quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

Eleição do CE & referendo civil: é só desgraças!


Em primeiro lugar gostava de dizer que quando li este editorial de José Rocha Dinis nas páginas do JTM de hoje, julguei tratar-se de alguma marotice sua. Com que então "pôr-se a jeito" ah? Foi assim que os alemães perderam a guerra, e tal, né? Mas não, era sobre a concorrida eleição do Chefe do Executivo, que se realiza no Domingo, e JRD lança algumas críticas à actuação do Governo nestes últimos cinco anos. Bem, é mais ou menos isso, e partindo dele, é até mais "crítico" que o habitual.

O editorial começa por fazer referência às inúmeras críticas feitas a Chui Sai On, algumas que o director do JTM considera "injustas", pelo que me é dado a entender pela "todas possíveis e imaginárias" e mais a farpazinha do costume contra a Associação Novo Macau. Eu vou mais longe, e considero que qualquer crítica que se possa fazer ao desempenho do Chefe do Executivo durante o último mandato é injusta! Chui Sai On não fez nada para merecer estas críticas! Insisto: nada! Nada de nada! Mas apesar dessas aves de mau agoiro, a sua reeleição parece "consensual entre a sociedade", ou caso contrário "aparecia(m) outro(s) candidato(s)". Podem vir agora os engraçadinhos insinuar que para convencer o Chefe do Executivo a recandidatar-se já foi complicado, quanto mais aparecer outro para fazer em cinco anos o trabalho de dez, mas até concordo que seria difícil vencer Chui Sai On; isto ficaria imediatamente perceptível aquando da entrada dos elementos do Colégio Eleitoral no Macau Dome este Domingo, ao som de "Todos os patinhos acabam de nadar", e para quem não sabe o resto, "depois em grande fila, no mesmo vão votar".

Agora concordo com Rocha Dinis numa coisa: o Governo de facto tem-se "posto a jeito" para que mereça algumas críticas. Ora ouve de manhã um grupo de interesses e diz-lhes que "vai estudar o caso", e estes saem convencidos que fica o problema resolvido, ora ouve de tarde um outro grupo com interesses simetricamente opostos, e diz-lhes a mesma coisa, e lá saem eles a pensar que são favas contadas. Uma imagem que tem sido comum, sem dúvida, mas permitam-me que acrescente mais alguma coisa ao raciocínio de JRD: 1) o Governo ouve, ou escuta as partes, mas será que entende? e 2) para sairem de um encontro com o Governo convencidos de que este vai fazer seja o que for, ou são muito crentes, ou então são parvinhos.

E finalmente o Governo tem sido muito autoritário recentemente, muito autoritário. Nós que estávamos habituados a dormir a sesta descansados, e vieram aí uns "mosquitos" organizar um referendo, e nas últimas duas semanas os elementos da nomenclatura mexeram-se mais do que nos últimos cinco anos. Tem sido um desasossego. Mas não interessa, pois conforme o estipulado no artº 47 da Lei Básica (suprema e intocável, com um "hidden track" no fim que proíbe referendos e outras coisas que dêem chatices), um dia destes o Governo Central vai indigitar o próximo Chefe do Executivo, e acaba-se o chinfrim. Com dum-dum não escapa um. Agora resta saber quem é o felizardo contemplado com uma estadia com tudo pago e depois ainda mais pago, e por aí fora. Se eu tivesse unhas, roía-as de tanta que é ansiedade e dúvida.


Mas atenção, atenção! Segurem-se bem, senhores leitores, e apertem o cinto que o espectáculo vai começar. Mais uma volta, mais uma viagem no JTM! Agora o prof. Oliveira Dias (que não me canso de referir, foi meu professor) vem dizer umas verdades bem ditas, e bolas, tenho que comprar um chapéu, que isto merece que lhe tire o chapéu, e literalmente. Num tom sarcástico que já tinha ficado evidenciado aquando da lamentável passagem do panda Sam Sam para o paraíso dos ursídeos, Luiz Oliveira Dias manda uns recados a Vong Hin Fai, mandatário da campanha de Chui Sai On. Mais do que isso: Vong Hin Fai é o grande guardião do Buda Dourado, e todos os pivetes que tiverem para queimar e com isso obter sorte, dinheiro, amor e saúde, podem entregar ao mandatário que ele encarrega-se de os queimar por vocês. Não esperem é nenhum dos pedidos realizados, que eles "vão estudar o caso".

A opinião de Luiz Oliveira Dias é a opinião do cidadão-tipo de Macau, aquele que anda na rua, que vai às compras, que fica entalado no trânsito, em "full-contact" com o sovaco alheio nos autocarros, e que entra no supermercado com cem paus a pensar que sai de lá com o almoço e com o jantar, e ainda os respectivos gaurdanapos para limpar a boca e os palitos para desentalar a chicha dos dentes, e quando no fim volta para casa com uma lata de sardinhas, uma "tota-tola" e e uma couve embrulhada em Ziploc pergunta: "f...-se, os meus cem paus, c...?". Mas é melhor o professor despachar-se e fazer o seu pedido o mais resumidamente possível, que o mandatário tem que voltar depressa para o palácio, não vá uma mariposa entrar por uma fresta da janela e lançar o pânico.


Mas vá lá, já chega de malhar no Governo, falemos de outras coisas. And now for something completely different, os números de hoje do referendo civil! Hoje foram 354 as pessoas que conseguiram enganar a PIDE, perdão o GPDP (Gabinete de Protecção dos Dados Pessoais), e entrar às escondidas na página do Referendo Civil, que agora conta com um total de 7239 opiniões (7266 agora) quanto às duas moções propostas pelas associaç­ões do campo pró-democrata que organizam esta consulta. Ainda é possível participar até ao próximo Domingo, e gostava de deixar bem claro que não faço publicidade do referendo. Repito: não faço publicidade do referendo. Escrevo sobre Macau, sobre a actualidade do território, e se há mais actualidade do que isto, então não sei o que é. Deste total de mais de sete mil opiniões, mais de metade foram recolhidas no primeiro dia, no Domingo, e tem sido evidente a diminuição do número diário de participantes. Isto é apenas normal, pois há quem tenha preferido deixar a sua opinião logo no primeiro dia, enquanto outros vão ganhando coragem, e há ainda quem tenha sentido apenas curiosidade. E o resto?

Tal como faço com muitos dos grandes temas da actualidade local, vou recolhendo opiniões um pouco por toda a parte, e as que mais valorizo são as dos residentes naturais de Macau, os "oumunyan" - valorizo todas, mas estes estiveram cá durante a "refeição completa", com aperitivo, sopa, prato principal, sobremesa e café, todos incluídos, e é interessante saber o que pensam. Entre aqueles com que falei, há os que votaram, um número considerável, e os que não votaram, e de entre estes os motivos são variados. Há os que não têm interesse no referendo ou na política em geral, há que não sabem como participar ou conhecem mal os contornos do caso, e há os cobardes. Desculpem-me mas é mesmo assim, e não a estou a chamar "cobardes" ao que se estão nas tintas para estas questões em geral ou não querem participar por genuína convicção - ninguém é obrigado a tal. Falo sim dos que gostariam de expressar a sua opinião, mas têm medo, e como se isso não bastasse, em vez de assumir esse medo ou procurarem informar-se sobre as suas opções, entoam as cantilenas da parvoíce, como se tirassem prazer em ser enganados.

Vamos lá ver: esta consulta, ou "referendo civil" não é um palavrão nem um insulto à mãe, nem é o equivalente a mandar alguém importante para um sítio desagradável. Quem deseja participar e receia represálias ou estar a cometer uma ilegalidade, saiba que isso é completamente falso. Os promotores do referendo nunca pressionaram ninguém a participar, nem os opositores à iniciativa ameaçaram qualquer residente que quisesse participar - valha-lhes isso, entre tanta asneira. O que tem acontecido é chincana política: de um lado os que querem a participação para acenar com os resultados que sirvam a sua causa anti-sistema, e do outro lado o sistema, que vai pedindo caridosamente à população que não os coloquem numa situação de vulnerabilidade com o Governo Central, que certamente não estará a achar piada nenhuma a tudo isto. Agora quem quiser mesmo participar e responder às duas moções, não vai sofrer quaisquer consequências legais, nem vão castigá-lo por isso, e pode fazê-lo secretamente. E isso leva-nos a outra questão.

O GPDP, que ficou muito mal visto nesta novela do referendo (e ainda não acabou), contrariou a natureza que levou a que fosse criado em 2007, com as funções de supervisionar o tratamento dos dados pessoais, funções essas atribuídas pela Lei nº 8/2005 (podem clicar e ver). O GPDP é um departamento criado por despacho do Chefe do Executivo (outra vez, podem ver ali a publicação no B.O.) e não autoridade para dizer o que o titular dos dados pessoais pode ou não fazer com eles - com excepção da divulgação e difusão a título pessoal, ou seja, caso os senhores queiram chatear com os vossos dados pessoais, sujeitam-se a regras, mas se não for esse o caso, podem dá-los a quem muito bem vos apetecer - isto conforme o nº 2 do artº 3º da tal lei. O GPDP tem a função de autorizar o tratamento dos dados por parte de terceiros, quem pode ou não pode tratá-los e para que efeito, e não proibir seja quem for de fornecer os dados a outrém. Portanto bem ou mal, este é um problema entre o GPDP e os organizadores do referendo. Nada a ver convosco, entenderam?

Outra questão com que deparei foi com a segurança do servidor onde se processa o recolha dos dados de quem quer participar no referendo. Ora mais uma vez isto é entre o GPDP e a organização do referendo, mas vou adiantando que tudo o que se pede são três secções do número do BIR - não se pede qualquer outra informação que possa ser considerada sensível. As pessoas vão a qualquer repartição e entregam o BIR a desconhecidos confiando cegamente na sua capacidade do tratamento desses dados e não questionam seja o que for, dão os dados constantes do BIR para promoções de produtos de beleza e outros bens de consumo sem pensar duas vezes, e mesmo quando visitam alguém no hospital passam o BIR para um segurança de uma empresa que nunca ouviram falar que escreve os dados num bloco de papel que mais parece aquele de embrulhar o borrego no talho, e não se lembram de ligar ao GPDP para vos garantir a "segurança do tratamento dos dados". O GPDP, já que se preocupa tanto com o BIR e tem jeito para se armar em "polícia", devia era estar atento à compra de votos durante as eleições legislativas, onde estranhos chegam a ficar na posse do documento de identificação dos eleitores por vezes durante um ou mais dias. Isso é que chamaria um trabalho bem feito, meus senhores.


Eis o editorial desta quinta-feira de José Rocha Dinis, onde é feita uma interessante comparação entre dos dois fenómenos: a eleição do Chefe do Executivo, e o referendo civil. Ora bem, temos portanto o director do JTM a dizer-nos que um dos pontos em comum é a "falta de unamidade". Por muito mal que as coisas estejam, e não estão assim tão mal mas podiam estar muito melhor, não estamos na Coreia do Norte nem no Iraque dos tempos de Saddam Hussein para que se ganhem eleições com 100% ou 99,9% dos votos. Agora não sei se JRD está a brincar, e até pode ser que me esteja a dedicar parte deste editorial (eu que sou grande fã), mas se por um lado temos uma eleição onde as opções são um candidato ou nada, do outro lado temos um referendo com duas moções e três opções de resposta para cada uma delas. É preciso perguntar onde existe a maior possibilidade de não haver unanimidade, ou tenho que explicar? Não tenho seguido este tipo de consulta oficial para me inteirar da taxa de aprovação do Chefe do Executivo, mas acredito plenamente que tem ficado sempre acima dos 50% (é curioso como JRD questiona quem participa no referendo mas confia incondicionalmente numa pesquisa de que nada se sabe), mas isto em comparação com quem?

Outro ponto interessante tem a ver com as opções da moção nº 1 proposta pelo referendo, e Rocha Dinis diz que "há quem vote no não". E há mesmo, meu caro! Eu, por exemplo, que desde a primeira hora manifestei interesse em expressar a minha opinião sobre a matéria e considero que não há condições para eleger o Chefe do Executivo pelo sufrágio universal, o velhinho "uma pessoa, um voto". Eu penso assim, muita gente pensa assim, e ninguém obrigou ninguém a votar no "sim" ou desaconselhou o voto no "não". Há ainda a opção de "abstenção" para quem só tenha opinião quanto à moção nº 2, e vice-versa. Quem tem feito anti-campanha, dissuasão e desencorajamento à participação não tem sido a organização do referendo. E se o resultado der a vitória do "não"? O que eles querem saber (e nunca deram outra indicação que não essa), é a vontade da população em relação ao sufrágio universal, e não vejo como é que isto se pode voltar contra eles. Não são eles que andam por aí desesperados, quase enlouquecidos, a dizer às pessoas o que devem ou não fazer, e a atirar com tudo o que têm contra a iniciativa alheia. Pense nisso.

Para acabar gostaria de recomendar a quem fala da falta de credibilidade ou do amadorismo do referendo civil que experimentasse ir lá e ver como funciona, em vez de falar do que não sabe. Aqui não me dirigo especificamente ao grande José Rocha Dinis (admiro a sua verve, a sério), mas à generalidade, e especialmente a quem tem o dever de informar com isenção, ou que pelo menos se orienta por um código de ética inerente à sua profissão. Outra vez, sem especificar, ficam aqui dois ou três pontos essenciais que têm suscitado alguma dúvida, e cuja detorpação só me leva a acreditar que existe alguma agenda oculta:

- O referendo civil está a aberto a maiores de 16 anos e a residentes não-permanentes, portanto sem capacidade eleitoral, pois na eventualidade muito remota do Chefe do Executivo ser eleito por sufrágio directo em 2019, todos os primeiros e muitos dos segundos terão já a possibilidade participar desse sufrágio.

- O promotor e os organizadores do referendo não pediram para ser perseguidos nem detidos com a finalidade de obter protagonismo - não consigo conceber como alguém pode sequer considerar que outra pessoa "goste" de ser detida e levada pela polícia. Deve ter experimentado e gostou muito. Se chegar um dia a minha vez, dou-lhe o lugar.

- O GPDP conseguiu por meios bastante duvidosos e até preocupantes para a confiança no segundo sistema que o referendo, ou melhor, a recolha dos dados pessoais para esse efeito fosse considerada ilegal, mas não um crime. O único crime foi o de desobediência qualificada de que o promotor do referendo foi acusado, e que mesmo assim assenta numa base pouco sólida. Deixar no ar que seja a ideia de que o referendo é "um crime" é desonesto e não se entende de outra forma senão com a pressecução de fins pouco transparentes, branqueando essa intenção com o pretexto de uma "opinião meramente pessoal". Repito: código de ética, algo a que eu, que assino semanalmente uma página de opinião na imprensa não estou sujeito, mas por uma questão de verticalidade, evito assumir posições tão rasteiras como esta.

Posto isto, se quiserem participar do referendo civil são livres de o fazer, e se não quiserem, essa é outra opção que vos é dada. Já quanto ao evento do próximo Domingo, se quiserem ir ao Macau Dome, recomendo que se inscrevam o mais depressa possível na lista do pessoal de "catering" ou de limpeza, e tenham em mente que vão apenas lá assistir a uma "emocionante e imprevisível" eleição, e ainda "sem unanimidade", o que é "bom para Macau". É bom é bom é bom é, diz o avô e diz o bebé.


Ovelhas negras (e amarelas)


Imagem: Macau Taxi Driver Shame (Grupo do Facebook)

Agora falando a sério (yeah, right!), aparentemente não foi uma concessão mas sim uma concussão que o taxista deixou na cabecinha do fiscal da DSAT na segunda-feira, juntamente com a respectiva fractura...no maxilar. Tudo isto depois do fiscal ter inquirido o taxista sobre um alegado caso de recusa de transporte de passageiro e cobrança abusiva de tarifa. Como nunca, em tempo nenhum, jamais, um taxista em Macau cometeu tais actos, este profissional sentiu-se ferido na honra e travou-se de razões com o autor de tamanho ultraje. Na falta de florete ou de pistola, foi-lhe aos queixos.

"Mau, muito mau isto, podia ter morto o homem", disse Wong Wan, depois de ter recuperado o fôlego e gasto duas caixas de Kleenex a limpar o suor quando chegou ao hospital para visitar o fiscal combalido. O director vinha acompanhado de outros elementos da DSAT, a quem o fiscal perguntou "quem são vocês, e já agora quem sou eu?", enquanto a mioleira ainda lhe tentava fugir da cratera que o taxista lhe ia abrindo na cachola. Os homens responsáveis pela merda do trânsito que temos, juravam vingança, de olhos cerrados de raiva e punhos fechados, prometendo "limpar as ovelhas negras", e tornar Macau novamente uma "cidade internacional de turismo", conforme se escuta habitualmente naquela cassete que esses responsáveis engolem e de vez quando rebobinam, e voltam a tocar.

Dava jeito era que em vez de andarem por aí a limpar ovelhas, os fiscais da DSAT apanhassem antes os taxistas infractores. Já sei que o gado ovino tem esse problema, cheira muito a "bedum" e deixa sempre o cocó preso na lã, e depois como são "ovelhas negras" é mais difícil de limpar, e os turistas não gostam do cheiro. Só que a DSAT é responsável pelo trânsito, e não pelos animais de quinta, e devia era autuar os taxistas que se recusassem a apanhar clientes, ou cobrem tarifas 1700 vezes superiores ao normal, e caso estes reclamem ou façam caretas, é só partir-lhes o focinho, que parece que é uma linguagem que eles entendem bem.

É que já chega de palhaçada, com os táxis negros e amarelos a gozarem com toda a gente, desde o consumidor, que nunca chega a consumir, com os fiscais, com quem fazem judoca, e com o Wong Wan, porque é gorducho e parece um chorão. Vejam se lá se depois de terem ido lá ver o fiscal que cai andar agora a caldinhos durante uns bons tempos enquanto se tenta lembrar quem é e onde está, não se esquecem depois de ir lá apertar com os taxistas, valeu? Senão os turistas são obrigados a andar por Macau montados nas tais ovelhas, e nesse caso se calhar é melhor que as limpem, mesmo.

Uma concessão cerebral


Num dos seus famosos (e raros, e por isso preciosos) discursos, o nosso Chefe do Executivo, actualmente num "limbo" entre o primeiro e o segundo mandato, apelou à criação de talentos. O chefe pede, a população ouve, os taxistas concedem. Esperam lá, os taxistas? Aqueles tipos de quem toda a gente se queixa, que cobram mil patacas para levar uma velhinha que caíu na rua perto do Jardim de S. Francisco e ficou a esvair-se em sangue até ao Hospital Conde S. Januário, sacou-lhe mais uma "quinhentola" para a "limpeza do veículo", e depois atirou-a como se fosse uma saca de batatas para "mais ou menos perto" para porta das urgências? Esses mesmos, vêem como sabem? Os tipos até não são assim tão maus, e vejam só que um deles, de tanto conviver com um fiscal da Direcção de Serviços de Assuntos de Tráfego (DSAT), criou com ele uma amizade tal que lhe deu uma "concessão cerebral"! Deu salvo seja, pois segundo a notícia da capa do JTM, parece que vendeu a "concessão cerebral" e deixou "a factura no maxilar" - suponho que é isso, e ali "fractura" é apenas um pequeno lapso, um "erre" a mais, acontece aos melhores. Portanto, cuidado, sr. director Wang Wan, que alguém na DSAT tem finalmente uma "concessão cerebral". E veja se larga as "ovelhas negras" por uns instantes, que é preciso "limpá-las". Ai, ai, querem lá ver, o bucha...

Provedor do Leitor


Depois do estrondoso sucesso que foi o artigo O caminho marítimo para a parvoíce, (1564 visitas e 273 partilhas), veio a sequela SOS e mal acompanhados, um epílogo na forma de comentário às reacções vindas do SOS Racismo e da jornalista Fernanda Câncio, ambos apontado as autoridades como responsáveis pelos incidentes no Centro Comercial Vasco da Gama, passa hoje uma semana. Apesar de em termos de visualizações, partilhas e comentários ter ficado aquém do primeiro (e não era essa a ideia), recebi um comentário que achei que devia partilhar, que no fundo vem dar razão aos meus argumentos - outra vez, podem discordar, se quiserem. Aqui vai:

Meu caro, gostaria de o convidar a ir a Angola, ou a Moçambique, ou ao Quénia quiçá, e a fazer um exercício: procure brancos. Sem dificuldade poderá encontrar nos melhores bares/restaurantes/lojas da cidade e não é que, sem dificuldade também, quantas vezes acontece que nesses sítios (surpresa) são a maioria em "países de negros"? Não sei se percebe que mais do que o insulto ocasional, que também deve ser discutido, a discussão do "racismo" prende-se com o quanto os preconceitos influenciam/ delimitam/ possibilitam o curso da vida de um sujeito ou grupo de sujeitos. Não me parece que os grupos que têm acesso a absolutamente tudo, às vezes precisamente pela cor da pele, precisem da ajuda do SOS Racismo, mas se algum dia se sentir muito desprotegido, imagino que será lá bem recebido.
Claramente não faz a mínima ideia do assunto sobre o qual se acha tão informado para comentar, mas "maioria", quando se fala em sociedade, não significa sempre "maior número", nem minoria "menor número", mas também, "maior poder" e "menor poder": poder em arranjar emprego estando exatamente nas mesmas circunstâncias (mesmo CV), poder em viajar livremente sem questionarem as suas intenções, poder de compra, poder de acesso a serviços, poder de tomada de decisão, poder de intervenção, e por aí fora.
Como vê, para que consiga (talvez) perceber tudinho, tenho que explicar com muitos detalhes, por isso fico-me por aqui, que não vale a pena perder mais tempo a desfazer o resto das absurdidades que para aqui diz.
Passar bem.

Aí está, adoro quando me dão tanta razão que nem tem piada comentar. Podia muito bem deixar aqui o comentário deste (afectado) anónimo, e era só tirar as devidas conclusões. Mas vamos começar por cima.

Por acaso adoraria ir ao Quénia, não tanto a Moçambique (questão de prioridades, nada de pessoal) mas certamente que gostaria de ir a Angola, mas por uma carga de água qualquer que os angolanos certamente agradeceriam devido à falta do precioso líquido no seu país, os portugueses só podem a ir a Angola caso tenham uma carta convite de um cidadão angolano, e não é tudo, vejam:


Como é mesmo? Duzentos dólares por dia??? Quer dizer, quem quiser ficar lá quinze dias tem que levar consigo 3000 dólares? Vinte e quatro mil patacas, que é quase o meu salário de um mês? Tem que apresentar a reserva do bilhete de avião? E pelo visto ainda paga 120 euros, que são 1200 lecas, e mesmo com a carta do residente de Angola, a reserva, aquela massa toda e ainda requisitos burocráticos da treta (com que então "preenchido sem rasuras"), ainda depende da aprovação do visto? U lá lá, olha quem, olha quem. Não me lembro de terem sido exigidas todas estas formalidades aos milhares de refugiados que Portugal recebeu, muitos deles sem sequer um documento que comprovasse a sua identidade. Será que o tal Edson Chipenda levou com ele 200 dólares para cada dia que ia passar em Portugal? Nem 20 euros devia levar para o CC Vasco da Gama, onde foi fazer aquele alarido todo, o pateta. Mas não é disto que estamos a falar, nem de quantos brancos frequentam os hotéis de luxo nesses países, pois aí podiamos levantar questão dos ditadores africanos, casos de Mobutu Sessesseku que tinha casa em Portugal, ou de Robert Mugabe, que num assomo de consolidação do seu poder, expropriou os fazendeiros brancos, quando durante 20 anos em que a vida lhe corria nunca lhe tinham feito grande diferença. Mas é de "racismo" que estamos aqui a falar, certo? Então passemos à frente.

O que se entende por "minorias" não tem a ver necessariamente com o menor número de pessoas. Interessante, esse argumento, mas seria ainda mais interessante se arranjassem outro nome para designar essas "minorias que não estão em menor número", e segundo o meu caro leitor que se deu ao trabalho de comentar (e eu devolvo a simpatia respondendo) estas minorias podem ter a ver com "poder de compra, poder de acesso a serviços, poder de tomada de decisão, poder de intervenção, e por aí fora". Quanto ao "por aí fora" não digo nada, mas não tenho quaisquer dúvidas que Portugal é, felizmente, um dos países que menos liga a origem, etnia ou cor da pele na hora da atribuição destas valências. O país está em crise, não é de hoje, e se quisermos combinar as noções de "minoria número" e "minoria" nos outros atributos que refere, ficamos com os ricos, que são realmente muito poucos, e não se queixam de não lhes sobrar dinheiro no fim do mês.

Se me quiser tentar convencer agora que um cidadão excluído, marginal, toxicodependente, institucionalizado, ou que sofra de qualquer outro mal social, tem o mesmo direito às mesmas oportunidades que outro completamente integrado na sociedade, seja qual for a côr da pele de cada um deles, discordo completamente. Um cidadão excluído pode procurar os meios de se reintegrar na sociedade, e esses existem, agora pode é ter mais ou menos acesso a eles, e em muitos dos casos, pode nem sequer estar interessado. Recordo-me de alguns episódios de confrontos entre as autoridades e alguns residentes de um bairro de lata que se recusavam a sair para habitações sociais com muito melhores condições porque não estavam dispostos a largar o "labirinto" onde viviam e levavam a cabo as suas operações "comerciais" ilegais, mudando-se para uma zona urbanística de acesso mais fácil à polícia. E repare que nem estou aqui a mencionar a nacionalidade ou a côr da pele dessas pessoas, que caso não tenha percebido, é o que menos me interessa.

Finalmente, para que fique claro que o comentário do meu caro anónimo prova mais uma vez que o SOS racismo não vive sem o "racismo", a questão da "igualdade", aquilo que o meu amigo designa por "mesmas circunstâncias". Peguemos no exemplo de dois cidadãos "com o mesmo CV", um branco, e o outro preto, que concorrem a uma vaga de emprego. Aqui entra a lenga-lenga do velhote, do rapaz e do burro, que não conseguem contentar todas as partes, quer vão ambos montados no asno, apenas um deles, ou nenhum - se não conhece procure conhecer. Neste caso particular se a pessoa que decide quem ocupa a tal vaga for branco, e escolher o branco, o candidato excluído tem como opção ir a correr ao SOS Racismo, e tanto a entidade empregadora como o candidato escolhido ficam, qual é o termo científico? Ah já sei: "na merda". Caso escolha o preto, e o branco quiser fazer queixa no SOS Racismo, é acusado de "racismo", pois não foi capaz de aceitar que alguém com uma côr da pele diferente da sua e "com o mesmo CV", fosse escolhido em vez dele. E em qualquer dos casos, o empregador é sempre olhado como um "racista", pois na primeira situação foi declaramante "racista", e na segunda tomou contrariado uma opção politicamente correcta, com medo de se denunciar como "racista". Caso o empregador seja preto, pode escolher qualquer um e nada lhe acontece, e pode até se dar ao luxo de contratar apenas trabalhadores pretos, pois para o SOS racismo, só os brancos são "racistas". SOS o quê? Ah, é por isso, já entendi.

Assim como no caso anterior, também as autoridades precisam de aprender este "jogo do galo rácico" para que não haja lugar a mal-entendidos. Na hora de cascar nos vândalos das claques de futebol que provocam distúrbios nos estádios, ou na tradução do SOS racismo, "jovens em pleno exercício das suas liberdades civis e dispendendo energias próprias da juventude num local público" (essa do "público" parte-me todo) a polícia vai precisar de pedir a todos que não tenham a côr da pele branca, tratando-os por "você", ou em alternativa "suas majestades", para que "por favor se retirem", pois precisam de "encher de porrada os cornos dos restantes". E mesmo assim vão precisar de se "identificar, ostendando a placa com o nome em lugar visível da farda", não vá estar lá algum representante de uma dessas "minorias de risco" que goste de levar porrada (pode ser masoquista, nunca se sabe) e se sinta "excluído", podendo a partir daí apresentar queixa das autoridades por "racismo".

Ainda bem dá o exemplo de "viajar livremente sem questionarem as suas intenções", pois no âmbito da acção do SOS racismo estão aqueles tipos que praticam a religião islâmica ou outra qualquer em que ostentem uma aparência que lembra Osama Bin Laden e seus derivados. De facto ao aparecerem num aeroporto de um país ocidental enrolados num lençol branco, com barba de bode e um naperon de Arraiolos a tapar-lhes a mona, não estão a querer ser o centro das atenções nem nada, que ideia - pelo menos se o plano é que ninguém se meta com eles, isso resulta, mas é capaz que as autoridades aeroportoárias não pensem o mesmo, porque...são racistas? Sim, porque com a desculpa de estarem a "fazer o seu trabalho", violam a dignidade de uma múmia, perdão, "senhora muçulmana" que se recusa a mostrar a face, "por pudor", e é preciso "respeitá-la", mesmo que ela não respeite as normas que foram feitas para todos - porque "está no seu direito". E o tal marido que mais parece o Al-Zarkawi nunca pode ser terrorista, porque é demasiado óbvio que alguém vestido de terrorista seja mesmo um terroristas, percebem? Aprendemos isto nos filmes e nos livros da Agatha Christie. O melhor é revistar toda a gente que esteja vestida de "jeans" e camisola, e cuidado com esses tipos de fato e gravata, que o perigo espreita de onde menos se espera.

E esta se calhar foi a lógica do Edson Chipenda naquele dia: usar "psicologia invertida" com o polícia, como se faz com os bebés quando queremos que nos dêm a chucha e dizemos-lhes "num dá tuta, num quelo". Vindo com a sua "posse", correspondendo exactamente (ou muito próximo) à descrição dos mesmos jovens que causaram distúrbios naquela tarde, e se o polícia o impediu de entrar, "agiu mal" e "foi racista". Porquê? Ora, se já tinha acontecido com jovens correspondendo à aparência do Chipenda & Lda., não ia acontecer novamente. Ora bolas, seus "racistas". Se eu tiver um comportamento irregular, e estiver a parodiar-me em frente a dois agentes, usando nada mais do que uma gabardine por cima do corpo, olhando para um lado e para o outro, metendo ocasionalmente as mãos nos bolsos, é "normal", pois seria demasiado óbvio que eu seja um tarado, um violador, um agarradinho ao "crack" em plena ressaca, e o máximo que os agentes podiam fazer era perguntar se eu preciso de ajuda: "precisa de boleia, sr. engenheiro?". É assim, estamos todos a brincar à "igualdade", e aprendemos que suspeitar de alguém apenas baseando-se na aparência, é "racismo". Pois...

É aqui que reside a falácia do SOS racismo: são eles quem mais discriminam, quem mais dá importância às questões da côr da pele, da aparência ou de outro qualquer traço distintivo, seja ele étnico ou cultural, que qualquer outra pessoa que apenas olhe e veja fulano assim, fulano assado, um mas baixo, outro mais magro, e consiga distinguir outros pelos seus traços culturais, ou que exibam símbolos que o identifiquem com uma religião específica, tudo mais. O que o SOS racismo pede é que todos sejam tratados por igual.

- Mas somos todos iguais?

- Sim.

- Como os estrumpfes ou quê?

- Não, somos todos diferentes, também.

- Mau...

- Iguais na diferença.

- Ah...quer dizer, somos diferentes, e nisso somos todos iguais!

- Exactamente!!

- Mas os irmãos gémeos são iguais, então?

- Não são exactamente iguais, e mesmo que na aparência sejam idênticos, por dentro são diferentes.

- Quer dizer, se um tiver diarreia, o outro também tem?

- Nada disso, diferentes, pensam de maneira diferente.

- Mas se estiverem a pensar, como é que vamos saber se estão a pensar diferente um do outro?

- ...


Pois é meu caro anónimo, aqui estão mais algumas "absurdidades" para o meu amigo se entreter a resolver. Porque responder a questões, já se sabe que não é consigo, mas para complicar, temos sempre o SOS racismo.

B'nôte.



A dita-mole


Por motivos de programação (adoro dizer isto, recorda-me as locutoras de continuidade da RTP nos anos 80) não foi possível publicar mais atempadamente o artigo do Hoje Macau da quinta-feira da semana passada, cujo "link" para a edição electrónica do jornal não ficou disponível. Amanhã já vai sair outro, quentinho e fresquinho (nunca entendi como é que o pão pode ser "quentinho" e ao mesmo tempo "fresquinho", mas não entendo nada de geometria descritiva), mas por enquanto aqui fica este, já mais duro, e se quiserem podem fazer açorda com ele. Para quem não gosta de ditaduras ou não tem dentes para dita-duras, dou-vos "A dita-mole". Espero que gostem.

Quando tinha os meus seis ou sete anos acusava aquela espécie de dislexia própria da idade, que me fazia tropeçar em políssilabos menos utilizados pelas crianças da minha idade, ou confundia certas palavras com sons e sílabas idênticas, casos de “ameixa” e “ameijôa”,”Mamede” e “mamute”, ou “dentadura” e “ditadura”. Aqui por dentadura entenda-se aquela dentição postiça que muita gente mais velha usava (e penso que ainda há sobreviventes), um mal necessários nos tempos em que a medicina odontológica não estava ao alcance de todos, e os dentistas eram ainda antigos agentes da PIDE/DGS que depois da extinção desta tiveram que fazer pela vida. Esta dentadura, um antepassado pobres dos implantes dentários, era deixada durante a noite num copo com água, uma imagem que atira para um cenário da Família Adams, ou de um filme de Tim Burton. Os mais novos podem achar isto estranho, mas nem era sequer a pior relíquia dos tempos dos nossos avós. Peçam-lhes que vos expliquem o que era um “clister”, e vão ficar a saber a importância de uma dieta rica em fibras.

Quando me sentava em frente aos noticiários ou outro tipo de programação que não era propriamente indicada para um pequenote como eu (pela complexidade dos conteúdos, entenda-se) via pessoas referirem-se a “ditadura” com um ar grave, alterado, agitado até, e associava aquela irritabilidade ao facto de não lhes ser possível ingerir alimentos sólidos devido a uma “ditadura” defeituosa – não seria por falta de uma, pois não tinham boca de chuchu e falavam uma linguagem inteligível. Apetecia-lhes um bitoque com batatas fritas e estavam fartos de carne picada com puré de batata, em suma. Nunca deixei de relacionar a “dentadura” com a “ditadura”, mas claro que me percebi um dia que “ditadura” era o sistema autocrático e autoritário, onde todo o poder estava concentrado apenas num orgão, colocando-se assim na extremidade oposta da “democracia”. Como todos sabem, “democracia” é uma palavra derivada do grego “demos”, ou “povo”, e “kratia”, que é “poder” – é portanto o “poder do povo”, ou o “governo pelo povo”. Se isto não é novidade para ninguém, aposto que pouca gente se deteve durante um minuto que seja a analisar o significado real desta ideia, do povo no poder. Afinal parece que as togas e as barbas compridas ostentadas pelas elites pensadoras da antiguidade clássica eram mesmo um sintoma de loucura, e o “Ateneu” era na realidade o nome de um manicómio. Deliravam, coitados, e devia ser da febre do feno-grego.

Mas nem tudo se coloca nestes termos: ou ditadura, ou democracia. Existe um meio termo, vários até, e mesmo dentro das ditaduras há as mais “soft” e as “hardcore”, e as democracias nem sempre são sinónimo de ordem, justiça social e governação competente. Das democracias que conhecemos melhor, olhemos para o caso de Portugal, que não sendo uma democracia fracassada, fica muito aquém das expectativas – pode-se dizer que é uma “democracia pindérica”. Já no que a ditaduras diz respeito, temos logo aqui ao lado o exemplo da China. É um sistema autoritário, autocrático, com todo o poder concentrado num único orgão, neste caso o Partido Comunista, correspondendo portanto à descrição de uma ditadura, e neste caso particular, uma “ditadura do proletariado”, que usa como designação oficial do seu sistema político de matriz socialista. Este “proletariado” é em teoria o indivíduo que nada mais tem de seu que a roupa que traz no corpo, e a força do seu trabalho, as suas aptidões, de que depende para sobreviver. Hoje em dia este “proletariado” chinês tem muito mais do que isso, e nalguns casos na roupa que traz no corpo lê-se “Armani”, ou “Pierre Cardin”, que não soam nada a nomes de heróis revolucionários ou educadores da classe operária. E agora a pergunta sacramental: e Macau, o que é?

Macau, em tempos um território ultramarino português, não herdou dos seus antigos senhorios uma tradição democrática por excelência – facto muitas vezes realçado por quem perante as evidências declara que Macau “não é uma democracia”. Por outro lado, sendo uma região administrativa especial sob a alçada da R.P. China, a tal “ditadura do proletariado”, não é uma ditadura em si, longe disso, e apesar de reunir algumas condições para tal, dá-lhe uma pintura em tons mais vivos, mais alegres: é uma dita-mole, assim hifenizado e tudo, para transmitir a ideia de forma mais esclarecedora. Numa ditadura impõem-se as directivas pela força, numa dita-mole pede-se amavelmente, não propondo qualquer outra alternativa; numa ditadura usa-se a opressão, numa dita-mole o desencorajamento; numa ditadura obriga-se à participação em actos públicos, numa dita mole mandam-se convites irrecusáveis; numa ditadura não há eleições, numa dita-mole há mas é o mesmo que se não houvessem; numa ditadura cultiva-se a censura e o medo, numa dita-mole arranjam-se distrações. Como se pode ver, a dita-mole é o melhor dos sistemas maus, e ao mesmo tempo o pior dos bons.

Enquanto na ditadura temos um ditador, na dita-mole não há exactamente uma figura de proa, puxando todos para o mesmo lado, que é o da moleza. Na dita-mole não existe estagnação, mas sim estabilidade. Não se fala de inércia, mas sim de continuidade. Clientelismo e corrupção não, está a confundir com amizade e incentivo. Falta de alternância democrática? Olhem para os resultados, e digam quem é vamos substituir e deixar triste num mundo de gente contente? Variedade para quê, se estão todos contentes com o que temos? Sei, sei, a canção nº 1 do top é a “Harmonia”, porquê, não gosta? Gosta pois, vamos lá cantar, vá, sei que sabe a letra de cor e salteado. Qual é o seu problema mesmo, que lhe arranjamos já um subsídio e isso passa. Quer ir embora? Tem a certeza, veja lá...

Com tanta gentileza, como vamos recusar o amável convite desta dita-mole, que é mole mas não se parte, e para apreciá-la nem é preciso uma dentadura. As democracias nem sabem o que estão a perder, ali entregues ao Deus-dará, cada um livre de fazer o que muito bem lhe apetecer. Nós pelo menos temos “molengões” que garantem que continuamos parados no mesmo sítio, mas pelo menos estamos sentados e para trás é que não vamos, com toda a certeza. É dita-mole, mas é a nossa dita-mole.

Porto novo, velho sabor


O novo FC Porto, agora com o espanhol Julen Lopetegui ao comando, confirmou o bom arranque de época, ao vencer ontem no Dragão os franceses do Lille por 2-0, confirmando o triunfo na semana passada em França por 1-0, e garantindo a presença na fase de grupos da Liga dos Campeões, juntando-se aos rivais de Lisboa, Benfica e Sporting, no sorteio de amanhã em Nyon. Ainda com algumas arestas por limar no capítulo do entrosamento, Lopetegui conseguiu construir uma equipa que não apresentando um futebol muito bonito, consegue fazer um jogo apoiado, rigoroso na defesa e rápido nas transições - mais importante que isso, eficaz. O brasileiro Fabiano parece ser o sucessor de Helton na baliza, e no centro da defesa a aposta recaíu novamente em Maicon e Bruno Martins Indi, com Danilo na direita e Alex Sandro na esquerda, que viria a sair lesionado aos 38 minutos, dando o seu lugar a Diego Reyes. No meio-campo Casemiro está gradualmente a fazer esquecer Fernando, e no miolo tem a companhia do mexicano Hector Herrera, que parece ter ganho lugar a titular na equipa, e um pouco mais adiantado o adolescente Rúben Neves, que parece ser um "protegido" do novo técnico. O municiamento foi providenciado por outro jovem, o espanhol Oliver Torres, que juntamente com Yohan Brahimi tinha a função de servir o homem mais adiantado, o colombiano Jackson Martínez, que da defesa para a frente é o único "sobrevivente" do plantel da época passada. O irreverente Ricardo Quaresma, que esteve para ser vendido, voltou à equipa mas não saiu do banco de suplentes.

O Lille vinha ao Porto apostado em fazer uma surpresa, sendo uma equipa com características que lhe permitem jogar em contra-ataque, e contava no seu onze com estrelas como o guardião Enyema, o defesa Kjaer, os médios Mavuba e Gueye, e o avançado belga Origi, uma das jovens revelações do mundial do Brasil. No entanto o Porto mostrou ser sempre superior, tanto nesta partida como em toda a eliminatória, e depois de uma primeira parte sem golos, marcou logo no início do segundo tempo por Brahimi, que finalmente fez o gosto ao pé, depois das últimas exibições que tudo levam a crer vir a ser um dos indispensáveis desta nova versão dos dragões. Aos 69 Jackson Martínez fez o 2-0, marcando o terceiro golo da sua conta pessoal em quatro jogos oficiais, em que o Porto venceu sempre e ainda não consentiu qualquer golo. Noutras partidas do "play-off", vitória e respectiva passagem à Champions para as equipas da casa, com excepção do Celtic, que depois de um empate a uma bola na Eslovénia frente ao Maribor, foi surpreendido em casa por 0-1. O Zenit de André Villas-Boas "despachou" os belgas do Standard Liége por 3-0, depois de ter vencido por 1-0 fora, o APOEL do Chipre bateu por 4-0 os dinamarqueses do Aalborg, após empate a uma bola na primeira mão, mesmo resultado obtido pelo BATE Borisov na Eslováquia contra o Slovan, vencendo ontem por 3-0 na Bielorrússia.

terça-feira, 26 de Agosto de 2014

A batalha final


Macau vive neste momento a maior crise política da sua ainda curta vida como Região Administrativa Especial da R.P. China. Cidade pacata, conhecido no exterior pela "Las Vegas do Oriente", a RAEM foi notícia em tudo o mundo depois do último fim-de-semana, e não pelos motivos habituais. Em vez de mais um recorde de receitas geradas pelos casinos, foram os direitos contemplados na Lei Básica, a mini-constituição elaborada à luz do princípio "um país, dois sistemas" a fazer eco na imprensa internacional: um grupo de jovens activistas do campo da pan-democracia, comuns em Macau e Hong Kong ao abrigo das liberdades de expressão e de associação, inexistentes na China Popular, foram detidos pelas autoridades enquanto realizavam na rua uma consulta popular. Para os menos atentos à actualidade ou desconhecedores da realidade de Macau, tratou-se de mais um episódio da longa novela do activismo pró-democracia, "etiqueta" que a opinião pública está habituada a ver colada em qualquer notícia sobre a China, que esteja remotamente relacionada com a política ou os direitos humanos. Mas esta não foi uma consulta qualquer, e nestas questões em que se envolve o nome da China e dos activistas que se opõe ao regime totalitário de partido único com sede em Pequim, existem normalmente dois desfechos: ou fica tudo como está, ou acaba muito mal. Não é Macau das luzes dos casinos e dos centros de diversão nocturna, dos monumentos, da traça arquitectónica portuguesa, da diáspora macaense ou do célebre Grande Prémio em Novembro, o Macau antigo, descrito pela poesia de Adé dos Santos Ferreira ou pela prosa de Henrique de Senna Fernandes, a Macau cristã, pequenina, acolhedora, tolerante, que outrora mais fazia lembrar um oásis à beira da buliçosa e agreste Hong Kong, não é nada disto que está aqui em causa. O que se decide daqui a menos de uma semana é o futuro da RAEM e do segundo sistema, que rumo levará. Um dos caminhos possíveis não tem saída. É o precipício. É o fim.


Estes são alguns dos elementos responsáveis pela consulta que levou à detenção de alguns deles - cinco, para ser mais exacto. As três associações a que pertencem são a Juventude Dinâmica de Macau, a Consciência Macau e a Sociedade Aberta de Macau, todas elas saídas da mesma "alma-mater", a Associação Novo Macau (ANM), a autoridade máxima do activismo e da retórica anti-sistema no território com ligações quase embriónicas ao campo da pró-democracia de Hong Kong. Reparem que com excepção de dois ou três aparentam ser todos bastante jovens. E de facto há ali mesmo alguns que nem 20 anos completaram ainda. Podiam ser os nossos filhos. Quem são afinal? O que pretendem, e o que os leva a colocarem-se à beira do abismo, a chegarem ao ponto sem retorno? Que trunfos têm eles na manga que possam usar contra um adversário indiscutivelmente mais bem apetrechado que eles, e ainda com o apoio do Governo Central, a quem pouco ou nada agradam estas manifestações de rebeldia?


Para entender melhor os porquês desta "bomba" que está prestes a rebentar-nos nas mãos, recuemos até 25 de Maio. Era uma tarde quente de Domingo, e um grupo de associações onde se incluíam os democratas e outros grupos tradicionalmente desalinhados do Governo organizam uma manifestação para protestar contra uma proposta de lei que se preparava para ser aprovada na especialidade dias depois na Assembleia Legislativa. O diploma em causa, designado por "Regime de garantia dos titulares do cargo de Chefe do Executivo e dos principais cargos a aguardar posse, em efectividade e após cessação de funções", que explicado em poucas palavras, previa que os detentores de altos cargos públicos gozassem de regalias e privilégios que para muitos analistas eram considerados "exagerados". O artigo mais controverso do diploma tinha a ver com imunidade do Chefe do Executivo, que segundo o texto da lei não precisaria de responder em qualquer processo judicial em que fosse arguido, com efeitos retroactivos à tomada de posse do 1º mandato, a 20 de Dezembro de 1999. A popularidade do Executivo estava em baixa e tudo isto parecia suspeito, e assim 10 mil pessoas saíram à rua nesse Domingo, na manifestação mais concorrida de sempre.


A adesão à manifestação foi vista como uma surpresa, mas nem isso demoveu o Executivo de votar a lei dois dias depois, na terça-feira - parecia haver pressa da parte do Governo, o que levantou ainda mais suspeitas. As redes sociais, de onde já tinha partido a convocatória para a manifestação de dia 25, intensificam a campanha para que a lei fosse retirada. A próxima paragem seria a Assembleia Legislativa.


Terça-feira, dia 27. Depois do sismo dois dias antes, dá-se uma réplica mesmo em frente à sede do orgão legislativo da RAEM, com cinco mil manifestantes a exigirem que se retirasse a lei, incondicionalmente. Pouco habituado a ousadias deste tipo, a AL recua, e anuncia a suspensão da votação da lei. O desconforto começava a ser evidente, e dias antes da votação o vice-presidente do hemiciclo, Lam Heong Sang reage mal a uma questão posta por um jornalista em relação à lei. O nervosismo começava a tomar conta da nomenclatura.


O dia seguinte, quarta-feira, dia 28. Chui Sai On faz uma das suas raras aparições fora de agenda, e acompanhado da Secretária para a Administração e Justiça Florinda Chan, e o porta-voz do Conselho do Executivo Leong Heng Teng, anuncia o adiamento sine diem da votação do polémico Regime de Garantias. Os sorrisos e a calma são apenas superficiais, e notava-se já o nervoso miudinho. Apesar da diplomacia e do aparente bom humor, a China começava a ficar a atenta às cogitações dos dias anteriores. O Governo não quebrou, mas torceu, e se a manifestação do dia 25 tinha sido uma advertência, este foi já o cartão amarelo.


Chegamos a Junho, e no dia 4 assinalam-se os 25 anos do massacre de Tiananmen. Como já era habitual, o IACM havia reservado o Largo do Senado para actividades relacionadas com o Dia da Criança, uma estratégia usada para evitar que a vigília pelos estudantes que perderam a vida durante o esmagamento do movimento estudantil em 1989 se realizasse no centro da cidade. Com os ânimos ainda exaltados devido aos acontecimentos da semana anterior, não se recomendava mais uma "crise", e o IACM decide cancelar a actividade, e acontece aquilo que já não acontecia há 19 anos: a vigília ocupa a principal praça de Macau, com uma participação de de dois milhares de pessoas.



Se a polémica ficou fora do Senado, mas não das Universidades. Durante a cerimónia de graduação da Universidade de Macau, já no novo campus da Ilha da Montanha, uma estudante de nome To Weng Kei, membro do grupo pró-democrata, segura um cartaz onde pede para que "parassem as perseguições aos académicos" naquela instituição de ensino. Em causa estava mais precisamente Bill Chou, professor de Ciência Política alegadamente suspenso devido à sua filiação com ANM. A UMAC resolve mal a situação, obrigando a aluna a deixar a sala onde decorria a cerimónia, ao mesmo tempo que Choi Chi Chio, um repórter da Macau Concealers, publicação ligada aos democratas, é agredido pelos seguranças. Para piorar as coisas, no dia seguinte morre o panda San San, uma das metades do casal que o Governo Central ofereceu à RAEM por alturas do 10º aniversário do retorno à Pátria - Chui Sai On e seus pares andavam a precisar de ir à bruxa.


Ainda se cumpria o período de luto oficial por San San, e andava a UMAC a pensar como explicar o incidente do dia 22, e já noutra instituição de ensino da RAEM se dava mais um caso: Eric Sautedé, também ele professor de Ciência Política, recebe a notícia de que não vai ter o seu contrato renovado como docente na Universidade de S. José. O portador da má nova é o Padre Peter Stillwell, reitor da USJ, e passa-se a uma troca de acusações com reprecussões na imprensa local e estrangeira, que deixam sérias dúvidas sobre a situação da RAEM em matéria de liberdade académica. Quer Sautedé, que Bill Chou seriam despedidos, e apesar do Executivo, através do próprio Chui Sai On, garantir que "as liberdades estão asseguradas", o presidente do Gabinete de Apoio ao Ensino Superior, Sou Chio Fai, remete-se a um silêncio confrangedor.


Na semana seguinte ao incidente na UMAC, Sulu Sou Ka Hou torna-se no presidente mais jovem de sempre da Associação Novo Macau. Candidato às eleições para a AL em Setembro de 2013, o activista de apenas 24 anos esteve em grande destaque nas manifestações de 25 e 27 de Maio, e foi um dos mais inflamados oradores do 4 de Junho no Largo do Senado. Natural na arte de segurar o megafone, peixe na água entre as multidões, Sulu Sou tem um sonho: trazer a democracia para Macau, sem que seja necessária que a China tome a iniciativa. Entretanto a 29 de Junho decorria a eleição dos membros do Colégio Eleitoral que iriam por sua vez eleger o quarto Chefe do Executivo, dois meses depois. O novo presidente do ANM faz desta eleição o seu primeiro cavalo de batalha: porque não pode a população votar também para o Chefe do Executivo? Isto era o prenúncio do que estava para vir.


A 1 de Julho realiza-se a maior manifestação da história da RAE de Hong Kong, com meio de milhão de participantes a demostrar o seu descontentamento pelo Executivo liderado por C.Y. Leung. Mas deste lado o Governo preparava-se para ter o seu próprio problema para resolver: na segunda semana de Julho os democratas anunciam a realização de um referendo sobre o sufrágio directo e universal para a eleição do Chefe do Executivo. O mentor deste referendo, uma consulta pública onde se pedia à população que votasse duas moções: se queria eleger em 2019 o Chefe do Executivo, e se confiava no candidato Chui Sai On para ocupar essa posição. Era evidente que se tratava de uma provocação, e o "timing" era também perfeito. O referendo civil ia-se realizar entre 24 e 31 de Agosto - este o mesmo dia da eleição para o Chefe do Executivo propriamente dita. Jason Chao promete anunciar os números da participação e o resultado da moção nº 1 no dia 31, e o resultado da 2ª moção no dia 2, após o anúncio do vencedor da eleição para Chefe do Executivo. Isto é explosivo, e já vamos ver porquê.


Este novo facto deixou o Executivo e restante nomenclatura em "tilt". Entre opiniões que davam o referendo como "ilegal", por não estar previsto na Lei Básica, outras mais pragmáticas viam na iniciativa uma simples consulta. Com efeitos devastadores para a imagem de Chui Sai On e do Executivo, a China não iria gostar com toda a certeza, mas apenas uma consulta que não produziria efeitos jurídicos, e por isso não poderia ser considerada "legal", nem "ilegal". Apreciada a situação pelo Tribunal Judicial de Base, este absteve de se pronunciar, devolvendo a "batata quente" ao Executivo. Como não havia forma de demover os democratas da sua intenção, recorreram-se a todos os expedientes possíveis para atribuir carácter de ilegalidade ao referendo civil. Enquanto tentavam sabotar o referendo e ameaçar os seus organizadores, a aproximação à população era mais suave, apelando a que não participassem. Os últimos cartuchos foram disparados no dia 22 , dois dias antes do início da participação da população no referendo civil, e o móbil foi o Gabinete de Protecção dos Dados Pessoais (GPDP), que interpretou a lei dos dados pessoais de modo a que fosse considerado ilegal recolher o número do BIR dos residentes de Macau, e no caso de persistirem, acusadores os organizadores de "desobediência".


Chega 24 de Agosto, o dia "D" do referendo civil. A partir da meia-noite começa a ser possível votar pela internet, e devido à proibição do IACM em organizar o referendo na rua pela via clássica, através das urnas, os democratas saem de "tablets" na mão para apelar ao voto dos residentes. Scott Chiang (à direita) e os restantes na imagem são detidos na Rua da Praia do Manduco, com base na "adaptação" feita à pressa da lei dos dados pessoais, e levados para a esquadra da PSP na Calçada de Santo Agostinho, onde ficam todo o dia. Por volta da hora de almoço, Jason Chao anuncia que vão abandonar a acção de rua, e o referendo passará a realizar-se apenas "online". Isto não impede que seja também detido, enquanto ia à casa-de-banho (?) junto à Rua do Campo, e é levado para a esquadra da PJ no COTAI, onde segundo o próprio "lhe foi pedida a base de dados", que se recusou a entregar. Durante todo o dia de Domingo a polícia patrulhou as ruas, ora acompanhada do GPDP, quer de outras entidades públicas, numa verdadeira "caça aos democratas". Na segunda-feira Jason Chao é apresentado ao Ministério Público, acusado de desobediência agravada, e fica com termo de identidade e residência, a medida de coacção mais leve de todas - isto demonstra a falta de coordenação entre as partes, e ninguém parece querer sujar as mãos subvertendo as leis com o único de fim de proibir algo que nunca foi proibido. O desespero é evidente, pois não só o referendo civil foi para a frente, como o pior ainda está para vir.


Neste vídeo uma repórter de um canal estrangeiro (aparentemente da BBC) pergunta a Vong Hin Fai, mandatário da campanha de Chui Sai On sobre as detenções de Domingo, e o advogado e deputado foge às perguntas, limitando-se a dizer que a campanha decorre com normalidade. Demasiada normalidade, e de facto fala-se de campanha em Macau, mas perante as notícias que chegam lá fora, Vong Hin Fai está a acenar com um fósforo aceso, quando atrás de si está um prédio de 20 andares em chamas. A própria Amnistia Internacional veio manifestar a sua preocupação com aquilo que chama "grave violação do direito à liberdade de expressão". Sulu Sou, presidente do ANM, marcou para hoje um encontro com Chui Sai On, mas o candidato mandou Vong Hin Fai no seu lugar. Parece tudo calmo entre a classe dirigente, que parece ignorar o referendo civil na aparência, mas na prática soltou-lhe os cães. E não é difícil perceber as razões.


Estes são os números da participação no referendo. Depois de 3335 votos expressos no primeiro dia, ao fim do terceiro já tinham participado quase 7 mil residentes, e é muito possível que o número ultrapasse os 10 mil. Estes números, assim como o resultado da primeira moção, são divulgados no dia em que decorrerá a eleição do Chefe do Executivo, no Macau Dome. Enquanto um colégio de 400 elementos vai votar numa eleição a que concorre um único candidato, Jason Chao vai mostrar que uma maioria entre 10 mil residentes concordam com o sufrágio universal para a eleição do Chefe do Executivo. Neste particular tenho algumas dúvidas, pois não acredito que a diferença entre o "Sim" e o "Não" seja tão evidente. O "Sim" ganhará, quase de certeza, mas há muita gente que ainda duvida da capacidade do eleitorado de Macau em tomar uma decisão desta importância, devido à falta de cultura cívica. Isto acreditando que os eleitores recenseados que estão a participar nesta consulta são pessoas com o mínimo de educação e consciência, e sabem que de um mero inquérito "online" não vão surgir consequências legais. O pior vai mesmo ser na terça-feira, dia 2. No dia seguinte ao mais que provável anúncio de Chui Sai On como 4º Chefe do Executivo pela Comissão Eleitoral, Jason Chao vai apresentar o resultado da 2ª moção, onde tudo indica que a maior parte dos 10 mil participantes do referendo civil diga que não confia na pessoa que acabou de ser eleita para o cargo mais alto da hierarquia política da RAEM para os próximos cinco anos. E aqui, meus amigos, não é onde a porca torce o rabo: é onde porca fica entalada e é depois despedaçada aos bocadinhos, com sangue e tripas pela parede e pelo tecto. Aconteça o que acontecer, no dia 3 de Setembro, após passar o vendaval, vai alguém andar a apanhar os destroços. Quem, não sei. Será que a China tem a última palavra?

Eu vi um sapo


Se os chineses são conhecidos por comer "tudo o que tenha as costas voltadas para o sol ou quatro pernas e não é mesa", há um restaurante em Tóquio que vai ainda mais longe - bem longe, ao fundo do pântano. O restaurante "Memory Lane", localizado no bairro turístico de Shinjuku, na capital nipónico, serve um prato que consiste de uma rã esfolada viva, decapitada viva, e servida...viva: e o "sashimi" de rã-touro, a especialidade do sádico, perdão, "chefe" da casa, Vou avisando desde já as pessoas sensíveis e restantes que se opõem a este tipo de "detalhe" da culinária asiática que o vídeo pode chocar, e sim, vê-se o anfíbo a espernear quando vem para a mesa cortado quase todo aos pedacinhos e decorado com gelo e limão (pelo menos o gelo deve ajudar a suportar as dores, se as rãs sentem dor, não sei, pelo menos esta não guincha). A simpática menina que vemos neste filme de menos de dois minutos começa a comer o batráquio ainda semi-vivo, e parece toda satisfeita. Se calhar tem pressa, e pode ser que o bicho acabe por falecer completamente antes de lhe cair no goto. Os ocidentais que visitam o restaurante ficam chocados, naturalmente, ao assistir à rã a tentar sair do prato onde não foi parar "por acaso". Outras especialidades desta curiosa tasca dos horrores incluem testículos de porco (o que é normal, come-se no Alentejo e mais abaixo), salamandra grelhada e um aperitivo que é outra especialidade da casa: corações de rã sem a rã agarrada, mas ainda a bater! Tum, tum! Tum, tum! Se forem a Tóquio passem pelo restaurante do Dr. Fran-ko-se-ta-niooooooo! Aso! Ou não. Se calhar é melhor riscarem essa actividade do "tour", e se quiserem saber porquê, vejam o vídeo (eu avisei para não verem).

Ilegal radical


Em primeiro lugar gostaria de deixar claro que não concordo em quase nada do que esta imagem que compara os malefícios do tabagismo com os benefícios do consumo de "cannabis". Melhor do que qualquer uma destas opções é nenhuma; não fumar, abster-se, beber água mineral como alternativa. Apetece-vos fumar? Vão dormir que isso passa. É um facto que o tabaco é uma substância legal e acessível a qualquer maior de 18 anos (em alguns países menos), provoca cancro e outras doenças das vias respiratórias e do sistema circulatório, é um hábito cada vez mais caro, e altamente viciante. No entanto não é verdade que optar pela "passa" é algo que se recomende, porque "faz bem" e "cura o cancro" - falso, e ainda mais falso. É verdade que as propriedades medicinais da "cannabis" (e atenção que "medicinal" não é necessariamento saudável; os electro-choques e a lobotomia são "medicinais" também) torna o tratamento das doenças oncológicas mais suportável, pois provoca uma sensação de bem-estar e estimula o apetite, reduzindo a sensação de enjôo provocada pelo "cocktail" de medicamentos que entram na quimioterapia. Se "não vicia" é discutível, pois provoca dependência psicológica, mesmo que isto seja muito menos grave que a dependência de opiáceos como a morfina ou a heroína, cuja dependência física tornam gradualmete o seu consumidor num escravo da substância. Quanto ao investimento de dinheiro público no combate ao tráfico de "cannabis", concordo plenamente: é dinheiro deitado fora. Mas já lá vamos.

Não é para fazer "lobby" pró-legalização que serve este artigo, mas para tentar perceber o que leva alguém a preferir a chungaria e a candonga à legalidade e à qualidade. Isto fazendo fé nesta notícia do JN que dá conta do aumento do número de jovens portugueses que não quer a legalização da "cannabis", apesar do consumo se manter ao mesmo nível, senão tiver aumentado, que é o mais provável. No último estudo realizado em 2011 a jovens entre os 15 e os 24 anos que tinham experimentado "cannabis" pelo menos uma vez, eram 52% os que não concordavam com a legalização da erva, e actualmente este número aumentou para 66%. A tendência é seguida por outros países como a Holanda (a isto chama-se "falar de barriga cheia"), Bélgica e França, enquanto na Alemanha, Áustria e Itália há mais jovens a favor da legalização.

Manuel Cardoso, sub-director do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) diz-se "surpreendido" com o resultado - e deve saber do que fala, uma vez que Portugal é tudo menos um país de gente abstémia e regrada. No entanto este responsável aponta para uma série de factores que podem contribuir para estes números, entre eles as campanhas de sensibilização dos jovens para os comportamentos de risco, e mais importante, a despenalização do consumo e da posse da substância em pequenas quantidades. Desde 2001 que em Portugal o consumo deixou de ser crime, e apenas a comercialização está proibida por lei, uma iniciativa considerada "pioneira", e que tem surtido resultados positivos, pois o nosso país está entre os dez primeiros do mundo desenvolvido que mais rejeita a legalização da "cannabis". Portanto a lógica da malta é muito simples: "a gente gosta, sabemos que 'curtir' não vai dar 'cana', então para quê legalizar?". É preciso salientar mais uma vez que a comercialização é ilegal, é crime. Se forem apanhados com uma quantidade passível de ser considerada para venda, podem ir presos. Entendido?

De facto não sei se algum país legalizou a marijuana de forma categórica, pois mesmo na Holanda, conhecida pelos cafés da especialidade, é apenas "tolerada", e o seu estatuto continua a ser de substância ilegal. Mas na Holanda e outras jurisdições onde se "levantou o pé" os resultados são espantosos, pois o consumo diminuíu, o que nos leva a assumir que a componente do risco associada à rebeldia contribui para o maior consumo de dissociativos. No entanto há que olhar para o quadro no seu todo, e não apenas para um ou dois detalhes: enquanto as drogas continuarem a ser proibidas, continuará a existir tráfico, pois trata-se de um negócio lucrativo. Apenas a legalização das drogas, e como já defendi aqui, de todas sem excepção, vai fazer com que diminua o tráfico e o consumo, e por inerência os problemas que que estes acarretam: a marginalidade, o vício, a exclusão, a "overdose" provocada por drogas maradas, etc.. E porquê? Porque nem todos estão metidos nisto para "curtir". Há o factor do lucro, que só por acaso é o principal. Que os "chavalos" portugueses queiram continuar a apanhar as suas "mocas" ilegalmente, pagando mais e sem garantia de um produto de qualidade, é uma "ganda cena", que além de "bué da marada", deixa-me "duh, duuuhh", sem entender "népias". Oiçam lá, seus "gandas defs", estão bem?

Real Madrid entra a ganhar


O Real Madrid entrou a ganhar na Liga espanhola, ao derrotar esta segunda-feira no Santiago Bernabéu o recém-promovido Córdoba por 2-0. Uma vitória mais complicada do que se previa em teoria, com Karim Benzema a marcar o primeiro aos 30 minutos, e o golo da tranquilidade a chegar já nos descontos, autoria de Cristiano Ronaldo. O português foi titular e jogou toda a partida (tal como o defesa luso-brasileiro Pepe), parecendo estar a recuperar a sua condição física. A maior preocupação é agora o eventual castigo a ser-lhe aplicado pela agressão ao defesa Diego Godín na partida para Supertaça da última sexta-feira. Recorde-se que os "merengues" perderam com o Atletico Madrid por 0-1 depois de um empate em casa na primeira mão. E também devido a esse compromisso os "colchoneros" jogaram também na segunda-feira, não ido além de um empate sem golos na curta deslocação ao Estádio Teresa Rivero, reduto do Rayo Vallecano, nos arredores de Madrid.

Manchester rico e Manchester pobre


Sortes diferentes para as equipas de Manchester na 2ª ronda da Premier League. O Manchester City, campeão em título, venceu em casa o Liverpool por 3-1 no jogo grande da jornada, disputado ontem, segunda-feira. O montenegrino Stevan Jovetic esteve em destaque ao apontar os dois primeiros golos do City, aos 41 e aos 55 minutos, e Agüero fez o 3-0 aos 69. O ponto de honra do Liverpool foi cortesia do defesa da equipa da casa, Pablo Zabaleta, que marcou na sua própria baliza aos 83 minutos. A equipa de Manuel Pellegrini somou a segunda vitória, depois de ter batido em St. James Park o Newcastle por 2-0 na ronda inaugural, e soma agora seis pontos, tantos quantos Chelsea, Swansea e Tottenham, que no Domingo goleou em casa o Queen's Park Rangers por 4-0


Também no Domingo jogou a outra equipa de Manchester, o United, que continua sem vencer desde a chegada do técnico holandês Louis Van Gaal. Os "red devils" foram ao nordeste de Inglaterra empatar a uma bola com o Sunderland. Juan Mata ainda adiantou os visitantes aos 17 minutos, mas aos 30 Jack Rodwell empataria para a equipa orientada pelo uruguaio Gustavo Poyet. Os adeptos do Man. United continuam a desesperar, e estão mortos de saudades por Alex Ferguson. Rei morto, rei difícil de ser posto.

segunda-feira, 25 de Agosto de 2014

A bomba Ung


Buenas noches! Lembram-se de um tal Ung Choi Kun? Não? Pensem lá melhor, é aquele velhote estrábico que foi deputado à Assembleia Legislativa em dois mandatos, entre 2005 e 2013. De que orgia maluca saíu tal criatura? Das eleições directas. Não, a sério, ele foi eleito como nº 2 da Associação dos Cidadãos Unidos de Macau, de Chan Meng Kam e os gajos de Fujian, e agora já se lembram? Ainda não? É aquele que ia com Chan Meng Kam bater à porta dos apartamentos do Porto Exterior, à caça de pensões ilegais, isso diz-vos alguma coisa? Embirrava de vez em quando com a TDM, e uma vez criticou o canal público de televisão por não ter feito uma cobertura intensiva do terramoto de Sichuan, em 2008. Bolas, não me digam que não se lembram do deputado que uma vez foi eleito o segundo menos popular do hemiciclo, e destacava-se pelas suas intervenções assaz oportunas, em defesa das massagistas das saunas, e contra a calçada portuguesa, coisa "pouco patriótica" ou numa que o imortalizou, queixando-se contra o teste de admissão na advocacia, por ser "demasiado difícil", e alegando que a Lei Básica "defende o direito dos residentes escolherem a sua profissão - mesmo que não "pesquem patavina" do ofício. Depois do presidente da Associação de Advogados ter sugerido que o deputado "não conhecia a Lei Básica", o seu colega de bancada Chan Meng Kam reagiu, dizendo que Ung não era nenhum estúpido, e que "tinha lido a Lei Básica". Era um fartote, o velhote, que no ano passado pendurou as chuteiras legislativas, dando lugar aos novos, nomeadamente Si Ka Lon e Song Pek Kei - e desconfio que esta última deve ser sua afilhada, a quem transmitiu parte dos seus vastos "conhecimentos".

Agora que já sabem quem é, passemos ao que interessa: o velho é uma besta. Não sei se por sede de protagonismo pelo facto de já não ser deputado e não aparecer tantas vezes na televisão, ou simplesmente porque sofre de demência (inclino-me para esta hipótese), Ung Choi Kun foi hoje demonstrar que quem sabe nunca esquece, e depois de mais de um ano sem aturar os seus disparates, veio-nos trazer um "concentrado" dos mesmos, para que possamos matar saudades e ficar com o armário cheio durante uns tempos. Esta tarde algum idiota lembrou-se de lhe passar um microfone para a mão durante uma reunião da Associação Comercial de Macau, de que Ung é membro de direito na condição de presidente das Associações de Fomento e Desenvolvimento Predial (oh, oh), e o tipo lembrou-se de uma muita boa...merda: e que tal usar a Lei relativa à defesa da segurança do Estado para impedir a organização do referendo civil, aquela pedra no sapato do Executivo e "coincidentemente" do sector empresarial, como Ung acabou de provar com a sua boca de "apa-fede"? É isso mesmo, pá! Vamos pegar na lei que o artº 23 da Lei Básica deu à luz e baptizou de Lei 2/2009, que garantiram a pés juntos que não ia interferir nas liberdades de ninguém, e "fritamos" os putos antes que eles nos estraguem o esquema, que tal?

Não sei se a distinta plateia, onde podemos ver na condição de incognito o internacional chileno ao serviço dos ingleses do Arsenal, Alexis Sanchez, concordou com a ideia. Se calhar até dava jeito, pois o referendo que anda aí desde ontem qual ratazana no galinheiro ainda é só uma parte do rastilho; esperem até à divulgação dos resultados para assistir a uma exibição de fogos de artifício nunca antes vista por estas bandas. Não é que Ung Choi Kun seja exactamente um génio, longe disso, e há quem já se tenha lembrado deste "truque", o problema é que seria o mesmo que resolver uma rivalidade bairrista largando uma bomba de neutrões no bairro rival. Mas Ung Choi Kun pintou a manta, e como já tem 67 anos, uma idade boa para se começar a "kagar & andar" nos que vêm depois, e justifica a sua "preocupação" com os efeitos do referendo - que recordemos não são nenhuns, na prática, e esta ginástica que tem sido fazer do não previsto um imprevisto que não sendo legal é ilegal, tem sido o cabo dos trabalhos. Lei da Segurança do artigo 23? Se em 25 de Maio tivemos 10 mil e foi o que foi, como seria se tivessemos 100 mil?

Mesmo assim o ex-deputado recorda que por causa desta treta dos referendos "muitos países se separaram da sua pátria original", tornando-se assim "independentes". Os velhacos! Quem é que nos dias que correm ambiciona à auto-determinação, podendo tomar as suas decisões sozinho e não precisar de depender de ninguém? Ung deu exemplos concretos, casos da Crimeia (?), e das repúblicas que compunham a ex-Jugoslávia, actualmente independentes, como o Croácia, por exemplo. Uma preocupação que pouca gente tem, mas é para isso que está cá o Ung Chou Kun, para nos lembrar: o que seria se Macau resolvesse regressar ao estatuto de nação soberana e independente de que usufruía antes dos piratas portugueses a integrarem na bacia hidrográfica do Tejo em 1557, e depois a ter devolvido em 1999 à China, onde nunca pertenceu? Já imaginaram? Isto requer conhecimentos de História só possíveis de adquirir nas melhores escolas secundárias de Fujian. Não é para qualquer um.

Felizmente na hora de dizer o que muita gente pensou (ou temeu), a responsabilidade ficou a cargo de um pateta, a partir daqui não há diluente que apague a nódoa em cima de uma solução desta natureza. Mas imaginemos que seria como este infeliz propõe, e aqui desta Gibraltar arraçada de Quebeque com um cheirinho a Escócia se lembravam de atirar com o barro da lei da segurança do Estado à parede do referendo civil?

Primeiro passo: ler a lei, e não custa nada, pois são apenas quinze artigos, e destes só sete ou oito falam de qualquer coisa de concreto, sendo os restantes acessórios.

Artigo 1º, Traição à Pátria: os organizadores do referendo são cidadãos chineses, pronto, de uma ou outra forma são mesmo. Se as "tablets" utilizadas ontem são de fabrico estrangeiro desconheço, mas dificilmente poderão ser consideradas propriedade de "forças armadas estrangeiras".

Artigo 2º, Secessão do Estado: Aqui não sei se podemos considerar alguma das perguntas do referendo civil uma forma de "tentar separar da soberania do Estado ou submeter à soberania estrangeira parte do território", e certamente que não foram usados atentados contra a vida ou à integridade física de outra pessoa, mas em termos atentados contra a liberdade pessoal, acho que o galo do outro lado da cerca. Ooops, é melhor não mexer aqui, que tem espinhos.

Artigo 3º, Subversão contra o Governo Popular Central: não tenho visto violência, e mesmo que se possam discutir estes "meios ilícitos graves" de que ninguém se queixou, não se tentou "derrubar o Governo Popular Central". Essa é uma tarefa épica, e para chegar lá nem com mil referendos.

Artigo 4º, Sedição: não, não creio que algum dos elementos da Guarnição em Macau do Exército de Libertação do Povo Chinês tenha participado do referendo civil, e nem podiam, mesmo que quisessem.

Artigo 5º, Subtracção de segredo de Estado: lá tentar, tentaram, mas o Gabinete de Protecção de Dados Pessoais não conseguiu que o número do BIR fosse incluído na categoria de "Segredo de Estado". Se calhar com mais tempo, iam lá.

E o resto são "potências estrangeiras" e não sei quê. A ideia de Ung Choi Kun, ou melhor, a expressão vocal de um expediente em que certamente alguns dos opositores ao referendo já pensou, é um "long shot", e para interpretar isto para causar um efeito dirimente nos organizadores do referendo seria preciso desfiar e voltar a tecer. Candidatos?

Depilações



- É segunda-feira, e lamento desde já, senhores telespectadores, mas está aqui o Leocardo, pior que nunca.

- Borges Rivas...vamos lá ver, não foi essa a introdução que lhe dei para ler!

- Vai-te lixar. Debita aí a tua verborreia que eu tenho a cachupa a ficar fria lá em casa. Então como é, uns miúdos foram presos por alegadamente violarem uma lei que não existe, entretanto os taxistas continuam a violar várias leis que sempre existiram e são bem claras.

- Pois é, mas isto do referendo civil...e repara, "civil"? O que é que quer dizer isto, "civil"? Em contraposição a militar? Ora essa, "civil", ah ah.

- Por civil penso que se referem à sociedade, Leocardo. Como em "sociedade civil"? Chamares para aqui essa dictomia do civil/militar é mais uma das tuas sabujices, não é? E achas que o referendo é legal ou quê? Como se eu já não soubesse a resposta...

- Pois, Borges Rivas, as pessoas falam muita da letra da lei, mas esquecem-se do espírito, do espírito da Lei Básica. No outro dia estava eu no choquinho, e fui visitado pelo espírito da Lei Básica, que me disse que isto do referendo não é legal, senão tinha lá posto no texto da lei "o referendo é legal". Estás a ver, pázinho?

- Estou, mas não achas que é um pouco de exagero andar a prender as pessoas por causa de algo que não é propriamente legal, mas não existe uma lei que diga que não é permitido?

- Bom, isto para mim é uma sondagem como qualquer outra sondagem dessas que andam por aí todos os dias, e que até precisamos de lhes pedir para sairem da nossa frente. Além disso estes 5900 que votaram...bem, não se sabe quem são, e eu acho que foi um miúdo de três anos a votar 5000 vezes e o Jason Chao outras 900, e é claro que vai ganhar o "sim" ao referendo, por um resultado muito superior a 100%.

- Muito superior a 100%, portanto. Mas pode-se votar no "Não", há essa opção...

- Ah ó Borges Rivas, és tão anjinho. Aquilo é como aquele "site" que pergunta se temos a piroca pequenina, quando vamos escolher o "não" os quadradinhos trocam de sítio e votamos "sim". Muito giro, ah ah, oh oh, ronc!

- Hilariante. Mas os organizadores dizem que o referendo é para continuar...

- Olha Borges Rivas, esse Jason Chao anda a arranjar sarna para se coçar. Ele está a responder por desobediência qualificada! Qualificada, ouviste? Um criminoso destes ainda diz que faz planos de persistir na sua conduta assassina? É um terrorista, meu!

- Mas não achas que isto vai trazer uma má imagem para Macau e para o Executivo?

- Sim, Borges Rivas, mas isto temos que ir com calma. Eu e tu menos eu pensamos que este sistema não é o mais democrático, mas não te esqueças que estamos na China. Se fazem para aí uma Primavera Árabe vamos andar para aí de rabo espetado a rezar a Alá e de camelo a caminho do COTAI.

- Pronto, já chega de disparates. E a campanha de Chui Sai On, o que há de novo?

- Não há nada de novo, não há nada de novo, não há nada de novo, não há nada de novo, não há nada de novo, não há nada de novo, não há nada de novo, não há nada de novo, não há nada de novo, não há...

- É tudo por hoje, boa noite.

- Olha ó Borges Rivas, andaram por aí uns "croupiers", diz-se que eram milhares, mas eu acho que eram todos o mesmo, e...

- Eu disse boa noite!

- Aqui ao lado temos a China, e o Mónaco tem a França.

- Ai sim? Que giro. Até logo, vai dormir, Leocardo.

SOS e mal acompanhados


Estão a ver aquela mão ensanguentada? Foi do último "racista" a quem fizemos a folha!

Em primeiro lugar gostava de agradecer aos leitores de Macau e de Portugal (pelo menos), que tornaram o "post" O caminho marítimo para a parvoíce um autêntico sucesso, com mais de mil visualizações, a maioria entre ontem e hoje, e nove comentários, tão elogiosos que me deixam mais corado que um pato assado à Pequim - fazia tempo que não se comentava tanto desde que moderei essa aplicação há dois anos. Gostaria que tivesse sido um motivo mais alegre, aquele que me levou e escrever aquele artigo, mas não pude deixar de expressar a minha indignação pelo uso de algo tão nojento como o tal "racismo", que tem servido de desculpa para que se cometam as maiores barbaridades e injustiças.

É possível que tenha tido sorte, e que muita gente que não concorda comigo não se tenha dignado a comentar, mas gostaria deixar claro que apesar de não acreditar no "racismo", não quer dizer que não se possam encontrar os seus "ingredientes" vendidos a retalho. Sim, há discriminação, mas dentro desta há vários tipos, e até positiva. Posso discriminar alguém por ser baixo, feio, mulher, ter mau hálito ou voz de cana rachada, ou apenas por incompatibilidade de personalidades - há de tudo um pouco. Há ainda o preconceito, sim, posso afirmar de boca cheia que os franceses cheiram mal porque não tomam banho ou que os irlandeses são bêbados, ou qualquer outra generalização injusta. O pior é quando se considera alguém desagradável - com ou sem razão, acontece, coisas do feitio - e entra a questão da cor da pele ou da variante étnica. Portanto quem não tiver com pachorra para aturar um chatarrão, ou lhe apetecer mandar alguém para tal sítio, verifique primeiro o certificado de origem, caso contrário arrisca-se a ser considerado "racista".

E quem determina quem é ou não "racista"? Em Portugal, por exemplo, é o SOS racismo, uma ONG criada originalmente em França corria o ano de 1984, e que abriu uma dependência seis anos mais tarde em Portugal, existindo ainda em vários outros países europeus. Em relação aos incidentes no CC Vasco da Gama, o SOS Racismo pronunciou-se nestes termos, conforme lemos num notícia publicada pelo jornal I, na sua edição de sexta-feira:

Em comunicado, o SOS Racismo considera que "o caos só foi possível graças à intervenção da PSP", que, face à "concentração de jovens negros no local", originou "uma ação tão musculada da polícia".
"Perante uma rixa entre meia dúzia de pessoas, a PSP entendeu abordar o episódio de forma diferente, varrendo literalmente o Centro Comercial, montando um aparato anormal e, pelo que podemos ver pelos vídeos que circulam nas redes sociais, impedindo todos aqueles que não fossem brancos de entrar no Vasco da Gama", pode ler-se no comunicado.
Os desacatos, que provocaram ferimentos ligeiros em cinco polícias, "são mais uma evidência do racismo flagrante na atuação das forças de segurança em geral e, neste caso em particular, da PSP".
"São inúmeras as situações de aglomerados de jovens por todo o país, em particular em período de férias de verão, são vários os furtos em espaços públicos e muitas as discussões e altercações que não ocasionam nunca nenhuma intervenção policial tão violenta como aquela ocorrida no Centro Comercial Vasco da Gama. E portanto, a única diferença deste caso residiu na cor da pele dos jovens que ali se encontravam", acrescentou o SOS Racismo.
A organização acentuou a "impunidade do racismo institucional e da violência e abuso de poder que grassa entre as forças de segurança" e questionou: "O que leva a PSP a impedir a mobilidade de jovens e a utilizar a força, só por serem negros?".
"Tais comportamentos não são admissíveis num Estado de Direito, como não é admissível que a PSP plante falsas notícias na imprensa, criando pânico e alarme social para justificar a sua atuação desproporcional e violadora dos princípios básicos de igualdade", refere-se na nota.
Por isso, o SOS Racismo desafiou Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial "a tomar uma posição pública de repúdio e condenação da atuação da PSP" e exigiu ao Ministério da Administração Interna "que apure todas as responsabilidades, agindo em conformidade, punindo severamente os responsáveis por forma a que não se volte a repetir semelhante atuação".
Os incidentes ocorreram na tarde de quarta-feira, num chamado "meet" de centenas de jovens, convocada pelas redes sociais.
Dois dos quatro detidos vão ser julgados em processo sumário na segunda-feira, por resistência e coação a agente de autoridade, e as duas jovens ficaram sujeitas a apresentações periódicas às autoridades, acusadas de posse de arma branca utilizada durante o roubo de um telemóvel e uns óculos a uma menor de 15 anos.
Os quatro arguidos têm idades entre os 16 e os 23 anos foram detidos durante uma desordem ocorrida na zona do Parque das Nações, que provocou ferimentos ligeiros em cinco polícias, tendo um jovem de 15 anos ficado com uma perfuração na zona lombar, após ter sido agredido com uma chave de fendas.

Leram tudo? Eu também não, nem vale a pena. Cingemo-nos ao essencial: "São inúmeras as situações de aglomerados de jovens por todo o país, em particular em período de férias de verão, são vários os furtos em espaços públicos e muitas as discussões e altercações que não ocasionam nunca nenhuma intervenção policial tão violenta como aquela ocorrida no Centro Comercial Vasco da Gama. E portanto, a única diferença deste caso residiu na cor da pele dos jovens que ali se encontravam". Estão a ver? Portanto a única diferença é a cor da pele, que no caso de ser escura - e suponho que é aqui que o SOS racismo quer chegar - funciona para os agentes da autoridade como uma capa vermelha para um touro: "marram" mais, causando "pânico". Os "jovens" estavam ali a cantar hinos religiosos a favor da paz, entra por ali a polícia, "oi! oi! oi!", ouve-se um tema dos Skrewdriver, e toca à procura de tudo o que é pretalhada para lhes cascar em cima. Desorientados, os "jovens" procuram fugir, e um deles, como não via bem, roubou os óculos a uma miúda de 15 anos, para encontrar o caminho. Outras duas "jovens" são acusadas de "posse de arma branca", pfff, exageros "racistas". Uma delas tinha uma lima das unhas com dez polegadas de comprimento, e a outra usava um daqueles pauzinhos para prender o cabelo, que "por acaso" era aguçado e ultrapassava as medidas legais. Outro queria fugir montado num amigo, e como o motor deste não arrancava, tentou repará-lo com uma chave de fendas. Finalmente os polícias nem "ligeiramente feridos" ficaram; o que aconteceu foi terem ficado com o corpo mole de tanta porrada que deram nos "jovens".

O problema de organizações como este SOS racismo é precisarem do mal que alegadamente combatem, pois caso este não exista, cessa a sua razão de ser. Dizer que o "SOS racismo procura acabar com o racismo", é o mesmo que dizer que "um dentista sonha com um mundo sem cáries". Um mundo melhor sem "racismo" era porreiro para todos, menos para os tipos do SOS racismo - sem "racismo", o SOS racismo morre, e se há por aí "racismo" por onde pegar, inventa-se. Mas esperem lá, e se um branco for vítima de "racismo" da parte de um negro? O que faz o SOS racismo? Nada. O branco está no país dele (e até pode não estar), e se um dia estiver no Quénia ou no Botswana pode chamar o SOS racismo de lá para tratar do assunto - caso existisse um, que não é o caso. E bem fazia lá falta um, no Ruanda, por exemplo, aquando da chacina de um milhão de tutsis pela etnia "hutu" em 1994. O quê? Que malvados, esses "hutu", devem ser loiros de olhos azuis, uns autênticos nazis. Não, eram negros também, só que eram "de outra etnia". Portanto isto é "racismo"? É e não é, quer dizer, por um lado é "racismo", pois eram de outra etnia, por outro lado não é, porque eram todos negros, entenderam? Eu também não.


E ricos na pobreza? E baixos nas alturas? Secos à chuva e molhados ao sol? Não entendo...

Peguemos no argumento de que o CC Vasco da Gama é um "espaço público", que tem muita graça; pode ser autorizada a entrada a qualquer um no recinto do centro comercial, mas as lojas, os cafés e os restaurantes são privados, ou pelo menos alugados, e os seus responsáveis têm o direito de admitirem quem lá quiserem, ou não. Se alguém não ficar satisfeito com o tratamento, pode sempre ir ao café do lado - o que há de "racista" em se recusar a servir alguém por este ou aquele motivo? No mínimo o gajo é parvo por recusar clientela. Do que serve chamar o SOS racismo caso se sinta discriminado neste ou naquele sítio? Vá a outro onde é bem-vindo, porra, acha que o tal tipo que o recusou inicialmente vai passar a gostar mais de si por ter feito queixa dele? Talvez tenha preconceito por não ter muito contacto com pessoas de outras origens, de outras culturas, ou é traumatizado, ou retardado mental, sei lá, mas impôr-lhe algo que não se impõe - aprende-se, e chama-se "tolerância" - ele vai passar a sentir-lhe ódio. Lembro-me de uma vez quando estava em Singapura, ir à noite a um bar na Little India, onde a decoração era no estilo indiano, a música era indiana e toda a gente era indiana - menos eu. Não me trataram mal (nem bem, note-se), e não me senti melindrado, mas sei que estava no sítio errado, e não pertencia ali. É aqui que o "racismo" peca, devido à sua natureza extremista. Não somos nada "todos iguais", temos cada um traços culturais que nos distinguem, e claro que quem se quiser adaptar à cultura do outro, porreiro, mas não tenho visto por aí muitos artistas de "kuduro" brancos, nem fadistas pretos.

Num país de brandos costumes e com direitos disto e daquilo como Portugal, uma associação do tipo do SOS racismo está na sua praia, e na sua praia estão também as alegadas "vítimas do racismo". Sendo Portugal um país europeu, e o conceito vigente é europeu=branco (isto para mim é preconceito e discriminação na pura acepção do termo, mas deixem para lá), então as "vítimas do racismo" são naturalmente as "minorias". Hmmm...minorias? Quer dizer, os alentejanos em relação aos algarvios? Os habitantes de Queluz de Cima por comparação com os de Queluz de Baixo? Os ilhéus do Corvo para o resto dos Açores? Claro que não, minhas primas. Para vos explicar como funciona isto das minorias, convidei um especialista, o dr. Eric Cartman.



Gostaram? Peço desculpa se estavam à espera do Mamadou Ba, mas foi o que se pôde arranjar. O que o jovem Eric Cartman quis dizer com esta linda cantiga, é que as "minorias", quando passam a estar em quantidades iguais ou em maior número, deixam de ser "minorias". Isto é, a não ser que entendam por "minoria" um grupo pertencente a uma etnia cuja origem é diversa do padrão étnico do país onde se encontra integrada. Isso fica complicado, especialmente se for preciso a bófia intervir em locais como a Fonte da Telha ou a Cova da Moura, e nesses casos é preciso levar um ou dois agentes negros para que não venha depois o SOS racismo chatear-lhes os cornos. Fica mais difícil se for preciso responder a uma chamada na Praça de Espanha ou na Feira do Feijó, pois o único polícia cigano que existia na zona da grande Lisboa, o agente Lelo, desapareceu misteriosamente; segundo o SOS racismo "foi raptado por racistas", que levaram ainda as algemas, os coldres, os bonés, os cacetes, as rodas, os espelhos e os retro-visores das viaturas e até as sirenes eles levaram, os malandros, que raptaram o pobre Lelo, coitadinho. Houve depois um racista que andou a espalhar que viu o Lelo a vender alguns destes objectos na Feira do Relógio, e que "pôs-se em fuga quando foi reconhecido". Estes racistas são tão racistas que as "minorias" topam-nos à distância e dão corda aos sapatos.

Portanto senhores polícias, da próxima vez que ocorrerem a uma rixa num local onde exista uma maioria de "minorias", levem com vocês um agente da "minoria" (que lá no batalhão deve estar em minoria, mas não o lembrem disso senão é "racismo"). Caso não tenham um, quando chegarem ao local façam dois ou três desses "jovens em risco" agentes honorários, que vão ver que eles até acham piada a esta "acção musculada" como complemento à sua "actividade de férias de verão" favorita: invadir centros comerciais. Ou então deixem os "jovens" matarem-se uns aos outros, prontos, que talvez seja a forma que encontraram de passar os últimos dias antes do regresso às aulas - ou aos assaltos aos outros putos que ainda vão à escola. Não, não, esperem, não façam isso! Esqueçam o que eu disse! Se não forem "racistas", não existe "racismo", e o que vão comer depois os tipos do SOS racismo? Não reconhecer o direito do SOS racismo à existência é...uh..."racismo"? Pois, "racismo", seus racistas de merda, sempre a fomentar o ódio entre as pessoas.


Se encontrar um polícia racista, "câncio" com argumentos parvos e reciclados.

Outro dos comentários aos acontecimentos de quarta-feira que suscitou divisões, mas com mais opiniões negativas do que positivas (ainda reina o bom senso, valha-nos isso) foi o de Fernanda Câncio, que assinou na sexta nas páginas do Diário de Notícias um artigo de opinião em que tece considerações sobre a conduta dos agentes da PSP e a que dá o sugestivo título O polícia modelo. A lógica de Fernanda Câncio prova como este é uma tema-plasticina: dá para moldar da forma que quisermos, conforme as convicções, os pontos da vistas, os "lobbies" (e cores políticas, porque não?) que se querem servir, aquilo que se andou a fumar antes, etcetera. Só que neste caso a sra. Câncio tira do armário a "causa nobre" que pensa que lhe fica a matar para usar nesse dia, e sai de casa a fazer uma figura ridícula.

Se aquela Ana Soares que referi no Sábado viu este vídeo em "racist definition", uma tecnologia que não está ao alcance de todos, Fernanda Câncio tem algo ainda melhor: a "pseudo-politicamente-correcta-que-já-enjoa box". Portanto o vídeo passou nos noticiários à hora de almoço e do jantar, e por isso "só pode ser racista", pois tirou o apetite a toda a gente (provavelmente, mas não pelas razões que Câncio alega). Qualquer um pode ver que é o Chipenda que levanta a questão da côr da pele, aos 12 segundos do vídeo, quando tudo o que agente tinha dito era que ele não podia entrar "por razões de segurança" - o que o agente devia ter feito era dar ao Chipenda acesso total e ilimitado aos processos em investigação pela corporação, bem como aos arquivos, e ainda fazer-lhe uma cópia das chaves dos calabouços. A indignação da jornalista foi tanta que nesse dia fazia planos de ir ao CC Vasco da Gama fazer compras, mas acabou por desistir em sinal de protesto, e na sua lista constavam cotonetes para os ouvidos. Onde toda a gente ouve "é aquilo que tu quiseres, jovem, já te disse que a ti não tenho que te dizer nada", ela escuta "não falo contigo", que é como as crianças fazem birra. Este "não falo contigo" é prova cabal de racismo, pois no dicionário "Câncio-pretoguês" quer dizer "cala-te, escarumba". E tudo isto, segundo ela, "em plena luz do dia", apesar de ser evidente que estava a começar a escurecer. Mas oops, o que digo eu? A Fernanda Câncio não é racista, e para ela é "tudo a mesma coisa": dia e noite, branco e preto, luz e trevas, não há contraste. Deve ser complicado jogar xadrez com ela.

Depois de estabelecer um paralelo com o jovem negro norte-americano morto pelas autoridades na semana passada em Ferguson, Missouri (tudo a ver, pois enquanto esse foi fazer de almoço aos vermes, o Chipenda vai almoçar ao Orizon), a colunista do DN vai buscar argumentos completamente descabidos, como o fardamento do agente que Edson Chipenda se entretém a molestar, chamando a atenção para a falta da placa com o seu nome, e o facto de "não se ter dirigido ao público com respeito e consideração", chegando mesmo a tratar o Que-rica-Chiprenda por "tu", quando o correcto devia ser tratá-lo por "você". Ai Jesus, que caso tão gritante de indisciplina e conduta imprópria, "duas infrações disciplinares". No Japão obrigavam-no a fazer "hara-kiri". Mas o pior mesmo foi o racismo, pois além de violar o Estatuto do Pessoal da PSP (lei 299/2009) que obriga os agentes da autoridade a "actuar sem discriminação em razão da ascendência, sexo, raça, língua, território de origem", o racista da farda viola a lei Lei 18/2004, ao "negar acesso a um lugar público" de forma discriminatória, contrariando o princípio da igualdade, e incorrendo numa pena que lhe pode custar cinco salários mínimos - vendo bem é um castigo pesado para mandar o Chipenda para onde ele merecia. E mais: tudo isto sabendo que estava a ser filmado, e em plena luz apagada do dia nocturno!

O anti-racismo de arenque de Fernanda Câncio não só a faz ver um filme diferente do nosso como ainda deve ter feito com que se risse à brava quando escreveu aquelas baboseiras todas. Pode ser que se ria ainda mais quando um dia precisar do auxílio urgente da PSP, se estiver a ser assaltada ou agredida, por exemplo, ou pior (sim, há gostos para tudo, e depois é preciso ver que se trata de um acto de violência, não de amor) e chegue um agente, este de socorrê-la verifica primeiro se tem a farda em ordem, e depois pede caridosamente e por cinco vezes ao agressor que cesse a sua conduta imprópria, dirigindo-se a ele por você, convidando-o antes para uma voltinha pela linha na mota de patrulha, e no fim comem uma duchaise na Pastelaria Suíça, lá na baixa, e quem sabe depois pegam um cineminha, que tal? Mas atenção, pois se for um negro, a culpa "é da sociedade", e a Fernandinha sabe tratar dele. Se forem meia dúzia, como os mânfios do CC Vasco da Gama, ela diverte-se mais e tudo. Obrigado por nos fazer sair das cavernas, Fernanda Câncio! Bem-haja, sua palonça!