quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

Porto vence Grupo H, Chelsea "ajuda" Sporting



O FC Porto garantiu ontem o 1º lugar do Grupo H da Liga dos Campeões ao vencer na Bielorrússia o BATE Borisov por esclarecedores 3-0. Os golos apareceram todos na segunda parte e "falaram castelhano"; assim o mexicano Hector Herrera inaugurou o marcador aos 56 minutos, para nove minutos depois o colombiano Jackson Martínez confirmar o seu estatuto de artilheiro, assinando o segundo golo. O espanhol Cristian Tello encerrou as contas aos 89, e no final a festa foi a dobrar: o Shakhtar Donetsk perdeu na Ucrânia por 0-1 frente ao Athletic Bilbao, e vai na última ronda ao Estádio do Dragão com cinco pontos de desvantagem, o que vale por dizer que a equipa de Julen Lopetegui garantiu o primeiro lugar do grupo.



No Grupo G o Sporting venceu o Maribor por 3-1, deixando o sonho da qualificação a apenas um ponto. Carlos Mané abriu o activo aos 10 minutos, e Nani fez o 2-0 aos 35. Parecia tudo resolvido, mas um lance infeliz protagonizado pelo defesa Jefferson, que aos 42 minutos introduziu a bola na sua própria baliza levava as equipas para o descanso separadas apenas por um golo. Foi preciso esperar até ao minuto 65 para Slimani fazer os adeptos locais respirar de alívio, e de Gelsenkirchen chegavam também boas notícias: o Chelsea goleou o Schalke 04 por 5-0, garantiu o 1º lugar e pode-se dar ao luxo de empatar com o Sporting na última ronda, resultado que apuraria a equipa de Marco Silva para a fase seguinte.

terça-feira, 25 de Novembro de 2014

Um dia de raiva (recado a Raimundo)



Uma notícia que fez eco na passada semana foi a da detenção de dois irmãos por suspeita de fogo posto. Os suspeitos, residentes de Macau e de nacionalidade francesa, terão ateado fogo a um sofá, que depois deixaram a arder junto ao andaime de bambu de uma obra situada entre a calçada do Bom Jesus e a Travessa do Colégio. Chamadas ao local por uma testemunha, as autoridades encontraram alguma hostilidade da parte dos suspeitos, que não só assumiram a autoria do crime (palavra forte, mas dura lex, sed lex) como ainda se mostraram pouco receptivos a colaborar com a investigação. Foi pena que reagissem desta forma, pois podia ser que o seu acto fosse entendido não como de puro vandalismo, ou sequer de rebeldia, mas antes de protesto, e com uma boa dose de simpatia por parte da opinião pública. Não se soube mais nada do caso desde que ambos foram apresentados ao Ministério Público na terça-feira, e o facto de terem aparecido encapuzados em imagens da edição do TDM News desse dia, dava a entender que o caso era grave. Contudo logo no dia seguinte vi um deles na loja de onde terá sido elaborado o plano, na Calçada da Paz, o que dá a entender que a medida de coacção terá ficado pelo termo de identidade e residência.

Apesar do nome sugestivo, é tudo menos "paz" que ali encontra o actual arrendatário do local onde em tempos se encontrava o "Meow Space", uma espécie de "orfanato" para gatos. Pierre-François Métayer, conhecido do público macaense pela série de filmes "Cantonese in One Minute", transmitida há alguns anos pela TDM, é o arrendatário de que vos falo, e penso que toda a gente sabe que é um dos suspeitos deste caso de fogo posto. Pierre alugou o espaço há alguns meses, com o intuito de abrir uma escola onde ensinaria línguas, teatro, e outras (detesto esta expressão) "artes performativas". Quem conhece o trabalho de Pierre-François Métayer sabe que se trata de um talento em bruto, e quem não conhece pode ficar a conhecer aqui, na sua página pessoal, pelo que o projecto prometia - fosse isso possível, caso a obra mesmo ali ao lado assim deixasse. Desde o primeiro dia que o francês, o inglês, o chinês ou o teatro têm como som de fundo o martelo pneumático, todos os dias, todo o santo dia, com início pontualmente às oito da manhã e fim às seis da tarde. Menos aos Domingos. Um dia Métayer cansou-se de viver no mesmo fuso horário da obra, terá cometido um acto desesperado, ou lembrou-se de uma forma radical de protestar - desconheço a sua verdadeira intenção e isso cabe à justiça determinar.

Apesar de não poder concordar com a atitude à margem da lei dos dois irmãos, não posso deixar de sentir também alguma simpatia pela sua evidente irritação. Como já tinha deixado patente no "post" de há uma semana que dediquei ao incidente, consigo ouvir o barulho das obras do 18º andar do prédio onde vivo, e imagino o que deve sentir quem mora mesmo ali ao lado. A própria Alliance Française, cuja sede se encontra mais acima da Travessa do Bom Jesus já manifestou também o desagrado com a situação. E não serão só os franceses que se queixam; é preciso não esquecer que Macau mudou muito nos últimos anos, há pessoas que trabalham por turnos e dormem de dia, durante o horário em que a lei do ruído permite aquele chinfrim. Não é possível fazer obras sem barulho, é lógico, mas a questão é apenas esta: serão mesmo necessárias TANTAS obras, todos os dias, o ano inteiro? Acabam obras aqui, algumas ficam incompletas, começam outras ao lado. Dois blocos à frente têm início outras obras, estas de renovação, e quem sabe se desnecessárias. Acabam essas, começam outras, e entretanto retomam-se as primeiras. É obras que nunca mais acabam, obras a dar com um pau. Com um pau não, com uma pua numa rocha de granito, ou algo que produza um som estridente.

Durantes os dias após o incidente, foi curioso observar as reacções nas redes sociais, e todas pareciam ir no mesmo sentido: reprova-se o acto, mas sente-se empatia com a causa, e parece estar-se de acordo que existem por aí obras "a mais". Não consegui deixar de estabelecer um paralelo com o que aconteceu e o filme "Falling Down", ou em português "Um Dia de Raiva", do realizador Joel Schumacher, um dos grandes sucessos do ano de 1993. O personagem desse filme, interpretado por Michael Douglas, "rebenta o último fusível" depois de mais um daqueles dias em que o inferno são os outros, e entra inicia uma escalada de fúria irrascível, com consequências imprevisíveis. A mim parece-me que o "inferno" a que se sujeitam os residentes de muitos bairros de Macau, constantemente massacrados com obras, barulhos, passeios esburacados, desvios, etc. podia ser relativamente amenizado (já que pedir para parar com esta verdadeira mina de ouro que é a construção civil seria pedir muito) houvesse um pouco mais de planeamento, e já agora de fiscalização. Fica então o recado para o próximo secretário da tutela, o Engº Raimundo do Rosário.

Moncorvo quer Faneca a cantar



Este deve ser um dos títulos mais estranhos que alguma vez dei a um artigo - estará no top-10, com toda a certeza. Isto explica-se facilmente: António Faneca é um comerciante de Torre de Moncorvo, distrito de Bragança, Portugal, que foi há um mês condenado a três anos e meio de prisão de prisão efectiva por tentativa de homicídio. A decisão judicial não agradou aos Moncorvenses, que exigem a libertação do seu conterrâneo, que é segundo eles "um bom homem, pacífico e querido da comunidade". Sim, eu sei que um grupo de populares a ostentar cartazes onde se lê "O António Faneca para a rua" dá a entender que se trata de algum presidente da junta mal amado, mas aqui "rua" é a alternativa à choldra, onde o Faneca vai passar os próximos três anos e meio. Dois, se se portar bem, algo de que duvido que aconteça.

Os factos reportam-se a Agosto de 2013, quando durante as festas populares do Carvalhal, António Faneca abordou o grupo que animava um arraial, pedindo-lhes "para cantar". Estes recusaram, e Faneca "muito desportivamente" partiu para cima da banda, com a intenção de os agredir. Edgar Lopes (em cima, à direita), amigo do agressor e testemunha ocular dos factos, tentou separar a briga, "majo xô António lebanta um pé pra lhe dar um puntapé, não é, e um deles chegurou um pé e o xô António cai pra traje, e eu a tentar xegurar o xô António e ele caíu e eu caí praxima dele e lebantei-me logo...majele tem uma pixtola no bolcho pra ninguém lhe bater quando tá no chum, porque ele num che pode lebantar, purque pejaba chentichinquenta quiloche naltura, né, e daí ele deu um tiro para o ar, mas shempre contra pra...pró outro lado, não é?". Lógico! Quem é que no seu perfeito juízo pesa 150 quilos e ainda ousa andar por aí desarmado??? Só algum maluco, ora "echa"!

Outra amiga do Faneca, uma tal Berta Vieira, diz que "o sr. António teve a infelichidade de ter dado um tiro ó ar, e...aqui a nocha juxtiça...'baseou-se' que ele é um homem perigoso, num é, e nós estamojaqui pra demonstrar o cuntrário" (sic). Pois é, meu amor, só que parece que "o ar" não gostou e foi apresentar queixa. Entre outros testemunhos que dão conta da natureza pacífica do Faneca, está o advogado Nélson Sousa (em baixo à esquerda), que recorda que "não há instituições intocáveis", e que o tribunal "é uma instituição soberana", que está a aplicar a lei "pelo povo e para o povo", mas...mas o quê? Mas "tem que ouvir o povo", e "não se pode aplicar uma lei em nome do povo, quando o povo não concorda". Nem mais, ó gravatinha! O povo é quem mais ordena, ou "a luta continua", como se ouvia entre as palavras de ordem que gritavam os populares que exigiam a libertação do Faneca. E recordo que tudo se passou em Trás-os-Montes, ontem, dia 24 de Novembro de 2014, e não no Alentejo em 24 de Abril de 1974.

E andam aí os média a perder tempo com o Socrates, quando em Torre de Moncorvo há uma família "de três gerações e completamente integrada" que sofre enquanto o seu patriarca se encontra detido numa prisão em Bragança, acusado de um crime que não cometeu. Tentativa de homicídio...por acaso dão prémios Nobel por "tentativa de Literatura"??? Tudo o que o pobre homem de 150 quilos queria era cantar à revelia do alinhamento do grupo que animava o baile, um direito que assiste a qualquer cidadão. Depois de ter sido empurrado enquanto tentava "disciplinar" um dos elementos desse grupo com um pontapé - afinal era a sua HONRA que estava ali em jogo - deu um tiro para o ar, para "acalmar a situação", e assim "evitar uma desgraça". Ah justiça, que andas pelas ruas da amargura...

Cruzeiro campeão do Brasil


Cruzeiro vence Goiás e é tetracampeão brasileiro by LANCETV

O Cruzeiro Esporte Clube sagrou-se este Domingo campeão do Brasileirão, o campeonato brasileiro também conhecido por Série A, ao vencer no Estádio Governador Magalhães Pinto em Belo Horizonte, Minas Gerais, o Goiás por duas bolas a uma, mantendo os sete pontos de vantagem sob o perseguidor mais próximo, o S. Paulo, que venceu fora o Santos por 1-0. Ricardo Goulart e Everton Ribeiro marcaram os golos que fizeram a festa do terceiro título do conjunto mineiro, e o primeiro desde 2003. Destaque ainda nesta penúltima ronda do Brasileirão para o despromoção do Botafogo; o clube carioca somou a sua quinta derrota consecutiva no reduto do Chapecoense de Santa Catarina, e caíu para a Série B, o que tinha acontecido pela última vez em 2002.



Premier League - 12ª jornada



Mais uma ronda da Premier League, benéfica para o Chelsea de José Mourinho, que viria a ampliar a vantagem na liderança para seis pontos. Os "blues" foram os primeiros a entrar em campo no Sábado, e "despacharam" o West Bromwich Albion por 2-0, com golos de Diego Costa e Hazard, aos 11 e aos 25 minutos, respectivamente. Os visitantes ficaram reduzidos a dez unidades a partir do minuto 29, após expulsão de Claudio Yacob, mas os londrinos ficaram-se pelos dois golos, quem sabe já a pensar na partida desta noite na Alemanha, frente ao Schalke 04.



O Manchester City segurou o terceiro lugar ao vencer em casa o Swansea City por 2-1. No entanto os campeões precisaram de suar perante os galeses, que se adiantaram no marcador aos 9 minutos pelo marfinense Wilfred Bony. O montenegrino Stevan Jovetic empatou dez minutos depois, mas a reviravolta só ficaria consumada aos 62 minutos com um golo de outro marfinense, Yaya Toure. Noutras partidas de Sábado o Everton venceu o West Ham por 2-1 em Goodison Park, e pelo mesmo resultado o Burnley foi vencer ao terreno do Stoke City, somando a segunda vitória consecutiva. Melhor está o Newcastle, que bateu o Queen's Park Rangers em St. James Park, somando o quinto triunfo seguido e ascendendo temporariamente ao quarto posto, enquanto Leicester City e Sunderland, duas equipas do fundo da tabela, empatavam sem golos no reduto dos primeiros.



O jogo grande de Sábado estava guardado para a noite, no estádio Emirates, onde Arsenal e Manchester United reeditaram mais um clássico do futebol inglês. Os "red devils", que fazem agora uma travessia do deserto após a saída de Alex Ferguson no final da época 2012/2013, começam a dar um ar de sua graça sob o comando de Louis Van Gaal, e venceram por 2-1, com os golos todos a serem marcados no segundo tempo. Kieran Gibbs marcou na própria baliza para os visitantes aos 56 minutos, e o internacional inglês Wayne Rooney fez o segundo aos 85. Foi já nos descontos que o francês Olivier Giroud reduziria para os "gunners", que com esta derrota caem no oitavo lugar da classificação, enquanto o Manchester United alcançou o Newcastle na quarta posição.



No Domingo o Liverpool, que vinha de duas derrotas consecutivas, procurava o caminho da recuperação em Selhurst Park, reduto do Crystal Palace, mas voltaria a ser derrotado por 3-1. A equipa de Brendan Rodgers até começou bem, com o avançado irlandês Rickie Lambert a marcar logo aos dois minutos. No entanto os locais viravam o jogo a seu favor, com golos de Dwight Gayle aos 17 minutos, Joseph Ledley aos 78 e Mile Jedinak aos 81. Na outra partida de Domingo o Tottenham foi vencer ao terreno do Hull City por 2-1, e já ontem o Southampton foi a Birmingham empatar a um golo com o Aston Villa.

Classificação (dez primeiros):

1 Chelsea 12 32
2 Southampton 12 26
3 Manchester City 12 24
4 Manchester United 12 19
5 Newcastle 12 19
6 West Ham 12 18
7 Swansea City 12 18
8 Arsenal 12 17
9 Everton 12 17
10 Tottenham Hotspur 12 17

segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

Os pontos nos "is"



Em boa hora, é o mínimo que se pode dizer no que ao "timing" diz respeito, da entrevista de Jorge Neto Valente à Rádio Macau, transmitida no último Sábado. Numa altura em que se preparam alterações no Governo, e em que Chui Sai On faz finalmente mudanças radicais na equipa que tem sido a "espinha dorsal" dos três primeiros executivos, nada como escutar alguém com muitos anos de Macau, e figura familiar aos círculos da governação, fazendo o balanco dos 15 anos de RAEM que se completam no próximo dia 20 de Dezembro, e perspectivar o futuro próximo, nem e que seja apenas dos próximos cinco anos - o dr. Neto Valente pode ser um conhecedor profundo da realidade local, mas nao é um oráculo. Estive em Bangkok desde sexta à noite até hoje à tarde, e soube da entrevista através das redes sociais. Escutei-a ontem depois de ter lido alguns comentários que foram sendo feitos entretanto, e é com um sentimento misto que não me resta senão dar razão ao presidente da Associação dos Advogados de Macau em quase tudo o que foi dito. Fico com um sabor agridoce na boca, pois mesmo quando gostaria de dizer que está enganado quanto a alguns aspectos da realidade de Macau em que não concordo no grau e no género, mesmo aí dou-lhe o benefício da dúvida, e valha-nos existir esta voz que nos vai avisando de certos perigos de que muito boa gente não da conta, mesmo sob o risco de ser impopular.

Foi difícil mas foi; depois de inúmeras tentativas frustradas, consegui dissociar a opinião do dr. Neto Valente da evidente má vontade que demonstra contra o sector dito pró-democrata que vai sendo a única oposição política em Macau, e infelizmente a única alternativa para quem quiser ser ouvido em Macau, mas não alinha com a nomenclatura. Dizer que se criou um fosso entre a governação e a opinião pública é o mesmo que comparar o muro de Berlim ao muro com arame farpado que o sr. Gonçalves levantou nos limites do seu pomar para impedir que os putos reguilas da vizinhança se fizessem às suas laranjas. Parece que o problema do dr. Neto Valente é simplesmente político: aqueles são os adversários, e como é de esperar em qualquer batalha política que se preze, há que lhes "chegar a roupa ao pêlo" - mesmo que de vez em quando "escorregue" e cometa desabafos do tipo "são pessoas que não representam ninguém". O problema aqui é que representam cada vez mais gente, e começam a fazer notar-se nas universidades, onde são cada vez em maior número. Temos um grupo que se diz a favor do sufrágio universal, resume a "democracia" a isso mesmo, e depois? De um lado ficamos com o poder, que não quer ouvir falar de democracia porque isso "é mau"- sobretudo para eles, aparentemente - e do outro lado uns tipos que propõem o sufrágio directo como princípio da democracia, e pelos vistos tambem como o seu meio e fim. Como fica Macau com a condicionante de ser uma região administrativa especial da da China é mais difícil de explicar; sufrágio universal, pois, mesmo a sangue frio e sabendo que uma parte importante do eleitorado vota em quem lhes paga, é uma ideia, mas e a partir daí, e já sem retorno, como é? Parece-me uma aposta demasiado arriscada, especialmente se tivermos em conta que não estamos desesperados.

Isto leva-me ao ponto seguinte: como estamos nós aqui em Macau? Nada mal, em comparação a outros lugares da região, e até do mundo, como aliás salientou o dr. Neto Valente. Não podendo discordar de todo da análise que faz, não posso também concordar, pelo menos em muitos aspectos, mas o causídico ganha aos pontos, e já vamos ver porquê. Neto Valente sublinha o facto de "não se verem mendigos em Macau, como se vêem noutros países", e que "dorme na rua quem quer". Parece-me uma visão algo redutora, esta, e qualquer pessoa com bom senso entende que ninguém dorme ao relento por opção. De facto Macau está dotado de instituições que garantem que no mínimo não fica ninguém sem um tecto para passar a noite, considerando este como ponto de referência da mais humilhante condição da existência humana. Há pessoas que preferem dormir no passeio a procurar estas instituições, ora por medo de serem institucionalizadas e dessa forma perderem a liberdade, ora devido a um qualquer transtorno de ordem psiquiátrica, ou por outros motivos que não a falta de opção. Existe também muita pobreza envergonhada, bem como muita indiferença; não é toda a gente que tem coragem para estender a mão a pedir ajuda, mesmo que esteja desesperadamente necessitado. Essas são questões que o dr. Neto Valente não teria tempo para elaborar com mais detalhe naquela entrevista, claro, nem é ele (nem a maior parte de nós) uma Madre Teresa para assegurar que toda a gente tem um prato de sopa quentinha e uma cama onde se deitar. Com o que não posso estar de acordo é com uma certa perspectiva miserabilista que muita gente advoga, de que "temos muita sorte", que "podia ser pior", e outras pérolas do género. Vamo-nos cingir à frieza dos números: Macau tem o quarto maior PIB per capita do mundo. Não sou eu que o diz, mas o Banco Mundial. Aqui está:

                          2010     2011      2012       2013

Luxembourg  102,679 111,913 103,859 111,162
Norway           86,096    99,091   99,636 100,819
Qatar               71,510    88,861   92,633   93,352
Macao, China  53,046   67,062   77,196   91,376
Switzerland     70,174    83,270  78,929   80,477
Australia         51,825    62,081  67,436   67,468
Denmark         56,411    59,912  56,364   58,894
Sweden           49,377    56,724  55,039   58,269
Singapore       46,570     52,871  54,007   55,182
United States  48,358    49,855  51,755   53,143
Canada           47,465     51,791  52,409   51,958
Austria            45,017     49,485  46,792   49,054

Portanto temos aqui os 12 países e territórios com o maior PIB "per capita" do mundo, com valores em milhares de dólares anuais, números que podem ser verificados aqui. Macau surge no quarto lugar com um rendimento de 91,376 de dólares anuais por cada residente, e dividindo este número por doze e convertendo à denonimação local, dá-nos 60,917 patacas por mês. Por mês? Quem ganha 60 mil patacas por mês? Menos de 5% da população activa, tenho a certeza, e já estou aqui a incluir empresários por conta própria. Não estou a querer dizer que com isto que cada residente devia auferir um rendimento desta natureza, e sabemos que estes números "gordos" se devem às receitas do jogo, e que a esmagadora maioria de nós nada contribuíu nesse sentido. Também sei que os habitantes do Qatar, que no PIB conseguem estar à nossa frente, nascem já com uma participação nos chorudos lucros do negócio do petróleo daquele país, e sem terem feito um buraco no chão. Não faço ideia de como se vive no Qatar, mas tenho umas luzes sobre como se vive na Suíça, na Austrália ou no Canadá, tudo países atrás da RAEM nesta lista, e vive-se bem melhor que aqui, sem margem para dúvidas. Este é o meu único "porquê", dr. Neto Valente: tudo bem, é ilusório aspirar a uma distribuição equitativa da riqueza, se bem que um bocadinho de equilíbrio ia resolver muitos problemas, mas será um disparate ambicionar a viver melhor, ou pelo menos ao nível dos países com menos dinheiro que Macau?

Olhando com mais atenção para aquela tabela, verificamos um verdadeiro "salto" entre 2012 e 2013, com os rendimentos brutos "per capita" a subirem na ordem dos 20 pontos percentuais. E o que se viu desse aumento? Foram resolvidos os problemas estruturais com que o território se debate, e que se têm vindo a adensar? O problema da saúde, e da qualidade da mesma, como o dr. Neto Valente apontou e bem? Ou como também foi referido pelo presidente da AAM, o que foi feito em matéria de obras públicas nos últimos anos, e o que beneficiou a população com isso? E é quando fala da área que melhor conhece, a Justiça, que Neto Valente põe finalmente o dedo na ferida: a falta de preparação. Não é só nos tribunais e nos serviços públicos que isto é notório, mas um pouco por toda a parte, e de facto mais do que a velha desculpa da "falta de experiência", que ao fim de 15 anos já começa a deixar de ser "justificação" para passar a servir de "desculpa esfarrapada". De facto há cursos que não servem para nada, e que só resultam num número excessivo de licenciados que não cobrem as lacunas em termos de quadros especializados de que a RAEM tem falta. Mas é sem dúvida no Direito, a "dama" que o entrevistado defende, que reside a maior preocupação, pois de facto a matriz portuguesa de onde deriva a jurisdição de Macau é a trave-mestra que sustenta todo o resto. Sem este suporte nada mais é garantido, e qualquer investimento que se faça para garantir este valor pecará sempre por escasso. Nisto estamos 100% de acordo.

Agora onde Neto Valente ganha aos pontos por falta de comparência do adversário é nas críticas que lhe podem ser imputadas. É que uma pessoa com o calibre do dr. Neto Valente pode-se quase dar ao luxo de dizer o que muito bem lhe apetecer, pois conta com o apoio, ou pelo menos a deferência de quem tem no mínimo dois palmos de testa. Entre os comentários que li no Sábado houve vários que nem vale a pena aqui mencionar, mas pelo menos um que prova aquilo de que falo: "o dr. Neto Valente diz que não há pobreza em Macau, por isso não vive na mesma cidade que nós". Isto vai além da má vontade, ou de alguma antipatia que se nutra pela pessoa de Neto Valente, e transborda a panela da burrice e da iliteracia. Tenho a certeza que o presidente da AAM não anda por aí a contar se o número de mendigos justifica que se afirme que em Macau há pobrezinhos, mas ele NUNCA disse que não existia pobreza. É esta dificuldade em ler, sim, nem se trata de interpretar mas de LER o que está escrito que deixa Macau neste atraso estrutural. É esta gente com horizontes pequeninos, pequeninos, para quem basta ter dinheiro no bolso e fica tudo bem, enquanto que ler, andar informado e encher a cabeça de conhecimento é apenas "perder tempo", que vai servindo de pedra amarrada na perna e que nos vai puxando para o fundo do mar. Esses que ainda se dão ao luxo de dizer mal da vida (quem nem lhes corre mal) e ainda se queixam dos governantes, são até capazes de ter alguma razão, no fundo: têm o que merecem. Se calhar é de propósito, é "mesmo assim". Não sei se são estes os "ignorantes e idiotas" a que Neto Valente se refere na última parte da sua entrevista, mas talvez fosse preciso mais do que recrutar profissionais de saúde: é preciso também mais gente que pense e que raciocine.

Podem ouvir aqui a entrevista do dr. Neto Valente.

O muito que mal me chega



Estive fora durante o fim-de-semana, e regressei ainda há pouco de Bangkok, mas a poucos minutos de sair de casa na sexta-feira tive a oportunidade de ver esta reportagem da autoria de Sandra Azevedo para o Canal Macau, intitulada "Viver com pouco", que reflecte - ou devia reflectir - as condiç­ões precárias em que se encontram alguns trabalhadores não-residentes (TNR) em Macau. A reportagem foi transmitida na sequência da actualização de uma notícia que dizia respeito ao acidente que vitimou quatro TNR na Rua do Tarrafeiro, e que indirectamente me diz respeito - quem leu o artigo de quinta-feira do Hoje Macau entendeu certamente porquê. Não fiquei "arrasado" com a notícia de uma amiga próxima sofreu uma morte horrível, e deixou orfã uma criança de nove anos. Não me pesa nos ombros o facto de não ter conseguido recordar um momento mau ou sequer menos feliz que passei com essa pessoa, pois não existiram, que é algo que faço com todos os que me são próximos, na tentativa de obter sentimentos mistos que tornem a minha dor mais suportável. Em retrospectiva, e passados agora que estão quase duas semanas depois da tragédia, tenho tudo mais ou menos arrumado no baú dos degredos, guardado lá no canto do sótão da alma, e no qual só mexo na hora de lhe juntar mais uma memória amarga. O que não consigo suportar é que de lá retirem peças que depois utilizem para um propósito maléfico, como foi o caso. A reportagem da TDM contou-nos aspectos da vida de três TNR: um chinês do continente, uma indonésia e uma filipina. Esta última, que reconheci de imediato, fez soar o alarme para a enorme injustiça que estava aqui a ser cometida. Esta Rodily Vilches é uma farsa, e apesar de não ter na altura todos os dados relativos à peça, e estar de saída para o aeroporto, posso agora com mais calma demonstrar que esta criatura é um péssimo exemplo do que é a vida difícil dos TNR em Macau.



A reportagem da TDM não é recente, nem foi feita a propósito da tragédia da noite do dia 11 para o dia 12 de Novembro, como eu pensei na altura em que estava de saída para o aeroporto, mas "do ano passado". Este facto ter-me-á passado despercebido na altura, mas foi mencionado não só no TDM News, do mesmo dia às 23 horas, como pela própria Rodily Vilches no dia seguinte na sua conta do Facebook, naquilo que parecia ser um assomo de "humildade": "vejam como eu já fui um dia; tenham pena dos pobres TNR, coitadinhos". Acontece que esta era a "sua situação real", portanto. Era mesmo? E seria assim tão grave? Vamos já saber.



A reportagem foi colocada no YouTube em 24 de Outubro de 2013, e segundo a descrição, é de 27 de Setembro, ou terá ido para o ar nessa data. Nela vemos o drama que é a vida de Rodily, como partilha a sua habitação miserável com mais alguns dos seus compatriotas, de como passa por dificuldades em gerir o pouco que ganha, "mandando quase tudo para a família", sendo o que lhe resta "insuficiente para fazer face às despesas mais elementares, como comer". É de partir o coração, e o ar dramático com que conta a sua história também ajuda, como podem verificar aqui, nas imagens. De ir às lágrimas, fosse realmente verdade.



E o Canal Macau da TDM poderia mesmo ter chamado a si o mérito de salvar uma alminha da miséria, senão vejam isto: um mês depois da reportagem, a 14 de Outubro, temos uma espécie de bilhete de identidade, um "cartão de visita" próprio de um modelo. Quem teria ficado tão bem impressionado com aquela situação de caristia? Terá valido a pena toda a fominha, que eventualmente deu a Rodily um "corpinho de modelo", mesmo depois dos 30 anos?



Ooops, afinal parece que não foi bem assim, pois a 10 de Junho de 2013, Rodily anuncia na rede social que "começou a trabalhar como modelo", em regime de "freelance". Isto portanto três meses antes da reportagem da TDM.



Ora, um mau começo, pode ser? Não é isso que aparenta a 5 de Julho, menos de um mês depois, data deste "photo shoot" - "very professional oh yeah". Não foi de propósito que não omiti o nome do fotógrafo, pois este Richard Kasica é um célebre arruaceiro que tem um historial de iludir empregadas domésticas e outras TNR de que têm hipóteses de seguir uma carreira como modelo, passando assim dos trapos do chão e da mesa dos restaurantes aos mais finos tecidos das grandes marcas que desfilam nas "passerelles" da "haute côuture" mundial. Oui, oui. E em troca apenas precisam de tirar fotografias de graça que o caridoso Kasica publica em diversos "websites", juntamente com outra informação pessoal, e depois é só esperar que as chamem para "trabalhos" no mundo da moda. Uma mina de ouro por explorar, e que ainda não chegou ao conhecimento das grandes marcas, certamente.



Mas a ilusão vem de longe, de muito longe. Reparem como em Maio de 2012, quase um ano e meio antes da reportagem que nos deixou saber que conta tostões e é muito pobrezinha, Rodily auto-intitula-se "Macau top model". Sabiam? Depois não digam que aqui não se aprende nada. Com ela partilham desta "fantasia" outras empregadas domésticas trintonas, e agora acreditem se quiserem, nem todas com uma aparência tão razoável como esta "pobrezinha".



Com que então a "questão" é só essa? Ora, a resposta é simples: é só ligar para Paris e comunicar ao pessoal da Louis Vuitton, da Prada ou da Channel que neste momento a sua "top model" se encontra com um problema de liquidez tão grande que o simples facto de comprar umas sandálias da Manolo Blahnik "fazem alguma diferença". Haja vergonha na cara desta gente.

O problema aqui, meus amigos, é que nos deixamos impressionar com muito pouco - ou neste caso com "muito", que dá a entender ser pouco. A comunidade portuguesa, especialmente a que faz parte de uma certa "inteligenzia" que sai dos bancos da faculdade de um país como Portugal, que apesar de tudo ainda é do chamado "mundo desenvolvido", tem o terrível hábito de olhar para o que tem, dividir isso por um terço e achar qualquer coisa abaixo desse número "miserável". Existem de facto TNR em situação difícil, e nem todos pedem ajuda à Cecília Ho ou às restantes entidades que supostamente os devem ajudar. O problema é que alguns têm uma coisa que a Rodily Vilches desconhece e que ainda nenhum dinheiro consegue comprar. Chama-se "dignidade".

Só sei que...já foste



O ex-primeiro-ministro português José Socrates foi detido ontem de manhã ao chegar ao aeroporto de Lisboa, vindo de Paris. Esta detenção surge na sequência de uma série de outras feitas no âmbito do caso dos "vistos Gold", que envolve 11 personalidades do Estado Português, alegadamente envolvidas em ilegalidades na atribuição de vistos a empresários chineses. Aparentemente o caso do ex-PM não estará relacionado com este, mas com "transações bancárias avultadas", denunciadas pela Caixa Geral de Depósitos. Estranhamente a imprensa aguardava Socrates à chegada ao aeroporto, o que dá a entender - e isto sem querer especular - que o próprio saberia que ia ser detido, e indo um pouco mais longe, poderá ter sido aconselhado a entregar-se. Num país de brandos costumes onde alguém do calibre de José Socrates não é detido debaixo deste circo mediático sem mais nem menos, é caso para dizer "onde há fumo, há fogo". O juíz Carlos Alexandre decide hoje a medida de coacção a aplicar ao chefe do Governo entre 2005 e 2011.

Hamilton campeão seis anos depois



O britânico Lewis Hamilton sagrou-se ontem bi-campeão mundial de Fórmula 1 ao vencer o GP de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Com a pontuação a valer o dobro, uma inovação introduzida esta temporada para a derradeira prova do mundial. Hamilton precisava apenas de terminar em 2º lugar, caso o seu companheiro de equipa da Mercedes vencesse a corrida. O alemão obteve a "pole-position", mas problemas mecânicos levaram-no a terminar no 14º lugar, deixando o caminho aberto a Hamilton, que voltou a festejar o título seis anos depois de o ter feito em 2008, ao volante de um McLaren. Esta foi a primeira vez que um piloto é campeão com um carro de escuderia e motor Mercedes desde Juan Manuel Fangio em 1955. Filipe Massa, em Williams-Mercedes, foi segundo em Abu Dhabi, à frente do seu companheiro de equipa Valtteri Bottas. Daniel Ricciardo, em Red Bull, foi quarto, Jenson Button em McLaren terminou em quinto, à frente dos dois Force-India, de Nico Hülkenberg e Sergio Perez, respectivamente. O tetra-campeão Sebastian Vettel, de saída para a Ferrari, foi oitavo, à frente de Fernando Alonso, que sairá da escuderia italiana para dar o seu lugar ao alemão. Kimi Raikkonen, também em Ferrari, fechou os lugares pontuáveis.

Classificação final (condutores):

LEWIS HAMILTON - 384
Nico Rosberg - 317
Daniel Ricciardo - 238
Valtteri Bottas - 186
Sebastian Vettel - 167
Fernando Alonso - 161
Felipe Massa - 134
Jenson Button - 126
Nico Hülkenberg - 96
Sergio Perez - 59
Kevin Magnussen - 55
Kimi Raikkonen - 55

Construtores:

Mercedes - 701
Red-Bull - 405
Williams-Mercedes - 320
Ferrari- 216
McLaren - 181
Force-India - 155


Ronaldo continua a somar, Messi recordista



C. Ronaldo continua a somar e seguir na Liga Espanhola, tal como o "seu" Real Madrid, que obteve a nona vitória consecutiva ao vencer no reduto do Eibar por 4-0. O português marcou aos 43 e aos 83 minutos, este último de "penalty", e leva já 20 golos marcados com 12 jornadas disputadas. James Rodríguez abriu o activo aos 23 e Benzema a "picou o ponto" aos 69, deixando o Real com 30 pontos, mais dois que Barcelona e mais quatro que Atletico Madrid. Os "colchoneros" beneficiaram da derrota do Valência no "derby" contra o Levante, por 1-2.



No Nou Camp o Barcelona "despachou" o Sevilha por 5-1, na partida que marcou a queda do recorde de melhor marcador de sempre do campeonato espanhol, que tinha quase 60 anos e pertencia a Telmo Zarra, do Athletic Bilbao. O avançado basco tinha apontado 251 golos entre 1940 e 1955, e foi agora ultrapassado pelo argentino Messi. O "pulga" apontou um "hat-trick" e contabiliza agora 253 golos, uma média de 0,88 golos por jogo. C. Ronaldo, curiosamente, tem 197 golos em 176 jogos, a melhor média de sempre, com 1,12 golos por jogo.

Taça fácil para os "grandes", Braga vence "derby"



Sporting e Benfica passaram facilmente para os oitavos-de-final da Taça de Portugal ao golearem respectivamente o Sp. Espinho e Moreirense. Os leões foram ao norte golear os "tigres" - assim a conhecida a equipa da Costa Verde - por cinco golos sem resposta. Contra um adversário que ocupa o último lugar do Grupo C do Campeoanato Nacional de Seniores, Fredy Montero destacou-se ao apontar dois golos, enquanto o médio João Mário, o espanhol Capel e o japonês Tanaka (de grande penalidade) fizeram o gosto ao pé.



O Benfica recebeu outro primodivisionário, o Moreirense, e apesar de se esperarem maiores dificuldades, os encarnados tornaram tudo fácil, ao chegarem aos 22 minutos a vencer por 3-0. Jonas bisou, com golos aos 3 e 7 minutos, e Salvio fez o terceiro aos 22, para quatro minutos depois Cardozo reduzir para os nortenhos. As contas ficaram fechadas em 4-1 com Salvio a bisar também, aos 56.



Naquele que era considerado o "jogo grande" desta ronda da Taça, o Sp. Braga foi ao reduto do seu vizinho e rival, o V. Guimarães, vencer por 2-1. Rafa Silva e Felipe Pardo marcaram aos 39 e 41 minutos pelos arsenalistas, deixando os locais a "correr atrás do prejuízo", e só aos 72 conseguiram reduzir de grande penalidade, por André André.

Noutras partidas destaque para o Oriental, da Liga de Honra, que foi o tomba-gigantes desta ronda, ao derrota no Campo Engº Carlos Salema, em Marvila, o primodivisionário V. Setúbal, por uma bola a zero. As restantes equipas da Superliga passaram com mais ou menos dificuldades, e o P. Ferreira protagonizou a maior goleada ao esmagar em casa o Atl. Riachense por 9-0. O Belenenses também goleou, vencendo fora o Trofense, lanterna-vermelha da II Liga, por 5-0. Nacional e Rio Ave venceram ambos em casa por 2-0 o Ribeirão e A a Oliveirense, respectivamente, e pelo mesmo resultado o Marítimo foi à Tapadinha derrotar o Atlético. Penafiel venceu em casa o Aves pela margem mínima, enquanto o Gil Vicente precisou de recorrer ao desempate de pontapés da marca de grande penalidade para derrotar o Varzim, após um empate a uma bola depois de 120 minutos. Outros resultados: Santa Maria 2-1 Santa Eulália; Vieira 0-1 Freamunde; Famalicão 4-0 Fafe; Feirense 0-2 Chaves; Vizela 2-2 Operário Lagoa (4-2 g.p.).

sexta-feira, 21 de Novembro de 2014

Os sonhos e as cinzas



Artigo de quinta-feira do Hoje Macau.

O incêndio que tirou a vida a quatro trabalhadores não residentes a semana passada na zona do Porto Interior tem sido o mote para um debate mais alargado sobre outras questões, e tem dado pano para os mais variados tipos de mangas, golas e decotes. Abstive-me de falar deste tema por uma razão muito simples: uma das vítimas era minha amiga, que posso mesmo considerar íntima, e a proprietária da loja que ficou em ruinas é também alguém que trato sem grande cerimónia, apesar da barreira linguística. Vivi até há alguns meses a poucos metros do local da tragédia, era visita frequente, quase como se fosse “da casa”, e apesar de me ter afastado – sobretudo por razões de logística – não pude deixar de ficar emocionado, mais até do que é habitual, no meu caso. Decorridos oito dias, e praticamente tida como certa a possibilidade de ser ter tratado de um trágico e lamentável acidente, gostaria agora, de cabeça mais fria, elaborar sobre alguns pontos do muito que se tem dito e escrito sobre o caso, e já agora permitam-me um pequeno desabafo: tenho lido e escutado muita merda.

Primeiro, como já referi, conhecia bem o local do sinistro, e posso garantir, digam o que disserem, que não se tratava de nenhum covil para onde eram atirados trabalhadores não-residentes (TNR), obrigados a viver em condições desumanas, como chegou a ser dado a entender – ninguém era obrigado a morar ali, sequer. Ainda não reuni a coragem para contactar a dona da loja para lhe transmitir uma palavra de carinho nesta hora de desespero, pois além de perder o negócio, perdeu a sua melhor amiga. A vítima deste desastre, e de que ambos lamentamos a partida, mantinha com ela uma relação que ia muito além do vínculo laboral que as ligava: eram quase como irmãs, e isto é algo que pode ser confirmado por vizinhos, amigos e conhecidos. A loja nem era o mais importante, pois era alugada, e na última mensagem que recebi da vítima, no último dia do mês passado, estariam a preparar-se para encerrar o negócio, e ela própria tinha planos para regressar ao seu país já em Janeiro. O facto de se tratar de uma loja de pronto-a-vestir, estarem em mudanças e possivelmente existirem sacos com roupa no chão ajuda a explicar a rápida propagação das chamas, mas não explica tudo. Se formos analisar o caso do ponto de vista da segurança, basta olhar para os prédios com cinco ou menos andares construídos há vinte ou trinta anos para concluir que grande parte da população dorme todos os dias em cima de um barril de pólvora. Não há fiscalização obrigatória das condições em que se encontram estes edifícios, onde a única saída é a mesma porta por onde se entra, e quem tem grades nas janelas ainda se pode dar por satisfeito, pois em muitas destas moradias não entra qualquer luz natural. Sobre o estado das instalações eléctricas, basta olhar para o estado do quadro das campainhas logo à entrada do prédio para perceber que se está aqui a brincar com o fogo.

Mas de um modo mais abrangente, estas mortes tão inusitadas quanto horríveis serviram para reacender o debate sobre as condições de vida dos TNR, as dificuldades destes em encontrar alojamento, e já na esfera do surrealista, o problema do preço da habitação em Macau. Não entendo que cabimento tem incluir na equação da especulação imobiliária pessoas que na maior parte dos casos vêm para o território trabalhar com o único objectivo de enviar a quase totalidade do vencimento que auferem para o seu país de origem, onde em muitos casos há bocas que dependem exclusivamente desse dinheiro para comer, vestir e estudar. O que não encaixa em algumas cabecinhas auto-intituladas pensadoras – e que disso têm tanta cagança – que consideram “desumano” que hajam oito, dez ou doze pessoas a morar debaixo do mesmo tecto, é que nem toda a gente está em Macau à procura de conforto. Nem todos entendem conceitos como “qualidade de vida”, que para estes passa por morar num apartamento com uma sala do tamanho de um campo de ténis, e depois conjecturam sobre “onde vai isto parar” quando lhes aumentam a renda de 12 para 15 mil patacas, mas não ponderam ir morar para uma casa mais pequena, onde pagariam metade desse preço, ou menos – mesmo aqueles que vivem sozinhos.

Há quem não consiga imaginar-se a viver com mil patacas por mês; como é isso possível, se é o que gastamos em quase nada – basta ir jantar fora dois dias seguidos. Porque é esse o valor que damos a mil patacas, enquanto nas Filipinas, por exemplo, chega para dar de comer a uma família de quatro durante um mês. Claro que não estou a falar de Manila e arredores, nem das Boracais, Puerto Galera, ou Bibó Puerto carago, ou outro destino de férias. Falo do interior, daquilo que eles chamam de “bundok”, o país real, onde mil patacas é um salário médio, e onde a palavra “desemprego” é uma forma erudita de descrever uma situação banal: não há trabalho, há que sobreviver, pôr comida na mesa e depois de cada refeição pensar de onde virá a próxima. Ali, de onde é originária grande parte dos TNR das Filipinas que temos em Macau, também é comum encontrar mais que uma família a partilhar o mesmo chão, e digo “chão” porque é no chão que dormem, deitam-se antes das dez da noite e acordam com o sol no dia seguinte. Colchões, almofadas e ar-condicionado são luxos que só vêm encontrar em Macau. Se já lá estive para saber se é assim? Por acaso já, e também já vivi com filipinos em Macau, seis na mesma casa, oito aos fins-de-semana, às vezes mais, quando aparecia alguém que pedia para passar lá uma noite, e improvisava-se um cantinho qualquer na sala. E isto foi durante mais de um ano, entre 1995 e 1996, e tal como hoje, há vinte anos também viviam vários no mesmo apartamento.

Seria muito desaforo da minha parte dizer que não se cometem abusos, que não há TNR explorados, maltratados e enganados. Há, claro, e há ainda os que sabem muito bem para aquilo que vêm, outros que no fim do mês tiram do salário o suficiente para pagar as contas e mandam o resto para casa. Como vivem? Assim, através da camaradagem de outros, umas vezes isto corre bem, outras mal, ou de expedientes como o sub-arrendamento. É ilegal? Mandem-nos ter formação jurídica. Só não esperem é que estejam lá os senhorios a inspeccionar quantos passam lá a noite. Se lhes aumentarem o subsídio de residência, pode ser até uma medida justa, mas o mais provável é que mandem esse dinheiro extra para a família, e não o invistam em “melhores condições de habitação”. E reparem que falamos de filipinos e indonésios, que juntos não devem ser sequer metade do total de 150 mil TNR em Macau. São certamente o elo mais fraco, os excluídos desta economia pulsante alimentada pelos lucros dos casinos, certo? Certo, se não contarmos com os operários da China continental, que depois de um dia nas obras só querem mesmo uma cama para se estenderem, e pouco importa que seja um beliche num quarto que partilham com mais sete ou oito, e casa-de-banho comum. A isto chama-se “sobrevivência”, um teste que uma querida amiga não conseguiu passar, para ver agora a sua derrota ser usada como bandeira pelos motivos errados. Triste, triste…


Escândalo! O que é isto???



A TDM acabou de mostrar uma reportagem RIDICULA! Supostamente a ideia era chamar a atenção para a situação dos trabalhadores não-residentes (TNR), a propósito do acidente que custou a vida a quatro deles, e foram entrevistados três destes TNR. Uma delas é esta Rodily Vilches, que conheço muitíssimo bem, e quase me deu vontade de vomitar quando a vi a lamentar-se da vida. Coitadinha...31 anos...tem um filho...uma mãe...a filha da mãe. Trabalha das nove às nove, coitadinha...a escrava...vive num sotão...não pode comer...buh, uh, uh, já me mijei todo. Esta gaja é uma fraude, e só gostaria que a TDM tivesse mais cuidado e fizesse a pesquisa antes das reportagens!



Aquela tipa que apareceu a morar num buraco, a dizer que "passa fome", quase a chorar, e que "manda todo o dinheiro para casa", auto-intitula-se "modelo em freelance", e "natural das Filipinas", mas "actualmente sediada em Macau" - "sediada", ouviram? Não é o mesmo que "passar sede". Vejam aqui a página de modelo profissional da menina, e aqui, ou aqui - o modelo do ano! - , e ainda aqui, e aproveitem para vê-la com as tetas de fora, algo que a TDM não mostrou. Que insulto a quem trabalha, e quem sofre de verdade...

Aiiii....que erro ho-rrí-vel!



Ai, ai, tão maus, tão maus. Ui ui, ui ui, que erro grave. A capa do jornal "Plataforma", que se diz bilingue pois é publicado em português e chinês, cometeu um erro GRAVISSIMO! MAMMA MIA! Toda a gente viu! Na capa da edição de hoje lia-se que "O GP (Grande Prémio) de Macau gerou receitas recorde", mas em chinês a expressão que designa "grande prémio" estava...MAL ESCRITAAAA....UAHAHAHAH!!!

"Grande prémio" escreve-se 大賽車 ou "tai choi che", e o que está ali é 大塞車 ou "tai sat che", que significa "engarrafamento", como em "trânsito engarrafado". Não sei se estão a perceber a GRAVIDADE disto, pois não se fala de outra coisa. Senão vejamos:



Epá isto podia ter dado uma III Guerra Mundial! É de uma irresponsabilidade do caraças! O caracter de cima significa "apertado", "entalado", que pode ser usado ainda como "tapar uma garrafa com a rolha", ou "engarrafar". O de baixo é "corrida", ou "competição", e com aquele (grande) e (carro), é "grande competição de carros. Ainda não perceberam a diferença???



Olha lá, ó, ó, estão a ver? O radical é o mesmo, mas o auxiliar, a parte inferior do caracter, é COMPLETAMENTE DIFERENTE! Isto nota-se a centenas de quilómetros de diferença! Ah!



Pois...assim a parte inferior de é - "terra", e em é - "concha", como na concha da ameijôa, e aqui quem se lixa é o mexilhão. É assim, meus primos: enganam-se HORRIVELMENTE, tornam-se a piada do ano (acho que hoje vão abrir o Telejornal com isto), e ainda querem ser levados a sério???? Ai, ai, ai....

Vídeo da semana

quinta-feira, 20 de Novembro de 2014

O espantalho da DSEJ



Cheguei a uma conclusão: devo ser mesmo burro. Viram? Como pode ser esta uma "conclusão" quando nem sequer tenho a certeza? É que li a notícia que dava conta da preocupação da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) de Macau "com a internet e a educação sexual". Muito bem, dois temas sempre na ordem do dia, pelas razões mais diversas. Pelo menos foi o que eu pensei: "dois temas", mas comecei a sentir um calafrio na espinha quando dou conta que é o Centro de Educação Moral (CEM) da DSEJ a expressar e a tornar públicas estas preocupações. Se isso me incomoda? Claro que não, podem expressar as preocupações que quiserem, podendo inclusive saltar refeições, perder noites de sono e ficar um mês sem tomar banho nesse processo. Se tem legitimidade para o fazer? Aparentemente...é uma subunidade do departamento de educação, e é em teoria o mais qualificado para o fazer. Repito: em teoria. Se estão a querer fazer toda a gente passar por burra, certamente, mesmo que não me consigam enganar, ou ao querido leitor, que só por ter escolhido o Bairro do Oriente demonstra um elevado nível de normalidade. Sim, normalidade, porque como já disse mais em cima, não me considero um modelo de virtudes, um Kant desta casa-da-sogra, mas tanto eu como o leitor sabemos uma coisinha ou duas sobre uma coisinha ou duas, pelo menos o suficiente para não saltar do precipício atrás dos amendoins que para lá se atiram de quando em vez.

Este CEM está sinceramente preocupado com a forma como os jovens usam a internet, ou de que forma isto pode influenciar na sua "educação sexual" - ui! jovens, internet, moral, educação sexual: cheira a fezes frescas. O director substituto Leong I On explica que “a família desempenha o papel mais importante no crescimento das crianças e jovens, portanto, deve estar incluída na sua educação sexual”. Claro, a DSEJ, através destes paladinos da moral, faz o tremendo sacrifício de educar os filhos dos outros sobre a sexualidade, mas tudo bem, os pais "podem participar também", pois afinal "a família desempenha o papel mais importante". Eu até penso que sim, existe este problema em Macau com a sexualidade, que continua a ser tabu, levando a que os pais não discutam o tema com os filhos, e muitos consideram o sexo "uma coisa suja". As crianças, nomeadamente os adolescentes, sentem o chamamento das hormonas, e isto é algo que nem os pais nem a DSEJ conseguem impedir - a não ser que levem os miúdos ao veterinário para serem esterilizados (já faltou mais...). Pudera, numa sociedade de falsos púdicos que identificam algo perfeitamente normal como um grande perigo, porque eles próprios são prevertidos, foram sexualmente reprimidos ou passaram por uma má experiência - ou nenhuma. Sim, porque a tendência destes técnicos com um ar de que nem sabem o que é uma queca bem dada e os conhecimentos sobre o assunto são praticamente "in libro", é para tratar as pessoas como se fossem electrodomésticos, podendo programar cada um bastando para isso rodar os botões. Mas permitam-me que elabore.



Aí está; não sou de julgar ninguém pelas aparências, mas atendendo ao que vou dizer a seguir, desta vez abro uma excepção. Olhem bem para estes quatro indivíduos e digam-me se confiavam neles para ensinar os vossos filhos a atravessar a estrada, quanto mais sobre sexualidade. As duas jovens em cada uma das pontas têm ar de quem muda de lugar quando se senta um homem ao seu lado no autocarro, o tal Leong I On tem aquele microfone a uma distância da boca um tanto ou quanto suspeita, e assumo que a outra senhora está ali para ter a certeza que toda a gente se porta bem. Sim, só pode ser isso. Além de mais parecerem a brigada dos empata-coisas, vão buscar argumentos que não lembram nem ao Menino Jesus, que certamente adoram com todo o fervor. Já fazia algum tempo em que não tinhamos um grupo de feministas, religiosos e outros zelosos pegajosos a embirrar com a internet. É preciso ter sempre em mente que a internet é uma ferramenta de acesso à informação, um media interactivo onde, pasme-se, "aprende-se", e quem sabe se um dia brota da aridez encefálica um rebento de "criatividade", e  depois aquilo cresce, sobe pelas paredes em forma de "espírito crítico", e antes que dêem por isso se vejam a "questionar", a "refutar", e Deus Meu, "DUVIDAR"! A esse ponto o melhor deixá-los de molho na água benta e ir consultar a agenda para saber que exorcista se encontra de plantão nessa noite.

É aqui que eu me rendo às evidências: sou um completo idiota. Por muito perversa que a minha imaginação seja, nunca me passou pela cabeça associar a internet à Educação Social da forma que o CEM o faz. E então, e o papel da internet na percepção dos jovens sobre o que é a sexualidade, é bom ou é mau? Claro que é mau. É péssimo! Vade retro, Satanás! É que os jovens são umas bestas que a cada dia batem um novo recorde de pontos negativos em testes de QI e a ciência descobre neles um novo tipo de paralisia infantil, e Leong I On teme os “perigos” que podem advir da utilização que os jovens dão à internet no processo da Educação Sexual, que é "complicadíssimo" - pelo menos para ele acredito que seja mais do que isso: é um mistério. Ainda pensei que se tratasse de algum vírus informático que por aí anda, que mostra os jovens imagens de sexo do mais porcalhão que se possa imaginar mal eles se ligam à rede. É o que parece, a julgar pela cara de caso destas salsichas de lata, como que a anunciar uma calamidade épica e inédita, e que restam poucas horas até que não fique um sopro de vida na Terra. Mas não, acontece que como são uns completos idiotas, e os paizinhos não lhes ficam atrás, compete ao Governo salvaguardar os jovens de algum falo voador que saia do ecrã e lhes venha bater na testa.

Aparentemente o maior problema são os outros, "as amizades que os jovens podem vir a fazer na internet". Aqui fiz um esforço suplementar para entender o que tem isto a ver com Educação Sexual. Será que se arriscam a pensar que estão a pedir conselhos ao Dr. Júlio Machado Vaz e na verdade do outro lado está o Carlos Cruz? Pior! Segundo o director-substituto da Moral e Bons Costumes, “muitos jovens usam frequentemente as aplicações no telemóvel para conhecer novas pessoas e fazer amizades, sem conhecer o outro pessoalmente". Para mim isto parece-me normal; que mal tem conhecer uma pessoa noutro lugar qualquer do mundo? E que se saiba ninguém morde só por estar a trocar dois dedos de conversa em frente a um computador. Só que para o bom do Leong I On, "estas relações podem representar algum perigo sobretudo quando existem encontros”. A sério? Será que quando os jovens marcam encontro com alguém que conhecem na internet, é a própria internet que os leva ao colo até lá? E se forem levados para um beco escuro e enrabados a sangue frio, a culpa é da internet, devemos vigiá-la de perto, e não aos becos escuros? Qual é a aventesma que não sabe a diferença entre conversar com alguém na internet e encontrá-lo na rua, ou noutro lugar qualquer? Peço desculpa, mas antes da internet existir as pessoas não marcavam encontros? E não era "perigoso" contactar com desconhecidos? Entendo que é preocupante quando alguém é vítima de extorsão ou cai num conto do vigário por confiar em alguém que conheceu "online", e transfere para a sua conta ou envia avultadas somas em dinheiro, mas se o sr. Leong I On se for dar ao incómodo de investigar as vítimas dessas fraudes e afins, vai ter uma surpresa: a grande maioria não são jovens de todo.

Este truque em que só cai gente ignorante é conhecido por "falácia do espantalho": pega-se num falso problema, convence-se quem nos ouve que é "muito grave", e "perigoso", apelando-se a que se fique de olhos bem abertos, ou para ser mais fácil, corta-se o mal pela raíz e encontra-se uma forma de não deixar o mal chegar perto, o que neste caso é a cobertura para uma eventual censura dos conteúdos da internet, ou a limitação do seu acesso livre e ilimitado - levanta-se o espantalho, derruba-se o espantalho. E por incrível que pareça existe uma forte "claque" que suporta esta ideia. Muitos dos jovens "problemáticos" (para a DSEJ, entenda-se) que passam mais tempo em cybercafés ou mais horas "online" são filhos de trabalhadores da indústria do jogo, que às vezes trabalham por turnos e pouco tempo lhes sobra para prestar atenção à educação dos filhos. Menos tempo têm ainda para se inteirarem do que vai pela internet, que novos perigos podem apresentar, e o mais provável é que até se mostrem receptivos à ideia, nem que seja para não levar com estes "cromos" em cima a toda a hora, a recordá-los que são maus pais e que não prestam. Juntam-se a estes os velhos e as respectivas velhas, que não sabem o que é a internet mas "ouviram dizer que é mau", e têm quorum. Ai Nossa Senhora dos Imbecis, que as autoridades já não têm mãos a medir com estas criaturas virtuais a encontrarem-se aí pela rua a planear sabe-se lá o quê.

Mas calma, calma, minhas primas, a Moral United chegou para salvar o dia; vem aí o 5º Campo de Reeducação e Lavagem Cerebral, perdão, a 5ª edição da promoção da Educação Sexual, este ano com o sugestivo tema “Amar sem se perder na internet”. Mas esperem, os pais não devem impedir o acesso dos filhos à rede, mas antes “ensinar a usá-la da melhor forma possível, salientando os seus pontos positivos, porque de facto ela é útil para muitas actividades do dia-a-dia” - disse o moralista Leong. Sim, de facto há de tudo na rede; desde pessoas que tentam salvar o planeta, a outras que elegem o cagalhão mais engraçado - e curiosamente estes últimos parecem ter mais adeptos. É um pouco como o próprio mundo 'tás a ver? A vida real. Talvez porque a internet é feita por pessoas, sei lá, umas bem intencionadas, outras nem por isso, e ainda algumas completamente passadas dos carretos. É por isso que Centro de Educação e Moral da DSEJ traça como meta que “os jovens tenham iniciativa e comecem a pensar de forma independente sobre a sexualidade e a internet enquanto são orientados”. Para o efeito, este ano a Educação incluíu duas novidades no programa da iniciativa: a palestra “Paixão pela internet” destinada a pais e encarregados de educação, e o acampamento para pais e filhos “largar a internet”. Faz todo o sentido: primeiro a lavagem cerebral, e de seguida bute lá pró campo curtir a "ressaca".

A iniciativa da DSEJ que decorre entre o próximo mês e Fevereiro de 2015 com o objectivo de incentivar o diálogo entre pais e filhos sobre a sexualidade, vai ter ainda jogos, peças de teatro e filmes! Não sei que jogos ou peças de teatro podem contribuir para essa "missão impossível" que é colocar os pais a falar de sexo com os filhos, mas quanto a filmes posso recomendar alguns: "Sete ânus no Tibete", "Todos sobre a minha mãe" e a série do agente "Zero Zero Mete" (se for seguidor) para os pais, "Peter Pau" ou "Pénis, o Pimentinha" para os pequenotes, e a série "O Senhor dos Anais" para toda a família. Promete, esta quinta edição, e devagar, devagariho vamos mentalizando a população para a eventual introdução da disciplina de Educação Sexual nas escolas de Macau. Pode ser que após a 22ª edição se comece a ponder essa possibilidade. Por enquanto deixem estes "especialistas" trabalhar à vontade, enquanto nos ensinam a nós, idiotas, o que devem e não devem os nossos filhos ver na internet.

O paradoxo de Song Pek Kei



Em primeiro lugar queria tirar o chapéu ao director do Jornal Tribuna de Macau, Sérgio Terra, que assina hoje um editorial que é um exemplo de sintonia em termos de opinião que até assusta. Esta passagem por exemplo: "Em causa estava uma tese que tem vindo a repetir: “a grande procura de arrendamento das fracções pelos TNR” fez subir as rendas, “obrigando os residentes a viver sob o alto preço dos imóveis e a grande inflação” e fomentando “conflitos sociais” é tão idêntica, talvez com a ordem das ideias e uma ou duas palavras ligeiramente diferentes daquilo que escrevi durante uma troca de SMS que tive ontem à tarde com outra pessoa, que quando li o texto mandei imediatamente uma mensagem a essa pessoa a alertá-la. Uma coincidência quase telepática, ou não, pois qualquer pessoa com o mínimo de bom senso e uma educação média com uma noção básico de humanismo sabe quão errado está recorrer a um critério de uma ciência exacta - a Economia - usando um factor humano, e numa leitura mais atenta, étnico. A questão que aqui se coloca é a seguinte: quanto valem os TNR na equação da lei da oferta e procura? Certamente mais que a unidade, que será quanto vale um residente que procure alugar um casa em Macau, e não será com toda a certeza uma casa igual às que os TNR procuram, e nem por isso as rendas são mais baixas. Em suma: os TNR são o bode expiatório de um problema maior, e tanto os prevaricadores (senhorios, agências, intermediários & especulação) como as suas vítimas ("ou mun ian" que não querem ficar a viver com os pais) concordam:

- "Tanto? É caro..." - diz o perú.
- "Pois é...são os TNR, sabe?" - responde o agente imobiliário, repetindo o "sabor do mês" que lhe ensinaram para justificar este tipo de extorsão institucionalizada, sem que consiga sequer explicar a razão que acabou de apresentar para "comer a pinha" do tótó ali parado à sua frente - "É a vida...", filosofa, enquanto encolhe os ombros.
- "É verdade, malditos TNR! Dão cabo da nossa qualidade de vida!"
- "Pode crer, a virem para aí encarecer a habitação, a viver aos dez de cada vez numa fracção"

Ao Sérgio Terra supreende que os deputados não tenham chamado a atenção para o problema, como fazem noutras situações com contornos menos trágicos, e de repente podemos explicar isto pelo facto dos TNR não votarem. Podemos ainda questionar a estranha apatia da Caritas ou das associações de matriz cristã, tendo em conta o mediatismo que a notícia tem tido vai para uma semana e meia. Também acho curioso que a nossa comunidade hesite em apelidar este discurso de xenófobo, quando o fez sem pestanejar aos democratas, e por muito menos do que isto. Numa observação mais atenta, e voltemos a fazer aqui as tais contas de mercearia que Song Pek Kei fez, mas mais detalhadas. Digamos que os números são mesmo estes: 162,877 - 160 mil vá lá. Sou capaz de apostar que nem metade dos TNR nestas contas são originários das Filipinas e da Indonésia, nacionalidade das vítimas que fizeram a sra. deputada expressar a sua preocupação pela "segurança" - um terço já será um número acima da realidade, vendo bem as coisas. Mesmo que sejam 50 mil, muitos destes encontram-se em regime de "stay-in", ou seja, vivem na casa dos empregadores e têm um dia de folga ao Domingo. Se vivem em média cinco ou seis no mesmo apartamento, conseguimos reduzir este número absurdo de centena e meia de milhar para menos de 10 mil. Eu diria cinco mil ou menos, muito menos. Afinal nesta contabilidade entram os apartamentos alugados, não o número de pessoas lá dentro, certo?

E quem são os restantes cem mil TNR, de grosso modo? Bom, não mencionei os nepaleses, vietnamitas ou trabalhadores contratados de outras origens do Sudeste Asiático, além dos "expats", europeus, americanos, australianos, etc., mas esses nem começam a raspar a terra, quanto mais chegar ao fundo do poço. Assim temos os operários da construção civil oriundos da China continental, e além dos pedreiros e trolhas em geral há ainda carpinteiros, electricistas, e outra mão-de-obra especializada ou relacionada com os acabamentos, algo que em Macau está em falta. É verdade que muitos destes vivem no continente, vêm cedo para Macau e apanham o "shuttle bus" de um dos casinos que vá para a fronteira das Portas do Cerco e assim economizam no transporte, ao mesmo tempo que não entram nestas contas. Mas estamos aqui a falar de um terço dos TNR que Song Pek Kei mencionou, portanto muitos deverão viver em Macau, e em condições de "segurança" idênticas ou piores à das vítimas da fatídica noite de dia 11 para 12 deste mês. Portanto há TNRs para todos os gostos, e há até os que ganham relativamente bem e têm alojamento gratuito e ainda se queixam, e outros que ganham mal e ainda acham que estão melhor que no seu país de origem. A forma como se aborda a questão dos TNR, analisam-se os problemas e se procuram encontrar soluções, nem parece que estamos a falar de pessoas, mas de cachorrinhos: "Uma lata de ração não chega? Vamos dar-lhes duas".

Agora guardei o brinde deste "Bolo Rei" para o fim. Aqui em baixo de onde eu moro, na Rua da Praia do Manduco, existe um edifício que está alugado na totalidade por estudantes...da Universidade da Cidade de Macau. E este é apenas um de muitos um pouco por todo o território, e não são propriedade daquele estabelecimento de ensino superior, que recorde-se, foi adquirido há alguns anos por Chan Meng Kam, o nº 1 da lista que elegeu Song Pek Kei. Estes estudantes pagam renda, nem mais nem menos que os outros, e também entram na equação da procura e não vivem ao sete ou oito de cada vez na mesma fracção. São até endinheirados, os moços, e os comerciantes daquela zona gostam do os ter por lá, pois gastam nas suas lojas sem olhar a despesas ou fazer contas de cabeça, ao contrário dos filipinos e indonésios, que para além de terem menos poder de compra, são mais facilmente identificáveis, e destacam-se dos restantes quando "fazem número" nos transportes ou nos locais públicos, que segundo a sra. deputada "são do uso exclusivo dos residentes de Macau", que desta forma "perdem qualidade de vida", causando os tais "conflitos sociais".

Portanto Song Pek Kei pode estar até a ser hipócrita - nada de surpreendente para quem uma vez disse que os animais eram "coisas" - pois contribui para o problema o qual se diz "preocupada", mas sabe para quem fala, quem é a sua audiência, e chego a duvidar que este discurso "estranho" venha inteiramente daquela cabecinha de anjinho. Perguntei a opinião a outros residentes, que lhe deram razão, pelo menos inicialmente, e mesmo depois de lhes fazer ver que esta análise era tendenciosa e desonesta, anuiram, mas continuam a dizer que "não está 100% errada". Não está, de facto, nem Hitler estava 100% errado, e até a "solução final" que conduziu ao horror do Holocausto foi aprovada por uma maioria no parlamento do Reich. Tudo conforme a lei, o que se pode pedir mais? Mas não fica por aqui o paradoxo da sra. deputada, cujos pais eram imigrantes oriundos de Fujian: se tivessemos uma Song Pek Kei quando Song Pek Kei nasceu, não tinhamos agora uma Song Pek Kei. Parece complicado mas é bastante simples - é como apontar um dedo, ou como partir a corda puxando pelo seu lado mais fraco.

quarta-feira, 19 de Novembro de 2014

Leocardo Matos, pá! contra os charlatões

O tango de Raphael



Portugal venceu ontem em Old Trafford a selecção da Argentina, vice-campeã mundial, e venceu por uma bola a zero. O jogo de exibição em Inglaterra tinha como aliciante o confronto entre os dois melhores jogadores do mundo: Cristiano Ronaldo e Messi. No entanto foi o jovem Raphael Guerreiro, luso-francês defesa esquerdo do Lorient, a fazer o único golo do encontro, já um minuto depois dos 90. Foi a segunda vitória de Portugal contra os argentinos em toda a história; a primeira aconteceu em 1972 na Minicopa, que assinalou os 150 anos da independência do Brasil.

terça-feira, 18 de Novembro de 2014

DI-NA-MI-ZAR - 5º episódio: Jesus Cristo



Metayér o seu pézinho



Um caso muito estranho ocorreu aqui perto de casa na noite de Domingo para segunda-feira, por volta das duas da madrugada. Dois residentes de Macau de nacionalidade francesa são suspeitos de fogo posto após terem incendiado um sofá que deixaram junto dos andaimes de bambu de uma obra na Calçada do Bom Jesus. A Polícia Judiciária conseguiu identificar os suspeitos graças a uma testemunha que os terá visto a levar o objecto para junto da obra, e já esta manhã foram ambos detidos e apresentados ao Ministério Público. Caso sejam acusados do crime de fogo posto, incorrem numa pena de 3 a 10 anos de prisão, de acordo com o artº 264 do Código Penal. A situação não está nada famosa para os suspeitos, que não só admitiram terem praticado o acto, alegando "estarem fartos do barulho das obras", como ainda mostraram pouca vontade em colaborar com as autoridades.



O jornal Ou Mun publicou esta manhã a notícia, e já esta noite os telejornais em português e inglês da TDM relataram o caso com mais detalhes, tendo o TDM News mostrado imagens dos dois suspeitos encapuzados nas instalações da PJ, após terem sido detidos. Ficámos a saber ainda os seus apelidos, que são irmãos, e para mim isto é lamentável, uma vez que tenho imensa estima por pelo menos um deles - e penso que também muitos dos leitores. Agora, até os entendo, pois eu próprio vivo no 18º andar de um prédio a poucos metros do local da obra em causa, e não me agrada acordar aos Sábados logo às nove em ponto com a sinfonia dos martelos pneumáticos, e estando mesmo ali ao lado, eles devem ter a mesma "dose", e ainda "reforçada". No entanto é pena que tenham tido esta atitude tão radical, e que ainda se tenham mostrado arrogante, pelo menos segundo o que ficámos a saber pela imprensa. Uma vez que não há vítimas a lamentar ou elevados prejuízos materiais, resta-me esperar que a justiça seja branda com os dois.

Menos cabelo, mais cabelo



Aqui era o salão de cabeleireiro "Blossom", na Rua de S. Lourenço, dois passos ao lado da entrada do Palácio do Governo. Talvez alguém se recorde deste artigo de 2 de Agosto último, ou talvez da reportagem do Hoje Macau sobre o local, do "colorido" barbeiro e da proprietária que se queixava da mesma coisa que todos os comerciantes em Macau, enfim, o aumento das rendas e a dificuldade em contratar mão-de-obra.



Pois bem, o "Blossom" cedeu aos caprichos do mercado, e há cerca de um mês fechou as portas, dando lugar a um...salão de cabeleireiro. Sim, outro, este, um tal "Hair the famous" (temos que adorar estas traduções...). Não sei nada deste novo "baeta", uma vez que quando só passo por esta zona de manhã, mas se o problema do anterior era a renda elevada, um simples corte de cabelo aqui não deverá ficar pelos simpáticos 70 paus que a Marissa Javillonar cobrava pelo trabalho do Channel Delaluna.



Mas o "Blossom" foi florescer noutro lugar, e não foi preciso ir longe. Olha para eles aqui na Rua do Seminário, quase em frente à Igreja de S. José. Passei por lá um par de vezes ao final da tarde, e estava cheio. Vamos ver se têm mais sorte, ou se voltam a cair nas garras dos proprietários sem escrúpulos, que muitas vezes aumentam as rendas de forma absurda, sem que para isso façam obras de renovação, ou mudem uma lâmpada que seja, mas apenas porque a loja está a ter bom negócio - parasitas, o que mais se pode chamar a esta gente? Espero que não, e que prosperem.



Foi difícil mas já está: quase dois meses depois de anunciar a abertura da sua barbearia unissexo, Rui Carreiro abriu o seu salão na Calçada da Rocha, nº 1. Para quem não sabe onde isso fica, é só ir pela Rua da Palha, e antes de chegar à Rua de S. Paulo, vira à sua direita e sobe pela Rua do Monte, e tem a barbearia logo no início da rua seguinte, do seu lado esquerdo. O Rui Carreiro oferece-nos uma proposta ousada, a de uma barbearia "à antiga", com cadeiras, navalhas, bacias e tudo mais, e não soubessemos nós que ele é de facto barbeiro (entre outras coisas), e ainda ficávamos a pensar que se tratava de um museu. Eh, eh, ele que me desculpe a gracinha, mas espero que sim, que vá lá muita gente cortar os cabelos, fazer a barba ou arranjar o "ninho", no caso das senhoras.



O mais interessante da reportagem do Telejornal da TDM que foi para o ar esta noite teve a ver com uma espécie de "sonho" do Rui, que falou de um "bairro português, porque não?". Ora a resposta está encontrada exactamente na pergunta: porque não. O sonho comanda a vida, mas a comunidade portuguesa em Macau é mais de ser servida do que servir, e isto apesar da vaga de gente nova, bonita e sangue na guelra que tem aparecido por aqui, que encara os projectos com seriedade. Ao contrário da restante "diáspora" (nunca me quis incluir nesta definição que me faz lembrar "dióspiro"), nós aqui não somos de arregaçar as mangas e limpar as teias de aranha dos cantos, ou de nos dobrar para apanhar o cocó do cão. E quanto à união, ui...bem, isto fica para falar noutro dia. O que eu espero é tudo de bom para o Rui, que sabe o que faz, é um artista que além de barbeiro é actor e modelo - tira-se logo a pinta - e além de ter aquele óptimo aspecto (só dois anos mais novo que eu, o magano!) é um tipo que se veste bem, sabe estar, é super-sociável, e a juntar a tudo isto tem um "sûtoque" próprio do "diabo" micaelense que ele é, e que nem a sua vida de "globetrotter" apagou. É mesmo assim, braçado: aganta essas enlameiradas, pega o touro pelas gadelhas mêm de veras e na sejas atoleimado, senão tas bem amanhado e inda te mija o cão no caminho. Podris de sorte para ti e vamos a mexer esses gadanhos!


sábado, 15 de Novembro de 2014

Portugal, fado sofrido



Portugal venceu ontem a Arménia no Estádio do Algarve por uma bola a zero, uma vitória complicada, com C. Ronaldo a resolver mais uma vez, apontando o único golo do encontro aos 72 minutos. A selecção dominou o encontro, com 70% de posse de bola e mais remates à baliza adversária, mas os armenos chegaram a criar situações de perigo que obrigaram Rui Patrício a estar atento. Foi a segunda vitória consecutiva de Fernando Santos, que parece estar ainda a tentar encontrar uma equipa-tipo, e ontem no onze inicial destacaram-se os regressos de Bosingwa e Danny, e a estreia do defesa-esquerdo Raphael Guerreiro, do Lorient de França, com apenas 20 anos. Com esta vitória Portugal ascende ao 2º lugar do Grupo I com seis pontos, menos um que a Dinamarca, que foi ontem à Sérvia vencer por 3-1, e tem mais um encontro realizado que a selecção portuguesa.

sexta-feira, 14 de Novembro de 2014

Conta, peso e medida



Aí está o fim-de-semana do Grande Prémio, os quatro dias do ano em que a cidade, que já mancava de uma perna, anda também com o braço ao peito. Enquanto se vão fazendo ouvir as queixas sobre o trânsito e aguardamos os contos de fantástico sobre os taxistas, deixo-vos com o artigo de quinta-feira do Hoje Macau (edição electrónica não disponível), e os desejos de um bom descanso, dentro da medida do possível. Salut.

“Mesmo a maior das caminhadas começa sempre com um primeiro passo” – esta uma frase cuja autoria se atribui ao Buda, e que para mim faz todo o sentido. Assim como um pequeno passo pode ser o início de um longo percurso em direcção a um destino incerto, é possível que este simples artigo possa ajudar a entender melhor algumas diferenças entre a mentalidade ocidental e oriental, e que se evidenciam no dia-a-dia de uma pequena cidade como é Macau. O caso que pretendo expôr hoje é um dos mais intrigantes, dos mais difíceis de entender, pois não existe uma tradução exacta quando transportado para a nossa cultura. Mais uma vez recordo que este é um artigo de opinião e as minhas conclusões são, como o nome indica, minhas, obtidas através de observação e resultantes de experiências pessoais.

Muitos leitores devem recordar-se certamente de um incidente que ocorreu com um distinto elemento da nossa comunidade por ocasião da abertura do último Festival da Lusofonia. Uma conhecida causídica e presidente de uma associação de matriz portuguesa “perdeu as estribeiras” devido a uma alteração de última hora na programação do festival, e foi possível observar a sua indignação através das imagens na televisão – uma “reacção a quente”, como alguém fez questão de referir, mesmo que aqui o “calor” tenha demorado alguns dias a passar. O que mais me chamou a atenção foram as declarações publicadas na imprensa no dia seguinte, onde a personalidade em causa dava conta de “uma série de obstáculos”, e não fosse a boa vontade demonstrada pelas altas individualidades da RAEM, “dava a impressão que alguém não queria que o festival se realize”.
Vou confessar uma pequena maldade: quando li estas declarações daquela nossa compatriota, pessoa por quem tenho aliás uma enorme estima, não pude deixar de sorrir. Foi mais do que um sorriso, mas não chegou a ser uma risada, e garanto que não foi por desdém ou por ter achado cómico ver a senhora naquela aflição; nada disso. A minha reacção explica-se pela forma intempestiva como alguém com mais de três décadas de convívio com esta civilização encarou algo que acontece com bastante frequência. É simples: tratando-se de uma profissional liberal, que raras vezes ou nunca se encontra numa posição de subordinada, foi apanhada de surpresa em pé de igualdade com outra(s) entidade(s), com quem necessitou de fazer uma articulação de funções. Ao não conseguir fazer a leitura adequada das circunstâncias, caíu na cilada, e sem saber deu uma explicação que lhe era pedida. É confuso, este raciocínio? Nunca poderia ser fácil de entender, pois também não é fácil de explicar.

Acredito que a intenção nunca foi a de colocar entraves à realização do Festival da Lusofonia, como foi deixado bem claro por uma personalidade do Governo presente na altura do incidente. O que se passou aqui foi uma espécie de teste; quanto é que a organizadora quer que o festival se realize, até onde pode ir para que se concretizem os seus intentos, quais são os seus limites, e a que temperatura atinge o ponto de ebulição. Aqui devo dizer que fiquei um pouco desiludido, pois esperava mais “dureza de rins” da parte da nossa representante. Mas se isso acontece com alguém numa situação esporádica onde não está no controlo total das operações, imaginem como será com quem se encontra subordinado a outrém, exposto frequentemente a esta “especificidade”. O mais curioso é que isto acontece quase que subliminarmente, e é provável que nem tenha sido a intenção de ninguém irritar aquela responsável pela organização da festa, mas “já que aconteceu”, ficou identificado o seu nervo mais sensível, catalogado, e arquivado para referência futura.

Para os chineses tudo tem conta, peso e medida, e nada acontece por acaso. O abstracto não tem valor, e apenas “porque sim” não é resposta. Qualquer coisa que se faça tem um objectivo, ou serve de meio para atingir um fim. O próprio conceito de “diversão” ou de “lazer” é diferente do nosso, e até um simples jogo de “mahjong” entre familiares – mesmo com crianças – não dispensa pelo menos uns trocados em cima da mesa para apostar em cada jogada, “para dar sentido”, pois caso contrário, “qual é o interesse”? É possível que já vos tenha acontecido um colega chinês se tenha aproximar de vocês durante um período, desenvolvendo uma aparente relação de amizade, para depois se afastar inexplicavelmente, deixando-vos um pouco baralhados, com um sentimento de culpa, e a interrogam-se sobre o que teriam feito de errado. Não fizeram nada, pois é provável que o ou a camarada estivesse apenas a “estudar-vos”, apenas isso. Não estou aqui a generalizar, e claro que existem casos em que a intenção pode ser boa, e a amizade, ou pelo menos alguma empatia, genuína. Estou apenas a dizer que “pode acontecer”.

A forma como os chineses encaram as relações pessoais diverge da nossa: enquanto temos a tendência para fazer uma abordagem mais abrupta, directa e descontraída, deixando saber tudo e mais alguma coisa sobre nós, a nossa personalidade, gostos, dando a ler o nosso perfil, revelando qualidades e fraquezas, os locais preferem um certo distanciamento, mostrando reserva, alguma frieza ou até indiferença – uma táctica de “esconder o jogo”, que por vezes pode ser interpretada como um sinal de rejeição. Penso que neste particular não estou a anunciar nenhuma novidade, pois muitos de nós já chegou a esta conclusão. Talvez por isso se torna mais difícil entender porque teimamos em cair na mesma armadilha que a presidente da nossa agremiação por ocasião do Festival da Lusofonia. Vou terminar da mesma forma que comecei, com uma citação do Buda: “A vida não é uma pergunta para ser respondida, mas a um mistério para ser vivido”.


Fraude: eles andam aí



Macau não é hoje o oásis de segurança que em tempos foi, é um facto, mas continua a ser uma cidade onde ainda é possível circular sem ser preciso andar a espreitar por cima do ombro. Quando cheguei ao território em 1993 fiquei impressionado pelo facto de se poder andar na rua a qualquer hora e em qualquer sítio sem encontrar uma figura suspeita, ou ser abordado por algum indivíduo com conversas fora do normal, ou evitar locais ermos onde fosse mais difícil pedir socorro ou contar com alguma alma caridosa que nos prestasse auxílio, nem que fosse apenas no sentido de alertar a autoridade mais próxima. Para quem vivia na margem sul e andava por Lisboa com frequência, era um luxo poder levantar dinheiro numa caixa automática sem o mínimo receio de ser assaltado, ou precisar sequer de olhar para um lado e para o outro a cada cinco segundos - aqui galgavam-se os becos e travessas mais recôndidos mesmo a horas proibitivas com as mãos nos bolsos e um assobio nos lados. A criminalidade acontecia, é logico, e sendo esta a cidade do jogo, com fama de longa data, não era difícil perceber de onde espreitava o perigo.

Achei pitoresco quando dei com aquele autocolante nos autocarros onde se lia "cuidado com os carteiristas", mas era raro acontecer um furto deste tipo, a não ser que a vítima estivesse a "dar sopa" e na mesma composição viesse também um dos agéis larápios. Era um pouco arriscado para uma senhora andar sozinha perto do Jockey Club na Taipa à terça-feira à noite, dia de corridas de cavalos, pois podia algum apostador mais "ressacado" podia aliviá-la do peso da bolsa. Assaltos à mão armada, estabelecimentos comerciais ou caixas multibanco eram raros, senão inexistentes, e o pior que podia acontecer era ter um "macaco" a entrar-nos pela janela de casa enquanto estávamos fora, e mesmo isto acontecia quase sempre nos prédios com cinco ou menos andares, onde não existia portaria. Eu próprio fui visitado por esses cavalheiros em duas ocasiões no mesmo ano (arrombaram a fechadura da porta; que desilusão...amadores) e nunca mais tive esse problema desde que fui viver para um edifício com elevador. E também não me levaram nada, e quem guarda centenas de milhares de patacas debaixo do colchão ou é parvinho, ou obteve o dinheiro através de meios pouco claros. Aproveito para referir aquele lamentável episódio ocorrido na semana passada, quando uma empregada filipina furtou um relógio "com um valor bastante elevado" da casa onde trabalhava, e após a queixa da entidade patronal foi detida e presente ao Ministério Público. O que não entendi, e continuo sem encontrar motivo para que se faça tal alarido, é o facto deste tipo de notícia ter honras de telejornal das 20:30, com a suspeita encapuzada, algemada e apresentada à imprensa como se fosse um atum premiado. Tudo por causa de um relógio?

Bastava no entanto atravessar as Portas do Cerco para deparar com uma situação diferente, e apesar de não ser propriamente o "faroeste", era recomendável exercer cuidados triplicados, especialmente para quem levava mala, que teria que transportá-la na frente, encostada à barriga. Aparecia uma vez ou outra um tipo mal encarado, com pinta de espertalhão, à procura de "patos" que caíssem em algum conto do vigário, mas sendo eu estrangeiro, não demoravam dois segundos a tirar-me o retrato e perceber que só iam perder o seu tempo. Com a política dos vistos individuais, começaram a chegar maus elementos em maior número - lógico, quando entram dez mil pessoas em vez de apenas mil, é possível também que entrem dez vezes mais "maladrins" e as parceiras, as "malandrinas". A criminalidade vai aumentado ao ritmo do aumento da população, e mesmo que os números do crime violento tenham subido ligeiramente, ainda não se pode dizer que a situação seja preocupante. É possível que na zona norte da cidade, mais perto da fronteira, haja mais trabalho para a polícia, mas nada de alarmante; não é nenhuma "Nova Iorque fora de horas ou algo que se pareça. Sim, há mais porrada, mais facada, um ou outro tirinho de vez em quando, e tornou-se mais perigoso sair à noite, especialmente para os jovens, mas não se esqueçam que a população de Macau aumentou na ordem dos 55% nos últimos 20 anos. É muito mais areia, e se a camioneta não consegue levar tudo de uma vez, faça mais uma ou duas viagens, ou aquelas que forem necessárias.

O que continua em alta - ontem e hoje, mas hoje é mais notório - são os chamados "truques de confiança", um tipo de fraude onde um grupo de malfeitores monta um pequeno "teatro" com a intenção de ludibriar algum cidadão mais ingénuo, convencendo-o eventualmente a passar-lhe todo o dinheiro da sua conta bancária para as mãos. Deixando de fora os crimes informáticos, ainda temos o velhinho truque do curandeiro, que resulta sobretudo nas senhoras de mais idade, ainda bastante supersticiosas, e o truque do "amigo que foi preso na China", que liga para um telemóvel em Macau, convence a pessoa do outro lado que a conhece, e mais tarde volta a ligar dizendo que "teve um problema" no continente e precisa de dinheiro urgentemente. Já tinha dito isto aqui no blogue mas repito: caso identifiquem um truque desta natureza, alertem as autoridades para esse facto, mesmo que não tenham sido enganados. A polícia ainda pode ir a tempo de deter os "artistas" antes que façam vítimas, e assim é melhor para todos. E agora atenção à novidade: esta tarde ligaram para casa, a minha mulher atendeu, e do outro lado estava alguém com uma voz baixinha, a choramingar, dizendo em cantonês "mãe, preciso de ajuda". Aconteceu o mesmo com alguns dos meus vizinhos, e pronto, nada de grave se passou, até porque o meu filho também estava em casa. Nestes casos, e isto não é para vos assustar mas apenas para ficar com a certeza de que está tudo 100% na paz dos anjos, combinem com os vossos filhos uma palavra-chave, qualquer coisa que vos possa garantir que é mesmo um truque. Sei lá, "cabeça de burro", "saco de plástico", uma "password" que só vocês saibam. Se quiserem ajudar as Forças de Segurança e sentirem que vos estão a tentar enganar, podem ainda fingir que caem no truque, e caso combinem um encontro ou uma transferência bancária, alertem antecipadamente as autoridades. Não se trata aqui de "armar-se em herói", mas contribuir para a segurança de todos. Agora ficar só a reclamar que a criminalidade aumentou não ajuda nada. E estejam sempre alerta!