaram milhares de talões de depósito do Banco da China. E isso da "piada" só pode mesmo ser piada, pois se ultimamente Macau tem sido notícia na imprensa internacional, tem sido por motivos que não dão vontade nenhuma de rir. O mais alucinante desta entrevista foi quando o deputado diz que os democratas "se estão a aproveitar do desconhecimento da população por assuntos da política". Ah, ah, essa é boa. Meu amigo, não cuspa no prato onde comeu: tivesse a população de Macau "conhecimentos de política", e nunca o elegeria a si, bem como a muitos dos seus "pangyaos" lá do hemiciclo. Quer dizer, a "ignorância" dos eleitores só vale na hora de comprar votos e manipular resultados? Mas se considera isto do referendo um ultraje de proporções cósmicas, porque não "tocar a reunir"? Convoca os "kai-fong" (não se esqueça é de organizar uma jantarada de borla, senão eles não vêm), e faça um discurso inflamado do tipo: "eles agora fazem referendos, amanhã abrem centros de reabilitação de toxicodependentes ao lado das vossas casas!". Vai ver que a malta pega logo nas forquilhas e nas tochas e põe-se a marchar na direcção de Santo Agostinho. No dia seguinte a sede do Novo Macau vai ficar a parecer as ruínas de Pompeia.

Continuo sem entender muito bem esta fixação com a designação que a ANMD resolveu dar à sua iniciativa. Se não conta, se não tem valor jurídico, se não decide nada, o que importa que lhe chamem referendo, inquérito, consulta, papa nicolau ou Maria Francisca. É óbvio que aqui a questão prende-se com a própria realização do tal "referendo informal", como lhe chamou Scott Chiang. Se tivessem uma base legal para impedir a sua realização, já teriam acenado com ela, mas como ao contrário do que muitos afirmam, não se pode considerar algo ilegal simplesmente porque nada diz que é legal, o maior receio é o da leitura que possa vir a ser feita: os pró-democratas levam avante uma consulta que o Governo considerou "desnecessária", e isso não agradará nada a Pequim, com toda a certeza. Não era necessário passar este atestado de incompetência à população, ao ponto de quase considerar que o eleitorado de Macau é composto por uma maioria de atrasadinhos mentais, que não são capazes de distinguir a eleição do Chefe do Executivo, de onde não lhes é dada a oportunidade de participar, de uma eleição "a fingir" organizada pelos democratas.

E isto leva-me a outra opinião que li hoje a este respeito, no editorial assinado por Carlos Morais José no Hoje Macau. O director do HM defende que caso a associação de Ng Kwok Cheong não obtenha uma participação no referendo na ordem dos 20 mil votos, arrisca-se a uma "morte política". Vinte mil votos foi o número conseguido no somatório das três listas com que o Novo Macau se apresentou na legislativas de Setembro último, onde sofreu uma derrota, e viu a reduzida a sua presença na AL para dois mandatos, menos um em relação ao que tinha conseguido em 2009. Não penso que seja Ng Kwok Cheong ou o Novo Macau que vão aqui a votos, nem isto é uma moção de confiança ou algo que se pareça. Além do mais a participação no referendo não requer nenhuma simpatia pelo Novo Macau, ou expressa qualquer tipo de apoio a esta associação: qualquer um pode votar desde que seja residente permanente maior de 18 anos, ou 16, como ainda não ficou estabelecido, e a participação pode ser feita "online", poupando o incómodo de se deslocar a uma urna de voto convencional.

Assim o facto do referendo se realizar é já uma meia vitória, e no caso da participação ser significativa, é uma "goleada" - cem ou duzentos votos já justificam toda esta controvérsia, e produzem o efeito desejado. Ainda ninguém se lembrou de projectar um hipotético cenário em que este referendo, ou consulta ou seja lá o que for aponte para um resultado oposto às pretensões dos democratas. Imaginemos que no fim fique expresso que a população não está interessada no sufrágio directo e universal para a eleição do Chefe do Executivo. Aí como é? Os que agora criticam e apontam para ilegalidades vão bater palmas? O problema aqui é que esse cenário é altamente improvável. E aqui é que a porca torce o rabo.


Rigor e princípios


Ontem à noite assisti como é hábito ao "Contraponto", programa de debate e análise do canal 1 da TDM. Ontem fizeram parte do painel moderado por Gilberto Lopes os jornalistas Emanuel Graça, Paulo Rêgo e Carlos Morais José - desde já um grande bem-haja a todos, que me conseguem sempre entreter durante aquela hora após o jantar, o que até ajuda à digestão. Sem querer estar a fazer o debate e análise do programa de debate e análise, gostaria de me pronunciar sobre alguns pontos que foram ali discutidos, com a devida vénia, e mais uma vez recordo que a minha opinião não é verbo divino. E só lê quem quer.

Primeiro gostaria de começar por um "ajuste de contas" com o Emanuel Graça, cujo trabalho acompanho com mais ou menos frequência desde a sua chegada a Macau, que se a memória não me atraiçoa, foi no ano de 2006, por altura dos primeiros Jogos da Lusofonia, organizados pela RAEM. Num dos últimos programas do "Contraponto", julgo que no anterior ao que passou ontem na TDM, o Emanuel referiu-se à Associação do Novo Macau Democrático (ANMD) como "Novo Macau Democrático", e de seguida emendou para "Novo Macau". Ora bem, de facto o nome desta associação é de facto "Associação do Novo Macau", ou em chinês, "新澳門學社", sendo o primeiro caracter "novo", o segundo e o terceiro "Macau", e os dois último significam "associação". Em rigor o seu nome português "Associação de Macau Novo", que para nós portugueses soa um pouco estranho, mas foi essa a tradução que puderam arranjar. Inicialmente a associação continha os caracteres "man chi" (民主), que quer dizer "democracia", e eram conhecidos em português por "Novo Macau Democrático". Não está errado chamá-los de uma coisa ou outra, nem há necessidade de emendar um erro que não chega a ser erro. Dizer "Novo Macau Democrático não! Novo Macau se faz favor!" é um preciosismo tão inócuo como dizer que o Vitória de Guimarães não existe, mas sim o Vitória Sport Clube, ou que os estrangeiros estão todos errados porque não temos nenhum "Sporting Lisbon", mas sim um Sporting Clube de Portugal. É completamente fútil e uma perda de tempo.

Recordo-me onde o Emanuel Graça começou a exercer o jornalismo em Macau, e recordo-me também de uma crítica que lhe fiz no extinto blogue "Leocardo" por se ter prestado a afirmar que o caso da alegada violação de uma jovem local por um atleta cabo-verdiano após o término dos Jogos da Lusofonia "não prejudicou o sucesso da organização do evento". Na altura considerei essa caixa "encomendada", e questionei a sua ética profissional, e o meu comentário caiu mal entre os leitores do blogue, que me deixaram saber isso mesmo pela caixa de comentários. Em retrospectiva considero que fui injusto, e considero o Emanuel uma óptima pessoa e um excelente profissional, e dá-me gosto tê-lo por cá e agrada-me a sua presença no "Contraponto". Contudo não posso deixar de reconhecer nessa correcção do nome da ANMD uma certa "escola" que adquiriu durante a sua primeira aventura jornalística por estas bandas, nomeadamente a astúcia com que certas pessoas fazem esse aparte com a intenção de dar a entender que a associação em causa "não é democrática", ou faz-se passar por tal, não se pautando pelos valores democráticos propriamente ditos. Penso que entretanto o Emanuel foi conhecendo melhor o território onde se radicou, e penso que há lições que é melhor esquecer, e pensar antes pela nossa cabecinha. É só.

Outro apontamento tem a ver com uma afirmação de Carlos Morais José sobre o caso que opõe a Universidade de S. José ao professor Eric Sautedé, demitido daquela instituição de ensino alegadamente por causa de comentários políticos que terá feito, e considerados desadequados pelos critérios da reitoria. Esta discussão já foi mais que esmiuçada neste espaço, mesmo havendo sempre um cantinho reservado para novos desenvolvimentos, mas foi um raciocínio do director do Hoje Macau que me deixou pensativo. A certo ponto Carlos Morais José diz que a instituição é privada e tem legitimidade para escolher o seu corpo docente - isto como princípio básico, deixando de parte a questão da liberdade académica - e que Sautedé faz acusações ao bispo e à Fundação Católica "sem apresentar provas", e finalmente "acha estranho" que tanto o professor de Ciência Política como Bill Chou, igualmente demitido da Universidade de Macau em circunstâncias semelhantes, digam que "sabem de coisas que não dizem, mas que se sairem vêm cá para fora dizer". De facto à primeira vista parece um tanto ou quanto "rasteiro" da parte dos dois docentes, e sugere mesmo alguma chantagem, mas será mesmo assim?

Do pouco que veio a público na semana passada sobre a demissão de Sautedé, e que o próprio deixou saber, enumerando os motivos do seu afastamento e nomeando os responsáveis pela mesma, há aqui uma situação em que temos a palavra do docente contra a palavra do bispo José Lai. Sautedé diz ter provas do que afirma, mas até esta altura não penso que se tenha chegado a um limite do intolerável em que seja necessário apresentá-las. Pode ser que o faça no futuro, tudo depende do que estiver a pensar em fazer em relação ao seu despedimento, que considera injusto. Vir à praça pública e mostrar as provas era mostrar os trunfos ao adversário, e pedir-lhe que o faça é como pedir um assaltante que afirma ter consigo um detonador que mande tudo pelos ares, só para termos a certeza que está a dizer a verdade. Tenho a certeza que se a situação assim o exigir, ficaremos a saber se Sautedé tem ou não as provas que diz ter, que força têm elas, e quem está afinal a falar a verdade e quem está a mentir. É só seguir com atenção a "novela".

Essa do "sei mas não digo, mas se me provocam vou dizer" é deselegante, sem dúvida, mas não é de todo um golpe baixo. Tanto eu como muita outra boa gente que ganha o pão com o suor do seu rosto e está subordinado a outrem, pode não concordar com tudo o que vai dentro do local onde dá o seu contributo, nem está obrigado a tal coisa - quem se diz 100% de acordo ou é sabujo ou trabalha para o Pai Natal (e mesmo quanto a esse levanto sérias dúvidas quanto às condições laborais a que sujeita os duendes). O que existe aqui é um dever de lealdade, que inibe, ou devia inibir, cada um de questionar decisões internas ou detalhes relacionados com o desempenho da sua profissão, levando essa discussão para fora do local apropriado para o efeito. E atenção, não confundir o dever de lealdade com o dever de sigilo, pois não creio que a demissão de Sautedé tenha sido de importância estratégica para a USJ - pelo menos ele não acha, e faz questão de o afirmar alto e bom som. Mas não posso deixar de concordar quem mais fica prejudicado com tudo isto são os próprios alunos, pois está-se aqui e mexer com a credibilidade da universidade onde estão a turar o seu curso.

E assim fico mais leve, depois deste pequeno desabafo, e só me resta despedir-me, agradecendo mais uma vez aos três pela hora bem passada, e que continuem inspirados, como até hoje. Obrigao por tudo, e espero que não levem a mal estas observações, que são apenas emanadas do local onde se situa o meu ponto de vista. Outros podem concordar com elas, discordar, ou ter as suas próprias opiniões, e isso é salutar. Por esta razão é que o programa "Contraponto" tem qualidade, e era bom que se inserisse num quadro mais largo de debate, que infelizmente não temos em Macau, e assim ficamos com a sensação de que estamos a falar sempre para os mesmos, e são os mesmos que nos respondem - quando respondem. Pelo menos estamos a fazer a nossa parte, e do contrário ninguém nos pode acusar.