terça-feira, 21 de Outubro de 2014

Édito positivo, é sempre bem feito



Tenho por vezes o hábito de praticar algo que para muitos é considerado "mau", que é aquilo a que chamam de "comentar os comentários". Ora, mas isso é o que toda a gente faz, não é? Ou será a opinião de cada um o seu castelo, e se for esse o caso, para quê divulgá-la? Ou será que as opiniões estão seladas, lacradas e fechadas ao cadeado e não são passíveis de refutação? Se a liberdade deixa as palavras voarem ao vento, é bem possível que venham parar ao meu quintal, e posso escolher varrê-las com as folhas e mandá-las para o lixo, ou levá-las para dentro, e nesse caso tenho ainda a opção de lhes dar uso que achar mais conveniente, ou não? Serão as opiniões exclusivas do seu autor, e como tal protegidas ao abrigo da lei? É que assim desconfio que as duas que pretendo agora analisar já foram feitas por outros, ou pelo menos existe uma forte semelhança, o que já por si é prova da existência de plágio. Bem, entendidos ou nem por isso, vamos ao que interessa. Dois artigos na imprensa em língua portuguesa de Macau merecem a meu ver que se façam algumas observações. Tratando-se de editoriais assinados pelos respectivos directores do jornal em que são publicados, que desde já saúdo, podia exercer o meu direito ao contraditório escrevendo para os mesmos jornais, mas prefiro fazê-lo aqui, que assim só cá vem quem quer, e não é obrigado a deparar com as minhas diatribes enquanto faz as suas leituras de eleição.

O primeiro artigo é do Hoje Macau, da autoria de Carlos Morais José e tem o título de Perigosa Brincadeira, tendo como tema o Festival da Lusofonia, que como se sabe realizou-se até ao último Domingo. Há quem não saiba e confunda o Festival da Lusofonia com o arraial que se realiza entre sexta-feira e Domingo no Largo do Carmo, na Taipa, na zona das casas-museu, mas a realidade é esta: o Festival confunde-se com o arraial e quem ouve falar do primeiro associa imediatamente ao segundo e tudo o que isso acarreta, desde as "jolas" às bifanas, das caipirinhas aos matraquilhos e pelo meio dar um abraço à malta e "ver passar os chineses", citando o autor. Para o director do Hoje isto é "uma desgraça", e por "desgraça" faço uma interpretação simpática de outros epítetos do tipo "palhaçada", "vergonha" ou "humilhação", com a desvalorização do papel histórico de Portugal no que é agora a RAEM, reduzindo-nos a meros saloios, baterias apontadas ao IACM, e o papel de cúmplice para quem aderiu, caindo que nem um patinho no conto do tuga pândego e beberrão.

Pronto, agora que ele já nos deu porrada, vamos ver se saímos disto vivos, pelo menos, e com alguma sorte sem as pernas e os braços partidos. Sem dúvida que Portugal e a herança cultural deixada pelos nossos antepassados é muito mais do que o arraial e de tudo o que CMJ referiu algures pelo meio da artilharia pesada com que arrasou o Festival da Lusofonia. Não vou cometer o atrevimento de chamar a este seu raciocínio desonestidade intelectual simples (nem chega a ser qualificada) pois reconheço como pode ser até uma forma de ginástica mental bastante agradável, querem ver: "mas mostrar o quê afinal? qual ciência, qual cultura e qual história? o melhor é ficar mesmo pelo arraial porque se nos pomos com conversa de chacha ainda vão pensar que queremos que nos comprem a dívida". Estao a ver como é fácil? Mas pronto, independentemente de quem está aqui a tentar ser mais cínico, noto no discurso de CMJ alguma sinceridade, e entendo que alguém como ele, que tanto tem feito pela divulgação da língua e da cultura portuguesa sinta alguma frustração ao ver tudo resumido a um simples arraial. Tudo bem, mas e depois?

Este é um vício antigo que nós temos e que face às características do local onde nos encontramos pode ser isso sim, uma "brincadeira perigosa": portanto, não é assim que se faz bem as coisas, o melhor era não fazer nada. E ainda acabamos por engolir essas palavras, que por estas bandas existe uma tendência para complicar o que é aparentemente simples em alguns casos, e noutros fazer interpretações literais do segundo sentido que se dá às coisas. Haja vontade para levar a cabo tudo e mais alguma coisa que diga respeito à Lusofonia, e pronto, foi tudo uma maravilha, não entremos nessa discussão, mas que mal tem o arraial? É preciso não esquecer que a China não se pela de amores pela glorificação de uma potência estrangeira dentro do seu território, mesmo que seja apenas do seu passado, e que a intenção seja compreender melhor o próprio contexto de onde nos inserimos. O arraial pode não ter o mesmo impacto que a literatura ou a música, mas ainda deixa passar qualquer coisa, dá umas pistas. Das vezes que lá vou com pessoas que não sabem nada sobre Portugal, denoto sempre um misto de surpresa e de respeito quando tomam conhecimento da nossa epopeia expansionista. Para consumo local, para uma população que não aprende a cadeira de Filosofia no secundário e não é estimulada a pensar, um arraial pode servir como aperitivo, e se estiverem interessados podem ir tentar saber mais.

E quanto à natureza rústica do arraial propriamente dito, não entendo o desatino. Portugal é muita coisa e de tudo o que entra na caldeirada o arraial é mais um ingrediente, e não é nada de vergonhoso ou humilhante, tipo romagem a algum santuário para prestar homenagem a criminosos de guerra. Todos os povos têm o seu lado brega, e para isso basta ter um passado; os alemães têm o Oktoberfest, os austríacos têm os tiroleses, e reparem como o príncipe Carlos usa um "kilt" (vulgo saia) em certas cerimónias oficiais - não se pense que achou que lhe ficava bem com o chapéu e resolveu sair assim de casa nesse dia. Acho que é mais fácil para mim ser português e digerir um arraial ou outro aspecto cultural mais populucho do que se fosse turco e tivesse que brigar na lama semi-nu com outro homem em nome da "tradição". E mais: é verdade, estamos na China! O melhor é ficar por aí, que podia entusiasmar-me e ser desagradável. Já agora, juntemos a isto o facto de não ser nada producente andar constantemente a rebaixar o que se tem, apenas para lamentar o que não se tem.

E na mesma tónica que nos leva a tabelar as coisas por baixo, mas com uma mensagem ligeiramente diferente ,do tipo "mesmo que não seja óptimo ou sequer bom, é melhor que nada", temos o editorial de Sérgio Terra no Jornal Tribuna de Macau. Em primeiro lugar saudações ao autor, que no fundo não diz nenhuma mentira, mas deixa-me meio desconfiado, como quem olha pela janela e vê um linda dia de sol mas instistem para que saia de casa com o guarda-chuva. Com o título Não vale tudo, o editorial tem um papel vincadamente didático, ao estilo do "modo de usar" que lemos nas parte de trás de certos medicamentos ou outras coisas que não temos por hábito comprar, como armadilhas para os ratos e baratas, mas aplicado a um direito fundamental, neste caso o da liberdade de expressão. Não entendo o teor de artigo de outra forma que não o de uma eventual réplica em Macau do movimento "Occupy Central", esse engodo que vai para a lista dos "case-studies" regionais que nos deixam saber mais um pouco sobre o que vai na cabeça desta gente. Mas neste caso eu acho que é mais prejudicial do que benéfico levantar esta questão, e explico já porquê.

Uma das diferenças que notei entre a administração portuguesa e a actual após 1999 foi a mudança na forma como se encaram os direitos, mormente como e em que circunstâncias podemos activá-los em nossa defesa ou proveito. Quem tem contacto com a máquina burocrática ou não consegue evitar ser também uma peça dessa mesma máquina repara certamente que a forma com que os chineses entendem a justiça é pelo lado preventivo: é melhor prevenir do que deixar acontecer e depois decidir se há ou não infracção da parte do agente. No caso de Macau esta opção terá sido feita mais com receio de não conseguir dar resposta a certas situações que requerem mais experiência ou que obrigam a uma sustentação de base literária, reflexão com recurso a consultas diversas oiu a analogias de casos idênticos, enfim, tudo o que requer tempo e se puxe pela cabeça. Isto leva a que se negue o acesso a diversas valências, que mesmo não tendo importância no que toca ao exercício das liberdades, limitam os movimentos e podem dificultar o cumprimento de certas tarefas, e se há algo em que estes tipos têm muita imaginação é na dedução que fazem de certas atitudes ou comportamentos - e ainda justificam isto com uma falsa preocupação, em nome da nossa "protecção e segurança". Enfim, uma tristeza. E foi mesmo a parte em que o Sérgio Terra fala de "segurança" que me deixa a entender que o subjacente é uma hipotética imitação das manifestações que deixaram Hong Kong em suspenso durante as últimas semanas.

Não acredito que em Macau se vá em frente com uma iniciativa semelhante à de Hong Kong, e por duas razões: primeiro porque não produziu o efeito desejado, e não fazia sentido importá-la para aqui, e segundo porque os democratas, por muitos defeitos que tenham, têm a virtude de aprender com os erros. Agora os outros, bem, para bom entendedor, etc.. No entanto reconheço-lhes o direito de se manifestarem, tanto a eles quanto a outra pessoa qualquer, e nem se põe a questão de ser dentro dos limites da lei - qualquer um sabe disso. O pior é o que se entende por "limites", e ali o director do JTM toca na ferida ao mencionar duas palavras que podem querer dizer mil coisas: "segurança" e "caprichos". Ainda penso que vivemos num ambiente de respeito pelo primado da lei, mas depois desse teste à eficácia do sistema e à competência das autoridades que foi o referendo civil, passei a desconfiar um pouco. Quer dizer, é improvável que a polícia vá andar atrás de avózinhas, virgens e outra gente insuspeita, mas fiquei com a ideia de que se pode deter alguém, mantê-lo na esquadra um dia inteiro e depois mandá-lo para casa sem dar explicações de espécie alguma, e tudo em nome da "segurança". Quanto a isto dos caprichos, é claro que não basta dizer que não se gostou do que alguém disse para agir judicialmente contra essa pessoa, mas há portas e travessas por onde se pode lá chegar. Se somos amantes da liberdade e defensores de uma lei igual para todos, é preciso encarar o Direito na sua vertente positiva: sentir que estamos seguros, conscientes dos deveres, mas sem estar olhar por cima do ombro com receio de nos faltar o chão onde por os pés, com medo de errar ou ser induzido em erro. E é só, obrigado, e desculpem qualquer coisinha.

Desalinhados



No Sábado passado foi criada em Toronto, no Canadá, a "International Macanese Alliance", uma aliança que congrega dez casas de Macau, a maioria delas dos Estados Unidos e Canadá. A inicitativa terá partido do “Amigu di Macau Club”, presidido por José Cordeiro, e pelo investigador macaense Roy Eric Xavier, professor na Universidade de Berkeley, na Califórnia, e que há cerca de dois anos apresentou um estudo que estimava em "cerca de 150 mil", o número de macaenses da diáspora, espalhados na sua quase totalidade por dez países. A Aliança aparece à revelia do Conselho das Comunidades Macaenses (CCM), que oficialmente serve de elo de ligação entre muitas casas de Macau em todo o mundo, e cujo seu presidente José Luís Marques já veio criticar a iniciativa. Segundo Roy Xavier a ideia é "concretizar projectos que nunca foram apoiados pelo CCM", que o investigador considera "estar deslocado" da diáspora. Das dez associações que formam a aliança cinco são dos Estados Unidos e três do Canadá, e dessas apenas duas são membros do CCM. Das outras duas fora do continente americano pouco se sabe; há uma "International Portugal-China North American Association of Macau", supostamente sediada em Portugal, mas da qual basta fazer uma simples pesquisa na net para se perceber que vem do "nada". De Macau há uma "Associação de Promoção da Cultura de Arte e Economia entre a China e os Países Lusófonos”, também desconhecida, mas que poderá ter o dedo do deputado José Pereira Coutinho e da secretária-geral adjunta do Fórum Macau, Rita Santos. Algumas das associações que compõem esta aliança viram recusada a sua entrada como membros da CCM em Dezembro último, por altura do Encontro das Comunidades Macaenses, o que pode explicar muita coisa, mas por enquanto Roy Xavier desvaloriza qualquer eventual polémica e fala do interesse de "pelo menos mais cinco associações" da diáspora macaense em juntar-se à IMA.

Este é um assunto que não é fácil abordar sem mexer com algumas sensibilidades, e não vou sequer pela via do "quem é quem", ou do "qual é o quê", porque conheço muito pouco ou mesmo nada das comunidades macaenses no exterior, e se de facto, como defende Roy Xavier, existem 150 mil macaenses espalhados pelo mundo, o tal encontro que se realiza em Macau agora com mais frequência é apenas residual, e não diz muito do que é a diáspora no seu todo - não deixa de ser encantador, entenda-se. Cada vez que me é dado a saber qualquer coisa sobre as casas de Macau, fico impressionado com a união que existe entre os seus elementos. Duas delas de que me recordo ter sido dado destaque na televisão são a de Lisboa e a de S. Paulo, e nesta última notei não só a capacidade de recriar um ambiente ainda mais macaense do que em Macau, como a forte presença de algumas características que já se perderam ou que se vão perdendo aqui no território. Se pensam que estou a exagerar, convido-vos a verem o canal do YouTube de Francisco António, presidente da Casa de Macau em S. Paulo. A tal questão da identidade macaense, um tema que dificilmente se esgotará e que é passível das mais diversas leituras, ganha uma nova luz perante a forma como os macaenses da diáspora encaram esse sentimento de pertença, não a Macau, mas à sua própria herança cultural e genética. É impossível pegar na questão e elevá-la a uma perspectiva científica, pois é possível que no caso de se poder quantificar a identidade, encontrássemos casos em que alguém que nunca esteve em Macau seja "mais macaense" que outro nascido no território e correspondendo às características tidas como mais comuns para identificar essa origem: o sangue português e chinês, a cultura oriental com forte influência lusitana. Não é para admirar que sejam uma gente que sente muito o seu ser, pois deriva de duas culturas que dificilmente abandonam a sua matriz inicial., onde quer que se encontrem. Sendo esta é uma qualidade do tamanho do mundo, Macau adquire um estatuto simbólico, e nascer em Macau pesa pouco numa eventual definição dessa identidade.

Agora permitam-me meter os meus "fai-chis" no lacassá alheio, mas fico sempre com a impressão de que das inúmeras comunidades macaenses no mundo, a de Macau é que tem mais dificuldades em se afirmar, e isto tem uma razão de ser. Passo a elaborar a partir desta afirmação, mas peço que tenham sempre em conta que é apenas a minha opinião, mas mesmo valendo o que vale há pontos em que as opiniões são unânimes. A razão de raíz que leva a uma certa timidez por parte da comunidade local é talvez a mesma que levou à existência da diáspora: o estatuto de Macau, e a permanente incerteza quando ao seu futuro. Isto levou a que se dessem os grandes movimentos migratórios para as Américas e Hong Kong nos anos 60 e 70, mais tarde a Austrália começou a ser outro destino de eleição, talvez mais conveniente em termos geográficos, e depois Portugal foi o destino de muitos que optaram pela integração na altura da transferência de soberania para a China. Nos últimos cem anos os macaenses estiveram sempre na posição privilegiada de elo de ligação entre a potência soberana, Portugal, e a etnia dominante, a chinesa, mas apesar da vida ter sido menos dura para eles que do que para os restantes naturais de Macau, nunca beneficiaram de um período de estabilidade aliado à prosperidade económica que fizesse emergir da sua elite um grupo que aspirasse a um lugar específico no contexto do território, e que aspirassem a uma maior autonomia, ou a formar uma terceira parte que pudesse negociar o seu próprio futuro. Basicamente estiveram do lado dos portugueses até 1999, considerando-se muitos deles "portugueses" de identidade e mais nada, e os que optaram em ficar precisaram de se adaptar, e aqui é que eu penso que reside o principal problema que leva uma certa cisão entre os macaenses de Macau e da diáspora: os daqui tentam agradar demasiado, como se precisassem de um favor para ficar na terra que os viu nascer, e em muitos casos onde nasceram também os seus pais e avós, e caso demonstrem ficar numa posição de antagonismo com o poder, arriscam-se ao ostracismo e remetidos a um zero existencial. Foi também esse o pensamento que levou a que muitos abandonassem o território, e entre esses há quem tenha mudado de ideias e regressado.

E é esse mesmo o ingrediente que tem faltado à comunidade macaense, o da afirmação plena. Desfazem-se em cortesia e em salamaleques com o poder, não se atrevem a discutir ou a debater os temas de Macau, que aqui é o equivalente a "colocar-se num lugar de extrema oposição", e assimilaram o estranho conceito de que recusar a integração total na China significa desaparecer, ao que leva ao paradoxo das novas gerações terem um nome português e não saberem dizer uma frase na língua de Camões. Por muito que os chineses apreciem o esforço, a sua natureza etnocentrista nunca os considerará iguais a eles - e isto sem querer fazer qualquer juízo; é assim e é assim, pronto. A juntar a esta reverência excessiva há depois o habitual elitismo, factor inato de desagregação, e uma certa sede de protagonismo. Nada impede os macaenses de se afirmarem como aquilo que são, mas o que os leva a pensar que não têm os mesmos direitos e deveres do resto dos residentes ao ponto de ser necessário "correr por fora", optando ora por agradar a todo o custo, ou quedar-se pelo anonimato, numa postura de quase invisibilidade? E desse modo, que sentido faz a que insistam em ter uma palavra a dizer nos centros de decisão politica? São livres de o fazer, claro, mas se a atitude é de ora estrita cooperação com o poder, ora de silêncio, só se pode entender nisto um exercício de vaidade e de benefício em causa própria. Mesmo a única via que encontraram para chamar a si alguma representatividade causou mais uma rotura (falo da ATFPM e de José Pereira Coutinho, lógico), e a impressão que fica é que cada um tem uma ideia muito própria do que deve ser a comunidade, e um visão estritamente pessoal do todo. Quem não conheça a realidade poderá ficar com a noção de que existe aqui um défice democrático, mas eu chamar-lhe-ia antes rigidez de princípios. Não é bem uma cegueira, mas antes uma miopia grave.

E só assim se explica o excesso de associações disto e daquilo, pois para alguns egos nenhuma associação que não os tenha como elemento dirigente, é uma associação que não serve "os interesses de todos". Justificava-se apenas as associações de cariz cultural mais específico, casos da Confraria da Gastronomia Macaense, e dos Doçi Papiaçam di Macau, neste caso um grupo, mas assim junta-se a Associação dos Macaenses, representa-se toda a gente dentro dos limites daquilo que a comunidade representa, e já está. É que a vantagem das comunidades macaenses ultramarinas é o facto de estarem integrados no país de acolhimento, e partindo daí expressarem a sua vertente cultural "inter pares", sem precisarem de andar a pedir favores a ninguém. Aqui onde existe ainda a vantagem de não ser preciso adaptar-se a coisa nenhuma, ora se procura uma "brecha" entre o poder onde se possa anichar, ou se faz o papel de "índio", apelando de braços abertos à preservação dos aspectos culturais - e é aí que se estabelece a relação com a comunidade portuguesa em geral: há aqueles que os acham "muitos giros", e os outros que os desprezam. Os chineses desvalorizam tudo isto, na melhor das hipóteses toleram as pretensões, desde que não interfira com as directivas, enquanto as comunidades na diáspora, dotadas de horizontes mais largos que os levam as coisas de uma perspectiva mais global,  viram-lhes as costas. Mas por que não ser residente de Macau em primeiro lugar, e então depois macaense? É exactamente o que eu faço, o que muitas vezes leva a que se entenda que sirvo de "um grão de areia na engrenagem" - mas do quê, exactamente, se os discursos oficiais dizem que eu não sou mais nem menos que o meu vizinho do lado ou dos meus colegas do trabalho? Sim, sou português na hora em que isso é pertinente, e não será concerteza para obter vantagens ou escusar-me das obrigações. Há sem dúvida uma falta de estratégia, e a criação desta aliança faz mais do que transmitir uma mensagem: dá o alerta. A comunidade só se vai extinguir por culpa própria, por mais boa vontade que exista de qualquer uma das partes externas a este "conflito interno". Outra vez, isto é só uma opinião, e nem pretende ser uma tentativa de diagnóstico. Cabe só a vocês reflectir e fazer o que entenderem melhor. Mas vejam lá se desta vez o fazem juntos, e puxam para o mesmo lado.

Premier League - 8ª jornada



A oitava ronda do campeonato inglês, realizado entre Sábado e ontem teve o seu arranque com a visita do Tottenham ao reduto do Manchester City, onde a equipa londrina certamente não contava com a inspiração do argentino Sergio Agüero, que marcou todos os golos da vitória por 4-1 da sua equipa, mesmo que dois deles tenham sido na transformação de grandes penalidades. O "show Agüero" teve início aos 13 minutos, mas logo aos 15 o Tottenham empatava por Cristian Eriksen. Foram só precisos esperar mais cinco minutos para o argentino converter o primeiro castigo máximo, cobrando o segundo aos 68 e terceiro do total, e fechando a contagem sete minutos depois. O City ficava assim temporariamente a dois pontos do líder Chelsea, que jogaria duas horas mais tarde.



Mas o Chelsea não cedeu terreno, e foi ganhar ao Selhurst Park, casa do Crystal Palace, por duas bolas a uma. Oscar inaugurou o marcador aos seis minutos, e fez a assistência para o segundo, autoria de Fabregas, decorriam 51 minutos de jogo. O melhor que o Crystal Palace conseguiu foi reduzir já em cima do minuto noventa por Frazier Campbell. A equipa de Mourinho mantém a liderança com mais cinco pontos que o Manchester City, e mais seis que o Southampton, que protagonizou a goleada do campeonato até ao momento, esmagando em casa o Sunderland por 8-0. Para o quarto lugar subiu o West Ham, que foi ao reduto do Burnley vencer por 3-1, a par do Liverpool, que no Domingo venceu o lanterna-vermelha Queens Park Rangers em Loftus Road, por 3-2. Destaques ainda para a vitória tranquila do Everton em casa por 3-0 frente ao Aston Villa, e da primeira vitória do Newcastle, que venceu em St. James Park o Leicester, pela margem mínima.



Já o Arsenal continua a fazer um primeiro terço de campeonato modesto, voltando a perder pontos em casa, desta feita frente ao Hull City, que surpreendentemente se encontra apenas a um ponto dos "gunners". A tarde até se previa tranquila no Emirates Stadium quando Alexis Sánchez inaugurou o marcador logo aos 13 minutos, só que o Hull respondeu de imediate e repunha o empate aos 17 por Mohammed Diamé. Não houve alterações no marcador até ao intervalo, mas logo no primeiro lance da etapa complementar o uruguaio Abel Hernández dava vantagem aos visitantes, deixando os adeptos locais incrédulos. Arsene Wenger ainda evitou o escândalo quando já nos descontos Danny Welbeck deu o empate à sua equipa, que se mantém num humilde 7º lugar com 11 pontos, metade dos pontos do líder Chelsea. No Domingo além do QPR-Liverpool, jogou-se o Stoke City-Swansea, com vitória dos primeiros por 2-1.



Já ontem, segunda-feira, encerrou-se a jornada com o Manchester United a ir empatar a dois golos no reduto do West Bromwich, perdendo assim a oportunidade de somar a terceira vitória consecutiva e isolar-se no quarto lugar. A equipa de Van Gaal andou sempre atrás do prejuízo, com Stephane Sessegnon a inaugurar o marcador para os locais no oitavo minuto, sendo preciso esperar pelos 48 para Fellaini fazer o empate. Aos 66 o internacional sub-21 inglês Said Berahino voltava a dar vantagem ao West Brom, e só um golo do holandês Danny Blind a três minutos do fim evitaria uma embaraçosa derrota para os "red devils".

Classificação (dez primeiros):

1 Chelsea 8 22
2 Manchester City 8 17
3 Southampton 8 16
4 West Ham 8 13
5 Liverpool 8 13
6 Manchester United 8 12
7 Arsenal 8 11
8 Swansea City 8 11
9 Tottenham Hotspur 8 11
10 Stoke City 8 11

segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

Loucos, todos loucos



Está outra vez na ordem do dia o caso Bill Chou, o professor de Ciência Política da Universidade de Macau suspenso em Junho e posteriormente despedido (contrato não renovado), alegadamente devido à sua actividade paralela de activista pela Associação Novo Macau (ANM), a que se juntou oficialmente em Novembro de 2013, mas com a qual participou de diversas actividades desde meados de 2012. A cronologia do início da ligação de Bill Chou ao ANM até à sua filiação e consequente afastamento da UMAC, que vinha exercendo há mais de dez anos é fácil de estabelecer: basta aceder à sua página do Facebook e verificar as datas das fotografias publicadas. É um exercício tão interessante quanto misterioso, e que não chega sequer a levantar a ponta do véu sobre o que realmente aconteceu ao docente, e que abriu o debate sobre a liberdade académica e a liberdade de expressão em Macau, ou a falta dela. A juntar ao prejuízo que a polémica trouxe para a credibilidade do ensino superior no território, seguiu-se o despedimento de Eric Sautedé, professor de Ciência Política na Universidade de S. José, dando a entender que aparentemente as quest­ões da política são tabu, e para quem ainda acredita em coincidências, não existe qualquer ligação com a actual situação em Hong Kong. É melhor ficar sem saber e evitar assim alguns amargos de boca, mas no que a esta controvérsia me diz respeito, prefiro analisar a questão do ponto de vista de todos os encarregados de educação que fazem planos de colocar os filhos em instituições superiores de ensino locais, mesmo que não tenha essa certeza. Pode ser que seja essa a opção, mas claro que depende mais do meu educando do que de mim próprio.

Antes de continuar gostava de contar um episódio que se passou comigo. Estava no 11º ano e tinha um professor de História que era louco, coitado. Não era "louco" no sentido de que ficava na discoteca até às oito da matina e a seguir ia dar aulas cheio de "speed", com óculos escuros para tapar os olhos regados de vício; era louco no sentido de que havia sofrido alguma espécie de transtorno, e pelo que nos foi dado a saber isto esteve relacionado com um divórcio complicado, mas durante os três anos em que lecionava na minha escola ostentava uma aparência bizarra: barba comprida e preta, ar esgazeado que assumiam uma expressão desvairada quando fazia o seu ameaçador ar de choné, camisa de flanela com impermeável azul e calças de bombazina, complementado com um guarda-chuva, e era isto que ele usava todo o ano, fizesse chuva ou sol, fizesse calor ou frio. Caminhava todos os dias do Cais dos Vapores até à Bela Vista, onde ficava a escola, um esticão de bem mais de 4 km, e depois voltava também a pé. Antes de nos ter saído na sorte, os professores diziam horrores dele, que tinha um discurso tão carregado de sarcasmo que nada do que dizia podia ser levado a sério, e fazia de cara de cínico cada vez que acabava de dizer uma frase, fosse "bom dia" ou "um café, por favor". As professoras evitavam-no, e os professores estabeleciam distâncias; não que o ostracizassem, mas depois do segundo ou terceiro contacto já era evidente que não era possível estabelecer um diálogo coerente com ele. Emanava um odor incómodo, não muito forte, mas que se acentuava com a colónia Denim que usava para disfarçar a evidente falta de uma mão feminina em casa. Nunca se soube o que realmente aconteceu que o terá deixado naquele estado - ninguém chega a professor nestas condições - mas nada do que ele dissesse podia ser tido como verdade.

E nestes termos chegou aos "indios" do 11º de Jornalismo, e apesar de nunca ter tido uma queixa de qualquer aluno, estava habituado a turmas mais novas, e perante aquele grupo de jovens adultos descontrolou-se completamente, como se estivesse a antecipar intenções que nunca entendi bem quais eram - para ser sincero não entendi um único raciocínio do indivíduo. Acho que a única excentricidade para a qual estávamos preparados era o facto dele saber os nossos nomes próprios e apelidos, tendo obviamente memorizado o livro do ponto antecipadamente - era como que a sua "marca". Mas era professor, não era? Estava ali para dar aulas, é assim ou não é? De facto, mas se por "dar aulas" entende-se chegar à sala, escrever 20 minutos ou meia-hora de matéria no quadro sem dizer uma única palavra, e tentar explicá-la com largos intervalos onde montava o grande circo do delírio, com risadas, provocações e insinuações tão ambíguas que nem ele nem sabia como lhes dar um fim, sim, dava "aulas". Fizemos dois testes no primeiro período, entregou ambos poucos dias antes das férias de Natal, e tudo o que nos dava a saber era a nota: "Satisfaz" ou "Não Satisfaz", com o particular de todas as zonas em branco da folha da prova estarem riscadas com uma esferográfica vermelha, em linhas direitas, desenhadas com uma régua. Foi a única vez que vi um professor salvaguardar-se de uma eventual "batota póstuma" dos alunos; que diabo, nem isso deve ter passado alguma vez pela cabeça de alguém. No fim desse trimeste fomos todos corridos com notas entre o 8 e o 11 (eu tive 9), e nós que tinhamos uma média global de 15/16 nas outras disciplinas. Não sei se isso fez a diferença, mas em Janeiro regressou ainda pior que antes, e era mais que evidente que tinhamos que agir, e com o apoio dos restantes professores encaminhámos um abaixo-assinado para o Conselho Pedagógico, e em menos de um nada estava suspenso por seis meses com guia passada para a junta médica, sendo substituído por uma professora que viria a colocar ordem no chinfrim que ele tinha deixado.

Se tiveram paciência para ler esta pequena "aventura" da adolescência leocardiana até este ponto, devem estar a pensar: "foste um dos que fez questão de lixar bem o homem, foi ou não foi?". De facto, e sabia de antemão que qualquer investida da sua parte ia receber uma resposta à altura (ou pior) da minha parte. Tentei passar despercebido o primeiro mês ou dois, mas sendo um dos quatro elementos masculinos que compunha uma turma de 22, era quase impossível evitar o confronto directo. Ainda ignorei uma ou duas investidas da sua parte, que só identifiquei como sendo para mim por incluírem o meu nome, e nem consegui entender duas palavras seguidas que fizessem sentido. Não obtendo de mim a reacção desejada, esquematizou um plano tão doentio que nem cabe em qualquer lógica racional, que consistia em realizar um teste-surpresa e atribuir-me a responsabilidade pela ideia. Foi tão elaborado que precisei de estalar os dedos para tirar os meus colegas de uma hipnose que quase os convencia da minha culpa - e nem mexi um dedo ou sequer abri a boca. Estava sem dúvida na presença de um génio do mal, de uma pessoa extremamente inteligente a quem partiram os ovos e deixaram uma omelete no lugar; era ele ou éramos nós, a repetir uma cadeira que era "canja". O mais curioso foi a facilidade com que realizámos a sua "purga", o que deu a entender que existia uma vontade, mas faltava um pretexto. O processo disciplinar foi uma mera formalidade, e a decisão foi acatada por ele com uma calma que não seria de esperar de um docente com 20 anos de experiência. No dia em que recebeu a nota de culpa e começou a cumprir a pena sentou-se no muro da escola, encostado às grades. Chovia copiosamente, e enquanto cobria a cabeça e o tronco com o guarda-chuva, deixava as pernas de fora, com as calças já completamente encharcadas. Passei ali perto, observeio-o ao longe e notei um olhar fechado e fixo, como de quem tinha sido traído, ultrajado, mas mesmo assim era impossível de levar a sério. Tive uma sensação estranha, de como quem tinha sido instrumentalizado, mas que ao mesmo tempo foi tudo tão claro e transparente que parece que aquela criatura foi enviada de outra dimensão para me testar: só a verdade, e apenas a verdade me poderia valer.

E acreditei nisto até aos dias de hoje, por incrível que pareça, e nem deu para ficar com um complexo de culpa: o tal professor não ficou muito prejudicado, pois pertencia ao quadro do Ministério da Educação, e no ano lectivo seguinte lá estava ele, no seu habitual traje de doido varrido, mas menos afoito - e não fui mais seu aluno. Quando olho para o caso de Bill Chou, não posso deixar de estabelecer um paralelo com tudo o que aconteceu entre o fim daquele ano de 1991 e início de 92, mas ao contrário. O ex-professor da UMAC contou ontem à imprensa que foi demitido por causa de duas cartas alegadamente anónimas que davam conta da utilização das instalações da universidade para levar a cabo as suas pretensões de activista. Tal como "crítica", a palavra "activismo" perde em Macau qualquer conotação positiva. Na edição local de um dicionário de Português, a existir uma, "activista" teria o sinónimo de "leproso". O actual vice-presidente da Associação do Novo Macau aponta o dedo ao reitor, ao director da Faculdade de Ciências Sociais e ao chefe do departamento de Governação e Administração Pública, que apesar da ascendência chinesa, têm "todos nacionalidade americana", fazendo por isso feito seguir uma queixa para um advogado em Washington. A UMAC justificou o afastamento de Bill Chou por ter usado "uma plataforma disponibilizada pela Universidade de Macau e o respeito e confiança dos seus alunos para prosseguir uma agenda política, estabelecendo um mecanismo específico de pontuação”, que incluía dar melhores notas a alunos que participassem em “actividades extremistas como greves de fome e manifestações” (?), tendo a denúncia partido de alunos do departamento de Governação e Administração Pública. Chou alega que apenas deu créditos extra a quem entregasse relatórios de trabalhos relacionados com as disciplinas que lecionava. Outro alvo do ex-docente é a directora da Escola Hou Kong, Chan Hong, que é também deputada da AL, e que o acusa de ter "distribuído propaganda", e imaginem só, "apelando a eleições justas" à porta daquele estabelecimento de ensino secundário, conhecido pela forte ligação ao continente. Chou defende-se dizendo que o fez apenas na condição de activista, e não de professor, e acusa a deputada eleita pelo sector da educação de não ter em conta o interesse dos educadores.

Agora o clímax deste filme: a Universidade de Macau acusa ainda Bill Chou de ter "dupla personalidade". Isto pode ter vários sentidos: desde o mero esgotamento nervoso ao mais complexo transtorno bipolar, mas em trocados quer dizer que o professor ficou subitamente "chalupa". O pouco que sei sobre Bill Chou é suficiente para me deixar intrigado, e a curiosidade que me levou a tentar saber mais fez-me destapar uma panela onde coze um guisado esquisito, que a julgar pelo cheiro deve ser intragável. "É de Hong Kong" - é a primeira coisa que me dizem, e isso deverá ter importância numa qualquer contabilidade indígena que desconheço. Começou a lecionar na UMAC em 2002, viajou pelo Brasil e pela India em 2008, casou em 2009 e ainda nesse mesmo ano lançou o seu primeiro livro, "Government and Policy-Making Reform in China: The Implications of Governing Capacity", e o nome diz tudo: um ensaio elaborado sobre as reformas que a China necessita para enfrentar os novos desafios do século XXI, e na perspectiva feita a partir de 2009, os anos seguintes, ou seja, o tempo presente. Aparentemente Bill Chou é um teórico, um politólogo, que se dá a entender que estaria do lado do Governo Central - lá está, isto até podia ser o que ele pensava, vivendo na ilusão de que um sistema egocêntrico estaria interessado nas suas propostas de reforma. O caldo terá ficado entornado em 2011, ano em que também visitou em Portugal, e terá visto as suas propostas colocadas "na gaveta". O livro, que seria o último que escrevia, foi elogiado no continente, mesmo pela crítica do "The China Journal", mas nem tudo o que parece de facto é, e neste paralelo esse princípio é elevado à enésima potência - e isto é uma suposição, mas foi a partir desta altura que Bill Chao sofre uma metamorfose interessante.

Em Maio de 2012 o então ainda docente da UMAC aparece pela primeira vez ao lado do ANM (pelo menos oficialmente) numa acção de protesto por um alegado acto de censura de que foi vítima pela TDM, posto isto diz ter sido colocado na lista negra daquela estação - típico, e só isto já terá sido o suficiente para que muitos olhos caissem sobre ele, e vigiassem todos os seus movimentos. Os problemas com a UMAC terão começado ainda antes disso, com uma das tais cartas a chegar em Abril, e poderá ter sido essa a razão da censura pela TDM. Em Outubro de 2012 organizou nas instalações da universidade um fórum político dedicado à juventude, que contou com a participação de Au Kam San e Teresa Vong, conhecidos membros da ANM. Esta é a única ocasião da qual consigo encontrar qualquer tipo de uso das instalações do antigo "campus" para "fins políticos" pela sua parte. Assumiu o activismo, participou dos protestos contra a construção do mercado nocturno dos Lagos Sai Van, provou o sabor da detenção pelas autoridades na manifestação do dia 20 de Dezembro, e durante 2013 esteve especialmente activo, e seja qual for a razão específica, foi também o ano em que a UMAC lhe decidiu passar a "guia de marcha". Em Maio participa na manifestação do Dia do Trabalhador, a tal que tornou célebre Kam Sut Leng, também ela professora, mas do ensino secundário, e também ela despedida mais tarde alegadamente pela participação no activismo. Bill Chao filiou-se em Novembro de 2013, foi suspenso seis meses depois, como mediatismo que se sabe, e após a nomeação como vice-presidente da ANM foi despedido, tendo sido uma das figuras de proa do referendo civil de finais de Agosto, o seu "baptismo de fogo".

Sobre as verdadeiras razões da saída de Bill Chou da UMAC só há uma certeza: têm a ver com a sua adesão súbita aos activistas do Novo Macau, e essa adesão deve-se a um "choque" que o tornaram um indesejável, após 10 anos como professor, onde passou discreto; alguém tinha ouvido falar dele até recentemente? Acho que até ao incidente da TDM era um virtual desconhecido, a não ser pela sua actividade académica, ou dentro dos meios da ciência política. Estranho como nunca se viu os seus colegas darem uma opinião que seja a seu respeito, e estranho ainda como a UMAC o dispensa num processo em que ele fica completamente "queimado", e se chega a sugerir que "perdeu o norte". O ANM, por seu lado, dá a entender que "para trabalhar ali não é preciso ser maluco, mas ajuda", e fizeram dele vice-presidente. De facto é um mistério, o que leva um professor, um homem culto, reservado e pacato a atar uma fita na cabeça e a pegar no megafone e ir ao encontro da polícia nesse desporto radical que é o activismo, aqui antónimo de "realismo" (conformismo?). Será ele louco por natureza, terá ficado louco com a idade ou é de tanto mexer na bactéria da política que ficou louco? Hmmm...conheço Eric Sautedé, e não me parece nada louco, portanto não deve ser isso. Li no Hoje Macau na semana passada que cerca de 200 funcionários públicos procuraram apoio psiquiátrico este ano; se calhar sentaram-se no mesmo sanitário, ou comeram na mesma loja de sopa de fitas. Fitas é que não faltam, nem portas que dêm a resposta à pergunta que urge fazer: o que se passa com o ensino superior em Macau, afinal? Nada! Está bem e recomenda-se, mas cuidado com isso do activismo, que não vale créditos e ainda vos pode fazer cair em descrédito. É tudo gente fina, estes académicos, e olhem que os que compõe este lindo ramalhete - reitores, directores, deputados e chefes de departamento - são uns meros peões de brega, porque acima...eh, eh...fecho o livro e faço um sorriso, um daqueles sorrisos de maníaco, como o meu professor fazia, como de quem viu o que ninguém quer ver. Não liguem, é só aquela lição que me ensinaram sem eu pedir, já lá vão vinte e tal anos, que me deixou com esta pequena loucura agarrada à pele. Depois passa.

Frágil: democracia



De regresso a pista depois de dois dias nas "boxes", vou recuperando algum do terreno perdido e colocando a leitura em dia. No Clarim da última sexta-feira dou conta de um artigo sobre o movimento "Occupy Central" que por incrível que pareça se mantém actual, tal é o bolo rei de informação e contra-informação em que o fenómeno se transformou. Nesse artigo dou conta da opinião de dois advogados portugueses, um deles nem mais que o presidente da Associação que representa a classe, dr. Neto Valente, secundado pelo igualmente erudito dr. Frederico Rato, que me tem surpreendido pela positiva na forma como "ataca" de forma mais directa certos temas que outros vão contornando, sempre com o tal bloqueio invisível que nos vai sendo injectado aos poucos. E de facto ha problemáticas que tem uma leitura clara como a água e que ninguém quer contornar por receio de dar a entender que tudo acima do banal e do fútil pode ser "perigoso", então o melhor é andar a discutir as várias perspectivas por onde nos é dado a observar o sexo dos anjos. Os dois causídicos falam da possibilidade de algo semelhante ao movimento organizado pelo sector democrático em Hong Kong acontecer deste lado, e enquanto o primeiro é peremptório em afirmar que tal nunca seria possível, ou pelo menos numa dimensão idêntica à da RAEHK, o segundo considera "improvável", mas que "não seria nenhuma tragédia". Gostava de deixar umas notas sobre alguns pontos que considero que não foram esmiuçados em relação a este fastidioso assunto, se me permitem.

Neto Valente pega na ideia de que não existem almoços grátis, e de facto é lamentável quando se observa a forma descontraída e quase indiferente como pessoas aparentemente sem uma agenda ou interesses directos no que poderá sair deste impasse a aderir com uma vontade tremenda, de como quem se prepara para mudar o mundo, com o futuro dos seus filhos em mente, enfim, já pensava que era cada vez mais difícil encontrar quem tivesse acreditado em tempos que isto nos podia ser entregue de mão beijada por alguém, mas agora vejo novos crentes a aparecer com uma facilidade que nem os deixa ver as falhas no guião - é como pescar peixe num barril. Quando o presidente da AAM fala de "gente por detrás disto", penso que muitos de nós sabemos de quem se trata, mas especular seria improcedente. Não adianta avançar com uma teoria que ligue o movimento ao grande capital ou a interesses de consórcios multinacionais, pois levamos com a etiqueta de "materialistas", ou alertar para a dimensão do que está realmente por detrás deste Woodstock sem música e pior que isso, sem letra, e das eventuais consequências, que nos vem apelidar de cobardes ou de conformistas - nomes normalmente menos dignos que "seguidistas",maso que não parece ser aqui o caso. O pior é que esta nem se afigura como uma daquelas situações em que eu não me importava de estar redondamente errado; é que da tal "abertura democrática" que os manifestantes pedem do outro lado, eles próprios tem mostrado saber muito pouco. Por não estar a favor do movimento com base na sua simples falta de direcção, para eles estarei necessariamente "contra". Espero que não me acusem de cooperar com o "inimigo", pois duvido que venham a estar em posição de me pedir explicações.

O dr. Neto Valente chama ainda a atenção para a falência das revoluções, ou "movimentos de massas", quanto a um meio de atingir o bem comum, e dá como exemplo a Revolução Cultural; um áptimo exemplo, diga-se de passagem, uma vez que das que ainda restam alguns sobreviventes, é a mais radical, e do lado dos que sofreram com ela ainda existe muito ressentimento, e dos que tomaram parte activa existirá concerteza arrependimento - a quantidade dependerá da consciência e do carácter de cada um. Para mim, e isto é só a minha opinião, a única revolução em toda a História assente num princípio válido que reúna consenso geral terá sido a Revolução Francesa - por muito mal que o mundo esteja, estaria sempre pior sem os valores que dela emergiram. E de facto a palavra "revolução" deixa-nos em sentido, pois caso o seu uso não seja no sentido mais lato, o que se aplica à moda, às artes ou aos costumes, implica sempre uma carga politica, um extremar de posições, um confronto. As revoluções servem um fim e acabam normalmente com derramamento de sangue, e há casos em que as contra-revoluções, ou contra-golpes saem vitoriosos. Posto nestes moldes, parece-me de uma grande irresponsabilidade - senão mesmo negligência criminosa - mudar o nome desta acção de "movimento" para "revolução", e aqui pouco importa que seja dos guarda-chuvas, do feijão fradinho ou dos ursinhos de peluche - é serio demais para se brincar. Sabem o que pensei da primeira vez que ouvi falar da Revolução Cultural, quando era um petiz imberbe (não digo "e inocente" porque isso só existe como figura jurídica) pensava que se tratava de uma coisa boa: "revolução cultural...todos a escrever, pintar, fazer cinema...que bom!". Entretanto fui procurar conhecer mais sobre as razões que levaram a esta mudança de nome que não é tão insignificante quanto isso, e fiquei a saber que a versão chinesa da palavra não tem o mesmo impacto que em portugues ou na maior parte das linguas ocidentais, e chega mesmo a ser confundida com "mudança" ou apenas "vida nova" (革命, ou no caso da tal "revolução cultural", 文化大革命, ou "nova grande ordem da aprendizagem). Parece que o mesmo se terá passado com "desobediência civil" (公民抗命: "contra a ordem civil") que vejo sair da boca daqueles jovens como se estivessem a falar de badminton ou outra coisa qualquer para fazer num Sábado à tarde. Só me preocupa é que alguns dos jovens que dizem estar dispostos a "dar a vida" por isto que não sabe bem onde nos vai levar não tenham uma interpretação alternativa da sua mensagem.

O dr. Frederico Rato toca na ferida, dizendo que em Macau uma iniciativa semelhante nunca partiria de dentro, pois apesar de reconhecer que existem motivações políticas para descontentamento e manifestações, mas, e atenção a este importantíssimo detalhe, a população não está "tão avançada do ponto de vista de educação democrática e no exercício das liberdades fundamentais". Ora aqui temos o busílis, a espada de dois gumes, o pau de dois bicos: a mesma estratégia que serviu para governar sem grande oposição vira-se agora contra quem inicialmente teve essa ideia. Manter a população na ignorância e usar o medo e a intimidação para exercer a autoridade depende da forma mais ou menos permissiva com que se aceita. Convencer o povo de que a política "é suja" e que deixar essa função a seu cargo é aliviá-lo de um fardo pesado resulta apenas até começarem a surgir problemas e forem exigidas respostas. Aí em vez do diálogo opta-se pela estratégia do medo, mas isto até aparecer alguém mais dotado de retórica - afinal para quem não entende nada de política, a vontade-própria é uma esponja que absorve tudo, e que depois de espremida deixa lá qualquer coisa, que pode serbom ou nem por isso. O medo nunca é a forma mais eficaz de manter o poder; é o mesmo que pensar que um casamento pode durar para sempre sustentado em algo tão volátil como o amor. É preciso compromisso, cooperação, em suma é como termos um amigo rico que nos aparece por casa de vez em quando e também de vez em quando nos convida para a sua casa - tem sido esse o erro do regime: mostra que tem coisas boas, que vivem bem, mas vem ao nosso encontro "tratar da nossa vida" mas não nos deixa participar um pouquinho que seja da sua.

É que isto da "educação democrática" pode parecer uma coisa complicada, que requer um curso superior qualquer, mas basta nascer e crescer onde ela esteja implantada, para o bem e para o mal, e adquir-la por inerência. Não é um processo perfeito, nem com eficácia garantida, e é claro que sofre da sua boa dose de vícios. Aqui por exemplo, em vez de tentarmos passar um pouco dos nossos conhecimentos sobre esse assunto, temos a tendência para trair esses valores, e por vezes julgando que o fazemos em seu nome, ou em nome de um "happy ending". O que transparece do comportamento destes democratas de primeira viagem que são a mole que compõe o "Occupy Central" é que enjoam com a ondulação alheia. Para chegar ao Everest da democracia - se é que alguém lá chegou - é preciso um nível de tolerância tão extremo que nos leva a aceitar a opinião de quem usa a liberdade de expressão para advogar a censura, ou peça eleições para votar o fim da democracia, e com isso o fim de eleições livres. A democracia é isso mesmo: autofágica, auto-regeneradora, que renasce das cinzas como uma Fénix e que se evapora sem saber para onde foi, ou quando volta. Para mantê-la em bom estado é preciso mais do que confrontar as autoridades. Sabem o que mais? As autoridades são uma parte essencial da democracia. Pensem lá nisso, pá.

Dinamizar - 3º episódio (parte I e II)


A arte de tantas vezes errar



Ooops, lá estou eu outra vez a minar a secular amizade entre os povos, a atirar os cães contra os gatos, as avós contra os polícias sinaleiros, a meter intrigas entre o Buda e o Confúcio, a colocar palavras na boca do mudo só para o deixar em má conta com o surdo. Como é sabido, a nossa karateca Paula Cristina Pereira Carion voltou dos últimos Jogos Asiáticos de Incheon, na Coreia do Sul, com uma medalha de bronze na categoria de atletas com mais de 68 kg (deselegante, anunciar o peso de uma senhora). Foi a terceira medalha de bronze consecutiva da atleta de Macau nos asiáticos, e como reconhecimento de mais este feito obtido por um ex-aluno (é isto que o "alumne" quer dizer, e é normal que há quem não saiba), o Instituto Politécnico de Macau conferiu à Paula um certificado de excelência! Que simpáticos! Mas o que eu estava longe de imaginar era a quantidade ex-alunos daquela instituição que dali sairam para a alta competição, e com resultados dignos de nota. Senão reparem:



Sim senhor, isto é o que se chama cumprir com a máxima do "mens sana in corporo sano". Só que na hora de emitir o certificado, desgraça: colocaram o nome de Jia Rui, um dos outros medalhados, mesmo em frente ao da nossa Paula, que ficou naturalmente triste com o desleixo, e desabafou nas redes sociais. Causa efeito, um monte de amigos seus, alguns deles que têm acompanhado de perto a sua carreira, demonstraram indignação perante tal falta de consideração. Entre acusações de incompetência, falta de profissionalismo e outros "mimos" que até se entendem nesta situação há quem chame ainda a atenção para o facto do certificado ter sido emitidos em chinês e inglês, ignorando uma das línguas oficiais, o "nosso" português.

Bem, com toda a certeza que o IPM não terá problemas em emitir um certificado novo, e quanto à culpa - se realmente ela existe - morre solteira, como é da praxe, neste caso da académica. Quem "engorda" à custa do de mais este episódio é o tal "Adamastor" de que falei no "post" em baixo: obtem-se a reacção que se esperava, a de indignação, possivelmente haverá um palerma ou outro que vai achar que estão a ser mal agradecidos, enfim, uma cadeia de circunstâncias que nunca teria lugar se a Paula tivesse ignorado o erro - e claro que nunca o poderia ter feito, à luz do bom senso. Mas assim o "monstro" ganhou o dia, e eu também. Porquê? É que quando vejo coisas deste tipo a acontecerem praticamente todos os dias fico a sensação que estou a enlouquecer. Assim fico com a certeza que não estou sozinho neste "manicómio".

domingo, 19 de Outubro de 2014

O Adamastor, talvez...



Foi um Festival da Lusofonia com um sabor diferente, o deste ano, e por várias razões, das quais destaco duas ou três. Primeiro a 17ª edição desta festa que ainda é uma das poucas coisas que torna Macau um local especial e único como ponto de encontro de culturas - e digo isto sem a pompa do chavão de circunstância, por ser uma verdade insofismável - apanhou-me em baixo de forma. Quinta e sexta foram dias bastante cansativos do ponto de vista profissional, e nem o cancelamento de alguns pontos da minha agenda me deixaram actualizar o blogue, como também o cansaço me venceu por KO, optando por "hibernar" desde o fim da tarde do primeira dia da festa até à manhã seguinte. Mesmo no Sábado tinha aquela sempre desagradável sensação de que o corpo e a mente pediam mais repouso, e não terei ficado mais que duas horas no Largo do Carmo, quando habitualmente faço questão de ignorar a ditadura do tempo. Quem me viu deve ter reparado que não estava propriamente na melhor forma, pois talvez devido à persistente dor de cabeça e estado geral de desconforto não consegui apreciar a festa como sempre faço. Digamos que me "vinguei" hoje, Domingo, mas mesmo assim posso dizer que foi o ano em que menos tempo dediquei à romaria da Lusofonia. O facto de se realizar na Taipa dá-lhe um "elan" que de outra forma não teria, mas permitam-me que faça de advogado em causa própria e fique do lado dos que defendem a utilização do espaço da Doca dos Pescadores para o efeito. Parece-me uma ideia interessante, juntar o útil que seria dar um uso digno ao investimento de David Chow, e mais algum espaço ao Festival; podiam tentar nem que fosse só uma vez.

E falando da organização, não tenho nada a apontar, estava tudo tal e qual como nos anos anteriores, o que não constituíndo novidade de todo, sempre se vai mantendo o ambiente ideal para o convívio e para a troca de "galhardetes", e no fundo nem se trata de procurar oportunidades de investimento neste ou naquele país onde se fala português. Estamos fartos de saber que é apenas um "rendez-vous" das comunidades residentes em Macau originárias dos PALOP, Brasil, antiga India portuguesa e Timor-Leste, e sempre com Macau a "jogar em casa", claro. A satisfação que cada um retira é correspondente às suas expectativas, lógico, e quem preferir ficar em casa a ver o futebol ou a fazer outra coisa qualquer acompanhado de uma Super Bock que lhe custará cinco vezes do que no Festival, isso é lá consigo. Eu pessoalmente identifico-me porque o ambiente não difere em número e grau das festas populares realizadas em Portugal nas várias localidades do norte, sul e ilhas, quem sabe se num tom um pouco mais "exótico". Quanto à comunidade local, nomeadamente os chineses, são mais que bem vindos, e ninguém precisa de convite. Este evento é uma daquelas coisas que não "entra" pela casa de ninguém, e não se vai parar ali por acidente: quem foi tinha como finalidade lá ir, muito simples. Nos outros anos tinha visto alguns a passarem por lá timidamente, este ano pareciam mais interessados em participar. Ou seria em entender o que ali se passava? Nunca se sabe muito bem o que vai dentro daquelas cabecinhas, pois aplicando uma teoria que me foi adquirida pela "praxis", e recentemente acentuada, em Macau ninguém faz nada apenas "porque sim", ou porque acordou para ali virado.

E isto leva-me ao ponto principal deste artigo, que nos dois primeiros parágrafos é quase tirado a papel químico dos artigos dos outros anos dedicados ao mesmo tema, mas a diferença de que fui apanhado desprevenido pelo cansaço - diabos me levem, que só para chatear vou andar cheio de "pica" no próximo fim-se-semana e sem nada para fazer. E também por essa razão fiquei sem entender a polémica que envolveu a cerimónia de abertura do Festival, que devia ter sido realizada na sexta, mas foi antecipada para o dia anterior, aparentemente por motivos de agenda da sra. Secretária para a Administração e Justiça, Florinda Chan. Assim sendo as associações que organizam a feira largaram tudo o que estavam a fazer para ir "entreter" as figuras VIP que nos dão a sua benção, passando por lá uns momentos para nos dizerem "epá estamos aqui, não nos esquecemos de vocês" e tal. Acho até muito bem que o façam, pois não são obrigados a tal frete (caso seja assim que alguns entendem), e recordo ainda que muitas das individualidades do Governo e/ou empresários reservam sempre uma ou duas horas do seu tempo para ir brindar com o Cônsul-Geral de Portugal no dia 10 de Junho, quando nenhum compromisso a não ser o de amizade o justifica. Reparem que se fosse para "chatear" não iam, e bastaria alegar que a comunidade portuguesa "é apenas mais uma", apesar dos laços históricos e etcetera etcetera e alguns de vocês estarão a pensar agora que "não é bem a mesma coisa", mas isso da amizade e do convívio secular são tudo coisas imaterializáveis, no estado gasoso, e não se esqueçam que o discurso oficial da China passa sempre por considerar a presença de potências estrangeiras no seu espaço físico uma "humilhação". As palavras pesam mais para uns do que para outros, no fim de contas.

Só que quem não achou graça à alteração súbita do programa foi a presidente da Casa de Portugal, a dra. Maria Amélia António, que exerce a advocacia no território há qualquer coisa como 30 anos, ou mais, não sei ao certo. As imagens televisivas mostram uma reacção forte da parte da causídica e a dra. Florinda Chan a desculpar-se com tanta intensidade que dá a entender ir para lá do sincero, e com a preocupação de deixar claro que não foi intenção sua ou dos seus pares deixar ficar mal a organização, aparecendo de surpresa e interferindo na planificação da festa. Fosse eu mais caústico e dizia que me estava nas tintas para o caso, pois isto é próprio da feira de vaidades que antecede a feira propriamente dita, a do povo, e para a qual este não é convidado. Quem não esteja por dentro de quem é quem ou tenha perdido os episódios anteriores chega a ficar com uma má impressão da Dra. Maria Amélia António, que aparece visivelmente agitada enquanto do outro lado chegam desculpas e "paninhos quentes". Quem esteja do seu lado da presidente da CP não vai deixar certamente a "lebre" da conspiração ou da má vontade dentro da toca, e quem sabe se isto não tem um certo ar de "dejá vu", ou que se fique com a sensação de que já qualquer coisa do género aconteceu antes numa outra situação - e é boa altura para recordar uma polémica envolvendo a organização deste ano do Festival, que comentei aqui num post de 24 de Julho, que chegou mesmo a ameaçar a realização do evento. Olho agora para o que escrevi, e meu Deus, como há tanta coisa que muda em menos de três meses. Como a gente cresce e aprende.

A luz chegou na forma de farol incandescente no dia seguinte, na sexta-feira, na imprensa em língua portuguesa, na forma de declarações feitas "a quente" pela própria Dra. Maria Amélia António, e que passo a citar da trasncrição do Hoje Macau:

“Não tenho razão para duvidar da sinceridade dos desígnios que ouvimos do Governo e até do Governo Central. Mas que há muita gente a querer boicotar tudo isto, não tenho dúvidas. Isto tem sido sempre a piorar. Este ano atingiu o descalabro. Atingiu o descalabro quando eles não queriam fazer a festa como deve ser, quando não queriam os grupos aqui a actuar. É uma sequência, começou mal e continua mal”.

Reparem como destaco aquele "muita gente" ali no meio. É de facto estranho, que se a intenção do Governo local ou até do Governo chinês é no sentido de apoiar o Festival, existam assim tantos "sabotadores" a agir contra essa vontade. Não sei é assim tão óbvio que haja quem se arrisque a desobedecer ou ir no sentido oposto ao da nomenclatura. Agora permita-me o exercício do contraditório, minha cara presidente da CP, e vou adiantando que lhe teria dito isto há pouco, quando nos encontrámos no Largo do Carmo, não estivesse V. Exa. acompanhada. Não será "muita gente" mas apenas "alguém", ou quem sabe uma ou duas pessoas, e a intenção não será tanto a de boicotar ou impedir que o festival se realize. Se me pedissem para arriscar um motivo, diria antes que é para ficar a saber até onde vão os seus limites, o quanto você quer que o festival se realize. Esta é uma daquelas especificidades locais para a qual não encontramos tradução, e que venho observando há anos, testado em laboratório, e depois de muitas "explosões" na cara, consigo finalmente identificar mais ou menos este mal. Não é um mal sequer, nem defeito - talvez seja feitio.

O que me surpreende é a sua reacção tão intempestiva. Surpreende-me mas não me choca. Pessoas como a dra. Maria Amélia António, que não estão subordinadas a ninguém olham para este fenómeno de uma posição que não lhes permite ver o "palco" todo, e posso-lhe já ir assegurando que isto não acontece porque somos portugueses ou porque há por aí alguém que embirra connosco; aliás nesse particular até estamos dotados de uma certa imunidade, pois há coisas que são apenas para "consumo doméstico" e não estão ao alcance da nossa diminuta compreensão de bárbaros ocidentais. Posso-lhe ainda garantir que isto acontece um pouco por toda a parte, nos mais diversos quadrantes da da vida do território, e imagine só: se sentiu o "toque" numa ocasião em que precisou de colaborar e estar lado a lado com outras entidades, imagine o que é para os que vivem com isto todos os dias há anos a fio. Não é nenhum alerta, nem uma tentativa de incendiar seja o que for. É apenas um automatismo entre o conjunto de muitos outros com que nos deparamos todos os dias, e não fosse pelo facto de os encararmos como um "choque de culturas" já há muito que tinhamos abandonado qualquer forma de boa vontade ou de entendimento. Eu chamo-lhe "terrorismo psicológico", mas é um nome provisório, e se você quiser pode chamar-lhe de outra coisa. E que tal "Adamastor", uma vez que uma das suas características é inibir quem lhe aparece pela frente de fazer o que acha certo ou tomar uma iniciativa sem estar a olhar por cima dos ombros? Não tente entender, que só faz mais mal que bem.

O direito de escolher (a única alternativa)



Outubro, mês outrora dado aos tons de vermelho, vai adquirindo uma tez de cinzento, mais da suspeita do que da certeza. Fico na dúvida, e é uma dúvida que me atormenta: será melhor que chova logo, ou que sol dissipe esta congestão e remeta a precipitação para a época que melhor se adequa ao efeito?; um Novembro qualquer, Dezembro ou até Janeiro, quando todos estiverem abrigados dos caprichos do imprevisível, à mercê das circunstâncias, a salvo do perigo. Identifico-me melhor que ninguém esse com impulso libertador, com essa raiva, esse murro que a mesa andava a pedir e cujos punhos cerrados não podiam esperar mais um minuto para descarregar a força acumulada: vamos desafiar o tirano, ouvimos dizer que é agora ou nunca, que está enfraquecido, vulnerável, e convém malhar o ferro enquanto esta quente. Não o podemos deixar agregar forças, não sabemos quando vai baixar de novo a guarda, ou o que vai ser de nós se resolver ajustar contas. Ah, a a justiça poética, vingança doce vingança. Nada como ver agressor no lugar do agredido, um Mussolini pendurado de cabeça abaixo, um Ceasescu encostado a uma parede e vergado pelas balas, cada uma representando as almas anónimas, para gaúdio das famílias angustiadas e agora ressarcidas, um Saddam a baloiçar na ponta de uma corda, a sensação de alívio que tudo isso nos deixa, mesmo que nada disto nos diga nada. É um pouco como nos filmes - queremos que acabem bem, com os namorados a ficarem juntos, os "maus" a terem um fim terrível, aquele que merecem, e o melhor amigo do herói a morrer a meio da história, para que dali retiremos uma lição subliminar de a justiça será sempre feita.

A este ímpeto libertário deram o nome de "Occupy Central"; existia um plano, nunca se escondeu o jogo, e era em nome de uma tal democracia que se enfrentava o monstro. A liderar o desfile está gente inteligente, experiente, que conhece o inimigo, sentou-se à mesa com ele e diz que sabe o que faz. Conta connosco e anuncia amanhãs de igualdade, justiça e um mundo de oportunidades para todos, de transparência, vamos finalmente ver-nos livres do tirano, que nos aperta, que nos vigia, que nos persegue e nos ameaça, a nós e às nossas famílias, que nos condiciona, que nos faz pensar duas vezes, que nos deixa a desconfiar tudo e de todos, mesmo dos amigos, mesmo das melhores intenções - que diabo, não é por nossa culpa ou daqueles que nos trairam que somos tão amargos e às vezes injustos. O ser humano tem uma natureza boa, pura, especialmente se o ser humano somos nós. A culpa é dos outros, dos seres humanos "desumanos". Eles é que causaram o terror e nunca nos deixaram por um pé em ramo verde. Foi tanto o abuso, tao apertadas as correntes, que passámos a acreditar seja no que for: mesmo outro inferno é melhor que sempre o mesmo inferno. Já não acreditamos em mudanças, são tudo promessas vãs, e a mudança somos nós, mesmo quando deixamos a mudança nas mãos de quem não conhecemos ou de quem pouco ou nada sabemos. Sabemos que são a antítese do mal, e para nós e todos os outros, isso só pode ser o "bem".

Basta de escutar o "monstro", que diz que sabe o que é melhor para nós e tem sempre em mente os nossos interesses. Vamos atrás da alternativa, pouco importa o que dizem os outros - os que não são senão cobardes, conformados, acomodados que aceitaram o carrasco porque este os convenceu que mudar seria sempre pior. São os fracos que tudo medem pela tabela do pobre e do medíocre: ao mal que temos só poderá suceder um mal pior, e acreditam ingenuamente que um mal menor pode chegar um dia, e para isso basta aceitar o pouco que lhes dão, que é sempre melhor que nada. Os que ousam discordar dão agora o passo no escuro, cientes que ao fim do túnel estará a luz, ou pelo menos uma saída qualquer. Acreditar é apostar tudo, pois perder tudo para quem tem pouco não é nada, quando em retorno se pode ter mais do que alguma vez imaginámos. Ou pelo menos é isto que nos prometeram quando subimos a parada, e pouco importa se no processo caiam a Nao escutem o que vos dizem os profetas da desgraça, os que apontam para o fracasso do que chamam de "quimera", e garantem que é tudo um "sonho", e que se de está a pedir o "impossível". Abstraiam-se do grasnar desses palmípedes do mau agouro, que falam de instrumentalização, adoptando o discurso do inimigo, evidenciando que este se borra de medo. É simples: quem não está connosco está contra nós, e contra a democracia. Como somos pela democracia, somos a única alternativa.

Não se deixem portanto iludir pelos sabotadores e anestesistas da grande dor de que sofremos e foi causada pelo regime. Não vão atrás daqueles que vos dizem que em qualquer outro lugar da Ásia - quiçá do mundo - as autoridades nunca nos deixariam ficar de plantão durante três semanas no centro financeiro do sistema, porque isto é "diferente" - afinal estamos a combater o império do mal, o pior que alguma vez existiu a face da Terra, e outro que seja adoptado depois deste será sempre bom, desde que faça oseja contra ele. O que importa se Chan Kin Man, um dos organizadores do movimento, pensou em voltar atrás em Agosto, voltou a apoiar incondicionalmente em Setembro, disse que não arredava pé a 3 de Outubro e esta sexta-feira disse estar "desiludido", e "preparado para se entregar às autoridades? O que importa que existam empresas nos Estados Unidos com planos de se instalarem no mercado chinês e façam projecções dos lucros daqui a dez anos dando como adquirido que o regime vai cair? Lá estou eu a "pisar", a fazer juízos de valor sobre pessoas que dizem uma coisa e depois outra e depois voltam à mesma e mudam outra vez, ou a pensar que isto tudo tem um fim lucrativo. - se não apoio, então o melhor é ficar caladinho, porque isto da democracia é como um rolo compressor, e onde não há é melhor que se invente. E se morre alguém? Afinal nas revoluções morrem pessoas...heróis quando a causa sai vitoriosa, mártires quando nem por isso. Epá, vira essa boca para lá, que esta é a "revolução dos guarda-chuvas". É sobre guarda-chuvas, não é sobre revoluções.


A ditadura da democracia



Depois de dois dias "de molho" (isto de ser um "blogger" constante tem o seu preço) vou paulatinamente recuperando a cadência das publicações regulares no Bairro do Oriente. Para colocar um ponto de ordem nada como o artigo de quinta-feira do Hoje Macau (edição electrónica não disponível), e desejar a continuação de um bom fim-de-semana.

Gostava de começar por contar um episódio que se passou comigo durante um fim-de-semana que passei em Guangzhou, estavam em finais de 1999, se não estou em erro. Visitava a cidade na companhia de uma amiga ali residente, e aproveitando essa vantagem optava por me deslocar nos transportes públicos, ou de metro, que na altura tinha sido recentemente inaugurado, ou de autocarro. E foi num das curtas viagens neste último que aconteceu algo curioso; vinha de pé a conversar com a minha cicerone, quando noto que todos os restantes passageiros nos olhavam, e quando digo “olhavam” quero dizer “fitavam”, sem qualquer pudor, como se quisessem deixar bem claro que eu era a razão da sua curiosidade. A minha parceira aparentava estar um pouco embaraçada, temendo que eu, a quem ela tinha convidado, desprezasse a atitude dos seus compatriotas, e de facto naquela situação só haviam duas saídas: ou ignorava, ou demonstrava desconforto, o que em qualquer das situações daria a entender ressentimento da minha parte. Assim optei por uma terceira via: cantei o tema “Baila Me”, dos Gypsy Kings, acompanhado de palmas. Nesse momento as mulheres voltam-se para a frente de repente, como se nunca estivessem estado interessadas, enquanto os homens sorriam, e começavam a dar-me o meu espaço – estavam todos “servidos”.
Este sorridente incidente serve para demonstrar que nem tudo o que nos ensinaram sobre tolerância e respeito pela diferença é definitivo. Aqui há uma conclusão que se pode tirar em dois segundos sem ser necessário qualquer método científico, estudo de opinião ou medição do grau de acidez: eu sou um ocidental, sou diferente, venho de um mundo que nada tem a ver com aquele, e é suposto manifestar comportamentos inaceitáveis para os padrões da cultura chinesa, e de preferência com uma boa dose de extravagância, para satisfazer o publico mais exigente. No fim vão todos para casa, convencidos que tudo o que aprenderam sobre a civilização ocidental estava certo - afinal valeu mesmo a pena comprar a série completa das aventuras do Mr. Bean.
A civilização milenar chinesa transmitiu de geração para geração durante séculos certos conceitos que para nós, "bárbaros" ocidentais, são difíceis de assimilar, e nem o mais dedicado ou erudito dos sinólogos chega a entender certas valências que apenas a consanguinidade transporta de pai para filho, e de filho para neto; podem-se apanhar todos os ovos e metê-los no mesmo cesto que ficou a faltar um. Qual? "Aquele que estava escondido". Mas como era possível apanhá-lo se estava escondido? Exactamente. E isto tudo para dizer que há coisas que não entendemos porque não é suposto nos serem dadas a entender. Não me peçam para dizer quais, que não sou capaz. Não sou nem nunca serei capaz, e propor-me a resolver um enigma de 5000 anos que se vai tornando ainda mais difícil de resolver a cada duas peças que consigo juntar é tirar a arrogância da toca, esfolá-la, curti-la e andar com ela ao pescoço. E quem melhor para ostentar a arrogância que os Estados Unidos, que garantem ao império do meio que a democracia é a cura para todos os males, desde o síndroma do partido único até à ditadura encravada. E como sabem eles isso? Porque já praticam a modalidade há 200 e tal anos, e nunca provaram outra coisa. É verdade que tiveram os seus altos e baixos, e ganharam um número respeitável de inimigos, mas quem possivelmente pode odiar o "berço da democracia"? Ora, os “inimigos da liberdade“, lá está: árabes, comunistas, índios, escravos africanos...

Foi então que alguns académicos em Hong Kong decidiram que a melhor forma de trazer esta receita para sarar o mal do totalitarismo no mais populoso país do mundo seria usar a RAEHK, onde são permitidas liberdades que o continente não tem, como laboratório. Faz sentido; logo que estes sete milhões de “oprimidos pelo regime” aceitem a nova ordem, os outros mil e tal milhões caem como tordos. E aqui temos o cenário ideal, pois segundo um desses teóricos da democracia americana, que assistiu de perto a revoluções recentes, como a final do Superbowl ou a corrida aos saldos do Wall-Mart, “se a Mongólia, com uma economia menos competitiva, conseguiu implantar um regime democrático, porque não Hong Kong, uma grande praça financeira?”. Já se sabe que para os americanos pouco importa se estamos a falar da Mongólia, Hong Kong ou Botswana: todos querem ser iguais à América, todos querem cartões de crédito, roupas de marca, tota-tola e malbóros. Ai já têm isso tudo? Então que tal substituir essa coisa do partido único, que já cheira a mofo, por uma “democracia parlamentar”? É simples: consiste de meia dúzia de corporações a mandar em tudo, “lobbies” que fazem a ligação entre o poder e os que se portam bem, atendendo assim às suas necessidades, e mesmo que haja quem não esteja satisfeito tem “liberdade de expressão”, podendo assim rir dos gajos quem mandam, enquanto estes riem deles, e no fim todo riem! É só rir.

E a este ponto já me estão a acusar de ser contra o movimento “Occupy Central” em particular e contra a democracia em geral. Quanto ao primeiro não sou contra nem a favor, pois nunca fiquei a saber qual era o fim. Democracia, dizem vocês? A ideologia ou o sistema? Se for a ideologia, tudo bem, qualquer criança de quatro anos ou ave psitaciforme consigue debitar chavões como “poder exercido pelo povo” ou “vontade da maioria”, mas se me falarem de “sistema democrático”, a coisa muda de figura. É que para se chegar a esses píncaros, é necessário algo que se chama “consciência democrática”, que consiste aceitar todas as opiniões – mesmo as que vão contra o próprio conceito de democracia. Quando se tenta impor a democracia através de um movimento que representa uma minoria, utilizando para o efeito a “desobediência civil” inspirada em Gandhi, e mesmo assim se entra em confronto com as autoridades, deixem-me dizer-vos que é um mau começo. Nem as imposições, nem as minorias são uma base sólida para se começar uma democracia, e Gandhi não chegou lá andando à porrada com a polícia. E quem propõem para dirigir esta “democracia à chinesa”? O adolescente Joshua Wong ou aquele gajo super-coerente, o “long-hair”, que se opõe a uma ditadura de matriz marxista-leninista mas ostenta a imagem de Che Guevara na camisola, personagens uni-dimensionais, tal como o “kwai-lou” que ia naquele autocarro em Guangzhou há 15 anos? E quanto aos tipos que agora estão no poder, o que vão fazer com eles? Metê-los na prisão ou fazer a coisa mais democrática, que seria realizar eleições em conjunto? Prisão? Pois, pois, já entendi. Prisão em democracia é melhor do que numa ditadura. Então não, coração.

As contas de Ronaldo



Em Espanha jogou-se a oitava jornada, com o Real Madrid a entrar em campo no Sábado no terreno do Levante, nos arredores da cidade de Valência, onde goleou por 5-0. Como é hábito nestas ocasiões, a pergunta é quantos golos marcou o português Cristiano Ronaldo. E a resposta é: dois, que lhe valeram mais um recorde, desta feita o do primeiro jogador a conseguir a marca dos 15 golos marcados nas primeiras oito jornadas. Javi Hernandez, James Rodríguez e Isco foram os restantes marcadores dos golos dos "merengues".



Em Barcelona o maior rival dos madrilenos não se deixou impressionar e venceu tranquilamente o recém-promovido Eibar por 3-0. Os visitantes foram resistindo até ao minuto 60, altura em que o veterano Xavi abre o livro dos golos, que seria ainda assinado por Neymar e Messi aos 72 e 74 minutos, respectivamente. O Barça lidera com mais quatro pontos que o Real, com a curiosidade de não ter consentido ainda qualquer golo para o campeonato.

Porto perde "clássico", Benfica passa na serra



Disputa-se este fim-de-semana a 3ª eliminatória da Taça de Portugal, primeira a incluir as equipas do escalão principal. A partida com maior interesse disputava-se no Estádio do Dragão, onde o FC Porto ficou pelo caminho, ao perder com o Sporting por três bolas a uma. O treinador portista fez descansar alguns titulares e pagou pela ousadia, perante uns leões que levaram o jogo a sério. O defesa do Porto, o espanhol Ivan Marcano marcou na própria baliza aos 31 minutos, ao tentar afastar de cabeça um lance perigoso, mas quatro minutos depois Jackson Martinez empataria para a equipa da casa. Nani aproveitaria mais um erro mais um erro da defensiva azul-e-branca para fazer o segundo do Sporting aos 39 minutos, e a sete do fim o peruano Carrillo fazia o terceiro, confirmando a passagem da equipa de Marco Silva à próxima eliminatória, depois de Jackson ter desperdiçado uma grande penalidade, permitindo a defesa a Rui Patrício.



A Covilhã, cidade do sopé da Serra da Estrela, voltou a ter futebol de primeira, apesar do clube local, o Sporting da Covilhã, não estar entre os grandes há 27 anos. O Benfica foi o visitante de honra, e venceu por 3-2, mas não ganhou para o susto. Os encarnados beneficiaram de uma grande penalidade no primeiro lance do encontro, convertida por Jonas. Durou pouco a vantagem dos campeões nacionais, pois aos 9 minutos Traquina fez das suas e restabeleceu o empate, e aos 42 Erivelto dava vantagem à equipa local, que foi em vantagem para o intervalo. No segundo tempo Jonas marcava aos 54 e aos 71, assinando um "hat-trick" e operando a reviravolta no marcador. Noutros jogos deste Sábado destaque para dois "tomba-gigantes"; o Aves, da Liga de Honra, recebeu o Boavista e goleou por 4-1, enquanto o Varzim, do Campeonato Nacional de Seniores (terceiro escalão) venceu em casa o Estoril por 2-1.

quinta-feira, 16 de Outubro de 2014

Vídeo da semana



A noite de terça para quarta-feira foi marcada por confrontos em Hong Kong, que levaram à detenção de 45 pessoas, enquanto a polícia recorreu novamente ao uso de gás lacrimogénio. A decisão de usar esta medida com o pretexto de repôr a ordem é um tanto ou quanto discutível, mas cuidado com os julgamentos precipitados, pois na hora das autoridades agirem em nome da nossa protecção não questionamos os meios, desde que sejam eficazes - é por isto que lhes demos a tal autoridade, e isso inclui os meios que têm ao seu dispôr, e este é um deles. O que certamente não se insere na definição de "medida de segurança" é a agressão de que foi vítima Ken Tsang, um elemento do Partido Cívico, que nestas imagens captadas pela TBV Pearl se vê a ser agredido por seis agentes à paisana, enquanto um sétimo tenta impedir a recolha de imagens, quando se apercebe da presença da câmara. Perante as evidências os agentes foram suspensos, e é possível (e até legítimo) que venham a incorrer de um pesado castigo disciplinar, senão mesmo alvo de um processo civil. Ouvi alguns comentários no sentido de atenuar a atitude mais que reprovável da polícia neste incidente, entre os quais que os elementos da autoridade "são pessoas como nós". Respeito quem veja as coisas desse ângulo, até porque nem levanta dúvidas sobre a responsabilidade dos agressores, mas não aceito isto como justificação - é o mesmo que um empregado bancário faltar ao trabalho porque nesse dia "não se sente honesto". Um caso de brutalidade policial grave, de que a justiça se encarregará de resolver, mas que não acrescenta muito aos motivos dos manifestantes. Não esperem que eles vos peçam "por favor" caso aproveitem este argumento para passarem das marcas.

quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

Depois deles, o caos



Fazer a opção de permanecer em Macau após Dezembro de 1999 foi, como se pode imaginar, uma das decisões mais difíceis que precisei de fazer na vida. Difícil no sentido de perspectivar os anos seguintes à transição, não no que me diz respeito em particular, mas à própria região na sua globalidade, e à própria China, num contexto mais alargado. A estabilidade política depende de um complicado equilíbrio de factores, e basta o artista dar um passo em falso para que a loiça se transforme em cacos, e até que se substitua o conjunto e se recomponha o artista (ou se encontre um outro para o seu lugar) o circo fecha para obras, e a empreitada requer a participação de todos os intervenientes no espectáculo, mas apenas estes: os espectadores ficam de fora, aguardando o início da nova temporada, e no que a esta metáfora diz respeito, estes "espectadores" são os estrangeiros. Na hora dos ensaios, fora de cena quem nao e de cena, ou se quisermos transpor isto para o "futebolês", o treino é à porta fechada. Com esta introdução quis transmitir uma ideia a que já voltarei mais à frente, mas vou adiantando que fico surpreendido com certas posições assumidas por pessoas que das duas uma: ou padecem de uma grande ignorância quanto ao local onde estão inseridos, ou são masoquistas.

Num território imenso e heterogéneo como a China, onde a etnia Han é predominante (na ordem dos 92%) existem sensibilidades que variam de região para região, ou de uma província para outra. Mao unificou a China mas teve consciência de que a "cola" não poderia segurar o prato já restaurado durante muito tempo, e foi tentando afastar os braços que iam tentando abanar a prateleira e deitar tudo a perder. O Grande Timoneiro, o fundador da R.P.C. que adquiriu o estatuto de herói ao ser o primeiro a unificar esse grande território, que Gengis Khan desbravou, que encantou Marco Polo, onde atracaram os navegadores portugueses, os ingleses tentaram conquistar pelo ópio e os japoneses ocuparam através da agressão. Mas a unificação foi feita com base num pressuposto ideológico, portanto volátil, e mais do que aplicar a doutrina socialista e caminhar para a utopia de um estado acéfalo, concretizando o sonho de Marx e Lenin, Mao aproveitou a hegemonia do partido que fundou para eliminar o inimigo. Este inimigo, que já aqui referi no outro dia, é o "outro" - na China há o poder e o anti-poder, e pouco importa a metamorfose que cada um assume, são os mesmos que vêm disputando o domínio do território desde os tempos mais remotos.

A China nacionalista e republicana, fundada por Sun Yat-sen em 1911 foi um fracasso, com a lei a ser ditada por quem tinha as armas, e com as potências ocidentais a fazer os possíveis para manter o país retalhado, desunido, e assim mais fácil de controlar. Aproveitando a fragilidade do país do meio, o império nipónico invadiu-o, utilizando para isso a agressão brutal. Objectivo: hegemonia na Ásia-Pacífico, e a única forma de convencer os países subjugados é agredindo-os, não propondo-lhes uma paz semelhante à "pax romana", ou uma rendição incondicional sem resistência, como fizeram os exércitos de Gengis Khan. Mao e o general Chang Kai-shek deram as mãos até à intervenção dos americanos, e o papel decisivo destes na derrota dos japoneses marcou o início da influência dos Estados Unidos na região. Posto isto dá-se a Guerra Civil, e a Rússia comunista apoia Mao, temendo que os americanos, já instalados em Okinawa e nas Filipianas chamassem a si o controlo da região onde se encontrava a maior parte do território soviete. Os comunistas derrotam os nacionalistas, que se exilam na Formosa, e já com a Guerra Fria a todo o gás, russos e americanos disputam a península da Coreia, dando-se aí um "empate" cujas mazelas ainda hoje continuam por sarar. E assim teve início a novela que teve no movimento "Occupy Central" mais um capítulo.

Mao avançou com reformas económicas e dois grandes planos que redundaram em fracasso, e sempre com um olho no inimigo ali ao lado, em Taiwan. Ao sentir que começava a ser afastado do poder com a obra da consolidação do poder inacabada, lança a Revolução Cultural, deixando assim os "gatos a brigar dentro do saco", enquanto procedia à "limpeza". Em 1972, sentindo que o seu tempo estava a acabar e a Rev. Cultural morreria com ele, chama o "grande inimigo", os Estados Unidos, e dos seus encontros com Richard Nixon terá ficado desenhado o plano: convergência gradual com Taiwan tendo como pedra basilar a economia, assumindo-se esta como prioridade , ficando acima de todo o resto, desde ideologia até rivalidades internas; seria a unificação plena sob o signo do cifrão. Mao morreu em 1976, e apesar de não ser esse o seu desejo, sucedeu-lhe Deng Xiaoping, o que acabaria por ser óptimo para a China, mau para os Estados Unidos, e péssimo para as forças da oposição - e nesse aspecto também não terá sido bom de todo para a própria China. Deu-se a abertura ao exterior, o crescimento da economia ultrapassou anualmente a barreira dos oito por cento, e estava tudo a correr sobre rodas quando se deu Tiananmen. Os incidentes de 4 de Junho de 1989 resultaram de uma "brecha" que foi aberta pela queda da cortina de ferro, e com o fim do comunismo no leste europeu, os americanos pensaram em "limpar" a Ásia, e assim eliminar não só o maior foco de marxismo-leninismo depois da defunta URSS, mas ainda os residuais Vietname (uma derrota que custou a digerir), Laos, Cambodja, e já agora "arrumar" a situação da Coreia.

O fracasso do movimento estudantil do 4 de Junho pode-se ter devido a um erro de cálculo: afinal o regime não estava tão fragilizado quanto se pensava, pois Deng preocupou-se em saber junto do exército se tinha o seu apoio. E tinha mesmo, e se o inimigo não lhe deu outra alternativa senão o derramamento de sangue, foi isso que ele lhes deu. O massacre levantou sérias dúvidas quanto à vontade da China e do partido em levar a cabo a convergência com Taiwan, mas se isto poderia ter custado um regresso à estaca zero, deu-se um "milagre", com um conjunto de circunstâncias favoráveis à um novo arranque a todo o gás da economia; o Japão estava a braços com uma crise económica, Bill Clinton era eleito presidente dos Estados Unidos e apostou mais na redução do "deficit" interno do que na política externa, e a "democracia" que tinha nascido das cinzas da União Soviética não era um exemplo para ninguém. A China foi deixada "à solta", e pelo final do milénio aderia à OMC e tornava-se na terceira maior economia mundial, mas em PIB bruto, mantendo-se no entanto ao nível dos países do terceiro mundo no PIB per capita. Segundo uma análise do Financial Times datada de 1997, não fosse o massacre de Tiananmen e a China teria atingido o PIB per capita da Argentina ao virar do milénio, e noutro ainda mais recente, de 2012, que poderia ter atingido a tão almejada "democracia" por volta de 2004 e 2005. E agora isso fica para quando, afinal? Já lá vamos.

Deng deixou-nos antes da transferência de soberania de Hong Kong, não podendo assim assistir a um único dia de aplicação do princípio de ele próprio idealizou, o de "um país, dois sistemas", criando uma região administrativa especial na ex-colónia britânica, ao que se seguiria a mesma política para Macau. Esta era uma versão revista e aumentada da Zona Económica Especial, ensaiada nas cidades limítrofes de Zhuhai e Shenzhen, só que em vez de apenas se investir no estímulo da economia, apostava-se no tal "segundo sistema", com base no tão apregoado "elevado grau de autonomia" contemplado nas famosas "leis básicas". O que Deng deixou também foi o limite de mandatos para a presidência da RPC, o que acabou por se revelar um erro. Jiang Zhemin e Hu Jintao sucederam a Deng, sempre a prazo, e à medida que economia produzia cada vez mais riqueza, intensificou-se a corrupção, e com a perspectiva de poder chegar à liderança a médio, foram-se formando mais grupos, acentuando as cisões dentro do partido. E aqui é que jaz a principal falha que os actuais movimentos anti-regime têm aproveitado. O Partido deixou de evoluir, parou, e não conseguiu adaptar-se à nova realidade, quer económica quer social do país. A imagem que transmite actualmente é a de desunião de desinteresse pelas necessidades da população, numa espiral disfuncional que deixa transparecer que a luta interna pelo poder os deixa demasiado fragilizados para responder a um ataque externo. O desaparecimento de Xi Jingping em Setembro de 2012, antes da sua nomeação como sucessor de Hu Jintao foi um facto que teve tanto de inédito como de bizarro. Ficou-se a saber mais tarde que o regime passou por uma das suas maiores crises de sempre em finais de 2011, apenas superada por uma mais recente, em Agosto deste ano, pouco antes do início deste movimento.

Mas voltando ao que Deng deixou de bom, reparem como antes da criação das RAE muitos desconfiaram das intenções da China, em que não cumpriria os acordos estabelecidos - mas com mais ou menos eficácia foi cumprindo, mesmo à custa de ter uma preocupação acrescida em conter o descontentamento da população do continente, que não tem os mesmos direitos. Por exemplo, existe liberdade de imprensa e de expressão com defeitos. Vamos lá ver, se cada vez que assistimos a um exemplo de violação de uma dessas liberdades, sai tudo à rua aos berros "ai ai não há, ai ai que mentirosos", e calam-se se as situações se começam a repetir. Temos internet sem censura (a propósito, o site da XVideos já funciona), temos a liberdade de sair do território sempre que quisermos, de conversar com um grupo de mais de cinco amigos sem que isso seja considerado "reunião não autorizada". Exprimentem aceder a qualquer "site" associado com a Google na China, e já agora aproveitem para berrar na cara de um polícia, criticar o regime ou falar-lhes de "democracia". E tem graça como se atiram ao ar conceitos como "democracia" ou "desobediência civil" por toma lá daquela palha. Alguém sabe o que significa "desobediência civil"? Esta é uma das formas mais extremas de protesto, significando precisamente "ir contra um governo civil". Portanto seja o que for que estes "amantes da liberdade" querem, o que pode justificar esta posição tão extrema? Fome? Segregação? Lei Marcial? Prisões por delito de opinião ou de convicção política. Ainda não, mas por este caminho ou pelo outro que pretendem tomar, não faltará muito.

Entende-se a posição que levou a esta iniciativa, e estamos aqui a falar de Hong Kong, que negociou uma calendarização para a reforma democrática, que incluía entre outras exigências a eleição do Chefe do Executivo pelo sufrágio directo e universal, sem qualquer tipo de limitações em termos de escolha dos candidatos ou liberdade de voto. É um facto que a China compremeteu-se a um princípio de acordo a este respeito, mas timidamente, e como seria de esperar não pode dar total liberdade de escolha à população da RAEHK: o candidato tem que ser alguém com quem Pequim possa dialogar, pois trata-se afinal de uma região sob a sua soberania. E basicamente é isto que está em causa; o movimento sabe perfeitamente que o Governo Central não vai ceder, e joga com a sua actual situação, fragilizado pelas tais questões internas, para colocar em cima da mesa uma eventual secessão da R.P. China, assumindo uma autonomia total baseada nas democracias ocidentais. Para este efeito conta com o apoio mais que declarado dos Estados Unidos, que vêem assim a grande oportunidade de instalar no país uma "democracia parlamentar multi-partidária". Eu não vou rir porque isto é demasiado sério para levar a brincar. Os americanos estão cansados de saber que levar algo desta envergadura para a frente provocaria um efeito dominó, que resultaria na queda do regime. Actualmente existe um impasse que apenas a negociação poderá resolver, mas dificilmente se registarão avanços no sentido de deixar tudo na mesma. O desfecho é difícil de prever sem saber o que pensa o elemento decisivo desta equação: o exército. No limite será o apoio dos militares que determinará o desfecho desta crise, e dificilmente se evitará um banho de sangue - não se assustem, que um "banho de sangue" na China até é visto como uma "saída airosa" em certos casos.

Os organizadores do "Occupy Central" sabem que no que diz respeito a Hong Kong esta é a última oportunidade para conseguir pelo menos o objectivo inicial: o sufrágio directo universal em 2017. O actual CE, C.Y. Leung, diz que está disposto a negociar a possibilidade de avançar com o sufrágio em 2022, o que seria mais uma forma de ganhar tempo, e os democratas já não vão na conversa. Num âmbito mais alargado, este é um barril de pólvora com rastilho na RAEHK e que rebentará em Pequim; os americanos sabem muito bem que nunca poderia existir uma democracia parlamentar na China. Eleições com um possível universo de centenas de milhões de eleitores que nunca viram uma urna, um programa político, a quem nunca foram dadas opções e sabem apenas fazer o que lhes mandam? Multi-partidarismo como? Se existirem dois partidos ambos vão querer o poder pleno sem qualquer oposição, e se forem quatro ou cinco, vão todos querer o mesmo. Debates de ideias? Acesas discussões parlamentares sobre estratégias assentes em ideologias? Está tudo maluco ou quê? O mais remotamente semelhante a "democracia" que podíamos pedir para a China era o abrandamento da censura, a introdução gradual da liberdade de expressão, imprensa e associação, bem como uma progressiva separação dos poderes, e claro, aí teria prioridade um sistema judicial independente. E isto meus amigos, é tudo muito complicado para introduzir num país com 1200 milhões de habitantes que em 5000 anos nunca teve nada disto, e olhem que não estou a ilibar o regime de responsabilidades, pois deviam ter evoluído com o resto da humanidade - tudo o que lhes chegar ao prato foi o que escolheram do cardápio.

Mas e nós, como é? O que acontece se mudarem os inquilinos do palácio? Mau, péssimo. A China não tem uma História: tem um passado. A História ensina-nos lições, o passado contém erros que sucessivamente se repetem. A tomada do poder, especialmente quando este está tão enraízado - é preciso não esquecer que o P.C. chinês controla todos os aspectos da vida do país, as empresas, desde a electricidade à água, passando pela banca e pela indústria alimentar, regula os horários dos serviços, dos transportes, das escolas, em suma, tem tudo nas mãos e não vai entregar a ninguém ou ensinar como se faz. Vai ser um caos, uma transição que nunca será breve e deixará o país paralisado (diria oito a dez anos no mínimo), e nunca será sem resistência que isto acontece. Uma vez no poder existe a tendência para fazer o oposto de tudo o que era feito pelo regime cessante, e aí no que a Macau diz respeito digam adeus aos casinos, e nem pensem que vêm cá aqueles tipos do continente que nos enchiam os cofres com as receitas do jogo. Porquê? Bem, ou fugiram, ou estão presos, ou mortos, em qualquer dos casos em qualquer lado menos a caminho de Macau para estoirar a massa que "gamaram" desta sistema "viciado e corrupto" do qual dependemos. Pois é meus amigos, por acaso nós até temos uma alternativa enquanto se fecha outra vez o saco dos gatos. Sim, não pensem que os estrangeiros vão ter lugar nesta "nova ordem", e não pensem que vai valer o facto de terem "apoiado" a causa. Recomendo que leiam "Antes que anoiteça", a autobiografia do escritor cubano Reinaldo Arenas, que apoiou a revolução socialista de Fidel Castro, vindo mais tarde a ser segregado devido à sua homossexualidade, vindo depois a ser detido, exilado e passando o resto dos seus dias do lado da oposição até morrer de SIDA aos 47 anos, em Miami. As paixões acabam assim, quando não entra no jogo o amor.

É heróico, sim senhor, ouvir os jovens bradar urras à democracia, à liberdade, e logo onde existe liberdade para o fazer. Irónico. Em quantos países se pode sair à rua e insultar as autoridades? É comovente vê-los ali a com livros na mão, títulos muito democráticos, de autores como Larry Diamond, que diz que "democracia para a China, já; não estão preparados? vão-se habituando". Claro que sim, faz todo o sentido. É como ter o tamanho do pé 44 e calçar-lhe uns sapatos tamanho 36 - eventualmente "adaptam-se". Era bom que lessem os livros atentamente em vez de aparecerem para o "boneco" com eles na mão e uma cara de quem se prepara para transformar o presente. E já agora leiam opiniões contrárias, e reflictam sobre qual é a vossa verdade. Reflectir, pois os livros servem para isso mesmo, e não são um manual de instruções que ensinam a montar uma democracia como se fosse uma tenda de campismo. Quantos manifestantes no "Occupy Central" sabem ao certo o porquê de estarem ali a protestar? Têm ouvido o que dizem alguns deles? Entre os que nem sabem porquê há os que dizem "Estou aqui porque fui convocado no meu grupo do Facebook"; "Vim com o meu grupo fazer uma 'flash mob'", e entre os mais entusiastas há aqueles que dizem "querer morrer" pela causa, a que deram o nome de, atenção a isto, "umbrella revolution" - Revolução do guarda-chuva. Quando for a revolução da pantera cor-de-rosa chamem-me.