terça-feira, 2 de Setembro de 2014

E o vencedor é...Jason Chao



Terminou ontem a saga do referendo civil, organizado pelo campo da pró-democracia, e que durante uma semana recolheu a opinião de 8688 residentes de Macau sobre a vontade de avançar com o sufrágio directo para a eleição do Chefe do Executivo já em 2019, ou seja, da próxima vez. Ao mesmo tempo que se realizou esta consulta, que por motivos que todos conhecem foi realizada apenas através da internet, decorreu a eleição do IV Chefe do Executivo que reelegeu Chui Sai On para mais um mandato de cinco anos. A polémica estalou quando no dia 21 de Julho o então presidente da Associação Novo Macau, Jason Chao, anunciou que realizaria uma consulta pública sobre a viabilidade do método do sufrágio directo para a eleição da figura máxima da RAEM, em alternativa ao actual, que consiste num Colégio Eleitoral de 400 elementos, eleito por 1900 notáveis, e que os democratas consideram "pouco representativo" de uma população com quase 300 mil eleitores recenseados. O "timing" da consulta, que inicialmente se chamava "referendo informal" e acabou com a designação de "referendo civil" não podia ser o pior - ou melhor, dependendo do ponto de vista das partes envolvidas. A votação, ou melhor dizendo, a participação, uma vez que aqui mais ninguém votou além de 396 elementos que compunham o tal Colégio Eleitoral, coincidia com o processo eleitoral que escolhia o próximo Chefe do Executivo, realizando-se entre as zero horas do dia 24 de Agosto, e o meio-dia do dia 31. Jason Chao prometia divulgar os números da participação e o resultado da moção nº 1 no Domingo, dia 31, data em que no Macau Dome se votava para o Chefe do Executivo, e o resultado da moção nº 2 no primeiro minuto dia 2 de Setembro, hoje, após Chui Sai On ter tomado posse.

E assim o referendo civil foi em frente, Chui Sai On foi eleito, os resultados do referendo foram divulgados, conforme o plano inicial, e o IV Chefe do Executivo tomou posse. O mundo não acabou, e não morreu ninguém, pelo menos por causa do referendo civil - mas podia ter morrido, e o mundo não ficou melhor, nem pior, antes pelo contrário. Tudo o que se passou no período que antecedeu o referendo civil, e especialmente a sucessão de eventos com início no dia 24 envergonham qualquer amante da liberdade ou pessoa com o mínimo de bom senso. Infelizmente em Macau existe uma grande falta de bom senso, e de respeito pela liberdade alheia, e até de quem se orgulha de ter cultura democrática a apregoa a viva voz a sorte que temos de benificiar de vantagens inerentes ao segundo sistema, que não existem no primeiro. Portanto a ideia é que para começar deviamos acordar todos os dias felizes por estar vivos, e já vamos cheios de sorte. Mas falemos disso daqui a pouco, pois existem três aspectos que gostava de deixar bem claros: nunca me coloquei a favor da realização do referendo ou dos seus organizadores; o resultado do referendo não era veiculativo, e mesmo que fosse nunca mudaria nada; e Macau demonstrou ter muito que aprender em muitos aspectos, com o respeito pelo primado da lei à cabeça, sendo essa a lição nº 1. Senão...

Sobre o primeiro aspecto, que para mim é o mais importante, considero que este tipo de questão deve ser resolvida "inter-pares", e sem a participação de uma fatia insignificante da sociedade civil, o que mesmo assim já foi o suficiente para lançar um caos e gerar uma quantidade de equívocos que poderiam facilmente ter sido evitados. Um passo deste tamanho, bem maior que a perna, não pode ficar somente nas mãos de um grupo de "carolas", que à revelia do Governo e da esmagadora maioria da população desafiou o sistema e o próprio regime, dando a sua opinião, nada mais do que isso. A demonização de uma iniciativa que devia partir da classe política fica mal a essa classe, e pouco importa em que circunstâncias nos encontramos, ou sob que constituição funcionam as nossas instituições, isto devia ser resolvido a bem. E agora deixando de lado a quimera, vamos ao essencial: nunca existirá sufrágio universal. Qualquer pessoa bem informada sabe que isso nunca será possível, pois sendo Macau, tal como Hong Kong, uma região administrativa especial da China, onde vigora um sistema unipartidário e totalitarista, não há lugar a estas veleidades, e nem interessa aqui abordar os motivos, algo que já fiz inúmeras vezes noutras ocasiões. Mesmo hoje, dia 2, tivemos do Governo Central esse sinal, pois em Hong Kong, onde estas questões são levadas a sério, tivemos um alto dirigente vindo de propósito dizer aos honconguenses que desistam dessa ideia, pelo menos para já. Na RAEHK, onde a consciência e o debate político se encontram num patamar muito superior a Macau, o que dizer da pretensão do sector democrata deste lado?

Dizer que "a população de Macau não está preparada para o sufrágio universal" soa a uma daquelas desculpas normalmente usadas pela classe política dominante para se manter no poder, passando à população um atestado de inaptidão, de incapacidade de escolher os seus próprios representantes. E de facto ambas as coisas são completamente verdade: nem a população está preparada, nem os dirigentes lhe dão o crédito devido. E reparem, "devido", pois se há uma coisa que estes governantes, que no fundo não são mais que uma mera elite de comerciantes de segunda e terceira geração devem a esta população é o crédito que lhes foram negando, afastando-os dos centros de decisão em nome da perpetuação do poder, que é exercido basicamente por meia dúzia de famílias e o seu restrito círculo de "sócios", nem todos com origem no território. Se a ideia era formar uma empresa com capitais privados, onde não se escuta a população, realizam-se eleições para dar uma cobertura "democrática" a uma oligarquia praticamente impenetrável, onde antes de se olhar o currículo ou testar as capacidades individuais, olha-se ao "background" familiar e privilegia-se a "confiança" - aqui "confiança" é um termo que encontra paralelo na máfia italiana. É a capacidade de manter a "cosanostra" entre "la famiglia". Para o efeito incute-se na população o medo da política, dando a entender que alguém que procure participar na sociedade com ideias novas, diferentes ou que vão numa direcção oposta às "tradicionais" (bafientas, arcaicas e cada vez menos eficazes) está em "oposição ao regime", e é "subversivo". Quem é demasiado "vivo" para cair nessa esparrela, pode ser sempre comprado, ou não. Quem não se vende, passa para o lado da luta.

E é aqui que entra a educação cívica, que por muito que vá aparecendo uma vez ou outra nos discursos oficiais, não existe, e chega mesmo a ser desencorajada. O trabalho de base para quem quer uma população participativa e consciente dos seus direitos - o que aqui não é o caso - é nas escolas, a começar no ensino primário e a terminar nas universidades. O ensino corrente é dominado pelas associações chinesas e pela Igreja, onde, naturalmente, não se encoraja o pensamento livre na sua plenitude. Nos primeiros dá-se primazia à obediência, e nos segundos existe um pudor que acaba por criar inibições dirimentes da participação plena na vida pública. Em comum existe o respeito pelas hierarquias, e da mesma forma que num dos seus discursos mais célebres, Chui Sai On referiu a importância da formação dos tais "talentos". Ora deixemos de lado o significado de "talentos", que na língua chinesa adquire outro sentido. Como é que vamos conseguir "talentos" se não os estimularmos, se não os obrigamos a pensar pela própria cabeça, e especialmente se lhes ensinamos que não se devem desviar das directivas estabelecidas? Desta forma tudo o que nos resta é geração atrás de geração de gente submissa, atada e permissiva, que não inventa porque não sabe, e como não sabe, às vezes inventa sai tudo mal.

A questão do referendo civil, mesmo atendendo à sua ineficácia no sentido de mudar seja o que for, serviu pelo menos para expôr algumas das fragilidades do sistema. Note-se como reagiram as pessoas que supostamente são os mais aptos, os mais inteligentes, competentes, respeitados, com uma linhagem distinta: como uma cambada de patetas, e nem os "futuros dirigentes", gente nova e supostamente bem preparada para os desafios que Macau vai enfrentar nos próximos anos escaparam. Mostraram não ser capazes de reagir a uma adversidade que os colocaria em xeque com aqueles a que prestam contas, bem como aos que um dia disseram para não se preocupar com estas coisas da política. E esta palavra é praticamente tabú por aqui; economia soa ao barulho das notas a serem contadas, enquanto "política" é associada aos piores horrores, à dissidência, à subversão, às prisões e aos manicómios, e no fundo da lama há aqueles que ainda dão graças aos que se encarregam deste "trabalho sujo", e se calhar ainda pensam que é "por favor". Esta é uma concepção bem realista que nós, ocidentais, nunca conseguimos aceitar: a maioria não quer conversa, e muito menos se essa conversa os afastar do que para eles é o essencial: a obtenção de riqueza. E por "riqueza" não pensem que estou a dizer que os chineses são avarentos, gananciosos, mesquinhos, e alguns são de facto. A "riqueza" que aqui falo é a própria sobrevivência, a capacidade de ler algo que a História ensinou a este povo. Reparem como os chineses dão tanta importância aos metais e pedras preciosas, ao ouro e ao jade, e porquê? Porque são coisas que podem levar sempre consigo, ao contrário das casas, ou as contas bancárias, que não é algo que se guarda na gaveta da cómoda ou no frasco das bolachas. Fica mais fácil de entender se pensarmos que a China tem 5000 anos de história, está unificada apenas há 60, e tem pouco mais de 20 anos desde que se encontra num período de relativa paz e prosperidade. Torna-se imperativo que se mantenha a estabilidade, mas isso não impede que haja progresso e evolução - até ajuda. Evolução constante oposta a constante revolução.

Acontece sempre, mais cedo ou mais tarde, que dois estúpidos - um estúpido e uma estúpida - se encontrem, e que se amem estupidamente, e que eventualmente tenham uma quantidade de pequenos estúpidozinhos, que mesmo assim são menos estúpidos que os seus ascendentes, e mais estúpidos que os seus filhos, que produziram com a cumplicidade de outro menos estúpido (mas mesmo assim ainda estúpido) que ele. E chegamos ao dia em que, fartos de tanta estupidez, os que sempre foram chamados de estúpidos começam a questionar os auto-intitulados inteligentes, e exigem saber "coisas" que os tornem ainda menos estúpidos - só para que sejam menos estúpidos, porque lhes fica mal. O auto-intitulado inteligente recusa-se a cooperar, com o argumento de que o tipo que está ali à sua frente é demasiado estúpido para entender certas "coisas", mas o estúpido que não é assim tão estúpido responde-lhe "estúpido és tu". E é mesmo, pois aquele que chamavam de estúpido descobriu que algum estúpido pensou que tomando-o por estúpido, não seria necessário explicar "certas coisas" que no fundo até ele próprio não entendia, porque o estúpido era ele. Eu sei que isto é estúpido, mas que não percebe onde eu quero chegar é ainda mais estúpido.

A questão nunca é pensar que se incapaz de lá chegar, mas sim QUEM nos anda a meter obstáculos no caminho. O caso do "referendo civil", que acabou por se realizar e produziu os efeitos desejados, com Jason Chao a apresentar uma sondagem que demonstrou que quase 8000 dos participantes não tinham confiança no Chefe do Executivo que havia sido eleito por 380 membros de um Colégio Eleitoral que só tinha duas escolhas: um candidato ou votar em branco. Assim que o referendo foi anunciado (e trata-se de um "copycat" de uma iniciativa realizada entre 20 e 29 de Junho em Hong Kong) o Governo lançou as mãos à cabeça, como se tivesse visto uma assombração, e só quando voltou a si pensou por uns dias e avançou com a tese de que era um acto "ilegal". Ilegal? Então vai ser fácil impedi-lo, quer dizer, um Governo que tem autoridade para rebocar um carro mal estacionado, pode muito bem impedir a realização de um acto deste tipo, basta aplicar a lei. Mas oops, esperem lá, a lei? Parece que aqui temos os inteligentes, os chico-espertos e os que nos tomam por estúpidos - e não são os inteligentes. No fim de tudo isto só tive pena que nunca nos tivessem explicado a nós, pobres diabos a quem enfiaram a saca de batatas do estúpido, qual seriam as consequências do referendo a outro nível. E se em vez de 8000 a participar tivessem sido 20 mil, ou 50 mil? Acho que ia haver alguém que passaria por estúpido para lá dos limites da estupidez.

E se por um lado fiquei com pena, por outro lado fiquei triste, e como tenho muitos "lados", outro ainda ficou meio desconfiado, quase zangado. Depois de se andar a brincar às interpretações livres das leis, insultuosas a quem sabe pelo menos para que servem as leis para impedir o referendo, acabaram por não conseguir deter Jason Chao y sus muchachos - nem convencer os pobres estúpidos que somos de que realmente o referendo era ilegal eles conseguiram. Ora bolas, a quem é que vamos agora confiar a aplicação da lei? Pior que isso foi terem andado a perseguir miúdos, alguns deles que nem barba têm e ainda devem dormir com a luz acesa, enfiá-los na cadeia por tudo e mais alguma coisa (numa celeridade espantosa comparada com outras "ilegalidades" mais evidentes) e ainda nos darem a entender que iria haver uma caça às bruxas. Sim, pois se Jason Chao foi pessoalmente garantir que os dados pessoais dos participantes eram destruídos, e a polícia andou atrás desses dados como se não houvesse amanhã, não me resta senão concluir que não era para devolver os tais 15 números do BIR que os "malvados" dos democratas "roubaram". O que é que eu queria fazer mesmo? Ah sim, já sei: agradecer. Obrigado, Jason Chao.

E já que estou a agradecer a Jason Chao, aproveito ainda para lhe pedir desculpa, não por lhe ter feito qualquer mal, mas por pertencer a uma comunidade, ou nacionalidade, se quiserem, que apesar de se considerar muito democrática e defensora dos princípios das liberdades de expressão, manifestação, associação e outras, comportou-se como aquilo que nós chamamos ironicamente de "pidezinhos". Sim, porque mesmo os que estavam fartos de saber desde o início que não existia legalidade nenhuma, assobiaram para o lado e assistiram calados à subversão do segundo sistema, e agora com que cara vão andar por aí a defender a legalidade, ai que isto não pode ser, e aquela universidade não presta, apesar de cumprir os requisitos exigidos na função específica para que é destinado o curso que se rejeita por ser "mais próximo do primeiro sistema". E olha aí o primeiro sistema a deixar-nos um cocó na testa, e ninguém diz nada. Se não existindo ilegalidade existia outro mal maior, podiam-nos ter dito, e a gente entendia; coisas como "não podem porque não" ou ainda como foi dado a entender por alguns elementos mais sôfregos da elite "não façam isso que nos tramam" não aquecem nem arrefecem a quem não tem nada a temer. A China queria impedir o referendo? Pode ser, mas encarregou as pessoas erradas de o fazer, aparentemente.

Não tenho nada contra o primeiro nem contra o segundo sistema. Nada contra Chui Sai On, a quem não dei os parabéns pela vitória nas eleições de Domingo porque já houve quem o fizesse, indiferente a qualquer exposição ao ridículo, e nada contra as autoridades, que cumpriam ordens, e se quisermos ficar por aí tudo bem, ficamos. Pouco importa que Jason Chao tenha dito hoje que contactou agentes que lhe confessaram ter participado no referendo. Aposto até que muito boa gente que discordava do referendo participou nele, nem que por mera curiosidade. Ou quem sabe, indiferente às vozes que sugeriam que a única opção era votar no "sim" ao sufrágio universal, foram lá votar no "não", e ficar bem com a sua consciência, pois acham que a população não está preparada para dar esse passo - e mostrou que realmente não está. Não vou cometer a baixeza de sugerir que o referendo saíu caro a alguém que se fartou de desdenhar e especular sobre a fidelidade dos números da participação, e que gastou 388 cartões de telefone para expressar o seu apoio incondicional ao novo Chefe do Executivo.

O vencedor somos todos nós, no fundo, mas o rosto do triunfo é este, o de Jason Chao, que vos tentaram fazer crer ser um indivíduo perigoso, um assassino, um terrorista, e para os parâmetros locais, pior do que isso tudo junto a multiplicar por 100 com "chantilly" e uma cereja em cima, um "inimigo do regime". Perigosos seria se em vez de oito mil opiniões nas mãos dos democratas tivessem oito mil números do BIR nas mãos sabe-se lá  de quem. Cuidado com aquilo que vos impingem; conhecem a anedota do "pica-miolos"? Aquela em um naufrágo que está há meses numa ilha deserta recebe a chegada de outra com o mesmo azar, e consegue convencê-lo de que existe um pássaro na ilha conhecido por "pica-miolos", e que ele devia enterrar imediatamente a cabeça na areia, com o rabo espetado para cima? E olha que há por aí muito boa gente que ia sofrer, pois até o "pássaro" lhe encontrar quaisquer vestígios de miolos...

A lebre disse "miau"



Vejam lá vocês que de tanto bater na Agnes Lam ontem e hoje, veio a ambulância buscá-la e tudo. Que diabo, acho que devia estar agradecido à Assembleia Legislativa e à sua composição maioritariamente clientelista por continuar sem legislar contra crimes como a violência doméstica ou contra os animais. Seja qual for, aquilo que os mais sensatos chamam de inércia e irresponsabilidade desta vez deu imenso jeito. Viva a Idade da Pedra!

Posto isto não sei o que acrescentar mais ao que disse nos dois artigos anteriores, a não ser que de facto há quem pense que na vida pública tudo se resume à dialéctica do "ou és por mim ou és contra mim" - talvez por causa das inúmeras evidências apontando nesse sentido, e do respeitável número de cidadãos que ficaram inteirados desta crua realidade da pior forma possível. Há outros ainda a quem não chega demonstrar que se está por alguém, talvez por eles próprios não terem a certeza dessa convicção, mas para quem ninguém desconfie, fazem questão de demonstrar amiúde que estão também contra o outro lado, mesmo quando daí chegam tentativas de se chegar a um "debate saudável e encorajador", e para tal até se oferecem três alternativas: sim, não e abstém-se.

Este tudo ou nada, este maoismo do "os inimigos dos nossos inimigos nossos amigos são" é um conceito que não está ao alcance de quem é "recém-chegado à vida pública", ou a qualquer outra vida em Macau, para esse efeito. Demora-se anos a levar a água mole à pedra dura até se descobrir que afinal não fura. Quem disse que o nosso léxico proverbial era infalível? Nem as leis são infalíveis, aparentemente, antes pelo contrário. Mas para quem acabou de perder a "virgindade" e "chegou agora à vida pública" (o que é isto, vida pública? é por oposição à vida privada, oh oh oh), ou melhor ainda, quem chegou de fora apenas há pouco tempo, deixem-me dizer-vos que também por estas bandas só os gatos dizem "miau" - as lebres, e apesar de se ter tentado interpretar legislação nesse sentido, ainda não miam.

Quanto à pertinência de mais este fabuloso artigo do nosso mui estimado e sempre atento director do JTM, não consigo entender; escrito em português vem-nos dizer o que há muito alguns de nós já sabia, e que outros aprenderam através do erro. Podia-se traduzir para chinês, mas a população local nem precisa que lhe digamos nada, pois já tinham tirado a pinta à personagem, quando por eles passou e a lufada não foi bem de "ar fresco". Pode talvez tentar vender a mercadoria na zona norte da cidade, onde a sua "protegée" obteve resultados eleitorais muito próximos dos redondos 0%, mas vai precisar de alguma sorte, não sendo ela natural de Jiangmen ou de Fujian. E veja lá se deixa bem claro que o nome da menina é Agnes e não "Epifânia", é que a Lei Básica não prevê uma "epifânia", e por isso é "ilegal". Mas é esse espírito, homem, não da lei, mas o outro, o imaterial. É preciso nunca desistir. Abraço.

Agnes e o "limbo"



Confesso que aguardava com expectativa a entrevista de Agnes Lam ao Jornal Tribuna de Macau, publicada hoje, e vou adiantando que não era para "dizer mal". Pelo contrário, tentei o máximo possível lê-la sem ter em conta que ali estava uma pessoa que diz ser o que não é, ou que reclama para si um espaço que já está mais que preenchido por alguém melhor que ela, ou que simplesmente não existe. O problema com Agnes Lam, como eu o entendo, é querer "sentar-se na cerca", ou seja, ocupar um espaço divisório entre o apoio incondicional ao Governo e a "crítica moderada", e porque não chamá-lo apenas de "crítica", uma vez que, como já referi, não existem níveis de crítica: ou se está a favor, ou se está contra, ou guardam-se as opiniões na gavetinha entre o nariz e o queixo. Não quero dizer exactamente que exista um narcisismo, ou até certo ponto um autismo, que leva a que alguém considere ter razão mesmo quando sabe que está errado, mas o Governo, desde sempre (até nos tempos da administração portuguesa) recebe mal as críticas. Mesmo da própria administração e entre os quadros médios e baixos se verifica esta realidade. Por mais diplomático que se seja, ou mais oportuno, as hierarquias padecem daquilo a que chamei no artigo do Hoje Macau de 14 de Agosto último uma "rigidez cadavérica". A crítica não é bem vinda, a sugestão terá que ser sempre atendendo ao periférico e nunca ao objectivo, e nunca, mas nunca alguém se deve atrever a dizer "eu penso". Nem imaginam a quantidade de "talentos" que ficaram desperdiçados por terem juntado estas duas palavras, e a que eu assisti pessoalmente. Portanto, Agnes Lam, como muitos de nós "fantasia", não pertence a esse lugar, que não passa apenas de uma utopia, de um limbo. Mais cedo ou mais tarde teria que escolher entre o Céu e o Inferno, e só os mais distraídos não notaram que essa escolha já há muito que foi feita: com aquela cara de anjinho, só podia ter escolhido o Céu.

E o conteúdo desta entrevista, de que prefiro falar já para a tirar do caminho e falar de coisas mais importantes, não muda quase nada daquilo que já se sabia de Agnes Lam, e ainda vem piorar um pouco. Não acredito nem nunca acreditei que Agnes Lam deseje o sufrágio universal; quer dizer, pode ser que não se importe, mas isso é o que eu penso, também, mas não lhe dava lá muito jeito, pois talvez do resultado não saisse o que ela estava à espera, e quem sabe se o vencedor não teria a sua própria "Agnes Lam" de mesa de cabeceira. E onde é que ela viu uma "campanha diferente e inovadora" da parte de Chui Sai On? Nem foi preciso um "estudo" ou uma "pesquisa" para perceber que o CE demonstrava pouco à vontade no face-a-face com o cidadão comum, indo Vong Hin Fai à frente ver quem batia à porta, qual mordomo, e evidenciava um desfazamento da realidade, ao deixar escapar um desabafo de espanto pela multidão que estava nas ruas. E o que é isto das "indústrias culturais", que é para Agnes Lam "a área onde o Chefe do Executivo vai querer deixar uma 'marca'". Lembrei-me de uma piada para fazer com isto, mas depois não estaria a ser sério, portanto opto por outra mais "light": se é essa a área onde Chui Sai On quer deixar uma "marca", óptimo. Teatro, por exemplo, não existe um grupo de teatro ou uma companhia de "ballet" em Macau, como existe uma orquestra. Pode ser que se sairmos duas horas antes de casa e o trânsito assim permitir, consigamos chegar ao teatro, e ficar lá a dormir, também, uma vez que pelo caminho que o preço da habitação leva, qualquer dia arrendar uma casa só pagando o "dízimo" - e dividir um apartamento com outros nove. Convém comprar os bilhetes com antecedência, contudo, e eu diria uma antecedência de três meses - na fila, e quantos mais familiares tiver para se revesarem no lugar, melhor. Só mais uma coisinha: está doente? Vá à Opera! Não se apostando para ontem na construção de mais um hospital público, pelo menos na ópera os gritos lacinantes de dor confundem-se com a "performance" do tenor, e no fim em vez de anestesia, leva palmas. A este ponto gostaria de dizer que Agnes Lam teria dado sinais de uma visão mais alargada das coisas se sugerisse mais terrenos não para habitação económica, mas para cemitérios. Mas uma vez que tudo indica que se vai avançar com um crematório em Coloane, ela deve ser apoiante da ideia.

Passando à análise política, ficam evidentes as duas maiores falhas de Agnes Lam, sendo uma a consequência da outra: 1) não pode falar daquilo que lhe apetece e tem que ter cuidado com o que diz, e por isso 2) só fala do que toda a gente sabe, e apresenta propostas (se lhes quisermos chamar assim) ora já dissecadas, ora sem qualquer impacto ou efeito real. A questão da reforma política, ou se quisermos, a democratização anunciada desde que o I Executivo tomou posse, está já tão batida que por causa disso mesmo começou a causar problemas, e foi o que se viu nestes últimos meses. Claro que Agnes Lam diz que é "difícil" (todos os políticos, ou no caso dela aspirantes a políticos o dizem, pois se dissessem que era fácil estavam a sugerir que qualquer pessoa o podia fazer), e que aqui ao lado em Hong Kong blá blá blá, e sim, quem tem televisor em casa ou lê jornais também percebeu que blá blá blá, a seguir "critica" o Executivo por "não avançar com um calendário para o sufrágio universal", e depois tira a peruca e mostra a careca: "...o primeiro [passo] passa pela recolha de opiniões e de informação na sociedade e isto está ao alcance do Governo de Macau fazer. Porque não o faz? Porque não aponta para 2015 ou 2016 fazer essa recolha de informação e articular o processo com o Governo Central. Havia muitas maneiras de mostrar às pessoas que está a fazer algo, mas não o fez, está simplesmente a adoptar uma postura passiva". Ah ah ah! Ah ah ah! Era para rir? O Governo de Macau está a fazer exactamente o que tem que fazer, que diabo. O mais interessante é que Agnes Lam, em nome de uma posição que não defende (porque sabe que não dá para defender) mas que lhe fica "a matar", atira-nos areia para os olhos. Não pensem que calendarizações, articulação com o Governo Central, todos sentados numa mesa com bandeirinhas à volta e a beber cházinho vai levar a qualquer consenso - isso foi antes da transferência de soberania, que era algo que interessava à China resolver. Agora, resolvida que ficou essa questão, eles dão-nos um "segundo sistema", pegar ou largar, mas não exijam demasiado. E do que vale "caminhar progressivamente no caminho do sufrágio universal"? E se Macau chegar lá em, digamos, 2023, e o regime chinês se mantém igual até 2049? Pronto, quatro ou cinco eleições dessas, sempre com candidatos aprovados previamente por Pequim, e quando se esgotar o prazo de validade, kaputz, acabou-se a festa. Vai ser tão bom, não foi?

E é aí que entra o papo-furado que celebrizou Agnes Lam. Celebrizou salvo seja, talvez porque eu costumo escutá-la pouco depois das refeições, não me andam a apetecer as suas papas e bolos, mesmo sendo eu um tolo (somos todos um pouco, afinal). Sobre o referendo civil - e aí claro que o JTM pegou no essencial e escarrapachou na capa da edição de hoje do jornal - Agnes Lam diz que "foi eficaz em chamar a atenção para a questão do sufrágio universal". Nãããoooo!!! Era isso que eles queriam, afinal? E que andaram a ser presos e tudo, em nome dessa causa? Só isso? Ora bolas. Mas, acrescenta a "sôtora", sempre cheia de certezas absolutas, "o referendo não foi uma forma eficaz de se chegar ao sufrágio universal". Não foi? Porra...e eu votei no "Não" para nada? Bastava ter ficado quieto para que em 2019 as eleições para Chefe do Executivo não fossem ganhas pelo Capitão Pataca, bastando investir 200 paus à cabeça em 100 mil velhas dementes, domésticas e sopeiras, putos da cola e outros analfabetos para conseguir vencer? A culpa é vossa, pá, pois da primeira vez que Agnes Lam concorreu à Assembleia Legislativa, o seu programa "propunha a revisão da Lei Básica com o objectivo de concretizar a reforma política". E pronto, agora está explicado porquê. Tivessem votado na Agnes Lam em 2009, e a esta hora éramos uma cidade-estado como Singapura, e ninguém se queixava dos táxis. Mas esqueçam lá isso do referendo, e da porrada que tivemos durante a semana em que se realizou. Para ela isto foi uma guerrilha entre "pró-referendo" e "anti-referendo" - como a questão do aborto, mas aplicada aos referendos. Com isso "não se está a discutir a democracia ou a reforma política mas sim a Lei de Protecção de Dados", e a forma como o Governo lidou com o assunto "foi terrível", algo que se pode dizer, pois o próprio Governo sabe que é verdade. Mas "mou man tai", pois a população "desperta agora" para "uma maior consciência civil", uhh...civil, cívico, civeta, as palavras favoritas da menina. É preciso votar nela e já, para que vá educar esta gente que não tem a sorte de ser tão inteligente e bem formada como ela.

Vamos perceber o contexto do aparecimento de Agnes Lam. Licenciada em comunicação social. "Check". Fez uma curta carreira na TDM, no canal chinês. "Check". A sua "perspicácia" e "sentido de oportunidade" valeram-lhe um lugar de académica na Universidade de Macau. "Check". O seu empenho nessa posição durante o período final da administração portuguesa e o início da RAEM levaram-na à chefia do departamento, merecidamente. "Check". Durante os anos das "vacas gordas" do Executivo de Edmund Ho foi organizando conferências, debates, mesas redondas, quadradas, triangulares e haxagonais, mandando uns "bitaites" na imprensa, ainda que discretamente, foi-se dando a conhecer a um público mais vasto. "Check". Começaram a surgir os primeiros "furos" na embarcação, Edmund Ho aproximava-se do final do segundo mandato, iam-se realizar eleições para a AL dois meses antes da eleição do III Executivo, e Agnes Lam achou uma boa altura para dar o "salto", e fazer chegar a sua voz até ao hemiciclo. Agora isto é que não "check" mesmo nada. Que voz era esta, a de Agnes Lam? Dizia-se "não alinhada" com o Executivo, independente, e ao mesmo tempo sem a pesada carga do campo da pró-democracia, então ocupado pelo Novo Macau de Ng Kwok Cheong e Au Kam San - qualquer coisa intermédia, portanto. Por "intermédios" entendo a uma entremeada com batatas fritas e salada, com sangria para empurrar e um semi-frio para a sobremesa, e para o café não enjoar muito, pede-se "con panna". Em política, em Macau, e ainda para mais na UMAC, nem pensar, não existe. "No such thing".

Sejamos realistas: iria o Governo Central ignorar a Universidade de Macau, o centro por excelência da formação dos quadros locais, e deixá-la "à vontade", escrevendo poesia e recitando teses da metafísica ao vento? Nunca, jamais, "never". Já existe um controlo instalado na UMAC mesmo antes de eu ter chegado, em 1993, e durante a minha curta "frequência" no ano seguinte, notei uma respeitável quantidade de departamentos e um número excessivo de académicos do "outro sistema" que iam preparando a entrada no tal "segundo sistema". Não que isso me incomodasse, ou que me incomode, e poderia ter sido antes, depois e agora, pois quem precisa de ficar atento a estas situações é Agnes Lam e restante pessoal docente, onde se incluía Bill Chou, que foi o "teste de fogo" da "isenção" de Agnes Lam. É uma "voz crítica", como diz o director do JTM José Rocha Dinis? Esse foi o grande "xarope" que a levou a candidatar-se à AL pela primeira vez em 2009. Podia nem fazê-lo, pois rumores que apontam para a sua proximidade de elementos do Conselho do Executivo, e outras ligações "continentais" (é directora-benemérita de uma escola na China, aparentemente) podiam-lhe bem valer um lugar como deputada nomeada. Acontece que para Agnes Lam a popularidade é importante para validar a sua posição - nobre, contudo fútil. Apareceu logo quem entendesse isto como uma tentativa de roubar votos aos democratas - vendo bem talvez fosse essa a intenção, mas atendendo a que os resultados de Agnes Lam nesse ano e quatro anos depois foram idênticos, e o Novo Macau obteve em 2009 o melhor resultado de sempre, e em 2013 o pior desde a criação da RAEM, percebe-se que os votos da académica vinham de outro sítio onde os democratas normalmente não os "pescavam". E de onde vinham eles?

Muitos livres-pensadores, artistas, artolas, desde os que no absinto dão aos que não, desde a imprensa livre ao "prostestar, Deus me livre!", e muitos, muitos portugueses, coitados, que olham para o mundo amarelo com olhos redondos, e acreditam na fada-madrinha, no Pai Natal, e na condescendência dos elementos do Conselho do Executivo e da Assembleia Nacional Popular que compõem o Conselho da Universidade, onde estão inclusivamente empresários, alguns com ligações às concessionárias de jogo, mesmo as estrangeiras. Pensais que são todos os que mandam na Universidade gente letrada e inteligente? Eu diria que são antes gente intelegentí$$ima. Ah pois, eles deixavam ali a menina à vontade a dizer o que quisesse, a criticar quem lhe paga o vencimento no final do mês, o orçamento do "observatório cívico" onde através de um telescópio encontrou um dia um novo planeta, o "Classe Média", e cujas elaboradas pesquisas levam-na a conclusões pífias a que todos já chegaram antes dela: "era bom haver mais do que um candidato a Chefe do Executivo", "o Chefe tem que ser mais interventivo e escutar a população", "não existe uma comunicação eficaz entre o Executivo e as secretarias, direcções e departamentos governamentais", "é preciso investir mais na educação", e a melhor de todas, que se repete nesta entrevista ao JTM: "não é com o conflito que se chega à democracia". Concordo plenamente, amiga, mas então, como é se chega lá? Agnes Lam não sabe, nem lhe interessa saber, pois o seu trabalho é "inquirir", "pesquisar", "analisar", "comentar", "sondar", "consultar", "investigar" e todo o resto que não seja "criticar", "questionar" ou "discordar", pior que isso "contestar", e nunca lhe passou pela cabeça essa tarefa épica que é "resolver", e mesmo na questão do "propôr" se mostra um pouco amorfa. Ainda perguntam porque é que a "comunicadora" da UMAC assobiu para o lado no caso Bill Chou ou no incidente durante a cerimónia de graduação? Estava "ocupada", tinha "muito trabalho administrativo em mãos". Parva é que ela não é - nem eu e muitos outros. Ela gostava que eu fossemos, enfim, paciência não se pode ter tudo.

Os tais idealistas que apoiaram Agnes Lam, entre eles alguns portugueses, e ainda entre esses os que não simpatizam muito com este governo mas não querem misturas com os activistas porque precisam do emprego e borram-se de medo com a perspectiva de passar uma noite na esquadra, pensam se calhar que estão em Portugal, onde quem se coloca mesmo numa situação de extrema oposição ao Governo não só não arranja chatices como ainda o aturam. Estes viram em Agnes Lam a tal "voz crítica", mas que ao mesmo tempo rejeita a via do activismo e "tem a chave da porta dos fundos" de acesso ao Governo. Se foram enganados, foi porque se deixaram enganar, ou talvez fosse apenas um pouco de ingenuidade vossa; ia Agnes Lam deitar fora anos e anos de "progressão na carreira" para ir lá dizer o que vocês pensam ou pedir o que vocês querem? Nesse aspecto Pereira Coutinho ganha aos pontos; é capaz de bater o pé ao Governo num dia, e apertar-lhe a mão no outro - desde que lhe dêm o que ele quer, ou que pelo menos se chegue a um compromisso. Com que então deixaram-se seduzir por uma aproximação teórica à acção governativa, e pensam que o sistema vai acolher alguém que questione a sério as directivas que são emanadas, quer por eles (poucas), quer pelo Governo Central através do Conselho do Executivo (a maioria, e nos últimos 5 anos quase todas)? Ela ia lá para o hemiciclo apresentar as suas pesquisas e os resultados dos seus estudos para quê, para o Fong Chi Keong ou o Chan Chak Mo baterem palmas? E qual é realmente o objectivo do seu trabalho de investigação, afinal? Estatísticas, gráficos, tabelas, etc., nunca viram, foi? Não foram à escola? Apoiando abertamente Agnes Lam estão a distanciar-se de um apoio incondicional à nomenclatura, bem como a repudiar a estratégia dos democratas - e ambos lêem logos essas intenções e fecham a porta a uma eventual mudança de posição. Resta-vos juntarem-se a Pereira Coutinho, que aceita qualquer um, desde que lhe valha mais um voto. Ou podem fazer como eu, que se está nas tintas. Mas divirto-me sim, a assistir aos "mísseis" que vão sendo disparados de um lado e do outro, e dos espartalhões que vão ficando no meio a levar com os estilhaços. Podem fazer como Agnes Lam, se quiserem, e sentarem-se na cerca, só que esta está electrificada, rodeada de arame farpado, e não se recomenda. E qual é a surpresa? Está lá escrito. Está escrito em toda a parte, e o pior cego é aquele que não quer ver. No fim ainda acabam no mesmo "limbo" que ela. Pelo menos ficam em boa companhia.


segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

A agenda de Agnes Lam (ou como me tornei "agnéstico")



如果連你自己也不站起來捍衛你的信念,沒有任何人會為你挺身而出。
Se não fores tu a lutar pelos teus sonhos, ninguém mais lutará.




Quando eu era (ainda mais) pequenina, já era assim, toda espevitadinha!

那時和香港院校對賽的辯論比賽,幾乎都在這裡舉行,漸漸的這地方會象徵著一種言論自由的氣氛。是的,一個小小的不起眼的半開放空間,曾經是最多論壇舉辦,言論最多元的地方,也是我從學生時代到教學生涯,演講最多的地方。

Lembro-me tão bem daquele auditório, onde da liga de democracia de Hong Kong se reunía, na Universidade de Macau. Era tão pequeno...mas o importante não é o tamanho, mas como se usa. E foi aí que eu comecei a abrir a boca, e...falei. Falei e nunca mais me calei até hoje.



Avó, antes de ir ao mercado, importa-se de comprar o meu peixe?

早晨,水上街市!

No mercado, molhadinha, molhadinha. Quem leva para a Assembleia Legislativa a carochinha?



Meus Deus...a pandinha morreu. Ainda bem que não fui eu!



1- Roco Ma (22/6): Você é professora da Universidade de Macau, deve ter estado lá ontem. Gostava de saber o que pensa do incidente.

2- Roco Ma (23/6): A Universidade deve ensinar os alunos a pensar de forma independente, e a abrir os seus horizontes. Agnes Lam, você usa o método científico, deve ter uma opinião sobre o assunto. Já agora queria dizer-lhe que votei em si.

3- Roco Ma (24/6): Vá lá, não deve ser tão difícil assim responder!

4- Agnes Lam (25/6, três dias depois): Roco Ma: eu não estava lá nesse dia; estava ocupada com trabalho administrativo, e não me posso pronunciar sem consultar as pessoas envolvidas, pois estaria a ser injusta.

5- Roco Ma: Mais vale tarde que nunca. Espero que se faça justiça. Obrigado.



Estou a rir...ou a chorar? Vou fazer uma pesquisa e depois digo. Mandem as vossas opiniões por e-mail.

捐Bra行動開始啦!各位一起來Free the girls吧!這是個幫助非洲少女的環境行動。 — at 印尼街.

Têm soutiens lá em casa que nunca tiveram coragem de usar e nem sabem o que estavam a pensar no dia em que os compraram? Doem-nos para África, para não vermos mais aquelas pretas na televisão com as mamas todas murchas e pinguças. Blergh!



日出東方,早晨!

Se o sol estiver a aparecer de leste, significa que é de manhã! Vejam só o que se aprende ao ser sofisticada e portátil, como eu.



雨下得像水墨。

Será a chuva que cai como tinta, ou a tinta que cai como chuva?



A velha pensa que eu sou um prato de arroz chau-chau ou quê?

我沒有不滿現狀到希望回到葡萄牙管治的歲月,可是,澳門以往那些小小的餐廳那種南歐人特有的熱情,在葡國再遇上,還是會令人懷念。

Aqui estou em Portugal, mas não é porque tenho saudades desses colonialistas asquerosos! Não, não! Vim comer bacalhau...costeletas de porco...participar de um curso em Coimbra...prometo que não me sento na sanita. Depois faço uma pesquisa, um estudo, um inquérito, e então apresento um relatório.



Sim, sr. Chefe do Executivo? Sou eu, não tenha medo. Claro, claro, olhe, é assim: eu e a minha equipa realizámos um estudo durante três meses, e chegámos à conclusão que devia gastar mais dinheiro na educação. Ai sim? Já sabia? Obrigado.



Eu bem queria parar de fazer esta cara de parva, mas não consigo. O momento é solene...

今天,我第一次有份在現場投票。我希望最快在2019年,所有澳門選民都可以一人一票選特首。可是,親歷過兩次立法會選舉,再觀察香港近年的政局以及澳門近日的亂局,坦白說,我覺得澳門政制要進一步民主化比想像的要艱難。

Querida classe média: olha para mim a votar para o Chefe do Executivo - foi a minha primeira vez. Eu tinha tanto medo, mas quando naquela urna tão estreita entrou um boletim ainda mais fino, sabia que tudo ia correr bem. Ai, quem me dera que em 2019 todos pudessem votar, vocês também, classe édia...foi tão agradável, mas é difícil. É difícil, classe média. Olho para o que se tem passado nos últimos anos em Hong Kong, e o que se passou recentemente em Macau...é muito difícil. E não me dá jeito - para quê, se eu já cheguei aqui? Não se esqueçam classe média: fui eu quem vos inventou.



O Observatório Cívico recomenda: obedeçam à polícia. Só se chega à "democracia" votando num candidato único aos 400 de cada vez.



"E quem temos na Universidade? Por exemplo, a Agnes Lam, e não me consta que a Agnes Lam se tenha queixado de ser perseguida. E no entanto, a Agnes Lam é uma voz crítica"

謝謝, 叔叔 ☺


Referendo Civil: resultados finais 民間公投表決結果


Welcome to (Future) Macau



Half-selfie™ , by Leocardo ®

Ontem fiquei puto da vida, e tal. Foi de cenas que ouvi e o camano. Fosga-se, anda um gajo a pensar que topa um manos e vaissaver népias - é xibo, o gimbra. Iatão taveu a ingrominar: cumé que vai ser a Macau tipo, daqui a uns, tipo, sei lá, daqui a uns sequeles, ou até depois disse, daqui a umas décadas! Ya, eu agora tou todo duhhh...duhhhh...Iaí ékeu mandei umas pics e cenas bué da malucas prauma página do Feice! A sério, vocês não iam acreditar, ya? Eu tava mesmo...ouve, ouve. Ya. Aqui ficam as cenas maradas, e curtam curtinho, defes!

O ELENCO GOVERNATIVO:



Chefe do Executivo



Os secretários-adjuntos



A Comissão Eleitoral



Assembleia Legislativa



O Procurador



Conselho Executivo



O Comissário Contra a Corrupção



Tribunal de última instância

LÍDERES RELIGIOSOS:



Diocese



Bonzo do Templo Kun Iam Tong

SECTOR LABORAL:



Associação Comercial



Funcionários Públicos



Trabalhadores não-residentes



"Talentos"

EQUIPAMENTO & INFRA-ESTRUTURAS:



Hospital Público



Metro Ligeiro



Biblioteca Central



Escola Pública



Jardim de Infância



Habitação económica



Mercado Municipal

ENTRETENIMENTO & CULTURA



Ruínas de S. Paulo



Largo do Senado



Casino



Indústrias criativas

Depilações



- Boa noite Leocardo, alegre conquistador, dotado povoador da Papua, abade de Pias...isto é ridículo, porque é que insiste que leiamos isto sempre que vem cá?

- Pela mesma razão que me têm que aturar todas as semanas.

- Ah...bom, eleição para o Chefe de Executivo, vocês esteve lá e viu.

- Vi, vi, vi...vi, vi, e ouvi! Ouvi, Rita Palha-Ribeiro Telles, e olhe...uh...eu mais ou menos a meio da votação, já tinha ouvido o nome de Chui Sai On 185 vezes, e...pensei: "Chui Sai On vai ganhar!". E não me enganei, Rita. Mais uma vez...não me enganei, pronto.

- Genial. Mas estava à espera que Chui Sai On fosse eleito com 380 votos?

- Olhe Rita, por acaso antes da eleição eu tinha dito que Chui Sai On ganharia aí com "uns 380 votos", um número ao calhas, e olhe, mesmo assim acertei!

- Contaram-me foi que você murmurou "ummtrexantesiseixanosputos", ou algo do género.

- Penso que fui bem claro, Rita Tavares-Telles. Penso que fui bem claro.

- Muito bem, mas esperavam-se mais abstenções, e que faltassem mais elementos do colégio eleitoral...

- Pois é mas olhe, houve 13 votos em branco, o que demonstra bem que a democracia está viva em Macau, que mexe, existe a alternativa, e....olhe, três votos nulos, que é bom, pois as pessoas começam a aprender a meter uma cruz à frente do único nome que está no boletim. E quanto aos que faltaram, olhe, só três pessoas e um Coutinho, o que prova que a eleição é importante, Rita. As pessoas não foram de férias para votar no Chefe do Executivo.

- Que maravilha, veja só que sacrifício. Bem, e como vai ser o segundo mandato de Chui Sai On, Leocardo?

- Trabalhar, Rita, trabalhar. Há muita coisa para fazer. Vá, trabalhar, tudo a trabalhar. Trabalhar, e depois quando acabar de trabalhar, há trabalho para fazer. Toca a trabalhar!

- Pronto, já entendi. E o que espera de Chui Sai On para os próximos cinco anos?

- Eu acho que ele vai fazer qualquer coisa.

- ...

- Sim, posso ajudar?

- Alguma coisa, o quê?

- Bom, ó Rita Palha-Ribeiro Telles, Macau tem pela frente muitos desafios. É preciso trabalhar, trabalhar e trabalhar. Muitos desafios.

- Quais desafios, por exemplo?

- Tantos, sei lá, por exemplo...hmmm...tivemos o Benfica-Lam Pak, na semana passada, e o Sporting de Macau-FC Porto de Macau no fim-de-semana, e até a Bolinha acabar ainda falta um mês.

- Pois...e...secretários? Avançaram-se alguns nomes...Cheong Kuok Vá, e...

- Eu é que disse! Eu é que disse! Fui primeiro! Eu! Eu! Eu!

- Pronto, OK, calma. E acha que ele vai continuar?

- Sim, Rita, porque veja: aquela Secretaria para a Segurança combina elementos militarizados e da sociedade civil, e só Cheong Kuok Vá tem a capacidade de impedir que eles se matem uns aos outros. É uma Secretaria complicada.

- Posto assim, deve ser. Cheong U...

- Conheço.

- Eu sei que conhece, mas o que acha?

- Ah ele já lá estava, por isso se continuar é bom, porque a esse já sei dar a volta. Mas é preciso trabalhar, trabalhar! Muitos desafios!

- A saúde está mal...

- Não, Rita, por acaso não. O último "ketchup" que fiz em Ban-gue-co-que diz que estava tudo bem, tirando os bicos de papagaio, mas isso é normal para a idade, e aquelas vozes que às vezes oiço na minha cabeça que dizem que sou o mais inteligente e o mais bonito afinal não eram efeitos da demência, mas sim pessoas, pessoas verdadeiras de carne e osso que me diziam.

- Fico feliz em saber. Ahem. Outros nomes adiantados são Ho Veng On, André Cheong, Alexis Tam...comenta estes nomes?

- É assim, Rita, é assim...é assim...é assim...eu nunca...eu nunca...eu nunca...uhh...não, não, não...

- Er...tudo bem consigo? Precisa de um copo de água?

- Não, eu não...eu não...quer dizer, eu não comento, desconheço as fontes, aliás, as auto-intituladas fontes. E isto das fontes, cuidado, recordo-me por exemplo do uatérgaite...da "Garganta Funda".

- Da quem?

- "Garganta Funda", Rita Palha-Ribeiro Telles. Você é muito nova para se lembrar. Era um filme, com a Linda Lovelace, que tinha uma condição rara que só lhe permitia...

- Estão ali a fazer-me sinal, qualquer coisa para lhe "cortar o pescoço", acho que querem que passemos em frente. Então, mas não comenta pelo menos os nomes?

- Olhe Rita, eu tenho a minha opinião própria, mas imagine que agora começo a bajular estes e dizer que são os melhores para o cargo, que assentam como uma luva, e depois vêm outros. Como é?

- De facto...mas conhece-os?

- Então não, coração, andaram comigo à costura.

- Falam todos português.

- Pois é, senão como é que eu lhe enchia as orelhas até ficarem com a minha retórica obtusa tatuada nos tímpanos? E eu não faço futurologia, isto não é futebol, mas vou adiantando que se algum deles ou alguns ou todos se confirmarem, foi o que eu sempre pensei.

- Pensou...?

- Auto-intituladas fontes, Rita. Auto-intituladas fontes.

- E os resultados do referendo? E por favor não grite!

- Não...quer dizer, eu não...eu não...uhhh....iihhh...

- Então?

- Repare, a eleição para o Chefe do Executivo, foi uma coisa espectacular, com regras e tinha uma juíza, e aquele inquérito, ou sondagem ou o raio que os parta, não tinha uma juíza. Nem juízo! Eh, eh, eh...

- Mas foram mais de oito mil participantes.

- Eles dizem que foi! Ele dizem que foi! Para mim foram 6, meia dúzia, os mesmos do sempre, os do costume.

- Mas olhe que eu conheço mais de meia-dúzia de pessoas que votaram, muitas mais aliás.

- Pode ser, mas repare Rita, mesmo que fossem oito mil, e depois? Ai disseram que devia haver sufrágio universal? Eu arranjo outras oito mil a dizer que não querem! E outros oito mil que dizem que querem mas é ilegal! E outros oito mil que dizem que é ilegal e por isso não podem! Mais oito mil a dizer que não podem e por isso são presos! E isso tudo consigo-lhe arranjar em vinte minutos aqui à porta do estúdio daqui da Xavier Pereira, na rua, às três da manhã de um dia de semana e a chover!

- Duvido, mas deixe lá. E as detenções?

- Olhe eles deram muita importância a isto, e criaram uma bola de neve metafórica, quando deviam era criar uma bola de neve real, que com este calor dava muito jeito. Agora os meninos estão contentes, pá, andaram a brincar com o fogo, e depois quando estiverem a cumprir 16 perpétuas a pão duro e água, vão ver o que é bom para a tosse. O espírito, Rita Palha-Ribeiro Telles, o espírito da lei vai assombrá-los para toda a eternidade.

- Assustador. Bem, obrigado pelo seu tempo Leocardo, e...olhe, até um dia destes, pelos vistos.

- E é preciso trabalhar Rita, trabalhar!

- Ainda bem que sabe disso. Adeus.

- TRABALHAR!

- Já ouvi, vá lá, até logo.

- TRABALHAR! TRABALHAR! TRABALHAAAARRRR!!!!!

- Epá tirem-me daqui este gajo, por amor de Deus!


Real Madrid perde, Barcelona isola-se


O Real Madrid somou ontem a sua primeira derrota na Liga Espanhola, ao perder por 2-4 no reduto da Real Sociedad, em San Sebastian. E ninguém espararia tal coisa, quando aos 11 minutos os merengues já venciam por 2-0, com golos de Sergio Ramos e Gareth Bale. Os bascos conseguiriam empatar ainda antes do intervalo, e completariam a cambalhota no marcador no segundo tempo, com David Zurutuza em grande destaque, ao apontar dois golos. Cristiano Ronaldo, novamente lesionado, nem fez parte da convocatória de Carlo Ancelotti.


O Barcelona, agora orientado por Luis Enrique, foi a única equipa a repetir a vitória da primeira jornada, mas viu-se e desejou-se para bater no Madrígal o Villarreal. Com Lionel Messi, Pedro Rodríguez, Neymar (que regressou aos relvados) e companhia desinspirados, valeu o golo de Sandro Ramírez, um jovem de 19 anos das escolas do Barça, a oito minutos do fim. O campeão Atletico Madrid somou a sua primeira vitória, ao derrotar no Vicente Calderón o recém-promovido Eibar por duas bolas a uma.


"Derby" empatado, Porto adiantado


Benfica e Sporting empataram a um golo de jogo grande da terceira jornada da Liga ZON Sagres, disputado no Estádio da Luz. Os golos aparecerem nos primeiros vinte minutos, com Nico Gaitán a adiantar os encarnados no marcador aos 11 minutos e o Sporting a empatar oito minutos depois do Suleimani. Muitas culpas para o guardião brasileiro Arthur, que não consegue controlar um atraso da sua defesa, e pressionado por Nani remata contra o jogador leonino e o argelino só precisou de confirmar em cima da linha de golo. Noutras partidas de ontem destaque para as primeiras vitórias de P. Ferreira, que foi vencer por uma bola a zero em Penafiel, e do Nacional, que derrotou o Arouca por 2-0. O Marítimo foi a Barcelos vencer o Gil Vicente, que despediu o seu treinador João de Deus, após a terceira derrota em outros tantos jogos.


Quem aproveitou o empate na Luz para se distanciar dos rivais de Lisboa foi o FC Porto, que recebeu e venceu o Moreirense por 3-0. Apesar do resultado, os dragões não encontraram facilidades, e só inauguraram o marcador a vinte minutos do fim, por intermédio de jovem Oliver Torres, que com o avançado Adrián Alarez e o lateral-esquerdo José Angel foram os três espanhóis no onze inicial. Desta feita o treinador Julien Lopetegui optou por deixar Rúben Neves no banco, e apostou no regresso de Quaresma ao onze inicial. Mais golos só nos últimos dez minutos, com o colombiano Jackson Martínez a destacar-se com mais dois golos, o primeiro aos 82 e o segundo aos 87, logo após Juan Quintero ter desperdiçado uma grande penalidade. O Porto lidera a par do V. Guimarães com 9 pontos, com vantagem para os minhotos, que no Sábado tinham vencido no Restelo o Belenenses por 3-0. Também no Sábado o Braga venceu o Estoril por 2-1, e na sexta a jornada tinha arrancado com um empate em Coimbra entre Académica e V. Setúbal. Hoje joga-se o Rio Ave-Boavista, e caso os vila-condenses vençam igualam dragões e vimarenenses na liderança.

domingo, 31 de Agosto de 2014

O dia D (de Dome) D日(D代表體育館)


Macau, 31 de Agosto de 2014, data da eleição do IV Chefe do Executivo da RAEM. No recinto construído para acolher os Jogos da Ásia Oriental estavam os (quase) 400 elementos que compõem o Colégio Eleitoral que escolhe o dirigente máximo da RAEM para os próximos cinco anos. Enquanto isso um grupo de democratas pertencentes a três associações (uma por todas, todas por uma, sendo impossível determinar quem é de onde) protestavam em frente ao palácio do Governo contra aquilo que consideram "perseguição por motivos políticos). Os pró-democratas organizaram durante a última semana o que ficou conhecido por "referendo oficial", uma espécie de consulta pública com vista a saber a opinião da população sobre o método de escolha do Chefe do Executivo. O referendo tinha duas perguntas, e hoje a organização prometia divulgar o resultado da primeira, bem como os números da participação. Não sendo uma iniciativa ilegal, pois não se encotra prevista na legislação a modalidade de "referendo", coincidia com a eleição do CE propriamente dita, durante as últimas semanas a nomenclatura tentou de tudo para dissuadir os organizadores, desencorajar a população, e já com o referendo em marcha fazer uma "marcação cerrada" aos democratas. Neste protesto simbólico faltou Jason Chao, o promotor do referendo, detido no último Domingo e apresentado ao Ministério Público na manhã seguinte, onde seria indiciado do crime de "desobediência qualificada". Jason Chao seria libertado de seguida com termo de identidade e residência, e não é visto desde quarta-feira. Bill Chou, que liderou o grupo durante as actividades do dia de hoje, diz que o promotor "está a descansar num local seguro", e contou ainda que as autoridades tentaram em vão retirar-lhe os dados dos participantes do referendo, e esses dados foram agora destruídos.



E estes são os primeiros resultados do referendo civil. O total cumulativo de participantes foi de 8688, divididos pelos sectores etários de maiores de 18 anos e maiores de 16. À pergunta "Deverá o Chefe do Executivo ser eleito por sufrágio directo em 2019" responderam que "Sim" 8259 participantes, que "Não" 231, abstiveram-se 189 e outros 9 não responderam à pergunta. Uma vitória esmagadora do "Sim", mas como é possível verificar, o "Não" era uma das opções, ao contrário do que davam a entender os opositores ao referendo.




Duas actividades de protesto levadas a cabo pelos democratas durante a hora de eleição, ambas repletas de significado "simbológico". Em cima, na Ruínas de S. Paulo "chutava-se" a bola do actual método de eleição do Chefe do Executivo, e junto ao Macao Dome, onde Chui Sai On se preparava para ser reeleitos, realizou-se um "Fu Hang Chong" (苦行中) uma cerimónia religiosa chinesa semelhante ao nosso "pagamento de promessas", e reservado a pessoas que "estão a sofrer bastante". Bill Chou diz ter sido uma manobra arriscado levar a cerimónia até perto do Dome, e temia ser detido. Mas hoje o momento era solene, e não houve qualquer detenção.



Enquanto cá fora se "pagavam promessas", no Dome processava-se a eleição do Chefe do Executivo, e há alguns episódios caricatos que gostaria de deixar registados. Dos 400 votos possíveis, Chui Sai On recebeu 380, ou seja, 92% do total. Dos restantes 20 há 14 que se explicam (um deles mais ou menos), e 6 que não consigo entender. Contaram-se 13 votos em branco, o que era apresentado como a única alternativa a votar em Chui Sai On, 3 votos nulos, e 4 membros do Colégio Eleitoral que simplesmente não apareceram. Falta justificada para José Pereira Coutinho como "forma de protesto" pelo método eleitoral, que "não representa a vontade da maioria da população de Macau". Interessante que Coutinho aderido recentemente à causa do sufrágio universal, fica-lhe bem mesmo que não partilhe do sentimento, mas ficava-lhe melhor se tivesse simplesmente recusado o "convite" quando foram eleitos os 21 deputados que fariam parte do Colégio Eleitoral. Quanto aos três nulos e aos restantes três ausentes, não dá para entender, mesmo. Depois de tanto barulho, e do evidente sentimento de desconforto que pairava no ar, a população de Macau é representada na eleição do Chefe do Executivo por três criaturas que não sabem votar, e outras três que se estão nas tintas. Lamentável. Outros dois momentos caricatos: a leitura dos votos, com o nome de Chui Sai On a ser lido...380 vezes. No fim a presidente da Comissão Eleitoral, Song Man Lei, anuncia solenemente o nome do vencedor. Adivinhem quem foi? Pois. Procurei obter algumas reacções, especialmente à primeira "curiosidade", e a maioria das respostas desta minha "consulta" foram: "palhaçada". De facto o processo podia e devia ter sido simplificado. No Telejornal registei ainda as afirmações de Carlos Marreiros, que entra para a galeria dos "cromos" desta novela. O arquitecto disse que "Chui Sai On venceu com mais votos que há quatro anos, o que significa que tem o apoio incondicional da população". Não, não riam, isto é muito triste. Um minuto de silêncio, se faz favor.



E agora a sobremesa. Quem gostou de ouvir 380 vezes o nome do novo que é mesmo Chefe do Executivo (assim de certeza que não se esquece) é o director do Jornal Tribuna de Macau, José Rocha Dinis, que é a única pessoa que conheço que tenta sempre exceder-se na sua função. Qual? Ahh...hmm...esta, pronto. Ora bem, JRD começa por congratular o Dr. Fernando pela vitória, passando depois a apresentar o vencedor, numa pequena nota introdutória, e assim ficamos a saber quem é. Obrigado. A seguir fala da transparência com que decorreu a eleição, dentro da legalidade, como na lei, e tal, presidido...ahhh..desculpem foi só um bocejo. Não interessa, adiante. Depois comenta os resultados, manda uma "boca" a Pereira Coutinho e passa ao referendo civil. Perdão, o auto-denominado referendo civil, que para ele é um "inquérito online", que ainda por cima foi sem preservativo: não houve controlo em nenhuma das fases. Que chatice. Aí também apresentou os números, perdão, aos auto-intitulados números, e conclui dizendo que "há quem ache que abriram a porta a uma nova vivência democrática". Não sei quem disse isso mas sei duas coisas: 1) o director do JTM foi quem mais falou do referendo civil, de entre todos os media portugueses, e 2) A previsão dos 98% falhou, pois o "Sim" ganhou com 95%, e limpinhos, limpinhos foram os 92% de Chui Sai On no Macau Dome. Como era o mesmo o título do editorial no outro dia? Ah, já me lembro: "Falta de unânimidade é útil para Macau". Rocha Dinis termina com um incentivo ao Chefe do Executivo, dizendo que há muito por fazer, e que é dele que "se esperam as respostas". Bem, se não for ele, pode ser que seja o Vong Hin Fai a responder, não?

Boa tarde, o Chefe já chegou?



Chui Sai On foi reeleito Chefe do Executivo da RAEM, numa eleição realizada no Macau Dome onde era único candidato e recebeu 380 votos do total de 400 membros do Colégio Eleitoral. A eleição ficou marcada polémica realização do "referendo civil", nome dado a uma consulta popular realizada por algumas associações do campo da pró-democracia, e que visava recolher opiniões exactamente sobre o método de eleição do Chefe do Executivo. Isso fica para depois, e olhemos portanto para quem vai dirigir os destinos do território nos próximos cinco anos, até 2019. A expectativa era enorme há cinco anos, e volta a ser enorme agora, mas com carácter de urgência. Mais importante do que olhar para os cinco anos que temos pela frente, o que seria um exercício de futurologia, convém analisar antes o que ficou para trás.

O primeiro mandato de Chui Sai On fica marcado por uma espécie de hiato governativo, que não tendo sido exactamente intencional, acabou por surtir efeitos negativos. O III Chefe do Executivo teve o mérito de não ter cometido erros graves, mas isso foi ao mesmo tempo o seu maior defeito: parece ter havido primeiro hesitação, depois demora, e no fim adiamento - mais cinco anos para se fazer o que não feito nos cinco anteriores e o que vai ser preciso fazer até 2019. O Chefe agora eleito foi Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura no I e II Executivo da RAEM, ambos liderados por Edmund Ho, um líder consensual, que teve um desempenho praticamente imaculado durante o seu primeiro mandato, demonstrando uma capacidade de liderança extraordinária perante os desafios que uma região jovem com o ónus da inexperiência teve que enfrentar: primeiro a pneumonia atípica, ou SRAS, e depois a liberalização do sector do jogo. Ambos os desafios, o primeiro uma epidemia, e o outro um importante passo no futuro do território, que lhe poderia garantir, com a ajuda da R.P. China, uma confortável almofada financeira.

Reeleito sem oposição, Edmund Ho era tido como um "mestre" na arte de concretizar o segundo sistema idealizado por Deng Xiaoping para Hong Kong e Macau, mas os problemas começaram a surgir logo após o escândalo de corrupção envolvendo o Secretário para as Obras Públicas e Transportes, Ao Man Long, estávamos em Dezembro de 2006. O ano de 2007 foi extremamente complicado, com a popularidade do CE a descer vertiginosamente, e em Maio, no Dia do Trabalhador dava-se o primeiro sinal de alarme. Existia uma "sombra negra" sobre o Executivo, uma convicção de que Ao Man Long era o ponta do novelo de um esquema de enriquecimento ilícito muito maior. A chegada dos americanos pode ter gerado empregos, e a política de vistos individuais levava aos novo casinos do território os jogadores, mas a sociedade parecia cada vez mais desumanizada, presseguindo apenas o lucro, e a inflação começava a tornar-se um problema novo, pelo menos em dimensão. Talvez atentendo a esses dois aspectos, Edmund Ho junta-os e avança com uma política que chamou de "distribuição da riqueza", atribuindo a cada residente um cheque anual inicialmente no valor de cinco mil patacas, como "medida para aliviar os efeitos da inflação". A oferta foi bem recebida pela população em geral, mas pecava por falta de sustentabilidade - não resolvia os problemas essenciais. Feita esta fuga para frente, anunciada exactamente em vésperas de mais um Dia do Trabalhador, passou-se ao mercado imobiliário, e se o preço da habitação começava a tornar-se preocupante para quem não tinha casa própria, foi um "eldorado" para quem tinha mais que uma.

Chegamos a 2009, ano de eleições para a Assembleia Legislativa e para o Chefe do Executivo, que já não seria Edmund Ho. Apesar da política dos cheques ter tido continuação em 2008 e nesse ano, era visível que faltava cumprir algumas promessas constantemente adiadas. A habitação económica demorava a chegar ao mercado, "injectando" um número de fogos que travasse a especulação imobiliária, a necessidade de um segundo hospital público, identificada praticamente desde o início do primeiro mandato, era cada vez mais notória, e dentro da Administração existia uma cisão e um desgaste desde o caso Ao Man Long, com departamentos a "isolarem-se" e outros a encontrar problemas de comunicação, e muitos funcionários públicos iam saindo para os casino. Fechado em copas, o Executivo pensava no que fazer, enquanto cá fora avança-se com o nome de Ho Chio Meng para futuro Chefe do Executivo, o que poderia levar a uma mudança de um sistema mais centrado na economia para outro mais "administrativo", e teoricamente dando mais garantias do cumprimento escrupoloso das leis. É aí que se avança com o nome de Chui Sai On, que lentamente vai ganhando consenso, e acaba por ser esse o sucessor de Edmund Ho. Depois de dois anos terríveis para o II Executivo, podia ser que uma mudança de elenco dentro da continuidade fosse a solução. Houve quem levantasse dúvidas, pois Chui Sai On tinha sido durante dez anos responsável por uma tutela que ficou ligada à organização de eventos desportivos que deram origem à construção de infra-estruturas feitas sem muita atenção aos orçamentos, e a partir daí entraram para o anedotário local os famosos "orçamentos excedidos" - só nos Jogos da Ásia Oriental foram 162%.

Apesar de tudo, Chui Sai On seria eleito sem oposição, o que era considerado um tanto ou quanto estranho, atendendo à insatisfação, que ganharia força nas eleições de 2009 para a AL, onde os democratas conseguiam três mandatos e os operários dois, sendo as duas forças mais votas. O último acto de Edmund Ho como Chefe do Executivo foi a nomeação dos sete deputados da AL pela via indirecta, e seria com essa composição no hemiciclo que o novo CE teria que trabalhar. Inicialmente introduziram-se algumas novidades, com a criação da figura do porta-voz do Executivo, cargo de que Alexis Tam ficaria encarregado, e algumas alterações cirúrgicas. Primeiro para o lugar de Secretário da tutela que havia deixado vaga entrou Cheong U, vindo do CCAC, entrando o juíz Vasco Fong para Comissário no combate à corrupção - uma decisão estranha na altura, pois Vasco Fong teve uma actuação desastrosa um mês antes, como Comissário Eleitoral para as eleições da AL. Dos restantes secretários nada mudou, e a outra alteração teve a ver com o Instituto Cultural, que passou a ficar a cargo de Ung Vai Meng, uma mudança bem recebida (Heidi Ho aparentemente "eclipsou-se"). Esperava-se um pouco mais, e já então se falava na divisão de algumas pastas e a entrada de novos secretários, o que nunca chegou a acontecer, e seria mais tarde fácil perceber porquê.

Mesmo desde o início, quando gozou um "Estado de graça", era perceptível que Chui Sai On era menos pró-activo que o seu antecessor. Enquanto Edmund Ho era filho de Ho Yin, líder da comunidade chinesa desde o pós-guerra até aos anos 80, altura do seu falecimento, e o próprio Ho foi deputado na AL durante vários anos, Chui Sai On era filho do construtor Chui Tak Seng, próximo de Ho Yin e Ma Man Kei na Associação Comercial, mas o filho tinha pouca experiência nos meandros da política, e foi durante o período da transição director de uma escola secundária. Dos problemas que iam ficando por resolver, alguns acentuavam-se, e outros novos apareciam - ou passavam de incómodo a problema. Os primeiros tinham a ver com a inflação e sobretudo com o imobiliário, e ficou famosa a declaração do CE de que "o governo não deve interferir no mercado" - leitura algo esquisita, pois o que se pedia realmente era um papel moderador. A habitação económica e social, uma promessa antiga, foi finalmente concretizada, mas timidamente e sem efeitos na especulação. O trânsito passou a ser outra dor de cabeça, com a recém-criada DSAT a tornar-se rapidamente o departamento mais inapto da Administração, e o serviço de táxis passou a ser controlado por uma espécie de máfia, que deixou a população apeada, ou dependendo do serviço de autocarros. Aí também se deu uma "bronca", com a Reolian, uma nova concessionária que muitos consideraram "desnecessária" a iniciar as operações em 2009 e a falir pouco mais de três anos depois. Alexis Tam e Ung Vai Meng desiludiam, deu-se o caso das campas, e a partir daí os dois anos finais de Chui Sai On seriam de pesadelo.

A partir de 2012 passou a ser evidente que Chui Sai On não enfrentava de frente os problemas, e se no início isto parecia algum laxismo, um "não mexer para não estragar", isso começou a ficar menos claro à medida que o sector empresarial ia ganhando mais força. Nas eleições para a AL em 2013 o eleitorado parece dar um sinal a esse sector de que confiava no estímulo da Economia como solução para os problemas, e para ajudar nomeia sete deputados todos com ligações aos grandes grupos económicos do território, e ficava-se com uma força de bloqueio reduzida a 4 deputados de fora do sector empresarial. Isto não só não ajudou a resolver nada, como ainda complicou mais as coisas. Julgando ter juntado o controlo da economia ao da sociedade, os empresários ganham "asas", e o inconstante Fong Chi Keong dá uma entrevista em Outubro assumindo que os residentes de Macau estavam nas suas mãos. Chegados a 2014, ano de eleições, e na nomenclatura tudo parecia preparado para reeleger Chui Sai On em Setembro, quando surge o maior de todos os problemas: o problema político. Em Fevereiro, logo aqui ao lado em Hong Kong, os democratas ameaçam paralisar a cidade com o movimento "Occupy Central", e aqui em Macau iam ganhando força depois da derrota eleitoral seis meses antes, e aguardavam mais um deslize do Executivo. O deslize aconteceu em Maio, e depois foi o que se sabe. Falou-se de "perda de confiança" da parte de Pequim, na possibilidade de "outro candidato", mas nos bastidores tudo parece ter ficado resolvido, e hoje Chui Sai On ganha mais cinco anos.

É evidente que toda a gente quer que Chui Sai On faça um bom trabalho, mas sobretudo que o faça, e bem ou mal logo se vê. Os acontecimentos dos últimos três meses deixaram muitas feridas abertas, nomeadamente a dificuldade da nomenclatura em lidar com as crises, e a forma arcaica como ainda afasta o diálogo com a oposição, tabelando todos pelo mesmo: são subversivos e a soldo de potências estrangeiras. Esta concepção serviria que nem uma luva caso os problemas da população fossem atendidos, mas não sendo fica difícil ignorar outras vozes, quando as vozes de comando não se ouvem. A última fase do primeiro mandato de Chui Sai On revelou o seu pouco à vontade com a confrontação, não se sabe muito bem o que pensa para lá dos discursos oficiais, não contacta com a população, e mesmo durante a sua campanha pareceu desfazado da realidade, sempre debaixo da asa do seu mandatário Vong Hin Fai, deixando inclusivamente escapar uma expressão de admiração pela quantidade de gente que encontrava nas ruas. Uma vez que do seu programa não consta nada de concreto sobre a reforma política, manteve o mesmo elenco por "falta de alternativas" (leia-se "alternativas de confiança"), e tudo o que de materializável se pode encontrar ali é mais habitação económica, dou-lhe uma sugestão: oiça David Chow. De todos os conselhos que ouviu o dele (coreografado ou não) foi de longe o melhor. Os olhos vão estar todos postos em si, e vai ser necessário um "tour de force" para levar a cabo tudo o que ficou por favor. E já agora boa sorte, que também vai ser preciso.