sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

A honra, ora a honra...



Estes últimos dois ou três dias tive a oportunidade de observar (e rir com) algumas "trocas de galhardetes" nas redes sociais entre elementos da nossa "tribo" lusófona, por norma pessoas de bem, cada um na sua, mas sempre atenta ao picador alheio no seu lombo sensível. Que maldade a minha, vejam só, e que indivíduo mal formado eu sou, a tentar desunir a nossa comunidade. Tivesse eu uma nota de mil por cada vez que ouvi ou li isto, e punha os anjinhos no Céu todos ao estalo uns nos outros, e assim podia ser tambem que juntasse a fama ao proveito. Nas tais redes sociais, a arena onde decorrem estes combates ideológicos, os gladiadores estão armados apenas com o tridente da ironia, a espada do escárnio, e a rede do sarcasmo. A estratégia pode variar conforme a preparação, experiência ou astúcia do gladiador, mas a cada golpe corresponde a réplica, que aqui vem sempre na forma de um delicoce eufemismo a que chamam de "direito a resposta". Quando se fala do "direito" a algo, a coisa adquire logo uma seriedade que antes não tinha, mesmo sem que fosse esta a intenção inicial (é por isso que tanta gente diz "ter direito" a tudo e mais alguma coisa quando na realidade não tem assim tantos direitos quanto isso) e se neste caso tratando-se de uma discussão, acesa, a média luz ou apenas ténue, o entusiasmo pode levar a que se perca a controlo, e se entre pela via do insulto, e mais grave do que isso, que se produzam afirmações "a quente", que sendo graves, menos graves ou um simples desabafo, são muitas vezes difíceis de provar, ou até falsas, e tendo ficado escritas e registadas, podem constituir matéria para procedimento judicial.

Neste âmbito temos no Titulo I da parte II do Código Penal, "Crimes contra a pessoa", o capítulo VI, que abrange o que se chama de "Crimes contra a honra". Entre estes estão os crimes de difamação (Artigo 174.º) e de injúria (Artigo 175.º-177.º), cuja discriminação visa defender a nossa reputação e bom nome de acusações ou actos que nos são imputados por outrém, por meio verbal, escrito ou por outra forma de expressão, diferenciando-se a difamação pela publicidade dos mesmos, ou seja, pela divulgação na presença de terceiros. Portanto, se o que estão agora a pensar é: "posso ter que responder perante a justiça se chamar alguém de palhaço? Ou apenas de palerma?". Depende, mas sim, é possível, e vou mais longe: caso mandem a alguém um SMS dizendo a essa pessoa que a "vão matar" ou "partir-lhe a cara", mesmo na brincadeira ou noutro contexto que não aquele que a mensagem sugere, isso pode valer-vos um processo-crime por ameaça (Artigo 147.º). Isso mesmo. Claro que tudo depende com quem estão a lidar e em que circunstâncias ocorrem os factos, e apesar do palavrão "crime" que estas acusações implicam, dificilmente acarretarão consigo uma pena de prisão efectiva, mas podem valer uma multa avultada acompanhada de mancha no registo criminal. É preciso nunca esquecer que estamos em Macau, e o melhor é evitar este tipo de confrontação com gente que conhecemos mal ou que tem fama de filho da puta. Mas o que acontece quando estas figuras jurídicas são transportadas para o exercício de uma liberdade individual ou de uma actividade profissional, casos da liberdade de expressão ou a liberdade de imprensa. Aí somos remetidos para o campo das sensibilidades, que como se pode perceber desde logo, é bastante subjectivo.

Eu tenho como pressuposto que a justiça deve servir um fim nobre, e que deve ser apenas usada em situações onde não existe uma outra via para que se resolva um diferendo, ou onde existam dúvidas sobre a legalidade de um procedimento, ou ainda em questões relacionadas com a interpretação ou a aplicação da lei, mas tudo em casos concretos, ou de carácter técnico-teórico. No caso dos crimes privados é lógico que se deve aplicar "strictum sensum" em situações onde exista uma parte pesada, ou possa vir a dar-se algum prejuízo considerável. No que toca aos crimes contra a honra, existem duas formas de encarar a gravidade dos mesmos: grave e mesquinho. Tudo o que se diz ou escreve é inserido num determinado contexto ou situação, depende da forma como foi expresso, com recurso a figuras de estilo ou/e dentro de um conteúdo humorístico ou satírico, ou pode ser apenas uma parte de um raciocínio mais elaborado, ou seja, nunca se deve interpretar literalmente seja o que for, a não ser que a intenção fosse, acima de qualquer dúvida, colocar em causa a cidadania da pessoa atingida, do receptor. Numa sociedade que queremos livre e onde não exista o medo de expressar uma opinião ou transmitir uma ideia, temos que elevar a tolerância ao patamar da liberdade em causa, e não limitar essa liberdade tendo em atenção os seus limites. Para se estar a pensar sempre duas vezes antes de falar, mais vale ficar calado. É uma sociedade de mudos que queremos, e onde o uso da palavra dependa de autorização prévia, ou seja um exclusivo de quem está apoiado pelo poder?

Antes de passar aos exemplos, vamos colocar ambas as liberdades, quer a de expressão, quer a de imprensa, no mesmo patamar, e assim escusamos de diferenciar injúria de difamação, de modo a centrar mais o tema no que pode ser considerado ofensivo ou o lesivo para a honra e para o bom nome de alguém. Vamos ter também em conta que todas as afirmações que poderão ser apresentadas como prova são obtidas por métodos legais, e dirigidos directamente a pessoa concreta, seja ela individual ou colectiva. Há casos flagrantes que penso não terem discussão possível, como imputar a alguém um crime, uma conduta criminosa ou moralmente reprovável, ou a prática de um ilícito no exercício da sua profissão ou de um dever que lhe foi incumbido, ou ainda que mexa com a sua vida familiar e íntima, ou lese o seu direito à privacidade. Afirmar num jornal, blogue, televisão ou outro meio audio-visual que A. é corrupto, por exemplo, é um caso flagrante de difamação, e pouco importa a veracidade dos factos; a ser verdade, existem os meios apropriados para que seja feita uma denúncia, e tornar este facto é lesivo do direito à presunção da inocência do visado. Revelar que A. é adúltero ou que é traído pela esposa, ou vice-versa, ou sugerir deixando ser passível de tratar de uma verdade que B. é homossexual, consumidor de substâncias ilícitas, alcoólico ou portador de uma tara ou doença mental, é nos dois primeiros casos devassa da vida privada, e nos restantes ofensivo à honra e ao bom nome do visado - isto se não se assumir como tal, ou não forem factos tornados públicos, é claro. Os crimes privados dependem da queixa do ofendido, e aqui entra o factor da subjectividade dos crimes contra a honra.

O caso Ao Man Long, por exemplo, ficou marcado por uma polémica que levantou a discussão da sobreposição do interesse público ao procedimento judicial, quando foram divulgados na imprensa factos sobre o processo que em circunstâncias normais estariam em segredo de justiça. Este é sem dúvida um exemplo extremo da dificuldade que existe em encontrar um equilíbrio entre aquilo que se pode tornar público, pois aqui tinhamos num dos pratos da balança o direito do indivíduo à presenção da inocência, e do outro a opinião pública e a própria imagem do Executivo, ultimamente responsável pela conduta do secretário. Mas pegando em casos mais simples onde por vezes é colocada em causa a honra, temos o exemplo daquilo que eu faço: expressar a minha opinião. Identificado um texto como sendo de opinião, fica-se a coberto de uma série de protecções que uma notícia não tem; não existe o dever da precisão ou da veracidade dos factos, mas há cuidados a exercer quando se faz referência a alguém ou algo, neste caso uma pessoa colectiva ou uma entidade pública, por exemplo. Posso afirmar que "A. é incompetente" a cobro da liberdade de opinião, mas caso A. sinta que estou a pôr em causa o seu bom nome, pode-me pedir esclarecimentos, e caso eu não tenha qualquer motivo para o ter ofendido na sua honra, posso vir a ter problemas. Agora se conseguir apontar uma conduta que seja que considere danosa , nem que seja apenas para mim mesmo, e que lhe possa ser imputada, nada feito - é a minha opinião, não estou obrigado a justificá-la. Sugerir que alguém é homossexual por exibir um comportamento efeminado, por exemplo, não é o mesmo que afirmar que alguém é de facto homossexual. Tive o exemplo do personagem Filipe, dos meus filmes, que corresponde a esta descrição, e escutei comentários nesse sentido, no entanto não me sinto melindrado nem reconheço uma intenção de quem faça esse juízo de me ofender ou atingir a honra.

Mas nisto da opinião há que exercer certas cautelas. No caso de insinuar que certa conduta é ilegal ou criminosa e nesse contexto inserir o nome de alguém, pode-se abrir a porta a um precedente perigoso; levando uma situação deste tipo à barra dos tribunais e dando-se razão ao autor, pode-se dar o caso de serem permitidas os maiores atentados e para branqueá-los basta escrever no canto da página ou no subtítulo do artigo a palavra "opinião". Na eventualidade de ser dar razão à parte ofendida, pode acontecer o extremo de não ser mais possível incluir o nome de qualquer pessoa singular ou colectiva num texto onde se descreva uma situação passível de ser associada com esse nome - mesmo que em polos opostos desse texto. No exercício da opinião pessoal há ainda que usar o senso comum, especialmente na hora de detectar uma figura de estilo, como uma metáfora ou uma antítese, hipérbole ou simile. Comparar por exemplo uma reunião ou uma assembleia que tenha decorrido de forma atribulada ou desordeira a um "circo" parece perfeitamente legítimo, mas caso não existam razões para tal, pode ser entendido como uma provocação, e depois tudo depende de quem e do que está em causa. É também sensato identificar se estamos na presença de uma sátira, ou de uma simples rábula. Um texto que contenha elementos do fantástico, do sobrenatural ou qualquer coisa que nunca poderia ser interpretado como verídico ou que tenha de facto ocorrido dispensa mesmo que se indique previa ou posteriormente tratar-se de ficção - a não ser que pelo meio se façam asserções que remetam para algum caso concreto, facto ou acontecimento real, e aqui convém não ter uma imaginação muito fértil, ou fazer leituras abusivas, identificando intenções que não foram de todo expressas.

E aqui entramos no tal campo das "sensibilidades", e aqui pesam vários factores, desde o sentido de humor, a relação do potencial ofendido com o autor, os antecedentes, as circunstâncias, a intenção, muita coisa. Um árbitro que cometa um erro grave durante um jogo de futebol não vai certamente dar-se ao trabalho de processar todos os que lhe chamem "ladrão" num momento que é facilmente tido como sensível, e que seja passível de produzir declarações "a quente". O caso muda de figura se no dia seguinte essa ousadia for cometida por um jornal desportivo, que normalmente usaria um eufemismo para se referir ao erro do árbitro: "a arbitragem cometeu um erro que teve influência no resultado", no máximo. Chamar de "palhaço" ou "corno" a alguém durante uma troca de insultos ou uma briga de rua ou de café não é o mesmo que fazê-lo na televisão, ou caso haja alguém demasiado púdico que processe quem lhe tenha chamado de "chimpanzé" arrisca-se a uma discussão sobre a sua aparência ou comportamento, que podem ou não assemelhar-se à de um primata. Com toda a certeza uma afirmação desta natureza poderá levar alguém a pensar que o visado é de facto um chimpanzé. Para concluir, vou dar um exemplo de um caso que muitos de nós aqui em Macau certamente se lembra, quando um professor universitário escreveu no seu blogue que um aluno era "cretino e mal formado", sem especificar quem em concreto. O visado, sentindo que existiriam mais pessoas que o identificariam com aquela descrição. O caso foi resolvido (mal, a meu ver) pela própria instituição de ensino, mas demonstra o perigo que pode representar uma acusação desta natureza, e é aqui que se testam os limites da liberdade de expressão. Se eu escrever "o meu vizinho é um palerma", tendo eu mais que um vizinho, estou no meu pleno direito, mesmo que o indivíduo saiba que estou a falar dele, e que os restantes vizinhos tenham conhecimento desse facto. Não se tratando aqui da imputação de um facto grave ou uma ofensa à sua dignidade, devassa da vida privada ou íntima, tem um bom remédio: responder pela mesma moeda.

É preciso não esquecer que não foi assim há tanto tempo que a honra era lavada em muitos casos com recurso a duelos de pistola ou de espada, e ainda bem que hoje temos os tribunais para resolver os casos mais graves.No entanto há que ter o bom senso de não levar atritos sem importância ao terreiro da justiça, em muitos casos para resolver questões pessoais que não são interesse geral nem servem nenhum princípio válido. Há quem se iniba de avançar simplesmente por querer manter uma imagem de pessoa tolerante e democrática, mas tem o direito de exigir que não se ponha causa a sua dignidade ou integridade, e certamente terá o apoio da opinião pública caso esteja com a razão do seu lado. Num outro extremo temos quem sinta o mínimo "toque", e tendo os meios a seu dispôr para levar às barras dos tribunais um caso ou casos que possam ser resolvidos com diálogo ou cavalheirismo, está a perverter o sentido da justiça, atrasando outros processos com o volume do seu ego, e ao mesmo tempo deixando em cheque esses valores que tanto estimamos, que são a liberdade de expressão e de imprensa. Bom senso recomenda-se, e já agora que os magistrados usem sempre o critério que coloca um direito sempre acima de um dever, quando se trata de um simples diz-que-disse, e tenha em conta que a opinião pública tem o discernimento de distinguir o certo do errado.

Toma lá do Vilhena



Um dos meus "mestres", ou se preferirem uma das minhas referências ou fonte de inspiração é o grande José Vilhena. E é com um sorriso largo e malandreco, juntando uma risada sacana e um olhar de espertalhão que digo "é" - o mestre vive, e encontra-se no activo (ou pelo menos até muito recentemente) aos 87 anos. E quem disse que a pouca-vergonha e o deboche não eram bons para a saúde. São pois, e para os restantes que resistem levando a vida de anjinho que Nosso Senhor lhes recomendou, ou que andou a fazer as suas patifarias às escondidas, há sempre o Viagra. Vilhena inventou o Viagra antes de ele existir, e inventou sem saber ou para o que é que servia. Foi, é, e ficará para sempre como uma das nossas almas mais livres, das mais soltas.



José Alfredo Vilhena Rodrigues nasceu a 7 de Julho de 1927 em Figueira de Castelo Rodrigo, no distrito da Guarda, e foi no conservadorismo e isolamento do interior de um Portugal muito mais pobre e atrasado do que possamos imaginar que cresceu, até ir estudar Belas Artes para o Porto, mas antes de concluir o curso migrou para Lisboa, onde podia dar asas aos seus talentos: o desenho, a ilustração, o humor e a sátira. Às vezes combinava duas destas valências, outras vezes três, quase sempre todas. Atribuiram-lhe desde o início a fama de "provocador", o que é só por si ambíguo. O que "provoca" um "provocador"? Pode ser desde a alegria e o riso até à guerra e à morte. Vilhena provocava sobretudo e boa disposição, enquanto "picava" o seu povo, tão taciturno e temerário às superstições, para que se soltasse, libertasse, não tivesse vergonha de ter tesão e de lhe apetecer uma queca, e já agora com bis.



Trabalhou nos primeiros anos como ilustrador para o Diário de Lisboa e humorista para outras publicações tidas como "marginais", e em 1956 publicou a sua primeira colectânea de anedotas. Tornou-se famoso com a revista "O Mundo Ri", e mesmo depois do fim desta não lhe faltaram convites para trabalhar, e conseguia como ninguém contornar a censura do Estado Novo, fazendo gato-sapato dos censores, a quem a sua inteligência e "ratice" chamavam um figo, e aproveitava cada vez que uma obra sua era censurada para fazer mais publicidade da próxima. Foi detido pela PIDE em três ocasiões nos anos 60, mas nunca o conseguiram acusar de distribuir material indecente, ou "pornografia" - quem pensa que aquilo que o Vilhena faz é pornografia, das duas uma: ou não sabe o que é pornografia, ou sabe muito bem mas está a fazer-se de parvinho. O máximo que os púdicos conseguiram foi atribuir ao seu trabalho a designação de "humor erótico", o que deixaria os adeptos do "erótico" propriamente dito desiludidos, mas os fãs de Vilhena ainda mais sequiosos.



Chegou o 25 de Abril e com ele o fim da censura. Recusou-se sempre a ser instrumentalizado pelo poder político - para ele qualquer um era satirizável. No entanto aproveitou o fim da censura para "atacar" com mais à vontade o poder e os seus figurinos, ao ponto de se confundirem com os originais. Nem a liberdade lhe subiu à cabeça, e continuou no estilo que o celebrizou, gozando de um período de grande sucesso com a revista "Gaiola Aberta", que dirigiu entre 1974 e 1983. Remeteu-se a um hiato de 4 anos regressando em 1987 com "O Fala Barato", numa primeira fase em formato de jornal, e até ao seu encerramento em 1994 como revista. Mesmo com um país com uma mentalidade muito mais aberta para que o seu humor provocasse um efeito de choque, regressou com "O Cavaco" e "O Moralista" nos anos 90, e mais recentemente com a segunda edição da "Gaiola Aberta".



Um dos seus alvos predilectos era, lá está, a Igreja, de quem ria com gosto dos seus moralismos de trazer por casa, dos "padrecos" (nome pelo qual os padres são conhecidos, e que até prova em contrário é da sua autoria), das beatas, e de toda a hipocrisia que andava de mãos dadas com um regime (ou regimes) que amordaçavam o povo e não o deixavam ver o que para ele era evidente. "Viram aquele padre com o pau feito, que quase lhe saltavam os botões da batina?", "Olha, lá está o sr. Neves a apalpar o rabo da secretária, e a meter-lhe a lígua fétida no ouvido, o cabrão", "O quê, não viram? Abram os olhos c..., os de cima, porra". Hoje conta com mais de 60 colectâneas de ilustrações nos mais diversos média, e continua com o seu estúdio no Bairro Alto, local privilegiado para o ver o que muitos teimam em não ver, ou pelo menos aprender a lição que desde há seis décadas o mestre insiste em repetir. Será que ele tem uma secretária boa, com mamas grandes e cu redondo? Aposto que sim. E isso pergunta-se?


(Mais um) zero europeu



As equipas portuguesas voltaram a não pontuar na Liga Europa, confirmando-se os receios de quem não acreditava no Estoril e Rio Ave, os representantes do futebol português nesta primeira fase, devido sobretudo à inexperiência de ambas as equipas. Nos "canarinhos" ainda se depositavam algumas esperanças, uma vez que na última ronda haviam vencido em casa os gregos do Panathinaikos por 2-0, mas a jogar novamente no António Coimbra da Mota, não foram capazes de contrariar os russos do Dinamo Moscovo, saíndo derrotados por 1-2. O Dinamo conta com várias estrelas, desde os internacionais russos Denisov e Zhirkov, o búlgaro Manolev ou o francês Valbuena. E foi este último que fez o passe para o primeiro golo aos 52 minutos, da autoria de Kokorin, enquanto Zhirkov fazia o segundo a dez minutos do fim. Foi já ao cair do pano, no último minuto dos descontos, que Yohan Tavares reduziria para a equipa da linha, que com esta derrota e o empate caseiro do PSV frente ao Panathinaikos cai para o terceiro lugar do grupo E com três pontos, menos um que os holandeses e mais dois que os gregos. O Dinamo lidera apenas com vitórias, somando um total de nove pontos.



No grupo J o Rio Ave somou a terceira derrota em outros tantos encontros, ao perder na Roménia frente ao Steaua por 1-2. Os romenos chegaram ao intervalo a vencer por dois golos, ambos da autoria da sua estrela, Raul Rusescu. O melhor que os vila-condenses conseguiram foi reduzir por Yonatan Del Valle, logo no início do segundo tempo, mas seria insuficiente para evitar a derrota, e uma situação muito complicada nas contas do apuramento; os dinamarqueses do AaB venceram o Dinamo Kiev por 3-0, deixando os três adversários dos vila-condenses com seis pontos contra zero da equipa portuguesa. Depois de uma fase eliminatória positiva para uma equipa que se estreava este ano nas competições europeias, Pedro Martins precisa agora de um milagre para poder passar esta fase de grupos.

quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

TPC: amochar



A Universidade de Macau (UMAC) é sem dúvida um templo do conhecimento. Senão reparem: agora ficámos a saber que houve pelo menos um caso de assédio sexual, quando um professor da Faculdade de Ciências Sociais natural do continente terá convidado uma aluna para ter relações sexuais. Convidado...como é se convida, que eu quero exprimentar também? Estou cansado das velhas tácticas de engate, da "body language", dos bilhetes de entrada verdes com um número cinco e dois zeros...isto de convidar parece ser interessante. Quem é que recusa um convite, se for endereçado com jeitinho. Podia usar aqueles convites que mandei aos meus amiguinhos quando fiz cinco anos, e bastava alterar ligeiramente o texto: em vez de "gostaria de convidar-te para a minha festa de anos" ficava "gostaria de convidar-te para uma festa no teu ânus". Simples. O caso foi denunciado pela revista satírica (aqui "satírica" confunde-se com "satânica") "Macau Concealers", dirigida por Jason Chao, e terá ocorrido no ano passado. Hmmm...no ano passado? Já estou a imaginar o diálogo:

- A menina quer ir beber um café comigo?
- Não obrigado, tenho que ir para casa, fica para a próxima.
- Precisa de boleia?
- O meu pai vem buscar-me, mas obrigado na mesma.
- E que tal abocanhar-me o tarolo e depois levar com ele todo por trás e à bruta?
- Isso vai sair no teste?
- Mais ou menos...mas quer ir agora à oral? Depois pode ganhar créditos com a actividade extra-conicular...
- Ok, mas agora não estou preparada. O meu pai já se veio e está à esporrar por mim lá em baixo (a menina é disléxica e tem uma costela setubalense).

Só muito mais tarde é que a jovem percebeu: "Eh pá...aquilo era...UM CONVITE!" (tcha, tcha, tcha...). Vai de fazer queixa, e a UMAC decidiu suspender o professor por 12 dias: "Perante os factos, e da gravidade com que se revestem, o professor em questão é suspenso por doze dias. Desencoraja-se quer o pessoal docente, quer os estudantes a consumirem café, uma vez que a cafeína é um estimulante que actua sobre o sistema nervoso central, podendo ter influência nos ciclos do sono". Depois de emitirem este comunicado, ligaram para a loja de artigos medievais para saber se já tinha chegado o azorrague e o pau-de-arara que tinham encomendado para castigar condignamente um terrível violador que andava por lá a solta, o "Big Bill", que sodomizava os estudantes com o dildo da ideologia política.



Entretanto a Associação de Estudantes, presidida por este rapaz na imagem, Haochi Kiang, não ficou satisfeita com a explicação, e dizem que o problema não era o café, mas o "creamer": aquilo era assédio sexual! Nããããoooo! Que palavra tão feia essa, "sexual". Haochi Kiang diz ainda que o caso não foi o primeiro, e ao Bairro do Oriente disse: "No princípio até tinha a sua piada, como curiosidade e tal, mas passado algum tempo vai ficando difícil passar uma hora e meia sentado nas aulas". Os restantes alunos ficaram ainda mais alarmados quando uma gralha fez ler numa circular que "para o ano lectivo de 2014/2015 iam mudar para a Ilha da Montada".



Aqui vemos uma troca de e-mails entre o presidente da Associação de Estudantes e a vice-reitora Sylvia Ieong. Reparem como eles se tratam por "dear", ou "querido/a". O que quer isto dizer, uh?!?! Nada, seus perversos. Ai, ai, querem lá ver? Bom, ele pede mais esclarecimentos sobre o caso, e a exma.sra. vice-reitora responde que o caso "está a ser tratado de acordo com a lei", e perante a insistência de Haochi Kiang, responde...:"está a ser tratado de acordo com a lei". Dessa vez alguém se esqueceu de apagar o fim da cassete e ouviu-se ainda: "depois do segundo sinal, são nove horas, quatro minutos e vinte e cinco segundos, beeeep". Agora antes que pensem que ando a espalhar brasas, como é hábito, gostava de dizer que estas imagens foram retiradas da página do Facebook da Associação de Estudantes da UMAC, onde aliás se pode encontrar mais informação sobre o caso. Quanto a Sylvia Ieong, é mais misteriosa - o costume nestes casos, e só posso assumir que seja uma coincidência que estas "personalidades" envolvidas nestas "polémicas" nunca dêm a cara. Pudera; "tudo de acordo com a lei". Beeep!



Agora cumprindo com a vertente lúdica do Bairro do Oriente, proponho aos leitores um pequeno jogo de "Descubra as diferenças", ou neste caso, "Descubra as semelhanças". Em cima vemos uma foto de família da Associação de Estudantes da UMAC, por alturas da sua eleição, datada de 10 de Outubro, e em baixo uma outra foto com um grupo de elementos da Associação Novo Macau de visita à Assembleia Legislativa, ostentando os famosos laços amarelos que foram o símbolo do movimento "Occupy Central" datada de 18 do mesmo mês. O desafio é encontrar quantas pessoas aparecem nas duas fotografias. Eu contei seis! Será que conseguem fazer melhor?!?! Não tirem daqui segundas leituras, pois isto é apenas um jogo para "desenjoar". (A propósito, enquanto tiraram a fotografia de baixo tiveram que separar Sulu Sou, presidente da ANM, e Ng Kwok Cheong, deputado, que estavam à chapada e ao murro. Enquanto o primeiro exigia o uso da sala da AL reservada aos deputados pela associação, o último dizia ir retirar o apoio financeira à mesma. E as vacas voam, e as galinhas têm dentes).



E lá está Jason Chao acompanhado de Kam Sut Leng, que tem sido a "baby-sitter" da Associação de Estudantes durante estes dias, anunciando que vão fazer história daqui a uma semana, ao inaugurar a série de manifestações na ilha da Montanha, com um protesto junto do campus da UMAC. O motivo era para ser apenas o despedimento do professor Bill Chou, actualmente vice-presidente da ANM, mas "já agora" juntam a isso este caso de assédio sexual, dando assim uma mãozinha a estes jovens estudantes, que como já vimos, "não conhecem de lado nenhum". O presidente dos democratas, Sulu Sou, disse que "apoia a iniciativa" - que generosidade! Ainda há gente caridosa. Ao anunciar a abertura da época de caça activista, Jason Chao falou da necessidade do ensino de algo novo e revolucionário na Universidade: não Educação Sexual, que é uma coisa para bebés e anjinhos, mas “Educação sobre os abusos sexuais”. Tenho curiosidade em saber que cadeiras incluem um eventual curso superior deste tipo. "Canzana na secretária do professor"? "Rapidinha no armário do material"? "Introdução" (só "Introdução", assim mesmo)? Uma ideia a ter em conta.

PS: Já agora gostava de deixar claro que isto é uma sátira, e ao contrário do "Macau Concealers" não é satânica - é só um bocadinha parva. Penso que a maioria já tinha percebido, mas nunca se sabe...

Vídeo da semana



E aí está, acabou-se o que era doce. Ficou resolvido o problema dos táxis em Macau. No momento em que este tanso, este auto-intitulado taxista, fez-se ao "penalty" em frente ao COTAI, assinou a sentença de morte dos seus colegas abusadores, mafiosos, malandros, peçonhentos, e já que estamos numa de atirar pedras à adúltera, satânicos, sidosos e sanguessugas. Que pateta, este marcenário do carro preto, a pensar que podia enganar tudo e todos, ao atirar-se para o chão e ainda dizer que lhe bateram. Pfff...vê-se logo que ninguém o agrediu. Não foi agredido, agrediu-se! Não o suicidaram, suicidou-se! E ainda chamou a polícia. Deve pensar que somos todos parvinhos, e só porque acreditamos no Governo, vamos acreditar naquela "fita". Até parecia um filme português. Agora estão tramados, pá. Aqueles vinte e poucos minutos a buzinar à volta do Venetian foram a marcha fúnebre, o lamento dos danados. Depois da investigação (uma formalidade apenas) vai ser fácil apanhar outra vez um táxi. Basta levantar o braço para ver as horas e param dois ou três à nossa frente .Vai ser tanta a vontade de nos apanhar que até nos levam de Ká-Hó às Portas do Cerco por uma pataca. Nos dias de tufão vêm-nos buscar a casa e ainda nos pagam 400 patacas, para compensar pelas injustiças cometidas pelos malandrins no passado. E quanto a esses, vão acabar no fundo do rio com um pedregulho atado no tornozelo. Amanhã é um novo dia, e no futuro os nossos filhos vão poder andar de táxi com um brilho nos olhos e um sorriso do tamanho do mundo. Obrigado, Capitão América!

Não sou de cá...vim ver a bola



Kenny G, nome artístico de Kenneth Bruce Gorelick, tem 58 anos e ainda acredita no Pai Natal. O instrumentista que nos levou à beira da náusea nos anos 90 com a sua gaita esteve em Hong Kong estes dias em trânsito para Hainan, onde vai ser uma das cabeças de cartaz do torneio internacional de golfe. E uma vez na RAEHK, onde foi ele procurar fãs? Entre os manifestantes do movimento "Occupy Central", onde mais? Os amantes das liberdades e da democracia "made in USA" procuram os seus pares, e além de dar uns autógrafos o gaiteiro ainda aproveitou para tirar umas fotos junto com a malta, e em menos de um nada as imagens apareceram no Twitter, para todo o mundo ver que bonita é a amizade entre os justos. Olha Kenny G, se me estiveres a ouvir, presta atenção: desde o tempo em que vendias muitos discos com música de elevador a gente demasiado preguiçosa para ouvir música decente e espertalhões que punham a tua música quando planeavam dar uma queca (não tinha letra, portanto não distraía), inventaram coisas como o Facebook, o Twitter, o Instagram e mais uma porrada de coisas que reproduzem um peido teu antes de acabares de o dar. Pois, pois, andas aí agarrado à gaita, admiro a tua firmeza de carácter, mas depois não chores. É que agora a China, que como tu sabes é um regime totalitário (sabes porque ouviste falar, viver lá é outra coisa) não achou piada nenhuma à gracinha, e agora ficas a pensar se vale a pena confirmar a reserva do hotel. Quer dizer, que ingenuidade a minha; o receio é que chegues ao "lobby" e digam que "não conhecem nenhum Kenny G", ou que "nunca ouviram falar". E olha que mesmo que não te digam nada, até uma hora antes do concerto podem riscar-te da lista, e ninguém se vai lembrar que o teu nome estava no programa. Mas deixa lá, olha, e espero que eles tenham misericórdia de ti, e como és "kwai-lou", pode ser que te dêm um desconto. Por outro lado...



Estes é que não têm desculpa. Quer dizer, os da imagem têm, um bocadinho, pois da esquerda para a direita temos Denise Ho, Anthony Wong e Chapman To. Os dois primeiros são "gay", o que neste caso não só não justifica nada como ainda piora a situação, e o terceiro foi diagnosticado como obsessivo-compulsivo, o que trocado por miúdos, quer dizer que é maluquinho, e de vez em quando "passa-se". São estes artistas, um grupo de actores e cantores da RAEHK onde estão incluídos ainda alguns nomes mais conceituados, casos de Andy Lau e Chow Yun-Fat, que estão agora com trampa até ao pescoço, depois da Liga da Juventude Chinesa, orgão do Partido Comunista, apelou ao boicote do seu trabalho, desde os filmes, discos e até aos seus blogues, ou seja, ficarão completamente "apagados", tudo porque manifestaram o seu apoio pelo movimento pró-democrata em Hong Kong. O apelo recebeu a aprovação de 200 mil cibernautas, e isto traduz-se em muitos milhões de consumidores, os tipos que compram os discos e vêem os filmes que estes gajos fazem, e por isso as respectivas indústrias dependem do mercado do continente para...sei lá, pagar as contas? Comer, viver? Independentemente dos dígitos nas contas bancárias, que neste tipo de coisas determina o tamanho dos "tomates" de cada um, destes "heróis", dificilmente conseguirão entrar noutro filme ou gravar um ai num CD, e mais valia terem ficado quietos. Afinal querem cantar e representar, ou fingir que pensam pela própria cabecinha? Isto é o que se chama apostar no cavalo errado. Não me levem a mal, a sério, já estou farto de ter esta discussão: não estou a favor do regime, que é responsável por deixar tudo isto acontecer, nem posso ficar do lado de quem pensa que pode usar as massas como "peões" para atingir um fim, e ainda por cima aproveitando-se da sua ingenuidade. Até numa revoluçãozinha como a nossa, o 25 de Abril de 1974, o povo só saíu à rua depois de ter a certeza que não havia um regime com força para os aniquilar. E agora...a China?

A escola (nunca vai acabar)




Já dizia Jorge Palma no seu "A Escola", do álbum Bairro do Amor: "A escola ainda não acabou/ainda há tanta matéria a estudar". Para Madeline Scotto, uma professora de 100 anos natural e residente em Nova Iorque, a escola só vai acabar com o seu último suspiro. Scotto reformou-se oficialmente do ensino há 10 anos, quando tinha 90, devido a problemas auditivos. Mesmo ouvindo mal, decidiu continuar no activo, e três vezes por semana fica na biblioteca da St. Ephrem’s Elementary School, a escola onde estudou até 1928, a dar explicações de Matemática a alunos que estejam mais atrasados na matéria. A professora sente-se no seu sétimo céu, pois nunca deixou de sentir grande afecto pela escola onde estudou, apesar de ter feito a maior parte da sua carreira e ensinar noutras instituições de ensino. Mãe de cinco filhos, já todos aposentados, com nove netos e 16 bisnetos, Scotto começou a dar aulas em 1954, já aos 40 anos, depois de cumprir a sua "recruta" como mãe e dona-de-casa. Ganhou-lhe o gosto, e depois da morte do marido em 1999 nunca mais deixou o ensino, o contacto com os mais pequenos, e nem quer ouvir falar de reforma. Vive num bairro a poucos minutos da escola onde ensina, que manda um funcionário buscá-la todos os dias a casa. Um exemplo de dedicação muito para além do limite da idade.

Anti-social de quatro patas



Robin Herman, de Newton Massachusetts, nos Estados Unidos, é proprietária de um abrigo que se dedica a recolher cães abandonados, e dentro do possível tratar os que se encontram enfermos - em suma, é uma ANIMA lá do sítio, mas com mais apoios e assumidamente dedicada apenas a cães. O abrigo tem o nome de "Lucky Dog", ou "cão sortudo", e um desses sortudos foi Adam, um amigo de quatro patas que foi encontrado com o que indicava ser sarna: sem pêlo e com feridas em várias zonas do corpo. Robin tratou do cão o melhor que sabia, mas apesar de Adam ter adquirido uma aparência mais saudável, persistia o problema da comichão, que o deixava a largar largas quantidades de pêlo e não lhe deixavam restaurar a pele. Tendo usado os melhores champôs, insecticidas e vermífugos, resolveu levá-lo ao veterinário para descobrir a razão da maleita de Adam, e ficou perplexa ao saber que afinal que o problema era...ela própria - o cão é alérgico a humanos. Um caso raro, que até parece uma anedota, ao estilo de quando dizemos que somos "alérgicos a certas pessoas", mas não, nem foi piada do veterinário, nem o cão tem o sentido de ironia, e até está a sofrer sem saber porquê. Acontece que assim como há pessoas alérgicas aos cães, o contrário também é possível de se suceder, mesmo que seja raro. Cada uma das espécies tem bactérias - e nós transportamos sempre bactérias, algumas sem as quais não conseguiriamos viver - que provocam na outra uma reacção alérgica. E o que fazer com Adam, agora que se sabe que o contacto com os humanos é a razão do seu sofrimento? Abandoná-lo de novo? Cremá-lo e fazer sabão com as suas bolsas adiposas? Nada disso! Assim como as pessoas podem tratar a alergia aos cães (contudo muitas preferem não o fazer), os amigos de quatro patas podem ser tratados da sua incompatibilidade com os humanos. E a mesma dedicação que leva Robin Herman a socorrer os canídeos da agressão dos homens sem coração levará também a que Adam possa de novo ter um lar.

1X2 na Champions



Uma vitória, um empate e uma derrota, saldou-se desta forma a participação das equipas portuguesas na Liga dos Campeões, que teve ontem e terça a sua terceira ronda da fase de grupos. O FC Porto foi a única formação lusa ao sair vitoriosa, derrotando no Dragão o Athletic Bilbao por 2-1, com golos de Herrera aos 45 minutos, e Quaresma aos 75, depois de Guillermo Hierro ter feito o empate para os bascos aos 58 minutos. Os dragões estão bem encaminhados para conseguir o apuramento, liderando com 7 pontos contra 5 dos ucranianos do Shaktar Donetsk, que foi à Bielorrússia golear o BATE Borisov por 7-0 (!) com a curiosidade de todos os golos terem sido apontados por jogadores brasileiros, com Luiz Adriano a marcar cinco apenas à sua conta. O BATE soma três pontos e o Athletic Bilbao um ponto apenas.



No Grupo G o Sporting foi a Gelsenkirchen perder com o Schalke 04 por 4-3, numa partida em que os leões se podem queixar da arbitragem muito "caseira". Nani deu vantagem à equipa de Marco Silva aos 16 minutos, mas a expulsão do central Maurício ainda no primeiro tempo complicou as coisas, e os alemães chegaram aos 3-1. Mesmo a jogar com dez o Sporting conseguiu empatar, mas no último minuto um "penalty" mal assinalado ditou a derrota, e o último lugar do grupo com um ponto, contra 7 do Chelsea, que goleou o Maribor por 6-0, e cinco do Schalke. Noutras partidas do dia destaque para a goleada do Bayern por 7-1 no Estádio Olímpico de Roma, a contar para o Grupo E, que deixa os alemães no topo só com vitórias, enquanto que no Grupo F o Paris SG foi ao Chipre vencer o APOEL por 1-0, mantendo a liderança com sete pontos, mais um que o Barcelona que venceu em casa o Ajax por 3-1.



Já ontem o Benfica não foi além de um empate sem golos no Estádio Louis II, complicando bastante o apuramento para a fase seguinte. Os encarnados jogaram os últimos quinze minutos do encontro reduzidos a dez unidades devido à expulsão do central Lisandro Lopez por acumulação de amarelos, e apesar de terem somado o primeiro ponto estão em último lugar do Grupo C, estando praticamente obrigados a vencer os encontros que faltam, em casa contra Monaco e Bayer Leverkusen, e pelo meio na deslocação à Rússia, contra o Zenit. O Leverkusen assumiu a liderança do grupo com seis pontos, depois de derrotar em casa o Zenit por 2-0, seguindo-se o Monaco com 5 e os russos com 4 pontos.



No Grupo C o Real Madrid foi a Liverpool vencer por claros 3-0, não deixando os seus créditos de campeão europeu por mãos alheias. C. Ronaldo marcou o primeiro e o francês Benzema os dois restantes. A equipa merengue lidera com nove pontos, contra 3 dos búlagaros do Ludgorets, que venceram em casa por 1-0 os suíços do Basel, que somam igualmente três pontos, tal como o Liverpool. O finalista vencido e rival da capital espanhola, o Atletico Madrid, goleou os suecos do Malmoe por 5-0, e lidera o grupo A com seis pontos, tantos quantos o Olympiakos, que derrotou na Grécia a Juventus por 1-0. Transalpinos e suecos repartem o último com três pontos. Finalmente no Grupo D o Dortmund foi passear à Turquia, onde venceu facilmente o Galatasaray por 4-0, enquanto o Arsenal foi à Bélgica vencer o Anderlecht por 2-1, e ocupa o 2º lugar com seis pontos. Turcos e belgas estão praticamente de fora da fase seguinte, partilhando o último lugar com um ponto cada.



terça-feira, 21 de Outubro de 2014

Édito positivo, é sempre bem feito



Tenho por vezes o hábito de praticar algo que para muitos é considerado "mau", que é aquilo a que chamam de "comentar os comentários". Ora, mas isso é o que toda a gente faz, não é? Ou será a opinião de cada um o seu castelo, e se for esse o caso, para quê divulgá-la? Ou será que as opiniões estão seladas, lacradas e fechadas ao cadeado e não são passíveis de refutação? Se a liberdade deixa as palavras voarem ao vento, é bem possível que venham parar ao meu quintal, e posso escolher varrê-las com as folhas e mandá-las para o lixo, ou levá-las para dentro, e nesse caso tenho ainda a opção de lhes dar uso que achar mais conveniente, ou não? Serão as opiniões exclusivas do seu autor, e como tal protegidas ao abrigo da lei? É que assim desconfio que as duas que pretendo agora analisar já foram feitas por outros, ou pelo menos existe uma forte semelhança, o que já por si é prova da existência de plágio. Bem, entendidos ou nem por isso, vamos ao que interessa. Dois artigos na imprensa em língua portuguesa de Macau merecem a meu ver que se façam algumas observações. Tratando-se de editoriais assinados pelos respectivos directores do jornal em que são publicados, que desde já saúdo, podia exercer o meu direito ao contraditório escrevendo para os mesmos jornais, mas prefiro fazê-lo aqui, que assim só cá vem quem quer, e não é obrigado a deparar com as minhas diatribes enquanto faz as suas leituras de eleição.

O primeiro artigo é do Hoje Macau, da autoria de Carlos Morais José e tem o título de Perigosa Brincadeira, tendo como tema o Festival da Lusofonia, que como se sabe realizou-se até ao último Domingo. Há quem não saiba e confunda o Festival da Lusofonia com o arraial que se realiza entre sexta-feira e Domingo no Largo do Carmo, na Taipa, na zona das casas-museu, mas a realidade é esta: o Festival confunde-se com o arraial e quem ouve falar do primeiro associa imediatamente ao segundo e tudo o que isso acarreta, desde as "jolas" às bifanas, das caipirinhas aos matraquilhos e pelo meio dar um abraço à malta e "ver passar os chineses", citando o autor. Para o director do Hoje isto é "uma desgraça", e por "desgraça" faço uma interpretação simpática de outros epítetos do tipo "palhaçada", "vergonha" ou "humilhação", com a desvalorização do papel histórico de Portugal no que é agora a RAEM, reduzindo-nos a meros saloios, baterias apontadas ao IACM, e o papel de cúmplice para quem aderiu, caindo que nem um patinho no conto do tuga pândego e beberrão.

Pronto, agora que ele já nos deu porrada, vamos ver se saímos disto vivos, pelo menos, e com alguma sorte sem as pernas e os braços partidos. Sem dúvida que Portugal e a herança cultural deixada pelos nossos antepassados é muito mais do que o arraial e de tudo o que CMJ referiu algures pelo meio da artilharia pesada com que arrasou o Festival da Lusofonia. Não vou cometer o atrevimento de chamar a este seu raciocínio desonestidade intelectual simples (nem chega a ser qualificada) pois reconheço como pode ser até uma forma de ginástica mental bastante agradável, querem ver: "mas mostrar o quê afinal? qual ciência, qual cultura e qual história? o melhor é ficar mesmo pelo arraial porque se nos pomos com conversa de chacha ainda vão pensar que queremos que nos comprem a dívida". Estao a ver como é fácil? Mas pronto, independentemente de quem está aqui a tentar ser mais cínico, noto no discurso de CMJ alguma sinceridade, e entendo que alguém como ele, que tanto tem feito pela divulgação da língua e da cultura portuguesa sinta alguma frustração ao ver tudo resumido a um simples arraial. Tudo bem, mas e depois?

Este é um vício antigo que nós temos e que face às características do local onde nos encontramos pode ser isso sim, uma "brincadeira perigosa": portanto, não é assim que se faz bem as coisas, o melhor era não fazer nada. E ainda acabamos por engolir essas palavras, que por estas bandas existe uma tendência para complicar o que é aparentemente simples em alguns casos, e noutros fazer interpretações literais do segundo sentido que se dá às coisas. Haja vontade para levar a cabo tudo e mais alguma coisa que diga respeito à Lusofonia, e pronto, foi tudo uma maravilha, não entremos nessa discussão, mas que mal tem o arraial? É preciso não esquecer que a China não se pela de amores pela glorificação de uma potência estrangeira dentro do seu território, mesmo que seja apenas do seu passado, e que a intenção seja compreender melhor o próprio contexto de onde nos inserimos. O arraial pode não ter o mesmo impacto que a literatura ou a música, mas ainda deixa passar qualquer coisa, dá umas pistas. Das vezes que lá vou com pessoas que não sabem nada sobre Portugal, denoto sempre um misto de surpresa e de respeito quando tomam conhecimento da nossa epopeia expansionista. Para consumo local, para uma população que não aprende a cadeira de Filosofia no secundário e não é estimulada a pensar, um arraial pode servir como aperitivo, e se estiverem interessados podem ir tentar saber mais.

E quanto à natureza rústica do arraial propriamente dito, não entendo o desatino. Portugal é muita coisa e de tudo o que entra na caldeirada o arraial é mais um ingrediente, e não é nada de vergonhoso ou humilhante, tipo romagem a algum santuário para prestar homenagem a criminosos de guerra. Todos os povos têm o seu lado brega, e para isso basta ter um passado; os alemães têm o Oktoberfest, os austríacos têm os tiroleses, e reparem como o príncipe Carlos usa um "kilt" (vulgo saia) em certas cerimónias oficiais - não se pense que achou que lhe ficava bem com o chapéu e resolveu sair assim de casa nesse dia. Acho que é mais fácil para mim ser português e digerir um arraial ou outro aspecto cultural mais populucho do que se fosse turco e tivesse que brigar na lama semi-nu com outro homem em nome da "tradição". E mais: é verdade, estamos na China! O melhor é ficar por aí, que podia entusiasmar-me e ser desagradável. Já agora, juntemos a isto o facto de não ser nada producente andar constantemente a rebaixar o que se tem, apenas para lamentar o que não se tem.

E na mesma tónica que nos leva a tabelar as coisas por baixo, mas com uma mensagem ligeiramente diferente ,do tipo "mesmo que não seja óptimo ou sequer bom, é melhor que nada", temos o editorial de Sérgio Terra no Jornal Tribuna de Macau. Em primeiro lugar saudações ao autor, que no fundo não diz nenhuma mentira, mas deixa-me meio desconfiado, como quem olha pela janela e vê um linda dia de sol mas instistem para que saia de casa com o guarda-chuva. Com o título Não vale tudo, o editorial tem um papel vincadamente didático, ao estilo do "modo de usar" que lemos nas parte de trás de certos medicamentos ou outras coisas que não temos por hábito comprar, como armadilhas para os ratos e baratas, mas aplicado a um direito fundamental, neste caso o da liberdade de expressão. Não entendo o teor de artigo de outra forma que não o de uma eventual réplica em Macau do movimento "Occupy Central", esse engodo que vai para a lista dos "case-studies" regionais que nos deixam saber mais um pouco sobre o que vai na cabeça desta gente. Mas neste caso eu acho que é mais prejudicial do que benéfico levantar esta questão, e explico já porquê.

Uma das diferenças que notei entre a administração portuguesa e a actual após 1999 foi a mudança na forma como se encaram os direitos, mormente como e em que circunstâncias podemos activá-los em nossa defesa ou proveito. Quem tem contacto com a máquina burocrática ou não consegue evitar ser também uma peça dessa mesma máquina repara certamente que a forma com que os chineses entendem a justiça é pelo lado preventivo: é melhor prevenir do que deixar acontecer e depois decidir se há ou não infracção da parte do agente. No caso de Macau esta opção terá sido feita mais com receio de não conseguir dar resposta a certas situações que requerem mais experiência ou que obrigam a uma sustentação de base literária, reflexão com recurso a consultas diversas oiu a analogias de casos idênticos, enfim, tudo o que requer tempo e se puxe pela cabeça. Isto leva a que se negue o acesso a diversas valências, que mesmo não tendo importância no que toca ao exercício das liberdades, limitam os movimentos e podem dificultar o cumprimento de certas tarefas, e se há algo em que estes tipos têm muita imaginação é na dedução que fazem de certas atitudes ou comportamentos - e ainda justificam isto com uma falsa preocupação, em nome da nossa "protecção e segurança". Enfim, uma tristeza. E foi mesmo a parte em que o Sérgio Terra fala de "segurança" que me deixa a entender que o subjacente é uma hipotética imitação das manifestações que deixaram Hong Kong em suspenso durante as últimas semanas.

Não acredito que em Macau se vá em frente com uma iniciativa semelhante à de Hong Kong, e por duas razões: primeiro porque não produziu o efeito desejado, e não fazia sentido importá-la para aqui, e segundo porque os democratas, por muitos defeitos que tenham, têm a virtude de aprender com os erros. Agora os outros, bem, para bom entendedor, etc.. No entanto reconheço-lhes o direito de se manifestarem, tanto a eles quanto a outra pessoa qualquer, e nem se põe a questão de ser dentro dos limites da lei - qualquer um sabe disso. O pior é o que se entende por "limites", e ali o director do JTM toca na ferida ao mencionar duas palavras que podem querer dizer mil coisas: "segurança" e "caprichos". Ainda penso que vivemos num ambiente de respeito pelo primado da lei, mas depois desse teste à eficácia do sistema e à competência das autoridades que foi o referendo civil, passei a desconfiar um pouco. Quer dizer, é improvável que a polícia vá andar atrás de avózinhas, virgens e outra gente insuspeita, mas fiquei com a ideia de que se pode deter alguém, mantê-lo na esquadra um dia inteiro e depois mandá-lo para casa sem dar explicações de espécie alguma, e tudo em nome da "segurança". Quanto a isto dos caprichos, é claro que não basta dizer que não se gostou do que alguém disse para agir judicialmente contra essa pessoa, mas há portas e travessas por onde se pode lá chegar. Se somos amantes da liberdade e defensores de uma lei igual para todos, é preciso encarar o Direito na sua vertente positiva: sentir que estamos seguros, conscientes dos deveres, mas sem estar olhar por cima do ombro com receio de nos faltar o chão onde por os pés, com medo de errar ou ser induzido em erro. E é só, obrigado, e desculpem qualquer coisinha.

Desalinhados



No Sábado passado foi criada em Toronto, no Canadá, a "International Macanese Alliance", uma aliança que congrega dez casas de Macau, a maioria delas dos Estados Unidos e Canadá. A inicitativa terá partido do “Amigu di Macau Club”, presidido por José Cordeiro, e pelo investigador macaense Roy Eric Xavier, professor na Universidade de Berkeley, na Califórnia, e que há cerca de dois anos apresentou um estudo que estimava em "cerca de 150 mil", o número de macaenses da diáspora, espalhados na sua quase totalidade por dez países. A Aliança aparece à revelia do Conselho das Comunidades Macaenses (CCM), que oficialmente serve de elo de ligação entre muitas casas de Macau em todo o mundo, e cujo seu presidente José Luís Marques já veio criticar a iniciativa. Segundo Roy Xavier a ideia é "concretizar projectos que nunca foram apoiados pelo CCM", que o investigador considera "estar deslocado" da diáspora. Das dez associações que formam a aliança cinco são dos Estados Unidos e três do Canadá, e dessas apenas duas são membros do CCM. Das outras duas fora do continente americano pouco se sabe; há uma "International Portugal-China North American Association of Macau", supostamente sediada em Portugal, mas da qual basta fazer uma simples pesquisa na net para se perceber que vem do "nada". De Macau há uma "Associação de Promoção da Cultura de Arte e Economia entre a China e os Países Lusófonos”, também desconhecida, mas que poderá ter o dedo do deputado José Pereira Coutinho e da secretária-geral adjunta do Fórum Macau, Rita Santos. Algumas das associações que compõem esta aliança viram recusada a sua entrada como membros da CCM em Dezembro último, por altura do Encontro das Comunidades Macaenses, o que pode explicar muita coisa, mas por enquanto Roy Xavier desvaloriza qualquer eventual polémica e fala do interesse de "pelo menos mais cinco associações" da diáspora macaense em juntar-se à IMA.

Este é um assunto que não é fácil abordar sem mexer com algumas sensibilidades, e não vou sequer pela via do "quem é quem", ou do "qual é o quê", porque conheço muito pouco ou mesmo nada das comunidades macaenses no exterior, e se de facto, como defende Roy Xavier, existem 150 mil macaenses espalhados pelo mundo, o tal encontro que se realiza em Macau agora com mais frequência é apenas residual, e não diz muito do que é a diáspora no seu todo - não deixa de ser encantador, entenda-se. Cada vez que me é dado a saber qualquer coisa sobre as casas de Macau, fico impressionado com a união que existe entre os seus elementos. Duas delas de que me recordo ter sido dado destaque na televisão são a de Lisboa e a de S. Paulo, e nesta última notei não só a capacidade de recriar um ambiente ainda mais macaense do que em Macau, como a forte presença de algumas características que já se perderam ou que se vão perdendo aqui no território. Se pensam que estou a exagerar, convido-vos a verem o canal do YouTube de Francisco António, presidente da Casa de Macau em S. Paulo. A tal questão da identidade macaense, um tema que dificilmente se esgotará e que é passível das mais diversas leituras, ganha uma nova luz perante a forma como os macaenses da diáspora encaram esse sentimento de pertença, não a Macau, mas à sua própria herança cultural e genética. É impossível pegar na questão e elevá-la a uma perspectiva científica, pois é possível que no caso de se poder quantificar a identidade, encontrássemos casos em que alguém que nunca esteve em Macau seja "mais macaense" que outro nascido no território e correspondendo às características tidas como mais comuns para identificar essa origem: o sangue português e chinês, a cultura oriental com forte influência lusitana. Não é para admirar que sejam uma gente que sente muito o seu ser, pois deriva de duas culturas que dificilmente abandonam a sua matriz inicial., onde quer que se encontrem. Sendo esta é uma qualidade do tamanho do mundo, Macau adquire um estatuto simbólico, e nascer em Macau pesa pouco numa eventual definição dessa identidade.

Agora permitam-me meter os meus "fai-chis" no lacassá alheio, mas fico sempre com a impressão de que das inúmeras comunidades macaenses no mundo, a de Macau é que tem mais dificuldades em se afirmar, e isto tem uma razão de ser. Passo a elaborar a partir desta afirmação, mas peço que tenham sempre em conta que é apenas a minha opinião, mas mesmo valendo o que vale há pontos em que as opiniões são unânimes. A razão de raíz que leva a uma certa timidez por parte da comunidade local é talvez a mesma que levou à existência da diáspora: o estatuto de Macau, e a permanente incerteza quando ao seu futuro. Isto levou a que se dessem os grandes movimentos migratórios para as Américas e Hong Kong nos anos 60 e 70, mais tarde a Austrália começou a ser outro destino de eleição, talvez mais conveniente em termos geográficos, e depois Portugal foi o destino de muitos que optaram pela integração na altura da transferência de soberania para a China. Nos últimos cem anos os macaenses estiveram sempre na posição privilegiada de elo de ligação entre a potência soberana, Portugal, e a etnia dominante, a chinesa, mas apesar da vida ter sido menos dura para eles que do que para os restantes naturais de Macau, nunca beneficiaram de um período de estabilidade aliado à prosperidade económica que fizesse emergir da sua elite um grupo que aspirasse a um lugar específico no contexto do território, e que aspirassem a uma maior autonomia, ou a formar uma terceira parte que pudesse negociar o seu próprio futuro. Basicamente estiveram do lado dos portugueses até 1999, considerando-se muitos deles "portugueses" de identidade e mais nada, e os que optaram em ficar precisaram de se adaptar, e aqui é que eu penso que reside o principal problema que leva uma certa cisão entre os macaenses de Macau e da diáspora: os daqui tentam agradar demasiado, como se precisassem de um favor para ficar na terra que os viu nascer, e em muitos casos onde nasceram também os seus pais e avós, e caso demonstrem ficar numa posição de antagonismo com o poder, arriscam-se ao ostracismo e remetidos a um zero existencial. Foi também esse o pensamento que levou a que muitos abandonassem o território, e entre esses há quem tenha mudado de ideias e regressado.

E é esse mesmo o ingrediente que tem faltado à comunidade macaense, o da afirmação plena. Desfazem-se em cortesia e em salamaleques com o poder, não se atrevem a discutir ou a debater os temas de Macau, que aqui é o equivalente a "colocar-se num lugar de extrema oposição", e assimilaram o estranho conceito de que recusar a integração total na China significa desaparecer, ao que leva ao paradoxo das novas gerações terem um nome português e não saberem dizer uma frase na língua de Camões. Por muito que os chineses apreciem o esforço, a sua natureza etnocentrista nunca os considerará iguais a eles - e isto sem querer fazer qualquer juízo; é assim e é assim, pronto. A juntar a esta reverência excessiva há depois o habitual elitismo, factor inato de desagregação, e uma certa sede de protagonismo. Nada impede os macaenses de se afirmarem como aquilo que são, mas o que os leva a pensar que não têm os mesmos direitos e deveres do resto dos residentes ao ponto de ser necessário "correr por fora", optando ora por agradar a todo o custo, ou quedar-se pelo anonimato, numa postura de quase invisibilidade? E desse modo, que sentido faz a que insistam em ter uma palavra a dizer nos centros de decisão politica? São livres de o fazer, claro, mas se a atitude é de ora estrita cooperação com o poder, ora de silêncio, só se pode entender nisto um exercício de vaidade e de benefício em causa própria. Mesmo a única via que encontraram para chamar a si alguma representatividade causou mais uma rotura (falo da ATFPM e de José Pereira Coutinho, lógico), e a impressão que fica é que cada um tem uma ideia muito própria do que deve ser a comunidade, e um visão estritamente pessoal do todo. Quem não conheça a realidade poderá ficar com a noção de que existe aqui um défice democrático, mas eu chamar-lhe-ia antes rigidez de princípios. Não é bem uma cegueira, mas antes uma miopia grave.

E só assim se explica o excesso de associações disto e daquilo, pois para alguns egos nenhuma associação que não os tenha como elemento dirigente, é uma associação que não serve "os interesses de todos". Justificava-se apenas as associações de cariz cultural mais específico, casos da Confraria da Gastronomia Macaense, e dos Doçi Papiaçam di Macau, neste caso um grupo, mas assim junta-se a Associação dos Macaenses, representa-se toda a gente dentro dos limites daquilo que a comunidade representa, e já está. É que a vantagem das comunidades macaenses ultramarinas é o facto de estarem integrados no país de acolhimento, e partindo daí expressarem a sua vertente cultural "inter pares", sem precisarem de andar a pedir favores a ninguém. Aqui onde existe ainda a vantagem de não ser preciso adaptar-se a coisa nenhuma, ora se procura uma "brecha" entre o poder onde se possa anichar, ou se faz o papel de "índio", apelando de braços abertos à preservação dos aspectos culturais - e é aí que se estabelece a relação com a comunidade portuguesa em geral: há aqueles que os acham "muitos giros", e os outros que os desprezam. Os chineses desvalorizam tudo isto, na melhor das hipóteses toleram as pretensões, desde que não interfira com as directivas, enquanto as comunidades na diáspora, dotadas de horizontes mais largos que os levam as coisas de uma perspectiva mais global,  viram-lhes as costas. Mas por que não ser residente de Macau em primeiro lugar, e então depois macaense? É exactamente o que eu faço, o que muitas vezes leva a que se entenda que sirvo de "um grão de areia na engrenagem" - mas do quê, exactamente, se os discursos oficiais dizem que eu não sou mais nem menos que o meu vizinho do lado ou dos meus colegas do trabalho? Sim, sou português na hora em que isso é pertinente, e não será concerteza para obter vantagens ou escusar-me das obrigações. Há sem dúvida uma falta de estratégia, e a criação desta aliança faz mais do que transmitir uma mensagem: dá o alerta. A comunidade só se vai extinguir por culpa própria, por mais boa vontade que exista de qualquer uma das partes externas a este "conflito interno". Outra vez, isto é só uma opinião, e nem pretende ser uma tentativa de diagnóstico. Cabe só a vocês reflectir e fazer o que entenderem melhor. Mas vejam lá se desta vez o fazem juntos, e puxam para o mesmo lado.

Premier League - 8ª jornada



A oitava ronda do campeonato inglês, realizado entre Sábado e ontem teve o seu arranque com a visita do Tottenham ao reduto do Manchester City, onde a equipa londrina certamente não contava com a inspiração do argentino Sergio Agüero, que marcou todos os golos da vitória por 4-1 da sua equipa, mesmo que dois deles tenham sido na transformação de grandes penalidades. O "show Agüero" teve início aos 13 minutos, mas logo aos 15 o Tottenham empatava por Cristian Eriksen. Foram só precisos esperar mais cinco minutos para o argentino converter o primeiro castigo máximo, cobrando o segundo aos 68 e terceiro do total, e fechando a contagem sete minutos depois. O City ficava assim temporariamente a dois pontos do líder Chelsea, que jogaria duas horas mais tarde.



Mas o Chelsea não cedeu terreno, e foi ganhar ao Selhurst Park, casa do Crystal Palace, por duas bolas a uma. Oscar inaugurou o marcador aos seis minutos, e fez a assistência para o segundo, autoria de Fabregas, decorriam 51 minutos de jogo. O melhor que o Crystal Palace conseguiu foi reduzir já em cima do minuto noventa por Frazier Campbell. A equipa de Mourinho mantém a liderança com mais cinco pontos que o Manchester City, e mais seis que o Southampton, que protagonizou a goleada do campeonato até ao momento, esmagando em casa o Sunderland por 8-0. Para o quarto lugar subiu o West Ham, que foi ao reduto do Burnley vencer por 3-1, a par do Liverpool, que no Domingo venceu o lanterna-vermelha Queens Park Rangers em Loftus Road, por 3-2. Destaques ainda para a vitória tranquila do Everton em casa por 3-0 frente ao Aston Villa, e da primeira vitória do Newcastle, que venceu em St. James Park o Leicester, pela margem mínima.



Já o Arsenal continua a fazer um primeiro terço de campeonato modesto, voltando a perder pontos em casa, desta feita frente ao Hull City, que surpreendentemente se encontra apenas a um ponto dos "gunners". A tarde até se previa tranquila no Emirates Stadium quando Alexis Sánchez inaugurou o marcador logo aos 13 minutos, só que o Hull respondeu de imediate e repunha o empate aos 17 por Mohammed Diamé. Não houve alterações no marcador até ao intervalo, mas logo no primeiro lance da etapa complementar o uruguaio Abel Hernández dava vantagem aos visitantes, deixando os adeptos locais incrédulos. Arsene Wenger ainda evitou o escândalo quando já nos descontos Danny Welbeck deu o empate à sua equipa, que se mantém num humilde 7º lugar com 11 pontos, metade dos pontos do líder Chelsea. No Domingo além do QPR-Liverpool, jogou-se o Stoke City-Swansea, com vitória dos primeiros por 2-1.



Já ontem, segunda-feira, encerrou-se a jornada com o Manchester United a ir empatar a dois golos no reduto do West Bromwich, perdendo assim a oportunidade de somar a terceira vitória consecutiva e isolar-se no quarto lugar. A equipa de Van Gaal andou sempre atrás do prejuízo, com Stephane Sessegnon a inaugurar o marcador para os locais no oitavo minuto, sendo preciso esperar pelos 48 para Fellaini fazer o empate. Aos 66 o internacional sub-21 inglês Said Berahino voltava a dar vantagem ao West Brom, e só um golo do holandês Danny Blind a três minutos do fim evitaria uma embaraçosa derrota para os "red devils".

Classificação (dez primeiros):

1 Chelsea 8 22
2 Manchester City 8 17
3 Southampton 8 16
4 West Ham 8 13
5 Liverpool 8 13
6 Manchester United 8 12
7 Arsenal 8 11
8 Swansea City 8 11
9 Tottenham Hotspur 8 11
10 Stoke City 8 11

segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

Loucos, todos loucos



Está outra vez na ordem do dia o caso Bill Chou, o professor de Ciência Política da Universidade de Macau suspenso em Junho e posteriormente despedido (contrato não renovado), alegadamente devido à sua actividade paralela de activista pela Associação Novo Macau (ANM), a que se juntou oficialmente em Novembro de 2013, mas com a qual participou de diversas actividades desde meados de 2012. A cronologia do início da ligação de Bill Chou ao ANM até à sua filiação e consequente afastamento da UMAC, que vinha exercendo há mais de dez anos é fácil de estabelecer: basta aceder à sua página do Facebook e verificar as datas das fotografias publicadas. É um exercício tão interessante quanto misterioso, e que não chega sequer a levantar a ponta do véu sobre o que realmente aconteceu ao docente, e que abriu o debate sobre a liberdade académica e a liberdade de expressão em Macau, ou a falta dela. A juntar ao prejuízo que a polémica trouxe para a credibilidade do ensino superior no território, seguiu-se o despedimento de Eric Sautedé, professor de Ciência Política na Universidade de S. José, dando a entender que aparentemente as quest­ões da política são tabu, e para quem ainda acredita em coincidências, não existe qualquer ligação com a actual situação em Hong Kong. É melhor ficar sem saber e evitar assim alguns amargos de boca, mas no que a esta controvérsia me diz respeito, prefiro analisar a questão do ponto de vista de todos os encarregados de educação que fazem planos de colocar os filhos em instituições superiores de ensino locais, mesmo que não tenha essa certeza. Pode ser que seja essa a opção, mas claro que depende mais do meu educando do que de mim próprio.

Antes de continuar gostava de contar um episódio que se passou comigo. Estava no 11º ano e tinha um professor de História que era louco, coitado. Não era "louco" no sentido de que ficava na discoteca até às oito da matina e a seguir ia dar aulas cheio de "speed", com óculos escuros para tapar os olhos regados de vício; era louco no sentido de que havia sofrido alguma espécie de transtorno, e pelo que nos foi dado a saber isto esteve relacionado com um divórcio complicado, mas durante os três anos em que lecionava na minha escola ostentava uma aparência bizarra: barba comprida e preta, ar esgazeado que assumiam uma expressão desvairada quando fazia o seu ameaçador ar de choné, camisa de flanela com impermeável azul e calças de bombazina, complementado com um guarda-chuva, e era isto que ele usava todo o ano, fizesse chuva ou sol, fizesse calor ou frio. Caminhava todos os dias do Cais dos Vapores até à Bela Vista, onde ficava a escola, um esticão de bem mais de 4 km, e depois voltava também a pé. Antes de nos ter saído na sorte, os professores diziam horrores dele, que tinha um discurso tão carregado de sarcasmo que nada do que dizia podia ser levado a sério, e fazia de cara de cínico cada vez que acabava de dizer uma frase, fosse "bom dia" ou "um café, por favor". As professoras evitavam-no, e os professores estabeleciam distâncias; não que o ostracizassem, mas depois do segundo ou terceiro contacto já era evidente que não era possível estabelecer um diálogo coerente com ele. Emanava um odor incómodo, não muito forte, mas que se acentuava com a colónia Denim que usava para disfarçar a evidente falta de uma mão feminina em casa. Nunca se soube o que realmente aconteceu que o terá deixado naquele estado - ninguém chega a professor nestas condições - mas nada do que ele dissesse podia ser tido como verdade.

E nestes termos chegou aos "indios" do 11º de Jornalismo, e apesar de nunca ter tido uma queixa de qualquer aluno, estava habituado a turmas mais novas, e perante aquele grupo de jovens adultos descontrolou-se completamente, como se estivesse a antecipar intenções que nunca entendi bem quais eram - para ser sincero não entendi um único raciocínio do indivíduo. Acho que a única excentricidade para a qual estávamos preparados era o facto dele saber os nossos nomes próprios e apelidos, tendo obviamente memorizado o livro do ponto antecipadamente - era como que a sua "marca". Mas era professor, não era? Estava ali para dar aulas, é assim ou não é? De facto, mas se por "dar aulas" entende-se chegar à sala, escrever 20 minutos ou meia-hora de matéria no quadro sem dizer uma única palavra, e tentar explicá-la com largos intervalos onde montava o grande circo do delírio, com risadas, provocações e insinuações tão ambíguas que nem ele nem sabia como lhes dar um fim, sim, dava "aulas". Fizemos dois testes no primeiro período, entregou ambos poucos dias antes das férias de Natal, e tudo o que nos dava a saber era a nota: "Satisfaz" ou "Não Satisfaz", com o particular de todas as zonas em branco da folha da prova estarem riscadas com uma esferográfica vermelha, em linhas direitas, desenhadas com uma régua. Foi a única vez que vi um professor salvaguardar-se de uma eventual "batota póstuma" dos alunos; que diabo, nem isso deve ter passado alguma vez pela cabeça de alguém. No fim desse trimeste fomos todos corridos com notas entre o 8 e o 11 (eu tive 9), e nós que tinhamos uma média global de 15/16 nas outras disciplinas. Não sei se isso fez a diferença, mas em Janeiro regressou ainda pior que antes, e era mais que evidente que tinhamos que agir, e com o apoio dos restantes professores encaminhámos um abaixo-assinado para o Conselho Pedagógico, e em menos de um nada estava suspenso por seis meses com guia passada para a junta médica, sendo substituído por uma professora que viria a colocar ordem no chinfrim que ele tinha deixado.

Se tiveram paciência para ler esta pequena "aventura" da adolescência leocardiana até este ponto, devem estar a pensar: "foste um dos que fez questão de lixar bem o homem, foi ou não foi?". De facto, e sabia de antemão que qualquer investida da sua parte ia receber uma resposta à altura (ou pior) da minha parte. Tentei passar despercebido o primeiro mês ou dois, mas sendo um dos quatro elementos masculinos que compunha uma turma de 22, era quase impossível evitar o confronto directo. Ainda ignorei uma ou duas investidas da sua parte, que só identifiquei como sendo para mim por incluírem o meu nome, e nem consegui entender duas palavras seguidas que fizessem sentido. Não obtendo de mim a reacção desejada, esquematizou um plano tão doentio que nem cabe em qualquer lógica racional, que consistia em realizar um teste-surpresa e atribuir-me a responsabilidade pela ideia. Foi tão elaborado que precisei de estalar os dedos para tirar os meus colegas de uma hipnose que quase os convencia da minha culpa - e nem mexi um dedo ou sequer abri a boca. Estava sem dúvida na presença de um génio do mal, de uma pessoa extremamente inteligente a quem partiram os ovos e deixaram uma omelete no lugar; era ele ou éramos nós, a repetir uma cadeira que era "canja". O mais curioso foi a facilidade com que realizámos a sua "purga", o que deu a entender que existia uma vontade, mas faltava um pretexto. O processo disciplinar foi uma mera formalidade, e a decisão foi acatada por ele com uma calma que não seria de esperar de um docente com 20 anos de experiência. No dia em que recebeu a nota de culpa e começou a cumprir a pena sentou-se no muro da escola, encostado às grades. Chovia copiosamente, e enquanto cobria a cabeça e o tronco com o guarda-chuva, deixava as pernas de fora, com as calças já completamente encharcadas. Passei ali perto, observeio-o ao longe e notei um olhar fechado e fixo, como de quem tinha sido traído, ultrajado, mas mesmo assim era impossível de levar a sério. Tive uma sensação estranha, de como quem tinha sido instrumentalizado, mas que ao mesmo tempo foi tudo tão claro e transparente que parece que aquela criatura foi enviada de outra dimensão para me testar: só a verdade, e apenas a verdade me poderia valer.

E acreditei nisto até aos dias de hoje, por incrível que pareça, e nem deu para ficar com um complexo de culpa: o tal professor não ficou muito prejudicado, pois pertencia ao quadro do Ministério da Educação, e no ano lectivo seguinte lá estava ele, no seu habitual traje de doido varrido, mas menos afoito - e não fui mais seu aluno. Quando olho para o caso de Bill Chou, não posso deixar de estabelecer um paralelo com tudo o que aconteceu entre o fim daquele ano de 1991 e início de 92, mas ao contrário. O ex-professor da UMAC contou ontem à imprensa que foi demitido por causa de duas cartas alegadamente anónimas que davam conta da utilização das instalações da universidade para levar a cabo as suas pretensões de activista. Tal como "crítica", a palavra "activismo" perde em Macau qualquer conotação positiva. Na edição local de um dicionário de Português, a existir uma, "activista" teria o sinónimo de "leproso". O actual vice-presidente da Associação do Novo Macau aponta o dedo ao reitor, ao director da Faculdade de Ciências Sociais e ao chefe do departamento de Governação e Administração Pública, que apesar da ascendência chinesa, têm "todos nacionalidade americana", fazendo por isso feito seguir uma queixa para um advogado em Washington. A UMAC justificou o afastamento de Bill Chou por ter usado "uma plataforma disponibilizada pela Universidade de Macau e o respeito e confiança dos seus alunos para prosseguir uma agenda política, estabelecendo um mecanismo específico de pontuação”, que incluía dar melhores notas a alunos que participassem em “actividades extremistas como greves de fome e manifestações” (?), tendo a denúncia partido de alunos do departamento de Governação e Administração Pública. Chou alega que apenas deu créditos extra a quem entregasse relatórios de trabalhos relacionados com as disciplinas que lecionava. Outro alvo do ex-docente é a directora da Escola Hou Kong, Chan Hong, que é também deputada da AL, e que o acusa de ter "distribuído propaganda", e imaginem só, "apelando a eleições justas" à porta daquele estabelecimento de ensino secundário, conhecido pela forte ligação ao continente. Chou defende-se dizendo que o fez apenas na condição de activista, e não de professor, e acusa a deputada eleita pelo sector da educação de não ter em conta o interesse dos educadores.

Agora o clímax deste filme: a Universidade de Macau acusa ainda Bill Chou de ter "dupla personalidade". Isto pode ter vários sentidos: desde o mero esgotamento nervoso ao mais complexo transtorno bipolar, mas em trocados quer dizer que o professor ficou subitamente "chalupa". O pouco que sei sobre Bill Chou é suficiente para me deixar intrigado, e a curiosidade que me levou a tentar saber mais fez-me destapar uma panela onde coze um guisado esquisito, que a julgar pelo cheiro deve ser intragável. "É de Hong Kong" - é a primeira coisa que me dizem, e isso deverá ter importância numa qualquer contabilidade indígena que desconheço. Começou a lecionar na UMAC em 2002, viajou pelo Brasil e pela India em 2008, casou em 2009 e ainda nesse mesmo ano lançou o seu primeiro livro, "Government and Policy-Making Reform in China: The Implications of Governing Capacity", e o nome diz tudo: um ensaio elaborado sobre as reformas que a China necessita para enfrentar os novos desafios do século XXI, e na perspectiva feita a partir de 2009, os anos seguintes, ou seja, o tempo presente. Aparentemente Bill Chou é um teórico, um politólogo, que se dá a entender que estaria do lado do Governo Central - lá está, isto até podia ser o que ele pensava, vivendo na ilusão de que um sistema egocêntrico estaria interessado nas suas propostas de reforma. O caldo terá ficado entornado em 2011, ano em que também visitou em Portugal, e terá visto as suas propostas colocadas "na gaveta". O livro, que seria o último que escrevia, foi elogiado no continente, mesmo pela crítica do "The China Journal", mas nem tudo o que parece de facto é, e neste paralelo esse princípio é elevado à enésima potência - e isto é uma suposição, mas foi a partir desta altura que Bill Chao sofre uma metamorfose interessante.

Em Maio de 2012 o então ainda docente da UMAC aparece pela primeira vez ao lado do ANM (pelo menos oficialmente) numa acção de protesto por um alegado acto de censura de que foi vítima pela TDM, posto isto diz ter sido colocado na lista negra daquela estação - típico, e só isto já terá sido o suficiente para que muitos olhos caissem sobre ele, e vigiassem todos os seus movimentos. Os problemas com a UMAC terão começado ainda antes disso, com uma das tais cartas a chegar em Abril, e poderá ter sido essa a razão da censura pela TDM. Em Outubro de 2012 organizou nas instalações da universidade um fórum político dedicado à juventude, que contou com a participação de Au Kam San e Teresa Vong, conhecidos membros da ANM. Esta é a única ocasião da qual consigo encontrar qualquer tipo de uso das instalações do antigo "campus" para "fins políticos" pela sua parte. Assumiu o activismo, participou dos protestos contra a construção do mercado nocturno dos Lagos Sai Van, provou o sabor da detenção pelas autoridades na manifestação do dia 20 de Dezembro, e durante 2013 esteve especialmente activo, e seja qual for a razão específica, foi também o ano em que a UMAC lhe decidiu passar a "guia de marcha". Em Maio participa na manifestação do Dia do Trabalhador, a tal que tornou célebre Kam Sut Leng, também ela professora, mas do ensino secundário, e também ela despedida mais tarde alegadamente pela participação no activismo. Bill Chao filiou-se em Novembro de 2013, foi suspenso seis meses depois, como mediatismo que se sabe, e após a nomeação como vice-presidente da ANM foi despedido, tendo sido uma das figuras de proa do referendo civil de finais de Agosto, o seu "baptismo de fogo".

Sobre as verdadeiras razões da saída de Bill Chou da UMAC só há uma certeza: têm a ver com a sua adesão súbita aos activistas do Novo Macau, e essa adesão deve-se a um "choque" que o tornaram um indesejável, após 10 anos como professor, onde passou discreto; alguém tinha ouvido falar dele até recentemente? Acho que até ao incidente da TDM era um virtual desconhecido, a não ser pela sua actividade académica, ou dentro dos meios da ciência política. Estranho como nunca se viu os seus colegas darem uma opinião que seja a seu respeito, e estranho ainda como a UMAC o dispensa num processo em que ele fica completamente "queimado", e se chega a sugerir que "perdeu o norte". O ANM, por seu lado, dá a entender que "para trabalhar ali não é preciso ser maluco, mas ajuda", e fizeram dele vice-presidente. De facto é um mistério, o que leva um professor, um homem culto, reservado e pacato a atar uma fita na cabeça e a pegar no megafone e ir ao encontro da polícia nesse desporto radical que é o activismo, aqui antónimo de "realismo" (conformismo?). Será ele louco por natureza, terá ficado louco com a idade ou é de tanto mexer na bactéria da política que ficou louco? Hmmm...conheço Eric Sautedé, e não me parece nada louco, portanto não deve ser isso. Li no Hoje Macau na semana passada que cerca de 200 funcionários públicos procuraram apoio psiquiátrico este ano; se calhar sentaram-se no mesmo sanitário, ou comeram na mesma loja de sopa de fitas. Fitas é que não faltam, nem portas que dêm a resposta à pergunta que urge fazer: o que se passa com o ensino superior em Macau, afinal? Nada! Está bem e recomenda-se, mas cuidado com isso do activismo, que não vale créditos e ainda vos pode fazer cair em descrédito. É tudo gente fina, estes académicos, e olhem que os que compõe este lindo ramalhete - reitores, directores, deputados e chefes de departamento - são uns meros peões de brega, porque acima...eh, eh...fecho o livro e faço um sorriso, um daqueles sorrisos de maníaco, como o meu professor fazia, como de quem viu o que ninguém quer ver. Não liguem, é só aquela lição que me ensinaram sem eu pedir, já lá vão vinte e tal anos, que me deixou com esta pequena loucura agarrada à pele. Depois passa.

Frágil: democracia



De regresso a pista depois de dois dias nas "boxes", vou recuperando algum do terreno perdido e colocando a leitura em dia. No Clarim da última sexta-feira dou conta de um artigo sobre o movimento "Occupy Central" que por incrível que pareça se mantém actual, tal é o bolo rei de informação e contra-informação em que o fenómeno se transformou. Nesse artigo dou conta da opinião de dois advogados portugueses, um deles nem mais que o presidente da Associação que representa a classe, dr. Neto Valente, secundado pelo igualmente erudito dr. Frederico Rato, que me tem surpreendido pela positiva na forma como "ataca" de forma mais directa certos temas que outros vão contornando, sempre com o tal bloqueio invisível que nos vai sendo injectado aos poucos. E de facto ha problemáticas que tem uma leitura clara como a água e que ninguém quer contornar por receio de dar a entender que tudo acima do banal e do fútil pode ser "perigoso", então o melhor é andar a discutir as várias perspectivas por onde nos é dado a observar o sexo dos anjos. Os dois causídicos falam da possibilidade de algo semelhante ao movimento organizado pelo sector democrático em Hong Kong acontecer deste lado, e enquanto o primeiro é peremptório em afirmar que tal nunca seria possível, ou pelo menos numa dimensão idêntica à da RAEHK, o segundo considera "improvável", mas que "não seria nenhuma tragédia". Gostava de deixar umas notas sobre alguns pontos que considero que não foram esmiuçados em relação a este fastidioso assunto, se me permitem.

Neto Valente pega na ideia de que não existem almoços grátis, e de facto é lamentável quando se observa a forma descontraída e quase indiferente como pessoas aparentemente sem uma agenda ou interesses directos no que poderá sair deste impasse a aderir com uma vontade tremenda, de como quem se prepara para mudar o mundo, com o futuro dos seus filhos em mente, enfim, já pensava que era cada vez mais difícil encontrar quem tivesse acreditado em tempos que isto nos podia ser entregue de mão beijada por alguém, mas agora vejo novos crentes a aparecer com uma facilidade que nem os deixa ver as falhas no guião - é como pescar peixe num barril. Quando o presidente da AAM fala de "gente por detrás disto", penso que muitos de nós sabemos de quem se trata, mas especular seria improcedente. Não adianta avançar com uma teoria que ligue o movimento ao grande capital ou a interesses de consórcios multinacionais, pois levamos com a etiqueta de "materialistas", ou alertar para a dimensão do que está realmente por detrás deste Woodstock sem música e pior que isso, sem letra, e das eventuais consequências, que nos vem apelidar de cobardes ou de conformistas - nomes normalmente menos dignos que "seguidistas",maso que não parece ser aqui o caso. O pior é que esta nem se afigura como uma daquelas situações em que eu não me importava de estar redondamente errado; é que da tal "abertura democrática" que os manifestantes pedem do outro lado, eles próprios tem mostrado saber muito pouco. Por não estar a favor do movimento com base na sua simples falta de direcção, para eles estarei necessariamente "contra". Espero que não me acusem de cooperar com o "inimigo", pois duvido que venham a estar em posição de me pedir explicações.

O dr. Neto Valente chama ainda a atenção para a falência das revoluções, ou "movimentos de massas", quanto a um meio de atingir o bem comum, e dá como exemplo a Revolução Cultural; um áptimo exemplo, diga-se de passagem, uma vez que das que ainda restam alguns sobreviventes, é a mais radical, e do lado dos que sofreram com ela ainda existe muito ressentimento, e dos que tomaram parte activa existirá concerteza arrependimento - a quantidade dependerá da consciência e do carácter de cada um. Para mim, e isto é só a minha opinião, a única revolução em toda a História assente num princípio válido que reúna consenso geral terá sido a Revolução Francesa - por muito mal que o mundo esteja, estaria sempre pior sem os valores que dela emergiram. E de facto a palavra "revolução" deixa-nos em sentido, pois caso o seu uso não seja no sentido mais lato, o que se aplica à moda, às artes ou aos costumes, implica sempre uma carga politica, um extremar de posições, um confronto. As revoluções servem um fim e acabam normalmente com derramamento de sangue, e há casos em que as contra-revoluções, ou contra-golpes saem vitoriosos. Posto nestes moldes, parece-me de uma grande irresponsabilidade - senão mesmo negligência criminosa - mudar o nome desta acção de "movimento" para "revolução", e aqui pouco importa que seja dos guarda-chuvas, do feijão fradinho ou dos ursinhos de peluche - é serio demais para se brincar. Sabem o que pensei da primeira vez que ouvi falar da Revolução Cultural, quando era um petiz imberbe (não digo "e inocente" porque isso só existe como figura jurídica) pensava que se tratava de uma coisa boa: "revolução cultural...todos a escrever, pintar, fazer cinema...que bom!". Entretanto fui procurar conhecer mais sobre as razões que levaram a esta mudança de nome que não é tão insignificante quanto isso, e fiquei a saber que a versão chinesa da palavra não tem o mesmo impacto que em portugues ou na maior parte das linguas ocidentais, e chega mesmo a ser confundida com "mudança" ou apenas "vida nova" (革命, ou no caso da tal "revolução cultural", 文化大革命, ou "nova grande ordem da aprendizagem). Parece que o mesmo se terá passado com "desobediência civil" (公民抗命: "contra a ordem civil") que vejo sair da boca daqueles jovens como se estivessem a falar de badminton ou outra coisa qualquer para fazer num Sábado à tarde. Só me preocupa é que alguns dos jovens que dizem estar dispostos a "dar a vida" por isto que não sabe bem onde nos vai levar não tenham uma interpretação alternativa da sua mensagem.

O dr. Frederico Rato toca na ferida, dizendo que em Macau uma iniciativa semelhante nunca partiria de dentro, pois apesar de reconhecer que existem motivações políticas para descontentamento e manifestações, mas, e atenção a este importantíssimo detalhe, a população não está "tão avançada do ponto de vista de educação democrática e no exercício das liberdades fundamentais". Ora aqui temos o busílis, a espada de dois gumes, o pau de dois bicos: a mesma estratégia que serviu para governar sem grande oposição vira-se agora contra quem inicialmente teve essa ideia. Manter a população na ignorância e usar o medo e a intimidação para exercer a autoridade depende da forma mais ou menos permissiva com que se aceita. Convencer o povo de que a política "é suja" e que deixar essa função a seu cargo é aliviá-lo de um fardo pesado resulta apenas até começarem a surgir problemas e forem exigidas respostas. Aí em vez do diálogo opta-se pela estratégia do medo, mas isto até aparecer alguém mais dotado de retórica - afinal para quem não entende nada de política, a vontade-própria é uma esponja que absorve tudo, e que depois de espremida deixa lá qualquer coisa, que pode serbom ou nem por isso. O medo nunca é a forma mais eficaz de manter o poder; é o mesmo que pensar que um casamento pode durar para sempre sustentado em algo tão volátil como o amor. É preciso compromisso, cooperação, em suma é como termos um amigo rico que nos aparece por casa de vez em quando e também de vez em quando nos convida para a sua casa - tem sido esse o erro do regime: mostra que tem coisas boas, que vivem bem, mas vem ao nosso encontro "tratar da nossa vida" mas não nos deixa participar um pouquinho que seja da sua.

É que isto da "educação democrática" pode parecer uma coisa complicada, que requer um curso superior qualquer, mas basta nascer e crescer onde ela esteja implantada, para o bem e para o mal, e adquir-la por inerência. Não é um processo perfeito, nem com eficácia garantida, e é claro que sofre da sua boa dose de vícios. Aqui por exemplo, em vez de tentarmos passar um pouco dos nossos conhecimentos sobre esse assunto, temos a tendência para trair esses valores, e por vezes julgando que o fazemos em seu nome, ou em nome de um "happy ending". O que transparece do comportamento destes democratas de primeira viagem que são a mole que compõe o "Occupy Central" é que enjoam com a ondulação alheia. Para chegar ao Everest da democracia - se é que alguém lá chegou - é preciso um nível de tolerância tão extremo que nos leva a aceitar a opinião de quem usa a liberdade de expressão para advogar a censura, ou peça eleições para votar o fim da democracia, e com isso o fim de eleições livres. A democracia é isso mesmo: autofágica, auto-regeneradora, que renasce das cinzas como uma Fénix e que se evapora sem saber para onde foi, ou quando volta. Para mantê-la em bom estado é preciso mais do que confrontar as autoridades. Sabem o que mais? As autoridades são uma parte essencial da democracia. Pensem lá nisso, pá.

Dinamizar - 3º episódio (parte I e II)


A arte de tantas vezes errar



Ooops, lá estou eu outra vez a minar a secular amizade entre os povos, a atirar os cães contra os gatos, as avós contra os polícias sinaleiros, a meter intrigas entre o Buda e o Confúcio, a colocar palavras na boca do mudo só para o deixar em má conta com o surdo. Como é sabido, a nossa karateca Paula Cristina Pereira Carion voltou dos últimos Jogos Asiáticos de Incheon, na Coreia do Sul, com uma medalha de bronze na categoria de atletas com mais de 68 kg (deselegante, anunciar o peso de uma senhora). Foi a terceira medalha de bronze consecutiva da atleta de Macau nos asiáticos, e como reconhecimento de mais este feito obtido por um ex-aluno (é isto que o "alumne" quer dizer, e é normal que há quem não saiba), o Instituto Politécnico de Macau conferiu à Paula um certificado de excelência! Que simpáticos! Mas o que eu estava longe de imaginar era a quantidade ex-alunos daquela instituição que dali sairam para a alta competição, e com resultados dignos de nota. Senão reparem:



Sim senhor, isto é o que se chama cumprir com a máxima do "mens sana in corporo sano". Só que na hora de emitir o certificado, desgraça: colocaram o nome de Jia Rui, um dos outros medalhados, mesmo em frente ao da nossa Paula, que ficou naturalmente triste com o desleixo, e desabafou nas redes sociais. Causa efeito, um monte de amigos seus, alguns deles que têm acompanhado de perto a sua carreira, demonstraram indignação perante tal falta de consideração. Entre acusações de incompetência, falta de profissionalismo e outros "mimos" que até se entendem nesta situação há quem chame ainda a atenção para o facto do certificado ter sido emitidos em chinês e inglês, ignorando uma das línguas oficiais, o "nosso" português.

Bem, com toda a certeza que o IPM não terá problemas em emitir um certificado novo, e quanto à culpa - se realmente ela existe - morre solteira, como é da praxe, neste caso da académica. Quem "engorda" à custa do de mais este episódio é o tal "Adamastor" de que falei no "post" em baixo: obtem-se a reacção que se esperava, a de indignação, possivelmente haverá um palerma ou outro que vai achar que estão a ser mal agradecidos, enfim, uma cadeia de circunstâncias que nunca teria lugar se a Paula tivesse ignorado o erro - e claro que nunca o poderia ter feito, à luz do bom senso. Mas assim o "monstro" ganhou o dia, e eu também. Porquê? É que quando vejo coisas deste tipo a acontecerem praticamente todos os dias fico a sensação que estou a enlouquecer. Assim fico com a certeza que não estou sozinho neste "manicómio".